27 de fevereiro de 2015

A CONSOLIDAÇÃO DA VITÓRIA

Cinco Aspectos da Caminhada Teosófica


Carlos Cardoso Aveline


  

1. Circunstâncias e Autodeterminação

A teosofia convida a examinar qual é a força das circunstâncias em nossa vida.

Quando pensamos em mudar a nossa existência para melhor, é conveniente pensar com cuidado sobre o que é, exatamente, que desejamos alterar. O que nos incomoda são as circunstâncias, de fato, ou será o nosso próprio modo de viver nelas?  

Se estivermos acostumados a olhar para fora, atribuiremos à situação externa o dever de mudar,  para que possamos ter maior conforto e mais comodidade.

Porém, se possuirmos a força necessária para olhar para nós próprios, veremos algo básico e fundamental: é mudando a nós próprios que eliminamos a fonte de desconforto. Isso não exclui mudanças externas, mas nos dá força para fazê-las em paz, se forem necessárias.

Se mudássemos apenas as circunstâncias que nos rodeiam, logo nos cansaríamos da nova situação. Desejaríamos então outras mudanças externas, e mais outras, por causa da nossa falta de força e de conforto interior. 

O estudante que está destinado a vencer avança passo a passo e sem pressa pelo caminho que leva desde a vida circunstancial, sempre  inconstante, até a existência estável de um ser autodeterminado.  Ele aprende a viver a sabedoria que já conhece. Ele amplia os seus conhecimentos em cooperação com outros. Ele coloca em movimento as causas da verdadeira felicidade. 

2. O Judô na Teosofia

Quando alguém toma uma decisão na vida e assume um compromisso sincero com o caminho da sabedoria, não deve pensar que o compromisso é linear, convencional, estável ou mecânico.  Inicialmente ele só é estável no plano da alma, mas não no plano do mundo. 

O peregrino errará mil vezes.  A questão não é saber se ele cairá ou não.  Ele cairá mil e duzentas vezes.  A primeira lição em Judô consiste em aprender a cair. 

Deve-se cair com o corpo e a alma leves, soltos, flexíveis, sem apego ao ato de cair, percebendo de imediato a forma que o erro ou queda assumiu. A partir da posição precisa da queda, e na sequência natural do tombo, o peregrino deve reerguer-se de imediato, atento aos novos movimentos do combate, capaz de localizar oportunidades positivas e pronto para cair de novo ou para derrubar de vez a ignorância que o desafia. 

Quando aprendemos a cair, podemos usar os obstáculos e energias contrárias a nosso favor.   Basta então tentar o melhor sempre, e ter paz-ciência. Com estas condições, somos capazes de olhar para o alto enquanto mantemos contato com o chão firme. 

3. Um Compromisso no Templo‏

É quando sabemos cair e levantar que os alicerces do templo estão sólidos e suas paredes já não são de papel.  

O templo divino é construído sem ruído e sem tijolos.  O barulho do mundo não o alcança.[1] Dele se irradia uma aura que acalma lentamente o ruído do mundo, mostrando o fluxo misterioso da luz eterna e da vida infinita. Este templo oculto não é físico. Ele não pode ser destruído pelo tempo. Ele existe e se expande no coração dos seres de boa vontade.   

Segundo a literatura teosófica, os templos de tijolos têm escasso valor.  A decisão de trilhar o caminho Sagrado deve ser tomada com completa autorresponsabilidade no templo do coração, o santuário interno habitado pela alma imortal. É ali, também, que a decisão de fazer o melhor deve ser preservada e renovada regularmente, ao longo de várias encarnações. No momento certo de cada existência, o compromisso é resgatado e renovado, com alguma diferença nas palavras, mas mantendo o mesmo significado essencial. 

Uma decisão tomada no templo do coração acelera o despertar do eu superior e também protege o peregrino dos perigos da ignorância. A proteção será recebida conforme o mérito pessoal e as possibilidades do carma coletivo.   

Esta resolução também acelera o carma individual e revela os pontos fracos a serem superados. O caminho é internamente luminoso e externamente íngreme. Trilhá-lo exige tempo.  Perseverança é necessária. Cada dificuldade é uma lição da Lei. Todo obstáculo é uma oportunidade para libertar-se de um aspecto da ignorância acumulada que causa sofrimento aos seres humanos. 

Transformando-se em um pesquisador autorresponsável das leis do universo, o buscador da verdade descobre a silenciosa bem-aventurança da felicidade incondicional.

4. Foco Superior, Antahkarana e Mudança Vital

De que modo o templo abstrato e invisível da alma imortal pode expressar-se no mundo? 

Para isso ele depende da parte inferior de Antahkarana, a ponte entre alma mortal e alma imortal.

Quando pensamos em Antahkarana, normalmente o visualizamos como se nossa consciência estivesse situada no eu inferior.  Neste caso a aceleração do contato com o eu superior consiste em abrir uma janela maior para o alto. 

Mas o que acontece quando a consciência passa a ficar focada com força especial no eu superior, devido a uma expansão mais ou menos súbita de consciência?  O que ocorre quando alguém nasce em condições muito diferentes da vida anterior, durante a qual pode ter expandido poderosamente Antahkarana?  Há uma ilustração deste caso nos primeiros capítulos do romance “O Idiota”, de Dostoievsky.  O sexto princípio (a inteligência espiritual)  atua intensamente, mas há fortes limitações no funcionamento do eu inferior. O indivíduo pode ter, inicialmente, dificuldades de autocontrole, a menos que esteja rodeado de seres capazes de compreendê-lo, de acompanhar o seu processo, e dar-lhe elementos para que desenvolva em paz o seu melhor potencial. 

De certo modo o mesmo contraste e o mesmo perigo existem para todos os indivíduos. A infância é o ponto de encontro entre a situação abençoada do Devachan - o “lugar” divino em que o ser humano vive antes de renascer - e as duras condições reinantes no mundo físico.

As dificuldades enfrentadas por H. P. Blavatsky em seu eu inferior são exemplos disso.  A “loucura” de São Francisco de Assis durante sua juventude, segundo a lenda da vida dele, é outro exemplo.  A conduta saudável e inofensiva mas “excêntrica” de pessoas guiadas por seus eus superiores é proverbial em várias tradições. A importância do autoconhecimento, do autorrespeito e do autocontrole, destacada em “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, se deve a que estes três fatores são necessários para que a expansão do eu superior e de Antahkarana possa ser apoiada e estabilizada, e seja administrada corretamente, tanto na alma mortal como nas ações externas da vida. 

O foco principal da consciência domina o nível de território em que ele está preferencialmente situado, e tem menos influência sobre os níveis de território em que não vive permanentemente. A pessoa que amplia com força Antahkarana  deve simplificar sua vida no plano do eu inferior, para que possa manejá-la mesmo mantendo o foco da vida no plano mais elevado.

O peregrino tem força reduzida no eu inferior e nos assuntos externos.  Talvez ele seja considerado um fracasso completo nestes departamentos da vida.  Ele deve renunciar a estas frentes de batalha e abençoar suas “derrotas pessoais”: elas o libertam para concentrar  seu foco nos planos abstratos e elevados. 

O ato de abrir mão de coisas e situações externas normalmente pode ser gradual. A expansão antahkarânica ocorre passo a passo na maior parte dos casos. Mas o que ocorre se uma pessoa vive uma expansão de Antahkarana de modo súbito? 

A repentina entrada do ponto de vista do eu superior em meio à sua vida emocional e física - que ainda estão organizadas em termos convencionais - cria uma forte tempestade na consciência. A intensa “reorganização” do eu inferior pode parecer caótica aos que observam o processo, a menos que a mudança seja construída e vivida por etapas, e depois de enxergar claramente o seu todo. 

Em qualquer hipótese, a chave do progresso está em uma combinação gradualmente expansiva de autoconhecimento, autocontrole e autotransformação. Enxergar uma meta pode ser rápido; caminhar até ela requer mais tempo. A mudança possível de cenário e de organização da vida externa de quem teve um insight profundo sobre sua própria existência deve ser implementada na medida em que haja um projeto de mudança pacífico, certeiro, correto, equilibrado e eticamente responsável. O projeto pode então ser implementado passo a passo, sendo reavaliado após cada passo mais importante.   

Quando há um despertar individual sob a luz de uma pedagogia teosófica correta, a mudança na vida não se faz em nome da rejeição do que já não serve.   Há gratidão em relação às etapas anteriores. A mudança se faz em nome da construção de algo maior e melhor. O verdadeiro desapego, que traz liberdade, ocorre ao lado de um sincero agradecimento.

Em teosofia, o tema da administração correta do progresso espiritual é complexo, e é fundamental.  Ele vale não só para os que passam por um despertar mais ou menos súbito. É igualmente importante para quem vive uma expansão lenta e gradual de consciência. 

Cabe a cada estudante de filosofia assegurar que o despertar mude sua vida toda e que sua existência não permaneça vítima de rotina cega.  É dever de quem procura a verdade - um dever para com sua própria alma imortal e para com todos ao seu redor -, renovar o seu mundo de modo responsável e prudente, com coragem, de modo que sua vida expresse cada dia melhor a luz do sol do seu Eu Superior. E quando os momentos agradáveis vierem, será necessário recebê-los com humildade.  

5. A Consolidação da Vitória

Em teosofia, não basta vencer.  É preciso consolidar a vitória transformando-a numa experiência de longo prazo que se renova e se aprofunda gradualmente.  

O perigo de errar não ocorre só na derrota. A derrota é uma boa mestra, e há muito por agradecer a ela. Por outro lado, a possibilidade de perder o bom senso pode ser especialmente grande no momento da vitória.  Quando não é acolhida com um humilde desapego e com serenidade, a vitória torna cegos os ingênuos e os desinformados.  O momento da vitória é decisivo: ele tanto pode preparar uma sucessão de vitórias, como pode abrir a porta  para uma derrota que estrague o progresso já alcançado.

A vocação da vitória depende do discernimento.  O indivíduo dotado de bom senso é essencialmente inalterável na vitória e na derrota. Diante da boa notícia, ele evita toda euforia, e deixa para os tolos as grandes celebrações. Quando há uma notícia desagradável, ele usa com força a energia interior acumulada nas vitórias, e enfrenta o sofrimento tão serenamente quanto possível, buscando pela brecha secreta que o levará da derrota à  vitória.   Ele permanece interiormente estável ao longo dos altos e baixos das marés da vida, porque sabe que só a calma permite construir uma vitória durável. 

Diante das boas notícias e da percepção do progresso, devemos lembrar que nossa meta é de longo prazo. Cada vitória é na verdade um pequeno passo à frente, e devemos consolidá-lo em silêncio enquanto vigiamos nossas limitações.

NOTA:

[1] Como na construção do templo de Salomão.  Veja 1 Reis, 6:7.  

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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24 de fevereiro de 2015

O PODER DA COMPAIXÃO

A Solidariedade Universal
Brota da Alma Como Algo Inevitável
  
Carlos Cardoso Aveline






Usada com frequência e nem sempre bem compreendida, a palavra “compaixão” implica um “co-sentimento”, um “sentir junto”. Significa “experimentar o mesmo que o outro, quando o outro sofre”.  
                                                                                                                        
Através deste sentimento o indivíduo transcende o egoísmo. Quando a compaixão é profunda, ela surge como algo inevitável: o cidadão derruba os muros separadores em seu coração e supera a ilusão egocêntrica segundo a qual ele está isolado do mundo.

Há uma beleza moral em experimentar a mesma dor dos seres próximos a nós, quando os vemos sofrer. O amor pessoal torna o ser humano solidário com a dor dos seus filhos e de todos os que fazem parte da sua vida diária. A compaixão universal vai mais longe, porque não está presa a individualidades.

O mundo das aparências é enganoso. A luta entre o pessoal e o impessoal é complexa. A fronteira entre as duas dimensões da vida nem sempre está demarcada. Pode haver egoísmo na relação de um indivíduo com aquilo que ele considera divino e espiritual. Pode haver uma boa dose de compaixão universal no modo como amo ou protejo um filho. Não é difícil ver que meu filho não é apenas alguém da minha família. É um resumo da humanidade e uma promessa para o futuro. Kahlil Gibran escreveu:

“Seus filhos não são seus filhos. São as filhas e os filhos da Vida em sua ânsia por si mesma. Eles não vêm de vocês, mas através de vocês, e podem estar com vocês, mas não lhes pertencem. Podem transmitir a eles o seu amor, mas não os seus pensamentos, porque eles têm seus pensamentos próprios. Podem abrigar os corpos deles, mas não as suas almas, porque suas almas moram na casa do amanhã ...”. [1] 

O desafio evolutivo é olhar impessoalmente para os laços pessoais. Quando guiada por um sentido de justiça imparcial, a atitude solidária para com as pessoas próximas é um passo na direção da compaixão sem fronteiras. Os bons mestres veem seus alunos de modo objetivo. O mesmo princípio se aplica a todas as relações corretas entre pessoas. O amor sincero confia na verdade e por isso não distorce os fatos. Seu olhar é impessoal. Respeitando a voz da consciência, o sábio enxerga com clareza. Deste modo surge uma compreensão que elimina as causas da dor psicológica.

Quando o amor inegoísta supera o apego pessoal, a vida passa a ser guiada pela justiça, pela compaixão e pela percepção da verdade. Há algo muito específico que distingue o sentimento de solidariedade incondicional. Aquele que vive a compaixão vê o sofrimento humano, estuda as suas causas, experimenta-o como se fosse seu, sofre-o, e mesmo assim preserva a paz em seu coração. 

Enquanto vive a dor, permanece livre de sentimentos masoquistas. Não precisa glorificar a si mesmo através da visão do seu próprio sofrimento. Não é escravo de sentimentos de culpa. Não desempenha o papel de “sofredor” nem de “salvador” como meio de obter a aprovação ou aplauso da sua própria consciência.

Ele está livre, também, de sentimentos sádicos. Não sente alívio ou prazer diante da dor dos outros. Não precisa do sofrimento alheio para fugir da sua própria dor e não busca a ilusão da vingança. Sente como sua a dor dos outros, mas faz isso sem cair nos círculos viciosos de lamentação e de rancor.

Aquele que vive a compaixão está livre do sadomasoquismo emocional porque transcendeu o apego ou rejeição à sua própria dor.[2]  Está sereno, mas não é  indiferente. Ele se dedica a combater a origem do sofrimento dos outros, que reconhece como sendo essencialmente seu próprio. Ele vive a felicidade interior por um motivo muito amplo.  Seu foco de consciência principal está instalado em ciclos maiores de Carma e Espaço-Tempo,  nos quais a Bem-Aventurança é corretamente reconhecida como a inexorável Lei da Vida. 

Enquanto vive a dor própria e a dor dos outros, o sábio experimenta a bem-aventurança. Seu olhar está no alto. A impessoalidade brota como uma bênção do coração profundo.  Ele não perde tempo ou energia com raiva e lamentações.

Sabe em primeira mão que a felicidade é real, embora seja aparentemente invisível. Conhece o fato de que o sofrimento é ilusório e não passa de um pesadelo, embora seja vivido intensamente por muitos no plano pessoal da consciência. Sabe que a tarefa das pessoas de boa vontade, seja qual for o país em que vivem, é despertar umas às outras do pesadelo do sofrimento desnecessário. Através dos seus atos, ele mostra aos outros que fazer o bem e combater a origem da dor é a bênção libertadora que surge do altruísmo.

A Prática e a Teoria

A filosofia não é compreendida por sepulcros caiados que falam do que não conhecem.

O sentimento de compaixão se situa no coração e não no cérebro. Ideias corretas sobre a vida universal podem revelar a sua presença no coração, talvez; mas não serão capazes de fabricá-lo, e ele não pode ser ensinado ou aprendido no plano verbal.  

Sentimentos solidários não constituem um verniz a ser colocado por cima do egoísmo. A compaixão nasce como carne viva quando o coração de alguém desperta e se identifica com a dor alheia, para em seguida perceber como é difícil ser efetivamente útil.

Cada um deve despertar por si mesmo e por mérito próprio. E mesmo assim a ajuda mútua é fundamental. A alma do sábio é um espelho mágico em que se reflete o potencial sagrado do aprendiz.

A substância última da Compaixão não tem nome.

Ela é a energia altruísta que move e impulsiona todas as ações éticas. Através do universo inteiro ela mantém as galáxias vivas, movimenta-as e as faz evoluir. Em linguagem geométrica, a compaixão universal se expressa pela lei da simetria. Ela é a lei da proporção harmoniosa. É a justiça universal que corrige os erros e compensa todo sofrimento. Ela é a origem da solidariedade entre os seres humanos e faz brotar a cooperação entre diferentes espécies.  É a amizade incondicional que expressa o despertar da Alma. Constitui o primeiro passo e o último no caminho da sabedoria, e é inseparável do equilíbrio, da moderação e do discernimento.  

NOTAS:

[1] “The Prophet”, Kahlil Gibran, Senate, Surrey, UK, Reino Unido, 2003, 114 pp., ver p. 20.

[2] Muitos são os que se apegam ao seu sofrimento, preferindo a dor que conhecem ao invés da felicidade com a qual não estão familiarizados.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


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SOBRE O USO DE PODERES PSÍQUICOS

O Que Buddha, o Novo Testamento
e Helena Blavatsky Dizem a Respeito


Carlos Cardoso Aveline 



Bom senso é hoje uma virtude relativamente rara. A todo momento encontramos pessoas entusiasmadas e iludidas com poderes psíquicos, clarividência, canalização e todo tipo de manipulação desastrada de energias sutis para fins pessoais.

E também é possível encontrar  pessoas que buscam ardentemente a vivência da ética,  que estão  interessadas em aprender a arte de viver corretamente,  e buscam com inteligência plantar o bem, antes de colher o bem.

Diz a tradição que, muitos milhares de anos atrás, o desgraçado final da civilização de  Atlântida  esteve associado, precisamente, ao uso egoísta e irresponsável de poderes psíquicos.  Estudar a  história do movimento teosófico traz grandes lições práticas, e vale a pena citar um exemplo desse princípio geral. 

Tão logo H. P. Blavatsky morreu, Annie Besant voltou-se contra os ensinamentos originais e deixou de lado a linha de ação de H.P.B.   A partir de então,  não faltaram desastres éticos.   Ao examinar os fatos históricos, o estudante vê que os absurdos e escândalos provocados na primeira metade do século vinte por Annie Besant e Charles Leadbeater estão diretamente   associados ao uso e abuso da falsa clarividência.      

Por outro lado, no seu livro “Ísis Sem Véu”, H. P. Blavatsky ensina o caminho da renúncia e da simplicidade.  Ela conta que certo dia o rei Prasenagit -  amigo e protetor de Buddha - sugeriu ao Mestre que  fizesse milagres, isto é, que usasse seus “poderes psíquicos” ou siddhis

Buddha respondeu:

“Grande Rei, eu não ensino a lei para meus alunos dizendo a eles: ‘vão, vocês, santos, e diante dos olhos dos brâmanes e chefes de família  realizem, através dos seus poderes sobrenaturais, milagres maiores do que qualquer homem é capaz de realizar’.  Eu digo a eles, quando lhes ensino a lei: ‘Vivam, vocês, santos, ocultando suas boas obras e mostrando os seus defeitos.” [1]

Em 1895, apenas quatro anos depois da morte de H.P.B., William Q. Judge pareceu referir-se a essa mesma passagem de “Ísis Sem Véu” quando antecipou os perigos que deveriam ser enfrentados e os  erros que seriam cometidos pelo movimento teosófico. 

Judge escreveu:

“Nós já entramos no obscuro começo de uma nova era. Esta é a era do ocultismo ocidental, e a era de um enfoque e uma exposição especiais e definidos de teorias  até aqui consideradas em termos gerais.  Temos de fazer como Buddha dizia a seus discípulos: pregar, promulgar, expor,  ilustrar, e deixar claras em detalhes todas as coisas grandes que nós aprendemos. Esse é o nosso trabalho, e não a produção de coisas surpreendentes sobre clarividência e outras questões astrais, nem o ofuscamento da visão dos cientistas através de descobertas impossíveis para eles mas fáceis para o ocultista. O plano dos Mestres não se  alterou.  O plano é tornar o mundo em geral um pouco melhor,  preparar o solo para o crescimento dos poderes da alma, que são perigosos quando surgem em nosso solo atualmente egoísta.  Não é a Loja Negra que tenta frear o desenvolvimento psíquico; é a Loja Branca. A  Loja Negra gostaria muito de ter todos os poderes psíquicos plenamente desenvolvidos agora, porque,  através das pessoas maldosas, mesquinhas, hipócritas  e interessadas em dinheiro, tais poderes arruinariam a raça humana em pouco tempo. Esta ideia pode parecer estranha, mas para aqueles que acreditariam em minha palavra  sem comprovação, eu diria que isto é o que diz o Mestre.” [2] 

Judge não está exagerando.  É interessante lembrar o que o Novo Testamento ensina  em sua narrativa simbólica  sobre as tentações de Jesus no deserto.  Em Mateus,  4: 3, o “tentador” aproxima-se de Jesus e sugere que ele faça algo que é proibido a todo verdadeiro Peregrino: usar poderes psíquicos com o objetivo de obter  bem-estar para si mesmo.

Diz o “tentador” a Jesus, o Iniciado:    

“Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.”

Em sua resposta, Jesus ensina que,  para um verdadeiro aprendiz, não há nada mais importante que a voz  da Consciência presente em seu próprio interior:

“Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.”

A lição é clara:  o uso de “poderes” para fins pessoais é fonte de grave ilusão e sofrimento.

A vida é aprendizagem. Tanto os  movimentos esotéricos, coletivamente, como os aprendizes da sabedoria universal,  individualmente,  devem aprender com os erros do passado para não repeti-los.

No século 21, é possível libertar-nos das estruturas burocráticas e ritualistas de poder construídas com base em tais erros e abusos. Cabe a cada um seguir o caminho da motivação altruísta, com independência e com responsabilidade própria. Esse é o  caminho da verdadeira felicidade interior, o caminho pelo qual se obtém “o tesouro que está nos céus”. O resto, diz a tradição, “nos será dado por acréscimo”. Mas não nos será dado no momento ou da forma que podemos esperar.  Daí a importância de não pensar nos frutos pessoais das nossas boas ações.

A justiça descerá sobre nós como o orvalho da manhã,  quando o bom carma estiver maduro. Ninguém pode apressar ou retardar o nascimento de um novo dia. 

O  peregrino que possui discernimento trabalha desde as primeiras horas da  madrugada,  sabendo com certeza que o novo dia virá para iluminar e recompensar,  no momento certo,  as suas verdadeiras intenções e também os seus atos todos.                      

NOTAS:

[1] “Isis Unveiled”, H. P. Blavatsky, Theosophical University Press, Pasadena, California, 1988, edição em dois volumes, ver volume I, p. 600. Na edição brasileira de “Ísis Sem Véu” (Ed. Pensamento), a passagem está na p. 272 do volume II.

[2] “Theosophical Articles”, William Q. Judge, Theosophy Co., Los Angeles, 1980, edição em dois volumes, ver artigo “The Closing Cycle”, pp. 154-155, volume II.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


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19 de fevereiro de 2015

LIMPANDO AS LENTES DO TELESCÓPIO

Nossa Consciência é um Instrumento de
Percepção Que Deve Ser Cuidado a Cada Dia


Carlos Cardoso Aveline



O filósofo eclético francês Victor Cousin (1792-1867) escreveu sobre a necessidade de conhecer a si mesmo antes de pretender conhecer o mundo. 

Na verdade, estes dois níveis da busca de conhecimento estão intimamente ligados e influenciam um ao outro o tempo todo. Cousin está basicamente correto: uma auto-observação eficiente é fundamental para que se possa observar a realidade ao nosso redor.  

Comentando o diálogo platônico “Primeiro Alcibíades”,  Cousin escreveu sobre a necessidade de autoconstrução e autopreparação, se quisermos obter real conhecimento:

“Ignorar a si mesmo é ignorar o único instrumento que se pode usar; é ignorar a medida de suas forças, e por consequência, condenar a si mesmo a empregá-las cegamente e expor-se a inúmeros erros de orientação. O conhecimento de nós mesmos é, portanto, a base de todo conhecimento estável. Isto não é tudo: nós tampouco podemos ter ideia alguma da causa primeira ou da substância infinita, se não tivermos uma ideia clara do que é uma causa e uma substância; e esta ideia é algo que ninguém nos pode dar, exceto nós mesmos.”
               
Em seguida, Cousin acrescentou:

“Assim, seja quando observamos as coisas em profundidade, seja quando nos detemos na questão preliminar de toda filosofia sábia, que é a questão do método, reconhecemos que o estudo da natureza humana é a preparação necessária a todo conhecimento legítimo, e que a psicologia serve de base à ontologia e à própria teologia.” [1]

Este enfoque coincide com a visão teosófica. A filosofia esotérica de Helena Blavatsky ensina que a chave do conhecimento do cosmos está na relação direta que existe entre cada indivíduo e o universo. O homem é um resumo do sistema solar.  Cada um de nós é a única luneta, e o único  telescópio ou microscópio pelo qual podemos olhar para o mundo e compreendê-lo. 

A tarefa do estudante de filosofia inclui, portanto, inevitavelmente, a necessidade de observar e compreender como funciona este instrumento de busca da verdade, o seu próprio eu inferior. É preciso regular as lentes desta luneta. É um dever fundamental limpá-las de lixo e pó, para que elas possam refletir a verdade.  

A Teosofia Eclética e a Sabedoria Oriental  

O valor teosófico da vida e da obra de Victor Cousin é inegável. 

Combatido pelos jesuítas e pela igreja católica, ele tem uma visão universal da vida. Ele aceita e discute os diferentes sistemas filosóficos.  Ele acredita no livre-pensamento. Cousin defende a tese de que existe uma sabedoria transcendente e eterna; e afirma que ela deve ser buscada com independência em relação a qualquer organismo religioso.

No âmbito da filosofia ocidental, Cousin ajudou a preparar a descoberta gradual de algo que ainda hoje é ignorado por alguns: o fato de que os países do Oriente possuem filosofias de grande valor e importância, muito mais antigas que a filosofia clássica ocidental.

A escola eclética de Cousin foi uma das primeiras da Europa moderna que levaram em conta e valorizaram as filosofias budistas e a filosofia vedanta.  

Referindo-se à Grécia antiga, Cousin afirmou: 

“A língua, a escritura, o alfabeto, os procedimentos industriais, as artes mecânicas, as formas primitivas de governo, o caráter inicial da arte, o culto primitivo, tudo isto é oriental;  é sobre esta base estrangeira que se desenvolveu o espírito grego; este foi o ponto de partida para que se chegasse a esta forma original e admirável que chamamos de forma grega por excelência. Ocorreu o mesmo com a filosofia.” Cousin destaca que na Grécia, como no Oriente, a filosofia estava ligada à religião. [2]

As evidências das origens orientais da filosofia ocidental são numerosas.  O diálogo cultural entre a Índia e a Grécia tem sido estudado e documentado desde vários ângulos. O filósofo francês Émile Bréhier seguiu o exemplo de Cousin e discutiu o assunto durante a primeira metade do século vinte. [3]  Há incontáveis pontos em comum entre a filosofia ocidental e a Raja Ioga e a Jnana Ioga. Pitágoras foi um estudante da sabedoria oriental, conforme Helena Blavatsky demonstrou [4], e Platão estudou as filosofias do Oriente através dos escritos pitagóricos e dos Mistérios egípcios.

NOTAS:

[1] “Fragments de Philosophie Ancienne”, Victor Cousin, Didier Libraire-Éditeur, Paris, nouvele edition, 1855, 455 pp., ver pp. 201-202. 

[2] Ver “Introduction a L’Histoire de la Philosophie” , Victor Cousin,  Didier Libraires-Éditeurs, Paris,  1861, 345 pp, ver pp. 32-33.  

[3] Veja “Histoire de la Philosophie”, de Émile Bréhier, Presses Universitaires de France, Tome Premier, Fascicule I, Période Hellénique, 1948, 264 pp., Introduction, pp. 5-11. Um artigo importante sobre o tema é “The Cultural Symphony of India and Greece”, de Lokesh Chandra, publicado no volume “The Adyar Library Bulletin”, Vol. 50, 674 pp., 1986, pp. 1-20. Veja também o livro “The Platonic Quest”, de E. J. Urwick, Concord Grove Press, USA, 1983, 262 pp.

[4] Leia o artigo “Eastern Sources of Pythagoras”, de Helena P. Blavatsky. O texto consiste de uma compilação de fragmentos de HPB e está disponível em www.FilosofiaEsoterica.comwww.TheosophyOnline.com  e seus websites associados.

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A respeito de Victor Cousin e sua filosofia, veja também o artigo “A Necessidade do Infinito”, de Carlos Cardoso Aveline.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


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