28 de setembro de 2016

A FILOSOFIA DE DOM PEDRO II

Exemplo de Vida do Imperador
Ilumina o Presente e o Futuro do Brasil 

Carlos Cardoso Aveline


O último retrato de Dom Pedro II



Nascido em 2 de dezembro de 1825, Dom Pedro II foi a vida toda um humanista em busca da verdade e da sabedoria. Seu reinado é reconhecido como um dos pontos altos da história do Brasil, e isso se deve em grande parte ao fato de ele ter procurado sem pressa e sem pausa pelo conhecimento superior, universal.

O fato está amplamente documentado. Em 1847, o escritor português Alexandre Herculano escreveu sobre Dom Pedro II:

“É geralmente sabido que o jovem imperador do Brasil dedica todos os momentos que pode salvar das ocupações materiais de chefe de Estado ao culto das letras…” [1]

Em 1842, quando o imperador tinha 17 anos de idade, um representante diplomático da França no Brasil visitou Pedro II. Descobriu-o mergulhado na leitura de Platão, em obra traduzida para o francês por Victor Cousin. [2]

Jules Itier viu-o em 1844 e anotou:

“Tinha o Imperador pressa provavelmente de voltar ao convívio de seus livros, no meio dos quais a vida lhe corre amena. As ciências e a literatura são as suas mais agradáveis ocupações do trono.”[3]

O biógrafo Pedro Calmon afirma que Pedro de Alcântara “preferiu aos amigos políticos os escritores que lhe falassem de mundos distantes, de outra humanidade, para lá de sua corte pacata”. Entre eles, os indianistas, como Gonçalves Dias. Era admirador de Homero, Horácio, Apuleio, e do poeta Henry Longfellow. [4]

Embora católico disciplinado, o que provavelmente via como um dos seus deveres de monarca, Dom Pedro II defendeu a força do poder civil não só contra o militarismo, mas também contra o autoritarismo do papa Pio IX. Agiu em aliança com a maçonaria no Brasil, perseguida pelo papa, e colocou bispos papistas radicais na cadeia, em episódio bem  relatado  por José Murilo de Carvalho.[5] Esta ação destemida teve horizontes amplos e generosos, mas foi um dos fatores que criaram as bases da conspiração golpista de 1889.

Pedro Calmon explica que o imperador “tinha pelo livre exame um culto voltairiano; era um racionalista, contente de suas conclusões”. Era também um estoico. Depois de uma longa conversa com o imperador brasileiro, em Paris, o escritor Victor Hugo disse que via uma afinidade entre ele e o imperador-filósofo da Roma antiga:

“Senhor, sois um grande cidadão; sois o neto de Marco Aurélio.” [6]

Em 1871, Dom Pedro II entrou em Londres em uma sinagoga, para ler em hebraico os cânticos, “como um judeu”.[7]

Estudioso do judaísmo, interessado na Cabala, o imperador pesquisava as tradições e filosofias pagãs. Não era mero leitor. Processava por si mesmo a sabedoria universal. A busca de poder pessoal não o interessava. Registrou a sua filosofia ética em versos axiomáticos que mais tarde foram publicados por seu amigo Múcio Teixeira, teosofista, poeta e admirador de Helena Blavatsky.  

Pedro de Alcântara escreveu:  

FRAGMENTOS [8]

O homem é um deus inconsciente
Da sua indiscutível divindade;
Se há trevas no passado, no presente
Vai despontando o dia da Verdade.

- - -

Sempre de mal a pior,
Sente o peito e mente o lábio;
E o que se julga mais sábio
É o que engana melhor.

- - -

Eu gosto das crianças. Coitadinhas!
São tão pequenas e são tão mimosas!
Leves e loucas, como as andorinhas;
E lindas como as pétalas das rosas.

- - -

‘Mais sabe o que menos fala,
Muito diz quem não diz tudo;
O mais discreto precisa
Às vezes fingir-se de mudo.’ [9]

Não por acaso Dom Pedro II foi amigo de Múcio Teixeira. Sua vida e escritos revelam uma afinidade interna com a visão teosófica da vida.

Comemorando a Independência em Versos

A alma de um país inclui os momentos passados e as sementes de futuro. A jornada brasileira vem da fase pré-colonial, quando seu nome tupi era “Pindorama”, e atravessa trezentos anos de vida colonial até chegar à independência. A autonomia de fato do Brasil ocorreu em 1808 com a transferência da família real e da sede do reinado. A chegada ao Rio de Janeiro foi a sete de março. Desde aquele momento, o país já não voltou a ser colônia. O que houve em 1822 foi apenas a separação política de Portugal no plano da forma.

Cabe examinar neste contexto a real importância histórica do dia sete de setembro. O significado do evento improvisado em meio a uma viagem é contraditório. A verdade é que a independência do Brasil já havia sido formalmente declarada, sem que implicasse uma separação total de Portugal. Isso ocorrera um mês antes em dois documentos escritos e oficiais, assinados por Dom Pedro I, datados dos dias primeiro de agosto e seis de agosto de 1822. O documento do dia seis de agosto foi dirigido aos outros povos do mundo.[10]

A proclamação improvisada de sete de setembro, que avançou para o afastamento completo de Portugal, ganhou importância popular e simbólica, passando a ser a data nacional. A adoção desta data constitui em si mesma um fato histórico. A visão que os povos têm de si próprios é com frequência lendária: mitos e lendas possuem a sua própria maneira não-literal de preservar e transmitir verdades. A celebração de setembro deve ser respeitada, portanto, e o imperador aderiu ao processo.

Coincidindo com o calendário astrológico, no calendário romano primitivo o ano começava em março. Setembro era o sétimo mês ou “sétima morada”, o mês em que temos a maior parte do detalhista e trabalhador signo de Virgo.

Em 1843, Dom Pedro II escreveu os seguintes versos abordando a “sétima casa” [11] do Sol ao longo do seu ciclo de doze meses:

Sete de Setembro

(Ao Povo Brasileiro)

Tu, que no calendário primitivo
Tinhas no céu a sétima morada,
De teu sétimo dia na alvorada
Despedaçaste os ferros do cativo…

Três séculos contava o Povo altivo
Da minha enorme Pátria bem fadada,
Quando encetou a intérmina jornada,
Belo, pujante, heroico e redivivo!

Mas, se aprouve à Divina Providência
Confiar-me, em tão verde e tenra idade,
A sagrada missão de alta incumbência;

Juro, - nas aras da fidelidade: 
De meu Pai - recebeste a Independência,
Receberás de Mim - a Liberdade! [12]

Eram tempos de otimismo e de afirmação da nacionalidade.

O Imperador Enfrenta o Desafio Final

Cabe olhar para a história de um povo desde um ponto de vista realista. Quando se aprende com os erros do passado, é possível deixar de repeti-los no presente.  

As ações altruístas podem ter uma aparência contrária à sua substância. As piores ações são frequentemente disfarçadas com a roupagem da bondade. No plano social, o autoritarismo costuma surgir em nome do “combate às elites”.

Depois de um reinado longo e benéfico para o país, durante a década de 1880 a ideologia autoritária do positivismo espalhou-se nos meios militares. Deste modo abria-se espaço para o golpe de  estado que  iria  proclamar a  República e  dar  início a  uma  era de  lutas cegas pelo poder.[13]

Dom Pedro apoiou a abolição da escravatura, que aconteceu de modo gradual, culminando em 1888.

Em 1889, o imperador estava frágil e doente quando foi deposto em golpe militar realizado por uma minoria de intolerantes, iludidos por ideias positivistas e materialistas.

Não foi o momento mais glorioso da história do país. O imperador teve a postura digna que se poderia esperar de um estudioso da filosofia clássica. Enfrentou com estoicismo a deposição e a expulsão do país. Pobre, esquecido, preparado para morrer, escreveu no exílio dando mostras da sua grandeza interior:

A UM INGRATO

Não maldigo o rigor da minha sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dois passos estou só da morte.

A roda da fortuna não tem norte;
Conheço-lhe inconstante variedade,
Que hoje nos dá contínua felicidade,
E amanhã nem um bem que nos conforte. [14]

Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e quase o mata, 

É ver na mão cuspir à extrema hora
A mesma boca, aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela deu outrora! [15]


Ao escrever estas linhas, o imperador não se referia ao Brasil: o afeto de alguém pelo seu povo se mede nas horas difíceis. Pedro de Alcântara estimulou o progresso espiritual e político do Brasil. Agiu como amigo da democracia, e registrou:

AO POVO BRASILEIRO

Desfalecido, errante, forasteiro,
Já das sombras da morte circundado,
Súbito ouvi: - ‘Ressurge! que extirpado
Foi no Brasil para sempre o cativeiro!’

Presto a fugir, o alento derradeiro
Volveu-me ao coração quase parado:
-‘Grande povo! (exclamei): povo adorado!
Entre os demais da Terra és o primeiro!’

Traguei depois o meu cálice de amarguras,
Mas da verdade a lei não há quem mude:
Grande povo! eu dissera entre torturas.

Grande povo no brio e na virtude!
Sê feliz, goza em paz as mil venturas
Que deparar-te quis e que não pude! [16]


Quanto maior a grandeza de uma alma, mais profunda deve ser sua humildade. A grande alma esquece de si para concentrar-se no dever, e assim alcança a felicidade interior, que nada abala.

Mandado às pressas para o exílio pelos golpistas temerosos, Dom Pedro II deixou o país no dia 17 de novembro. Morreu na Europa dois anos depois, e o seu exemplo de vida permanece forte como uma inspiração luminosa, válida para o presente e para o futuro.     

NOTAS:

[1] “A Vida de D. Pedro II, o rei filósofo”, de Pedro Calmon, Biblioteca do Exército-Editora, Rio de Janeiro, 1975, 316 pp., ver p. 67. Cabe registrar que Alexandre Herculano era amigo do teosofista Visconde de Figanière (1827-1908).

[2] “A Vida de D. Pedro II, o rei filósofo”, Pedro Calmon, obra citada, p. 66.

[3] “A Vida de D. Pedro II, o rei filósofo”, Pedro Calmon, mesma p. 66.

[4] “A Vida de D. Pedro II, o rei filósofo”, Pedro Calmon, p. 68.

[5] “D. Pedro II”, José Murilo de Carvalho, Companhia das Letras, SP, 2007, 276 páginas. Ver capítulo 19, intitulado “Dois Bispos na Cadeia”. À p. 153, Murilo de Carvalho define o imperador como “um racionalista do século XVIII” e como alguém que colocava o Estado acima da igreja. Na mesma página, é mencionado o fato de que sua firmeza diante da igreja e dos militares foi um fator de enfraquecimento político do império, enquanto já ganhava força o republicanismo.

[6] “D. Pedro II”, José Murilo de Carvalho, obra citada, p. 172.

[7] “A Vida de D. Pedro II, o rei filósofo”, Pedro Calmon, p. 70.

[8] “O Imperador Visto de Perto”, de Múcio Teixeira, Livraria Editora Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1917, 274 pp., ver p. 95.  

[9] Nota de Múcio Teixeira: “Esta estrofe é simplesmente a variante de uma quadrinha popular. O Imperador, escrevendo-a entre aspas, quis naturalmente dizer que estes versos estavam em perfeita harmonia com o seu modo de sentir.”

[10] Veja em nossos websites associados o documento “O Manifesto da Independência do Brasil”, de Dom Pedro I.  

[11] Veja em nossos websites os artigos “O Número Sete”, de Helena Blavatsky, e “Brasil: A Importância de Sete de Março”, de C. C. Aveline. 

[12] Reproduzido da obra “O Imperador Visto de Perto”, de Múcio Teixeira, Livraria Editora Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1917, 274 pp., ver pp. 80-81.

[13] Veja o livro “Nasce a República - 1888-1894”, de Hélio Silva, Editora Três, 1998, 170 pp., capítulo 1 e outros capítulos.

[14] Múcio Teixeira informa em nota de rodapé: “Os dois primeiros versos da segunda quadra deste soneto estão assim, no original do próprio punho do Imperador. Mas no precioso arquivo do ilustre Conde de Motta Maia, que seu digno filho, o Dr. Oscar, pôs à minha disposição, encontro este mesmo soneto com estas variantes: ‘Do jugo das paixões minha alma forte / Conhece bem a estulta variedade’.”

[15] “O Imperador Visto de Perto”, Múcio Teixeira, ver pp. 98-99. 

[16] “O Imperador Visto de Perto”, Múcio Teixeira, p. 98.

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A imagem que ilustra o artigo acima constitui parte do último retrato de Dom Pedro II, e é reproduzida do livro “O Imperador Visto de Perto”, de Múcio Teixeira, p. 132.

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SETE AXIOMAS SOBRE O CAMINHO

No Silêncio da Compreensão,
Abrem-se as Portas da Sabedoria  

Carlos Cardoso Aveline



À esquerda da capa do livro, um escudo e espadas dos guerreiros Rajput, na Índia,
que assumem compromissos solenes em nome dos seus escudos. (“Annals & Antiquities
of Rajasthan”, de James Tod, edited by E. Jaiwant Paul, Roli Books, New Delhi, 2008.)



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O texto a seguir reproduz anotações
feitas pelo autor do livro “Três Caminhos
Para a Paz Interior”, e se refere à primeira
parte da obra, intitulada “O Caminho do Guerreiro”.

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1. Saiba que você é mortal. 

A vida é curta. Seu corpo é frágil, e dura relativamente pouco.

2. Saiba que você é imortal.

Você tem um eu superior e pode ampliar o contato com ele a tempo. Essa é a verdadeira fonte de felicidade e bênçãos.

3. Dedique uma parte crescente da sua vida ao ideal de progresso e perfeição humanos. 

O ponto três resulta naturalmente dos dois pontos anteriores. O desafio é elevar o foco médio da consciência.  

4. Observe de que modo você está jogando sua vida fora. 

Viver momento a momento, sem um norte, pode ser uma forma de não levar sua vida a sério.

5. Saiba que desde o primeiro passo no Caminho será testado e atacado, nos seus pontos fracos, de modo cruel e injusto. 

Por isso tantos desistem o tempo todo da intenção de trilhar o Caminho da Sabedoria. Fique alerta desde o início: os testes são duros mas preparam a vitória duradoura e previnem derrotas futuras.

6. Prepare-se para o combate. 

E lembre-se de que o combate é contra uma ignorância que está sobretudo dentro de você, e só secundariamente fora de você. Da ignorância brotam as ilusões - algumas ambiciosas, outras pessimistas [1] - que a sua espada deve despedaçar. Da sabedoria brota a paz incondicional.

7. Prepare-se para o combate combatendo. 

A espada é sua mente. O fio da lâmina corresponde à lucidez e à isenção. Seus golpes são suas ações. A força dos golpes é a intenção de fazer o melhor. A única derrota é não tentar. A vitória interior não produz derrotados e não necessita ser reconhecida por ninguém além de você.

NOTA:

[1] Yang ou yin.

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Uma versão anterior das notas acima foi publicada na edição de dezembro de 2014 de “O Teosofista”. Título original: “Sete Pontos Preliminares”.

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21 de setembro de 2016

SIMPLIFICANDO E ELEVANDO O CARMA

Teosofia Reestrutura a Experiência
Acumulada e Dá a Ela Uma Nova Direção

Carlos Cardoso Aveline
  


Afirma-se popularmente que a cada sete anos as células do corpo físico humano são renovadas.

Na verdade, esse período de tempo é simbólico. As diferentes partes do organismo possuem células cuja durabilidade varia. As células de alguns órgãos do corpo duram dias, outras células duram meses, e algumas vivem por décadas. Todas são renovadas de um ou de outro modo. 

Um período de sete anos constitui um ciclo numerológico dos mais importantes e também um subciclo de Saturno. É possível dizer que neste espaço de tempo uma parte substancial das células do corpo humano é renovada. A qualidade da renovação, porém,  depende das atividades da alma que anima o corpo.

A Descoberta da Teosofia

A expansão de consciência que ocorre quando uma pessoa “descobre” a teosofia vai bem além dos planos sutis da vida. O pensamento teosófico muda o carma inteiro da pessoa. A mudança cármica é substancial e não de quantidade.

O conteúdo cármico em si continua o mesmo. A sua estrutura passa a ser outra, e isso muda seu significado.  

O carma é como algo que se estoca em uma sala: com o estudo teosófico sério, o “estoque” de carma do indivíduo deixa de ser um “quarto escuro com a lâmpada quebrada”.

Abre-se uma janela e entram sol e ar puro. Abrir e fechar a porta deixam de ser ações dolorosas.

O carma acumulado, em contato com a luz do dia,  passa a ser revisado e reprocessado.  Purifica-se, torna-se mais leve, flexível, adaptável, e funciona como fonte de lições conscientes.

O carma  alterado pelo estudo da lei abstrata universal se torna sutil, e permite uma sintonia direta com a essência do cosmo. O carma purificado pelo contato com a inteligência e o ar livre não permanece isolado no plano superior. O seu conteúdo se registra no organismo físico do indivíduo, assim como antes o carma denso e cego também se registrara.  

Cada célula, com seu grau de inteligência própria, recebe a energia búdica superior e precisa reacomodar-se a ela.

Esta reacomodação só pode ser feita até certo ponto durante a vida de uma célula específica. Quando a célula é substituída, a sua sucessora virá com aptidões mais amplas e uma possibilidade maior de vibrar e viver de acordo com a energia teosófica.

Assim, pouco a pouco, o que o indivíduo aprende no plano mental é absorvido de um  modo equivalente no plano físico, e no plano emocional. Este processo na direção da integração e da coerência será tanto mais forte quanto maior a força da integração do indivíduo através da sinceridade consigo mesmo.

Um exemplo desta construção de afinidade entre o físico e o sutil é dado pela prática do vegetarianismo. A abstenção da violência implícita no hábito de comer carne torna mais fácil para o ser humano viver e compreender a fraternidade universal.  

Ciclos Maiores e Menores

A cada sete anos, diz a filosofia esotérica, há uma mudança forte na constituição do ser humano. 

A cada quatro anos, passa-se da metade do período setenário.

A cada ano completo de estudo de teosofia, há um novo ciclo solar completo que renova até certo ponto as células, os hábitos, os pensamentos e os sentimentos acumulados.  

Todo semestre, quadrimestre e trimestre produz alterações correspondentes.

Um dia significa uma revolução completa da terra em torno de si mesma. Quando a intenção é nobre e é firme, cada um destes ciclos traz uma alteração purificadora e um progresso  imperceptível na qualidade de vida em todos os níveis, preparando melhores encarnações no futuro.

A condição essencial para avançar no caminho é a sinceridade para consigo mesmo e para com os outros.

Levando em conta o processo mencionado acima, fica mais simples compreender a relação entre o material e o espiritual. Toda célula do organismo físico registra em si os padrões de sintonia dominantes do indivíduo, no plano das emoções, das ideias, dos hábitos e das intuições. Registra também o grau de aptidão contemplativa que ele possui. Quando a célula é substituída por outra, a velha célula “renasce” melhorada. Para otimizar o processo, cabe ao estudante de teosofia vincular as suas ações físicas, emocionais e pensamentais sempre mais estreitamente entre si, harmonizando o processo todo.

Não importa que o progresso não seja percebido: é invisível a germinação da semente plantada sob a terra.

Quando o peregrino avança alguns passos, todo o resto da caminhada torna-se mais compreensível. A dificuldade passa a perder importância, embora os perigos possam ser ocasionalmente grandes.  Com o surgimento de vibrações mais elevadas, o abandono de vibrações grosseiras passa a ser obrigatório: não há outro caminho a seguir, exceto o da sabedoria.  

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19 de setembro de 2016

A TRANSMISSÃO SEM PALAVRAS

A Verdadeira Teosofia Surge
Na Contemplação do Silêncio

Carlos Cardoso Aveline




A tradição budista inclui a história de um paradoxo Zen sobre o tema da percepção silenciosa.    

Publicada pela primeira vez em 1783, a narrativa conta que o mestre Zen Hsüan-sha enviou um monge até seu antigo professor, Hsüeh-fêng. O monge levava uma carta de saudação.

Eram os bons tempos do budismo, que hoje sofre de profunda decadência.

O antigo mestre Hsüen-fêng reuniu seus alunos monges no Zen-do, o salão de meditação, e abriu a carta diante deles. O envelope continha apenas três folhas de papel, completamente em branco. Hsüen-fêng mostrou o papel aos monges e disse:

“Vocês entendem?”

Não houve resposta - e Hsüen-fêng completou a lição do dia com essa frase enigmática:

“Meu filho pródigo escreve exatamente o que eu penso”.

Nyogen, mestre do século 20, explica  o episódio assim:

“Zen é como um raio. Nenhum olhar humano pode rastreá-lo.” [1]

De fato, as palavras têm um papel limitado no aprendizado. O Zen ou a Sabedoria não podem ser transmitidos apenas por palavras. Há uma passagem nas “Cartas dos Mahatmas” que explica essa necessidade de uma transmissão interna, que é independente das escrituras ou da fala. Um Mestre escreve:

“Na Ciência Oculta os segredos não podem ser transmitidos subitamente, mediante uma comunicação escrita, nem mesmo oral. Se assim fosse, tudo que os ‘Irmãos’ teriam que fazer seria publicar um Manual de Instruções  que poderia ser ensinado nas escolas, ao lado da gramática (...). A verdade é que, até que o neófito atinja a condição necessária para aquele grau de Iluminação para o qual ele está qualificado e apto, a maior parte dos segredos, se não todos eles, é incomunicável.” [2]

Por isso, as páginas em branco da carta aberta diante dos monges.

Hsüan-sha expressou muito francamente na carta ao seu antigo Mestre todos os pensamentos do seu eu inferior. Eles eram nenhum. E Hsüen-fêng ficou bastante feliz com aquilo: “É exatamente assim que eu penso.”

A compreensão vem no silêncio. Ela emerge devido à aceitação do vazio. Ela vem pelo mergulho no espaço livre que é a ausência de pensamentos.

Ao estudar e contemplar a Teosofia além das palavras, nós podemos chegar ao silêncio e ao entendimento corretos. Isso expandirá nossa consciência. Mas o que é de fato “Teosofia”? Embora a teosofia ou sabedoria divina transcenda qualquer conjunto de conceitos em particular, os conceitos universais são um ponto de partida para alcançá-la. A teosofia é a sabedoria comum e a ética presentes nas diferentes tradições e filosofias. As palavras desta ou daquela filosofia são apenas “sinais de trânsito” que orientam a caminhada da percepção direta, e não há por que agarrar-se demasiado a elas. Por mais úteis que sejam as placas de trânsito, é preciso caminhar. 

A Loja Independente de Teosofistas é um dos esforços que plantam as sementes dessa consciência universal.

NOTAS:

[1] “The Iron Flute, 100 Zen Koan”, (“A Flauta de Ferro, 100 Koans Zen”), Traduzido e editado por Nyogen Senzaki e Ruth Strout McCandless,  publicado por Charles E. Tuttle Co., Rutland, Vermont & Tokyo, Japão, Segunda edição, 1985, 175 pp., veja p. 77.

[2] “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver Carta 20,  volume I, p. 134.

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