28 de agosto de 2015

FREUD, JUNG E A RELIGIÃO

Erich  Fromm Resgata  a  Ética  Universal e
Mostra Que a Obra de Jung Não Tem Alicerces

Erich Fromm

Carl Jung, que colaborou com o nazismo (esquerda), Sigmund Freud e Erich Fromm


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Nota Editorial:

O texto a seguir é fundamental para compreender
a relação entre a psicologia esotérica oriental e
a psicologia atual do Ocidente.  “Freud, Jung
e a Religião” é uma transcrição do capítulo dois da
obra “Psicanálise e Religião”, de Erich Fromm (Livro
Íbero Americano Ltda., RJ, 1966, 139  pp.).  O ponto de
vista de Erich Fromm (1900-1980) coincide, em vários
pontos centrais e decisivos, com a filosofia  esotérica original.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Freud discutiu o problema das relações entre a religião e a psicanálise em um dos seus livros mais brilhantes e profundos - “O Futuro de Uma Ilusão”.  Carl Jung, o primeiro psicanalista a compreender que tanto os mitos como as ideias religiosas exprimem verdades profundas, abordou o assunto em uma série de conferências, publicadas sob o título “Psicologia e Religião”. [1]

Procurarei apresentar, de modo sumário, a posição dos referidos autores, com uma tríplice finalidade:

1) Indicar a situação atual do problema, e definir assim o meu próprio ponto de partida.

2) Lançar os alicerces para os próximos capítulos, esclarecendo alguns conceitos fundamentais usados por Freud e Jung.

3) Corrigir a opinião, bastante generalizada, de que Freud é “contra” e Jung “favorável” à religião, o que significa uma excessiva simplificação de um problema tão complexo.

Qual é a posição de Freud em relação ao assunto? Para ele, a religião tem a sua origem no sentimento de incapacidade do homem, quando se vê confrontado com as potências exteriores, provindas da natureza, e com o seu próprio dinamismo instintivo. A religião aparece numa fase precoce do desenvolvimento filogenético, quando o homem ainda não pode usar a sua razão para dominar as primeiras forças, e reprimir ou controlar as segundas.

Assim, incapaz de opor-se a tais energias por um movimento racional, ele recorre a afetos opostos, a outras forças emocionais, cuja função é dominar o mais perfeitamente possível o que escapa ao controle da sua razão.

Nesse processo, o ser humano desenvolve o que Freud chama uma “ilusão”, moldando-a de acordo com a sua própria experiência individual nos primórdios da vida. Confrontado com forças perigosas, primitivas e incompreensíveis, intrínsecas e extrínsecas, ele volta a etapas infantis, e recorda o tempo em que se sentia seguro com a presença de um pai de sabedoria e poder superiores ao seu, cujo amor e proteção podia conquistar pela obediência e respeito.

Assim, a religião, para Freud, nada mais é que a repetição de uma experiência infantil. O ser humano lida com os elementos ameaçadores do mesmo modo que, quando criança, aprendeu a reduzir a sua própria insegurança pela confiança, admiração e respeito medroso por seu próprio pai. Dentro desse raciocínio, Freud compara a religião com as neuroses obsessivas do período infantil, afirmando que as mesmas condições que desencadeiam a obsessão presidem à estrutura religiosa.

A análise freudiana das raízes psicológicas do fenômeno religioso procura esclarecer por que o ser humano chegou a formular a ideia de Deus. Conclui esse autor que a irrealidade do conceito teísta transparece quando se compreende que ele nada mais representa do que a objetivação ilusória de um desejo humano. [2]

Freud não se limita a provar que a religião é uma ilusão. Diz que toda religião constitui um perigo, porque tende a santificar instituições viciosas, com as quais se tem aliado através dos tempos. Além disso - porque ensina às pessoas a acreditarem em uma ilusão e condena o pensamento crítico - provoca certa estagnação intelectual. [3]

Estas acusações contra a igreja foram, aliás formuladas pelos pensadores da Renascença. Mas dentro da orientação freudiana, a limitação intelectual por influência religiosa aparece de modo muito mais enfático do que nas obras do século XVIII. Freud demonstrou que a inibição da crítica em relação a um determinado aspecto conduz a um enfraquecimento em outras esferas do pensamento, diminuindo desse modo a força da razão. A terceira objeção de Freud baseia-se no fato de que a religião coloca a moralidade humana sobre alicerces instáveis. Se a validade das regras éticas repousa na sua origem divina, a própria ética terá de sofrer as mesmas vicissitudes do sentimento religioso. Desde que Freud acredita que a crença em Deus está progressivamente decaindo, ele chega à conclusão de que a conexão entre religião e moral terá como consequência inevitável a destruição dos valores éticos.

Receia ele que a religião venha a comprometer valores que lhe são caros, isto é, a razão, a diminuição do sofrimento humano e a moralidade. Quanto aos ideais em que acredita, Freud definiu-os claramente: amor fraternal entre os homens (Menschenliebe), verdade e liberdade. Razão e liberdade são interdependentes, diz o autor em apreço. Se o homem prescinde da ilusão de um Deus paternal, se encara a sua própria solidão e insignificância no universo, ele se sentirá como a criança longe da casa paterna. Mas o verdadeiro sentido do desenvolvimento humano consiste em sobrepujar esta fixação infantil. A educação deve encorajar a aceitação da realidade. Quando sabe que deve se apoiar apenas nas suas próprias forças, o homem aprende a usá-las eficientemente.

Somente o homem livre, que conseguiu emancipar-se de autoridades - autoridades que ameaçam e protegem - pode fazer uso do seu poder racional e compreender o mundo e a sua própria função no universo, objetivamente, sem ilusões, mas também com a habilidade de desenvolver ao máximo as potencialidades que lhe são inatas. Somente quando conseguimos abrir mão da nossa dependência infantil, e deixamos de temer autoridades, temos coragem para pensar independentemente. E a recíproca também é verdadeira: somente se tivermos coragem para pensar, somos capazes de nos emancipar do domínio e da prepotência. É curioso verificar que Freud afirma ser o sentimento de incapacidade oposto ao sentimento religioso. Uma vez que muitos teólogos, e, como veremos mais adiante, Jung, até certo ponto, consideram o sentimento de dependência e de incapacidade como o núcleo da experiência religiosa, a asserção freudiana torna-se muito importante. Exprime, ainda que apenas implicitamente, o seu próprio conceito de experiência religiosa, a saber, de independência e de conhecimento das próprias forças. Procurarei mostrar mais adiante que tal diferença de pontos de vista constitui um dos problemas críticos da psicologia da religião.

Passando agora a Jung, verificaremos que discorda das ideias de Freud a cada passo.

Inicia o seu estudo por uma discussão dos princípios gerais que o orientam. Enquanto que Freud, embora não fosse filósofo profissional, encara o problema pelo ângulo psicológico e também filosófico, a exemplo de William James, Dewey e MacMurray, Jung declara no princípio do seu livro: “Restrinjo-me à observação de fenômenos e abstenho-me de qualquer aplicação de considerações metafísicas ou filosóficas.” [4]

A seguir, explica como pode o psicólogo analisar a religião, sem apelar para considerações filosóficas. Qualifica a sua posição de “fenomenológica”, quer dizer, preocupada com ocorrências, acontecimentos, experiências, em suma com fatos. A verdade é um fato e não um julgamento. Por exemplo, em relação à concepção da Virgem, a psicologia preocupa-se apenas com o fato de que existe tal ideia, mas não se interessa em saber se o conteúdo ideológico é verdadeiro ou falso em qualquer outro sentido. Desde que existe, a ideia deve ser considerada como verdade psicológica. A existência psicológica é subjetiva, enquanto a ideia ocorre apenas a um indivíduo; mas torna-se objetiva quando estabelecida por uma sociedade - consensus gentium. [5]

Antes de apresentar a posição de Jung em face do fenômeno religioso, convém examinar criticamente essas premissas metodológicas. O conceito de verdade, proposto por Jung, é insustentável. Declara ele que “a verdade é um fato e não um julgamento”, que “um elefante é verdadeiro porque existe” [6], mas se esquece de que a verdade sempre, e necessariamente, se refere a um julgamento e não à simples descrição de um fenômeno que percebemos sensorialmente e designamos com um símbolo verbal.  Jung declara que uma ideia  é “psicologicamente verdadeira desde que existe”, mas a verdade  é que a ideia “existe”, independentemente da sua natureza delirante ou factual.

A existência de uma ideia não a torna “verdadeira” de modo algum. Nem o psiquiatra poderia trabalhar se desprezasse o conceito de verdade, quer dizer, a relação da ideia com os fenômenos que procura elucidar. De outro modo, como poderia ele identificar um delírio ou um sistema paranoide? Mas o ponto de vista junguiano não é indefensável apenas pelo critério psiquiátrico; Jung defende um ponto de vista relativista que, embora aparentemente mais favorável à religião do que o de Freud, se opõe fundamentalmente a religiões como o judaísmo, cristianismo e budismo, que consideram a busca da verdade como uma das virtudes essenciais do homem e insistem em que o seu corpo de doutrina, obtido por uma revelação ou pelo poder da razão, não transgride o critério da verdade.

Jung critica as fraquezas da sua própria posição, mas o modo pelo qual procura resolver essas dificuldades iniciais é insatisfatório. Procura distinguir entre “subjetivo” e “objetivo”, apesar da qualidade indiscutivelmente fluída desses termos. Parece querer dizer que o objetivo é mais válido e verdadeiro do que o simplesmente subjetivo. O seu critério para distinguir o subjetivo do objetivo, na base da aprovação por um único indivíduo ou por uma sociedade, não resiste à crítica. Por acaso não temos nós assistido a loucuras coletivas, à loucura de grupos inteiros, no nosso próprio século? Não temos acaso visto milhões de pessoas, falsamente guiadas por suas paixões irracionais acreditarem em ideias tão delirantes e irracionais como as produções de um único indivíduo? O que significa qualificar tais ideias de objetivas? O espírito deste critério de subjetividade e objetividade é análogo ao do igualmente discutível relativismo. Mais especificamente, trata-se de um relativismo sociológico, que faz da aceitação social de uma ideia o critério de sua validade, verdade, ou “objetividade”. [7]

Após discutir as suas premissas metodológicas, Jung define a sua orientação em relação ao magno problema: o que é religião? Qual a natureza da experiência religiosa? A sua definição de religião não difere essencialmente da adotada por muitos teólogos. Pode ser sumarizada dizendo que a essência da experiência religiosa é a submissão a poderes superiores. Mas será melhor citar Jung diretamente. Afirma ele que religião é uma observação cuidadosa e escrupulosa do que Rudolph Otto adequadamente chamou “luminosum”, quer dizer, uma existência dinâmica que não seja causada por ato arbitrário da vontade; ao contrário, constitui uma experiência que domina e controla o indivíduo humano, que a vive passivamente. [8]

Havendo definido a experiência religiosa como a dominação por uma força exterior a nós mesmos, Jung passa a interpretar o conceito de inconsciente como um fenômeno religioso. Declara que o inconsciente não pode ser apenas uma simples parte da mente individual; constitui um poder que escapa ao nosso controle, invadindo a nossa própria mente. “O fato de que você percebe a voz do inconsciente nos seus sonhos não prova coisa alguma, porque você pode igualmente ouvir as vozes da rua, sem, entretanto, afirmar que esses últimos fonemas sejam fenômenos interiores. Só é possível considerar a voz do inconsciente como realmente sua, se você admitir a sua personalidade consciente como parte de um todo, ou como um círculo menor contido em um círculo maior. Um simples bancário, que mostra a cidade a um amigo e aponta o edifício do banco, dizendo, ‘veja lá o meu Banco’, está recorrendo ao mesmo privilégio.” [9]

Como consequência necessária da referida definição de religião e de inconsciente, Carl Jung chega à conclusão de que, dada a sua natureza, a influência do inconsciente sobre nós “é um fenômeno religioso básico”. [10]  Segue-se que tanto os dogmas religiosos como os sonhos são fenômenos religiosos, porque ambos traduzem a nossa dominação por um poder exterior. Não há necessidade de dizer que, de acordo com a lógica de Jung, o pensamento psicótico seria um fenômeno eminentemente religioso.

Por acaso, o nosso exame das atitudes de Freud e Jung em relação ao fenômeno religioso confirma a opinião popularmente aceita, de que Freud é inimigo e Jung amigo da religião? Uma comparação sumária do ponto de vista desses autores mostra que a concepção popularmente generalizada constitui exagerada e perigosa simplificação.

Freud sustenta que o objetivo do desenvolvimento humano é a realização dos seguintes ideais: conhecimento (razão, verdade, logos), amor fraternal, redução do sofrimento, independência e responsabilidade. Esses elementos constituem precisamente o núcleo ético de todas as grandes religiões em que se baseiam as culturas orientais e ocidentais, tanto dos ensinamentos de Confúcio e Lao-Tse, como de Buda, dos Profetas e de Jesus. Enquanto que existem algumas diferenças tônicas no conteúdo desses ensinamentos, por exemplo, Buda acentuando a redução do sofrimento, os Profetas insistindo na importância do conhecimento e da justiça e Jesus pregando o amor fraternal, nota-se uma concordância fundamental no ponto de vista desses pensadores religiosos, no que diz respeito ao objetivo do desenvolvimento humano e às normas que devem guiar a humanidade. Freud defende o aspecto ético da religião, mas critica a crença teística sobrenatural, que se opõe à completa realização dos mesmos objetivos éticos. Explica os conceitos teístas sobrenaturais como estágios na evolução humana, que foram necessários, e mesmo úteis, mas que perderam a sua razão de ser, e se transformaram em um empecilho para o desenvolvimento mais amplo do homem. A declaração de que Freud é “contra” a religião parece-nos portanto falsa, a não ser que definamos exatamente que tipo de religião, ou qual o aspecto da religião que ele critica, e quais os ângulos da experiência religiosa que defende.

Para Jung, a experiência religiosa constitui fenômeno emocional bastante específico, caracterizado pela submissão a um poder superior, cujo nome tanto pode ser Deus como o inconsciente. Indiscutivelmente, esta formulação define um certo tipo de experiência religiosa – no cristianismo, por exemplo, representa o acorde fundamental dos ensinamentos de Lutero e de Calvino - enquanto que não condiz absolutamente com um outro tipo de orientação religiosa, como seja a representada pelo budismo. O conceito de Jung no que concerne à verdade está em oposição aos preceitos do budismo, judaísmo e cristianismo. Neste, a obrigação de procurar a verdade é postulado fundamental. A pergunta irônica de Pilatos, “O que é a verdade?”, simboliza uma atitude antirreligiosa, não apenas do ponto de vista do cristianismo, como de todas as outras grandes religiões.

Sumarizando as posições respectivas de Freud e Jung, podemos dizer que Freud se opõe à religião em nome da ética - porque o homem realmente esclarecido é espontaneamente moral, sem precisar temer o castigo divino - o que já de si pode ser considerada uma atitude “religiosa”, no sentido amplo e não-dogmático. De outro lado, Jung reduz a religião a um fenômeno psicológico, e ao mesmo tempo eleva o inconsciente à categoria de fenômeno religioso. [11]

NOTAS:

[1] Terry Lectures, 1937. ( Nota de Erich Fromm)

[2] O próprio Freud, entretanto, esclarece que uma ideia não é obrigatoriamente falsa pelo simples fato de corresponder a um anseio humano. Já que muitos psicanalistas têm, uma vez por outra, condenado ideias que traduzem emoções, desejo solicitar atenção para a declaração de Freud. Na verdade,  existem muitas ideias verdadeiras, do mesmo modo que concepções falsas, a que o homem chega porque prefere acreditar na realidade das mesmas. A maioria das descobertas repousa no interesse de provar uma verdade desejada. A presença de semelhante anseio autoriza uma certa suspeita, mas, por si só, não invalida o conceito ou conclusão. O critério de validade não decorre da existência de uma motivação psicológica, mas das evidências lógicas positivas ou negativas inerentes ao conceito ou conclusão.  (Nota de Erich Fromm)

[3] Ele acentua o contraste entre a brilhante inteligência das crianças e o empobrecimento da razão adulta (Denkschwaeche). Sugere que a natureza íntima do homem talvez não seja tão irracional quanto o indivíduo se torna sob a influência de ensinamentos irracionais. (Nota de Erich Fromm)

[4] “Psychology of Religion”, p.2.  (Nota de Erich Fromm)

[5] Ibidem, p.3. Os itálicos são meus. (Nota de Erich Fromm)

[6] Ibidem, p. 3.  (Nota de Erich Fromm)

[7] Conforme a discussão de ética universal e ética socialmente imanente, no livro “Man for Himself”, Erich Fromm, Rineart & Co., 1947, pp.237-244. (Nota de Erich Fromm)

[8] Jung, “Psychology of Religion”, p.4, itálico do autor. (Nota de Erich Fromm)

[9] Ibidem p. 47. Jung está se referindo ao inconsciente individual como parte do grande inconsciente coletivo. (Nota da edição do livro em língua portuguesa)

[10] Ibidem, p.46. (Nota de Erich Fromm)

[11]  É interessante notar que a posição de Jung no seu livro “Psicologia e Religião” havia sido adotada pelo seu antecessor William James, ao mesmo tempo que as ideias gerais de Freud foram defendidas, nos seus pontos essenciais, por John Dewey. William James refere-se à atitude religiosa como “uma atitude de sacrifício e impotência (.....) que o indivíduo é impelido a adotar em relação ao seu modo de conceber o divino”. (“The Varieties of Religious Experience”, Modern Library, p. 51). Como Jung, James compara o inconsciente com o conceito teológico de Deus quando diz: “A tese dos teólogos, de que o homem religioso é impelido por um poder exterior, encontra justificativa no fato de que as irrupções de elementos subconscientes assumem ante o indivíduo aparência de realidade objetiva, sugerindo-lhe a existência de um controle externo.” (Ibidem p. 503). Na base desta conexão entre o inconsciente (ou subconsciente) e Deus, William James aproxima a psicologia da religião.

John Dewey distingue religião e experiência religiosa. Para ele, os dogmas religiosos sobrenaturais enfraqueceram a atitude religiosa do homem. “A oposição entre valores religiosos, como eu os concebo”, diz ele, “e as religiões não pode ser harmonizada. Justamente porque a libertação desses valores é tão importante, a identificação dos mesmos com os credos e cultos religiosos deve ser desfeita”. (“A Common Faith”, Yale University Press, p. 28). Como Freud, Dewey declara: “O homem não tem usado de modo amplo os poderes que lhe são inerentes para melhorar as próprias condições de vida, porque tem esperado muito do auxílio divino e da natureza.” (ibidem, p. 46). Consulte-se também a posição de John MacMurray na obra “The Structure of Religious Experience” (Yale University Press, 1936). Este autor acentua a diferença entre emoções religiosas racionais e irracionais, sentimentais e viciosas. Em contraste com a orientação de Jung, MacMurray declara: “nenhuma atividade reflexiva pode estar justificada, a não ser que seja verdadeira e válida” (ibidem, p. 54). (Nota de Erich Fromm)


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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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25 de agosto de 2015

A BELEZA DA VERDADE ABSTRATA

Francis Hutcheson Afirma que o Ser Humano
Possui um Sentido Para Perceber a Beleza Ética
  

Carlos Cardoso Aveline



É possível dizer que a verdade impessoal é bonita? E, por outro lado, pode haver uma beleza moral, abstrata, que precisa ser vista com os olhos da alma? 

A filosofia esotérica moderna afirma que a Vida se desenvolve simultaneamente em sete níveis principais de realidade.

Sendo parte de uma Vida setenária, as percepções humanas sobre o que é Bom, Belo e Verdadeiro devem ser igualmente setenárias. Em teosofia, portanto, podemos afirmar que há uma beleza nos níveis ético e moral da vida, e o filósofo britânico Francis Hutcheson (1694-1746) pensava o mesmo.

Hutcheson viveu mais de um século antes de Helena Blavatsky. De acordo com os dois pensadores, os seres humanos dispõem de mais de cinco sentidos. Eles possuem um sentido interior para a ética que lhes permite ver beleza moral em grande número de situações: em ideias universais, por exemplo; em sentimentos altruístas, em palavras sinceras e ações nobres. Eles também podem “sentir” uma feiura moral.   

O ponto de vista de Hutcheson corresponde, em Teosofia, a um sentido búdico do que é certo e errado. Desde uma perspectiva oculta, bondade, verdade e beleza são três palavras que descrevem o mesmo fato.

Mesmo quando revela situações “feias”, a verdade em si mesma é essencialmente boa e bela. O respeito pela realidade dos fatos é algo bonito. Os seres humanos buscam naturalmente pelo equilíbrio ético e pela simetria em todos os aspectos da vida. Eles tendem a fazer isso inclusive nas situações em que a sinceridade e a verdade os colocam diante de uma intensa feiura. Cabe lembrar, a propósito, que a simetria inclui o contraste.

Os indivíduos que preservam  e ampliam o contato com a sua própria consciência superior sabem que a visão correta das falhas humanas inclui a possibilidade da autocorreção e da autorredenção. Cada fracasso traz consigo as sementes da sua própria cura. Para os que buscam a verdade, as idealizações cegas não têm valor algum. Por outro lado, não há nada mais belo que a verdade, e ela deve ser aceita incondicionalmente.

Uma vez que a busca da verdade seja reconhecida como fundamentalmente inseparável da busca da beleza e da bondade, a consequência inevitável é que nenhuma hipocrisia ou falsidade será aceita como boa, ou bela. Então a sinceridade se expandirá e se tornará, ainda mais do que hoje, uma característica natural e instintiva do caráter humano.

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O texto acima foi traduzido em agosto de 2015 do artigo em língua inglesa “The Beauty of Abstract Truth”, de Carlos Cardoso Aveline.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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23 de agosto de 2015

LIVRO SOBRE HPB É BOM PARA RECICLAGEM

 Biografia de Helena P. Blavatsky,
Publicada em 2012, Não é Totalmente Inútil


Carlos Cardoso Aveline




Há uma biografia de Helena P. Blavatsky que, a julgar pelo título e pela capa, parece profundamente teosófica.

É importante fazer um alerta para que os leitores não joguem seu dinheiro fora.

Apesar do seu título agradável, o livro “Madame Blavatsky, a Mãe da Espiritualidade Moderna”, de Gary Lachman, é útil principalmente como matéria-prima para aqueles que produzem papel reciclado. Colocado à venda em inglês em 2012 e em português em 2014, o livro tem 280 páginas e seu conteúdo é inspirado pela política antiteosófica do Vaticano. 

Há sempre um lado positivo em tudo, e a boa notícia é que o volume não foi publicado nem apoiado por qualquer editora teosófica. No Brasil, saiu pela Cultrix/Pensamento. O seu conteúdo é uma versão mal atualizada dos materiais falsificados por Vsevolod Solovyof e os Coulomb no século 19. 

O volume constitui uma forma militante de relativismo ético ou hipocrisia intelectualizada. Não há confirmação oficial de que instituições ligadas ao Vaticano vêm patrocinando este tipo de literatura. É sintomático, no entanto, o fato de que o volume recebeu elogios insistentes de editores e comentaristas que trabalham em harmonia oculta com o Vaticano.

Sylvia Cranston Escreveu a Melhor Biografia




Os livros antiteosóficos sobre Helena Blavatsky devem ser identificados - entre outras razões - como uma expressão de respeito pelo dinheiro das pessoas. O direito dos consumidores está em jogo, e isso não é tudo. Os teosofistas podem indicar aos leitores do público amplo os livros que são autênticos, e dizer quais autores se abstêm de adulterar os fatos.

A melhor das dezenas de biografias da fundadora do movimento teosófico moderno, sem dúvida, é “Helena Blavatsky”, de Sylvia Cranston. [1]

O bem documentado volume de 678 páginas é uma leitura inevitável tanto para estudantes experientes como para aqueles que só agora descobrem a teosofia. A maior parte da obra de Cranston é tão agradável de ler quanto um bom romance. Para muitos, é fascinante. O volume é também ilustrado. A sua parte final - parte sete - constitui um relato impressionante do impacto que os escritos produzidos por Blavatsky e pelos Mestres de Sabedoria no século 19 provocaram ao longo do século 20 - e ainda provocam hoje.

NOTA:

[1] “Helena Blavatsky”, Sylvia Cranston, Ed. Teosófica, Brasília, 1997.   

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Uma versão inicial da nota acima foi publicada na edição de julho de 2014 de “O Teosofista”. Em inglês, o artigo apareceu pela primeira vez na edição de novembro de 2012 de “The Aquarian Theosophist”. O artigo também está publicado como texto independente em nossos websites de língua inglesa sob o título: “Book on Blavatsky is Good for Recycling”. 


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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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22 de agosto de 2015

COMO DIRIA BLAVATSKY

Música Popular Examina a Reencarnação
E a Redescoberta da Missão da Alma Imortal

Jorge Vercillo


Um retrato de Helena Blavatsky, e a capa do CD de Vercillo “Como Diria Blavatsky”, de 2011



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Nota Editorial:

Reproduzimos aqui a letra
da música “Como Diria Blavatsky”.
A canção de Vercillo exemplifica o fato de que a
música e a poesia são instrumentos de expressão da
sabedoria universal. “Como Diria Blavatsky” examina
o processo de reencarnação da alma cuja meta é cumprir
uma missão altruísta. Ao nascer, perde-se a visão da tarefa
elevada. É mais tarde, quando nos deparamos com a nossa
fonte de inspiração superior, que resgatamos a sabedoria
eterna e lembramos “de um tempo em que entendíamos
que somos seres imortais”. A canção conclui com otimismo,
lembrando que podemos ter confiança: “Temos tempo pra tudo”. 

(Carlos Cardoso Aveline)

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Não sei olhar pra mim 
Sem ser no espelho 
Talvez por que não queira descobrir 
De onde vim, quem sou 
Mas ao me deparar contigo, 
Eu lembro de um tempo 

De um tempo em que os humanos 
Não escravizavam os animais 
De um tempo em que entendíamos 
Que somos seres imortais 

Do outro lado da Galáxia 
Era você o meu mentor 
Brincando, assim me preparava 
Pro ouro e para a dor dessa missão 
Que eu mesmo escolhi 

E antes de eu “descer” me avisou: 

“....– Você não vai saber por quê está ali 
- Você não vai saber lidar 
Com seu poder 
- Nem mesmo vai lembrar quem é 
Nem de onde vem....” 

Mas hoje, de algo em seu olhar 
Eu me encontrei 
Você me faz lembrar que somos Deuses 
Caídos na terceira dimensão 

Foi nossa escolha então 
E porque não dizer que temos tempo 
Pra Tudo
Pra Tudo
Pra Tudo.




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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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19 de agosto de 2015

O PERDÃO QUE TRANSCENDE O CONFLITO

Paz Mundial Deve Começar em
Silêncio no Coração de Cada Um

Carlos Cardoso Aveline



“As bombas se empilham nas fábricas, a polícia percorre as cidades, as mentiras fluem pelos alto-falantes, mas a terra continua girando em torno do sol, e nem os ditadores, nem os burocratas, por mais que desaprovem o processo, são capazes de evitá-lo.” [1]

Publicadas em meados do século 20, essas palavras do escritor inglês George Orwell estão perfeitamente atuais na primeira metade do século 21. 

Enquanto escrevo, a civilização atual vive uma transição dolorosa, e avança como sonâmbula na direção de um futuro que poucos conhecem. As tensões políticas, econômicas, ambientais e militares parecem fortes.  Há uma ansiedade no ar. O tamanho da crise não deve ser exagerado. Apesar do círculo fechado de conflitos humanos e das preocupações de curto prazo que se eternizam, a imensa Terra ainda gira em torno do Sol.  O poder da natureza continua incomparável. A vida cósmica se desdobra graciosamente ao longo de eras incontáveis, enquanto abraça bilhões de estrelas luminosas.

Posso contemplar o infinito no céu acima de mim, assim como faziam meus avós e meus ancestrais ainda mais distantes. Nenhuma lei me proíbe fazer uma oração ou meditar, enquanto meu olhar contempla as nuvens iluminadas pelo sol vermelho que se oculta na linha do horizonte.

Não tenho forças para impor a paz neste ou naquele país. Posso aceitar minha insignificância. Está ao meu alcance ser solidário com as plantas, os animais e as pessoas a meu redor. Os amigos da paz não conseguem impedir as guerras econômicas ou militares. Eles podem criar justiça e harmonia nas situações em que vivem diretamente, e isso talvez seja sua melhor contribuição para o futuro.

Nem todos os fatos externos dependem da minha vontade pessoal. Meu primeiro dever e minha principal oportunidade para agir como cidadão do mundo é estabelecer humildemente uma paz verdadeira em meus pensamentos e sentimentos.

Posso concentrar minha consciência no que é bom. Isso torna mais fácil agir de maneira construtiva. Nada me impede de aceitar a vida como ela é ou de aumentar minha capacidade de amar e de ser feliz, de identificar a verdade e viver de maneira correta.

“Melhor do que o ouro é a sabedoria”, diz a Bíblia em Provérbios, 16:16-18: “e adquirir discernimento é melhor que a prata. A arrogância vem antes da ruína, e o espírito altivo abre caminho para a queda.”

A paz mundial deve começar em silêncio no coração de cada um. Só depois ela se irradia para a vida prática externa. Alimentar ódio contra quem promove guerras é pior que inútil, porque tudo começa no pensamento. É melhor ser criativo e plantar ações e sentimentos de solidariedade nas situações reais que dependem de mim.

O ser humano tem dentro de si um centro imortal de paz e equilíbrio. A voz desse centro, que é a voz da razão, não grita. Ela fala por sussurros. A mente turbulenta e agitada deve fazer silêncio para que ela se faça ouvir.  Sigmund Freud escreveu:

“A voz do intelecto é suave, mas não descansa enquanto não consegue uma audiência. Finalmente, após uma incontável sucessão de reveses, ela obtém êxito. Esse é um dos pontos sobre os quais se pode ser otimista a respeito do futuro da humanidade, e, em si mesmo, não é de pouca importância.”[2]

A voz da razão vem falando aos corações há muito tempo, e ganha cada vez mais nitidez. O Dhammapada, que registra o ensinamento dado por Gautama Buddha há 2500 anos, afirma logo nos seus primeiros versos:

“Nesse mundo a inimizade nunca é eliminada pelo ódio. A inimizade é eliminada pelo amor. Essa é a Lei Eterna.” [3]

E quinhentos anos depois de Buddha, Jesus acrescentou:

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Amem o seu próximo e odeiem o seu inimigo’. Eu, porém, digo a vocês: ‘Amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês; desse modo vocês se tornarão filhos do seu Pai que está nos céus, por que ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos’.” (Mt 5:43-45)

Amar nossos inimigos significa ser corretos e justos com eles. Temos o direito de afastar-nos de quem nos agride e de preservar nosso sossego, mas devemos respeitar a todos os seres.

A sabedoria eterna recomenda construir o que é correto, fundamentalmente, e só secundariamente combater o que está errado. Os sentimentos de revolta e rancor não são bons conselheiros. Embora seja indispensável ter espírito crítico, ele deve ser exercido com serenidade e sem apego.  

O que fazer com os sentimentos de frustração? Quando me vejo como uma criança, psicologicamente, eu exijo ser compreendido e ajudado, e não dou importância a compreender ou ajudar. É a autoestima, a percepção de que há algo absolutamente valioso dentro de mim, que me permite deixar de lado a luta neurótica pela autoafirmação. Quando o centro de paz e os sentimentos de solidariedade despertam em meu coração, o afeto surge em direção aos outros de maneira incondicional.

Podemos estar insatisfeitos com essa ou aquela situação particular, mas temos fortes motivos para ser gratos à vida. Tudo o que somos é resultado da ajuda de outras pessoas. Desde o nascimento fomos auxiliados a cada passo. A casa que habitamos, a roupa que vestimos, nosso alimento, tudo é resultado do apoio de outras pessoas e do trabalho de incontáveis gerações anteriores. Até mesmo a pior das sociedades humanas só existe enquanto há auxílio recíproco entre seus membros. Por isso, a competição é um aspecto menor na natureza. A cooperação é a lei.

Se eu quisesse fazer uma lista completa das pessoas que me ajudaram na vida, não conseguiria. Poucos, entre os que me ajudaram, receberam meu agradecimento sincero. Alguns me salvaram de graves perigos, outros me deram solidariedade em situações dolorosas, e não tenho como retribuir seus gestos. Por que, então, eu chamaria de ingrato a quem ajudo sem receber agradecimento? Quantas vezes fui eu o ingrato? Há muita gente a quem posso pedir perdão. A quantos magoei intencionalmente, movido pela raiva? E a quantos mais magoei sem querer e com a melhor das intenções, errando pela minha ignorância?

O motivo prático para perdoar e pedir perdão em minhas orações e meditações é simples.  Um dos principais beneficiados com isso sou eu mesmo. Quando tenho a autoestima necessária para perdoar e pedir perdão sinceramente, eu me liberto de mágoas imensas e de apego ao passado. Então certos pesos insuspeitados desaparecem do meu subconsciente. Meu pensamento pode chegar de algum modo até a alma que fiz sofrer um dia  e libertá-la de uma parte das suas dores. Ao mesmo tempo, eu me liberto pelo menos em parte do peso do erro em minha consciência. Fico mais leve e mais apto para ser feliz. 

Também posso perdoar, no templo do meu coração, aqueles que me magoaram. Isso deve acontecer naturalmente, e não por obrigação. William Shakespeare escreveu, em 1597:

“O perdão não pode ser forçado. Ele cai do céu como uma chuva suave. Ele é duplamente abençoado, porque eleva a quem dá e a quem recebe. O perdão é mais forte nos poderosos, e coloca um monarca acima da sua coroa. Seu cetro lhe dá a força do poder temporal e é símbolo da reverência e da majestade, do respeito e do medo que os reis inspiram; mas o perdão paira muito acima do poder formal, pois seu trono se afirma no coração dos reis e é um atributo divino - e o poder terreno se mostra quase divino, quando a justiça se associa ao perdão.”[4]

Frequentemente esperamos e exigimos demais das pessoas. Criamos expectativas exageradas. E isso nos torna incapazes de mostrar gratidão, de reconhecer qualidades, ou mesmo de ter uma dose razoável de tolerância em relação aos erros dos outros. Desse modo, relacionamentos agradáveis passam a ser fonte de sofrimento. O escritor peruano Julio Ramón Ribeyro formulou uma tese pessoal a esse respeito:

“Não se deve exigir das pessoas mais de uma qualidade. Se encontramos uma qualidade nelas, já devemos sentir-nos gratos e julgá-las por ela, e não pelas que lhes faltam. É errado exigir que uma pessoa seja simpática e também generosa, ou que seja inteligente e também alegre, ou que seja bonita e também leal. Aceitemos dela o que ela pode dar-nos. Que a sua qualidade positiva seja o caminho privilegiado através do qual nos comunicamos e nos enriquecemos.”[5]

Para evitar conflitos desnecessários, é útil distinguir o que se vê do que se faz. São duas coisas diferentes. É saudável ter uma visão ampla e universal da vida, mas nossa ação prática deve ser clara, pontual e definida. O pensador romano Terêncio escreveu:

“Tudo que é humano me diz respeito.”

Esse pensamento é sábio. De fato, cada coisa se relaciona com todas as outras, no vasto cosmo. Como escreveu Victor Hugo em “Os Trabalhadores do Mar”, pode-se dizer que as praias do norte da Europa sentem o impacto das ondas de mar do sul da África. É sensato, portanto, que eu tente compreender todas as coisas, e especialmente as leis que regem tanto o universo como a minha pequena existência pessoal. Mas qual é minha tarefa?

Qual a minha vocação natural? Meu dever é administrar bem aquilo que está a meu alcance, e não pretender controlar o que não depende de mim. “Pensamento global, ação local”, diziam os ecologistas durante a década de 1980.  Quando pretendo agir sobre algo que está fora do meu alcance, fracasso. Quando faço com eficiência o bem o que está dentro dos limites do possível, minha boa ação acaba tendo consequências benéficas até mesmo para situações distantes.

Na medida em que descobrimos o caminho da sabedoria e mantemos um espírito prático diante da vida, certas coisas começam a perder valor para nós. A simplicidade pessoal nos ensina a abrir mão do que é secundário.

Não existe aqui uma renúncia forçada, feita por obediência cega a um mestre ou uma escritura sagrada. Vemos as coisas como elas são, e evitamos o caminho do autoengano, antes de sermos traiçoeiramente surpreendidos pela desilusão.

Isso não se consegue da noite para o dia. A caminhada da alma humana avança sem pressa e sem pausa, e inclui um período de tempo que bem poderíamos considerar uma eternidade. Mas cada passo dado no caminho amplia o horizonte, alivia o sofrimento e nos torna interiormente mais felizes.

Devemos ser modestos. Estamos, como humanidade,  na pré-história da nossa felicidade. Avançamos lentamente para um futuro abençoado de fraternidade universal, em que teremos esquecido o tempo da guerra e da injustiça. Enquanto isso, a terra continua girando, bela e azul em torno do Sol da luz eterna. 

NOTAS:

[1] “Cazando un Elefante”, de George Orwell, Editorial Guillermo Kraft, Buenos Aires, 1955, 200 pp., ver p. 196.

[2] “O Futuro de Uma Ilusão”, de Sigmund Freud, Ed. Imago, RJ, p. 83.

[3] Veja o Capítulo 1, versículo 5, de “O Dhammapada”.  A obra está disponível na íntegra em www.FilosofiaEsoterica.com.

[4] “O Mercador de Veneza”, Cena I, Ato IV. Para traduzir o trecho, comparei o original em inglês (“Complete Works”, Magpie Books, Londres, 1992) com a edição das obras completas de Shakespeare, Edições Melhoramentos, SP, volume III, tradução de Carlos Alberto Nunes, pp. 
173-174. 

[5] Citado em “Serenidad”, obra de Alberto Briceño Polo, Sairam Editores, Lima, Peru, 298 pp. em formato de bolso, ver pp. 90-91.

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O texto “O Perdão Que Transcende o Conflito” é reproduzido da edição de novembro de 2014 de “O Teosofista”. Uma versão inicial do artigo foi publicada em  maio de 2003 pela revista “Planeta”, de São Paulo, sob o título de “Amor e Perdão: o Caminho Para a Paz”.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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