21 de Novembro de 2014

A TÁBUA DE ESMERALDA

O Significado de um Documento Alquímico    


Carlos Cardoso Aveline
  

Uma versão clássica do texto esmeraldino   



A Tábua de Esmeralda é considerada o mais antigo dos ensinamentos que se relacionam com a alquimia e a pedra filosofal  (lapis philosophorum).

Trata-se segundo a tradição de uma pedra preciosa - uma esmeralda - na qual certas inscrições foram feitas  em alto relevo milhares de anos antes da era cristã.    

O texto é  a mais reverenciada das fórmulas alquímicas, e pode ser lido desde vários pontos de vista. Ele se refere tanto à alquimia de metais como à alquimia divina ou regeneração interior da alma humana.  Também diz respeito simultaneamente ao indivíduo humano (ou microcosmo)  e ao sistema solar (ou macrocosmo).  

Atribuída a Hermes na tradição esotérica, a Tábua  é a origem da lenda maçônica de Hiram  (ou  Chiram). Chiram é o protótipo ou arquétipo do ser humano. O ensinamento esmeraldino possui uma relação direta com as três proposições fundamentais da Doutrina Secreta, formuladas por H. P. Blavatsky com base na sabedoria esotérica do Oriente.  

H. P. Blavatsky escreve na  sua obra “Ísis Sem Véu”:

“A tradição declara que junto ao cadáver de Hermes, em Hebron, um Iniciado, um Isarim, encontrou a  tábua conhecida como Smaragdine. Ela expressa, em poucas frases, a essência da sabedoria hermética. Para quem a lê apenas com seus olhos corporais, os seus preceitos não sugerem nada novo ou extraordinário, porque ela começa simplesmente afirmando que sua mensagem não fala de coisas fictícias, mas daquilo que é verdadeiro e seguro.”

Em seguida vem a transcrição do texto:   

O que  está abaixo é como aquilo que está acima, e o que está acima é semelhante a aquilo que está abaixo, para realizar os prodígios da coisa única.

Assim como todas as coisas foram produzidas pela mediação de um ser, assim também  todas as coisas foram produzidas a partir deste ser por adaptação.

O seu pai é o sol,  sua mãe é a lua.

Ele é a causa de toda perfeição por todo e qualquer lugar da terra.

O seu poder é perfeito  se ele for transformado em terra.

Separe a terra do fogo, o sutil do grosseiro, agindo prudentemente e com critério.

Eleve-se com a maior sagacidade desde a terra até o céu, e então desça de novo para a terra, e unifique o poder das coisas inferiores e superiores. Assim você possuirá a luz do  mundo inteiro e toda escuridão fugirá de você.

Esta coisa tem mais força que a própria força, porque ela domina todas as coisas sutis e permeia todas as coisas sólidas.  

Através dela o mundo foi criado. 

Tal é a Tábua Esmeraldina, na versão publicada em “Ísis Sem Véu”. 

H.P.B. acrescenta:

“Essa coisa misteriosa é o agente universal mágico, a luz astral, que nas correlações das suas forças fornece o alkahest, a pedra filosofal, e o elixir da vida.  A filosofia hermética a chama de Azoth, a alma do mundo, a virgem celeste, o grande Magnes, etc.,etc.  A ciência física a conhece como ‘calor, luz, eletricidade, e magnetismo’, mas, ignorando as  suas propriedades espirituais e a potência oculta contida no éter, rejeita tudo aquilo que ignora.” [1] 

Em “A Doutrina Secreta”, H.P.B. comenta:   

“Assim, vemos na Tábua Esmeraldina, que foi desfigurada por mãos cristãs: -  ‘O Superior  está de  acordo com o Inferior,  e o Inferior está de acordo com o Superior, para produzir aquele Trabalho único e verdadeiramente maravilhoso’ - que é o HOMEM. Porque o trabalho secreto de Chiram, ou  Rei Hiram, na Cabala, ‘um em Essência,  mas três em Aspecto’, é o Agente Universal ou Lapis Philosophorum. A culminação do Trabalho Secreto é o Homem Espiritual Perfeito, em uma extremidade da linha; a união dos três elementos é o Solvente Oculto na ‘Alma do Mundo’, a Alma Cósmica ou Luz Astral, na outra extremidade; e, no plano material, é o Hidrogênio em sua relação com os outros gases.” [2]  

Para H.P.B., a combinação do superior e do inferior implica a existência de “duas operações herméticas secretas, uma relativa ao espiritual, a outra relativa ao material, e ambas unidas para sempre”.[3] Há sete chaves para a interpretação da Tábua de Esmeralda.  Ao nível da chave antropológica, a “coisa una e  única” mencionada no primeiro parágrafo é o ser humano.

Na versão mais oculta e completa da Tábua, jamais publicada, o primeiro parágrafo inclui a afirmação de que “o fogo Espiritual é o instrutor (Guru) da coisa única”.  H.P.B. esclarece que o instrutor, o fogo, é o próprio eu superior,  a alma imortal de cada indivíduo. [4]
                       
Assim, o fogo espiritual a ser separado da terra “prudentemente e com critério”,  é o aprendizado. Constitui a provação e o processo alquímico pelo qual a alma inferior  se transforma  à medida que se aproxima da alma imortal.  A transmutação começa quando a alma mortal passa a ouvir mais diretamente a voz suave da alma imortal, a “voz do silêncio”, a voz da consciência. 

O texto fala de modo mais ou menos velado sobre a reencarnação do individuo, e ao mesmo tempo sobre a manifestação periódica de um universo ou de um sistema solar. Ele estabelece a necessidade de harmonia entre céu e terra, corpo e alma, matéria e espírito. 

O Jesus do Novo Testamento parece navegar nas águas da mesma sabedoria, quando ensina:

“Em verdade vos digo: tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu.” (Mateus 18:18). 

Assim, existe em diferentes culturas uma profunda percepção de que o ser humano constitui uma ponte entre o céu e a terra. A trindade está presente em cada pessoa na forma  de espírito, alma e corpo. No extremo oriente, a tradição chinesa descreve o homem como formando com o céu e a terra “a grande tríade”. 

Para H. P. Blavatsky, este é o único fragmento que se conhece hoje dos verdadeiros livros Herméticos. “Poimandres” e outros textos atualmente atribuídos a Hermes são segundo ela  “meras recordações mais ou  menos vagas  e equivocadas de diferentes autores gregos e latinos” [5].

NOTAS:

[1] “Isis Unveiled”,  H.P. Blavatsky, The Theosophy Co., Los Angeles, vol. I, pp. 507-508.  Veja também a edição brasileira, “Ísis Sem  Véu”, H.P.B., Ed. Pensamento, S.P., volume II, p. 189.   

[2] “The Secret Doctrine”, H. P. Blavatsky, The Theosophy Co., Los Angeles, vol. II, p. 113.

[3] “The Secret Doctrine”, H. P. Blavatsky, The Theosophy Co., Los Angeles, vol. I, p. 76.

[4] “The Secret Doctrine”,  obra citada,  vol. II, p. 109.  

[5] “Alchemy in  the 19th Century”,  H.P.B., texto incluído em “Collected  Writings of H.P. Blavatsky”, TPH, India/USA, 1973, volume XI, ver p. 549.

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Veja também o texto “Sabedoria Hermética no Século 21”,  de Carlos Cardoso Aveline. O artigo está disponível em www.FilosofiaEsoterica.com  e seus websites associados.

Sobre a missão de Helena Blavatsky e do movimento teosófico, que envolve o despertar da humanidade para a lei da fraternidade universal, veja o livro “The Fire and Light of Theosophical Literature”, de Carlos Cardoso Aveline.

 

A obra tem 255 páginas e foi publicada em outubro de  2013 por “The Aquarian Theosophist”. O volume pode ser comprado através de Amazon Books.

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18 de Novembro de 2014

OS DEUSES NO CÉU

Como os Seres Humanos Dialogam e
Aprendem Com os Planetas e as Estrelas

 Carlos Cardoso Aveline



“Conhece a ti mesmo”, dizia a inscrição no templo do oráculo de Delfos, na Grécia antiga.

A tarefa é fundamental, e não é simples: a filosofia esotérica ensina que o mapa da nossa alma é o mesmo mapa do sistema solar.  

Cada ser humano é um pequeno retrato do cosmo. Em consequência disso, ficamos diante de um paradoxo astronômico. Para que um indivíduo possa conhecer a si mesmo, deve conhecer o universo.

A identidade oculta de cada alma com a galáxia inteira é percebida intuitivamente pelos poetas. Segundo Olavo Bilac, o homem que pensa e ama é tudo: “é a Terra, é Terras de ouro em céus profundos”. E é também “outras almas vibrando em outros mundos”.

O homem, para ele, é “as nebulosas, gêneses imensas, fervendo em sementeiras de astros novos”. E ele é “todo o cosmo em perpétuas chamas”.

De certo ponto de vista, dialogamos secretamente com o céu o tempo todo, e Bilac confessou, em um dos seus poemas mais famosos :

“Ora, direis, ouvir estrelas! Por certo perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto, que para ouvi-las, muitas vezes desperto, e abro as janelas, pálido de espanto”.[1]

O diálogo com o céu se dá de modo em grande parte subconsciente. A ciência astrológica busca conhecer de modo racional essa troca de energias com o universo.  Ela faz um mapa com os detalhes da ligação magnética de cada indivíduo com os diversos planetas. Assim obtemos uma astronomia da alma.  A partir da análise da posição dos astros no céu no momento em que nascemos, a astrologia busca revelar o sentido geral, as possibilidades, os desafios e as oportunidades da nossa existência no mundo dinâmico do sistema solar.  A astronomia da alma é uma psicologia decisiva para quem trata de aprender a viver.

O hábito de observar o céu nasceu junto com a humanidade. Os povos do passado estudavam astronomia e buscavam orientar-se espiritualmente através da sua relação com planetas e estrelas.

Os reis da antiga Índia, da China, do antigo Egito e dos povos andinos consideravam-se filhos do Sol.  Os maias e astecas tinham uma astronomia sofisticada. Os deuses dos gregos moravam no céu. A palavra Zeus vem do termo sânscrito Diaus, que significa “céu”. Zeus, o senhor do espaço cósmico grego, é o mesmo Júpiter dos romanos e serviu de modelo para a figura quase humana do Deus cristão.

O universo é a expressão material de uma inteligência superior. Por isso, embora sua essência esteja além das palavras, suas manifestações são compreensíveis desde vários pontos de vista. As linguagens pelas quais o universo pode ser compreendido não incluem apenas a matemática e a geometria, mas também a percepção mística. Em inúmeros casos, como veremos, essas três linguagens caminham juntas.  

O ato de olhar o céu à noite nos leva a uma compreensão intuitiva e espiritual do universo.  Os planetas eram os deuses peregrinos dos antigos.  O grande axioma da Tábua de Esmeralda afirma que  “o que está embaixo é como o que está em cima, e o que está em cima é igual ao que está embaixo”.[2]  

Segundo a tradição hermética, a natureza espiritual de cada ser humano emana das estrelas. A alma individual desce pelas órbitas dos sete planetas sagrados da antiguidade, até passar pelo mistério do nascimento. Ao tocar o mundo material, ela ganha como instrumento de expressão uma estrutura magnética pessoal que reproduz, de certo modo, a posição do sistema solar naquele momento.   

O espírito de cada planeta ou luminária celeste ativa certas funções na alma de uma pessoa. Saturno é o eterno pensador e o disciplinador. Ele estimula em nós a razão pura, que devora seus próprios “filhos” - os pensamentos.

Júpiter nos dá o poder de acreditar, de compreender - e também uma ambição duradoura. Marte faz nascer em nós o entusiasmo, estimulando a energia impulsiva e criativa da alma. O Sol nos dá o princípio vital, o eu, o foco da consciência, e também anima a função do filósofo e do sábio.

Vênus é a força harmonizadora da alma, a busca da beleza e do equilíbrio, mas também o poder de materializar. Mercúrio é mental e nos permite perceber os diferentes aspectos materiais e espirituais do universo. A Lua estimula a parte emocional e imaginativa da alma. [3]

Com a descoberta de novos planetas, a partir do século 18, a representação tradicional dessas funções primordiais foi ampliada. Netuno reforça em nós a contemplação e a transcendência mística.  Urano estimula um novo individualismo criativo e libertário, enquanto Plutão acelera e torna mais tensa a luta pela autorregeneração interior.   

A filosofia esotérica afirma que a Terra também possui seu espírito planetário, ou melhor, pertence a este espírito. No final do século 20 um ex-cientista da NASA, James Lovelock, formulou a hipótese Gaia demonstrando que nosso planeta se comporta geológica e cosmologicamente como um ser vivo.  Lovelock mostrou que a Terra possui uma complexa fisiologia própria, que se autorregula inteligentemente para manter o delicado equilíbrio da vida.  Através de uma fina sintonia, a Terra é capaz de conservar uma certa temperatura, uma quantidade estável de dióxido de carbono e outras condições físico-químicas necessárias para os seus diversos tipos de organismos.  Assim, a humanidade pode ser vista como parte de um espírito planetário maior, Gaia, que tem vários níveis de consciência cósmica e cumpre um papel específico na ampla dança das esferas do nosso sistema solar. 

Além da psicologia, também as religiões têm sua fonte e origem no espaço comum que reúne astronomia, astrologia, mitologia e filosofia. O universo parece haver criado o homem à sua imagem e semelhança. Por isso, ao olhar o céu, o homem entra em contato mais estreito com a melhor parte de si mesmo.  

É verdade que o ser humano também  parece estar condenado a descrever os deuses e o universo à sua própria semelhança. Essa reciprocidade tem produzido inúmeras ilusões.  À medida que a humanidade evolui, sua visão do universo e do mundo divino vai ficando mais ampla e flexível, e menos distorcida. A divindade passa a ser compreendida como uma lei universal e um espaço eterno e absoluto: o Vazio budista, o Tao chinês, o Parabrahman hindu, o Ain Soph da Cabala. Este princípio fundamental de unidade dinâmica de todos os seres não pode ser descrito em palavras, mas todos fazemos parte dele.

Os antigos sábios gregos, hindus e egípcios acreditavam que o universo era inteligente e que seus processos eram administrados por diversas consciências planetárias e cósmicas. [4]  O conhecimento desses fatos era registrado em parábolas e popularizado pelos mitos antigos. A compreensão abrangente dos processos cósmicos e da relação entre o cosmo e cada ser humano constitui a “Doutrina Secreta” sobre a qual escreveu Helena Blavatsky.   

Os pontos de vista clássicos da ciência e da filosofia gregas foram preservados fielmente pelos grandes cientistas ocidentais. Nicolau Copérnico formulou a versão moderna da antiga doutrina grega segundo a qual a Terra gira em torno do Sol. Ele seguiu a doutrina pitagórica de Aristarco de Samos. Johann Kepler, o astrônomo alemão do início do século 17, guiou-se em suas pesquisas pela sabedoria pitagórica. Kepler buscava compreender a “música das esferas”, a lei da harmonia que rege a vida e o movimento de todos os corpos celestes, e deste modo descobriu as leis pelas quais os planetas giram em torno do Sol. Além de astrônomo, Kepler foi também astrólogo profissional.

Galileu Galilei era um pitagórico, e o Vaticano o condenou à prisão perpétua por seguir a doutrina heliocêntrica de Pitágoras, Aristarco e Copérnico.  Isaac Newton foi um místico. Para Albert Einstein, criador da teoria da relatividade, “o espírito científico não existe sem a religiosidade cósmica”.

Einstein escreveu em 1930:

“Os gênios religiosos de todas as eras se distinguiram por esse sentimento religioso que não conhece dogma e nem um Deus concebido pela imagem do homem. (...)  A função mais importante da arte e da ciência é despertar esse sentimento e mantê-lo vivo dentro daqueles que são receptivos a ele.” E ainda: “Sustento que o sentimento cósmico religioso é o motivo  mais forte e  mais nobre para a pesquisa científica.”[5]

A vanguarda da física recente inclui nomes de espiritualistas como Fritjof Capra e David Bohm. O físico inglês Fred Hoyle expressou um ponto de vista da filosofia esotérica ao afirmar que o universo parece ser dirigido de dentro para fora pela consciência cósmica, e através das leis naturais, conforme ensinam o taoísmo, o hinduísmo e a filosofia grega clássica.[6]

Uma parte da ciência moderna está desembocando na sabedoria eterna. Já não é possível pensar no universo descrito pela astronomia sem experimentar uma expansão de consciência.  Em nossa civilização atual, as notícias sobre a observação do céu têm um forte sabor de contemplação mística, ou de meditação Zen.  

A noção de espaço e tempo nas pesquisas astronômicas atuais rompe radicalmente com o estado de consciência a que estamos acostumados no mundo externo. De acordo com a nossa experiência diária, a luz parece chegar no mesmo instante a qualquer lugar. Do ponto de vista do estudo do espaço universal, a luz se move com grande lentidão.  Mesmo a luz do Sol leva oito minutos para chegar até nós, e demora quase quarenta vezes mais - cerca de 5 horas, em média - para chegar até Plutão, já na fronteira do sistema solar.  Para alguém situado na superfície gelada de Plutão, ou em sua lua Caronte, o Sol é apenas uma estrela um pouco mais brilhante que as outras.

E Plutão é nosso vizinho. Há distâncias maiores.  Galáxias incontáveis estão situadas a bilhões de anos-luz de nós. No momento em que os astrônomos veem outra galáxia, ela já não existe do modo como é vista. Devido à velocidade relativamente lenta da luz através das distâncias cósmicas, o que chega até eles é como uma velha foto amarelecida pelo tempo.  No caso das galáxias mais longínquas, os observadores olham hoje para um passado imensamente afastado. Veem apenas a infância do atual cosmo, bilhões de anos atrás. E ninguém vai poder esperar bilhões de anos para saber  num futuro imensamente distante como elas estarão agora, nesta primeira metade do século 21.   

Há aqui um koan zen, um paradoxo sobre o qual se pode meditar até atingir a iluminação. O céu que enxergamos é uma coleção de túneis do tempo de tamanhos diversos.

A simultaneidade dos objetos que vemos é apenas aparente. A luz de uma determinada estrela pode ter viajado apenas dez ou quinze anos para chegar até nós, enquanto que a luz de uma outra estrela reflete uma realidade de muitos milhões de anos atrás.

O cosmo é um mestre e nos ensina humildade. Por mais que o estudemos, ele continua sendo um mistério. Albert Einstein escreveu:

“A coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério. É a emoção fundamental que está no berço da verdadeira arte e da verdadeira ciência. Aquele que não conhece o mistério e não pode mais se surpreender, não pode mais se maravilhar, é como se estivesse morto.”[7]

Quando olhamos as estrelas, não é apenas um espaço cósmico imenso que nos contempla como em um espelho. Espaço e tempo são inseparáveis. Estamos frente a frente com a eternidade, a totalidade das etapas da evolução do universo atual, cuja história está escrita no céu.


NOTAS:

[1] A primeira citação de Bilac é do poema  “Microcosmo”, em “Poesias”, Olavo Bilac, Ediouro, 1978, p. 188. A segunda citação é do fragmento XIII do poema “Via Láctea”, p. 37 do mesmo volume.

[2] Veja os textos “A Tábua de Esmeralda” e “Sabedoria Hermética no Século 21”. Estes dois artigos de Carlos Cardoso Aveline estão disponíveis em www.FilosofiaEsoterica.com e seus websites associados.

[3] Informações adaptadas e atualizadas a partir de “The Philosophy of Astrology”, Manly P. Hall, The Philosophical Research Society, Los Angeles, EUA, 1971, 91 pp., pp. 36-38 e 42-44.

[4] Veja, em nossos websites, a “Oração aos Planetas”, de Carlos Cardoso Aveline.

[5] “Assim Falou Einstein”, obra compilada por Alice Calaprice, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1998, 258 pp., ver pp. 159-160. 

[6] Sobre Fred Hoyle, veja seu livro “O Universo Inteligente”, Editorial Presença, Lisboa, 1993, pp. 236-237.

[7] “Assim Falou Einstein”, obra citada, p. 207.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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ORAÇÃO AOS PLANETAS

O Amor e a Lei Guiam
Nossa Pequena Aldeia Solar  

Carlos Cardoso Aveline



A percepção consciente de que certas energias da alma humana pertencem ao mundo celeste faz despertar uma espécie de devoção.

O amor pelo que é divino e cósmico se expande quando percebemos pouco a pouco  a influência inspiradora dos espíritos de cada planeta e corpo celeste. Os astrônomos provavelmente sentem o mesmo respeito diante do cosmo, ainda que para muitos deles essa emoção seja subconsciente.

Não por acaso Albert Einstein escreveu:

“É muito difícil elucidar esse sentimento cósmico-religioso para qualquer pessoa que não o tenha dentro de si.” [1]

Os seres humanos são alunos diante de um céu infinito. São irmãos menores dos deuses do céu, e não seria má ideia improvisar uma oração. Mas como fazer isso?

O tema de como orar aos espíritos de estrelas e planetas é abordado na obra clássica “Three Books of Occult Philosophy or Magic”, de Agrippa.[2]  Cabe também levar em conta  o ensinamento de Helena P. Blavatsky sobre orações. Segundo a teosofia original, elas não devem conter pedidos pessoais. Servem para expressar uma afinidade e para desenvolver uma vontade ativa e criativa na direção do que é bom, belo e verdadeiro.

Vejamos uma experiência prática neste sentido:

Oração aos Planetas

Om, Shanti.

Agradeço ao espírito planetário do distante Plutão pela dança celeste que mantém com sua lua Caronte.

Ele é o instrutor do imponderável e representa a luz invisível do Centro da Galáxia. Plutão ensina o dom da luta total, da surpresa e do renascimento. Alimenta a capacidade humana de buscar o infinito. Transmite o poder de deixar de lado o que não serve mais e de renovar o que deve ser renovado.

Sou grato à alma de  Netuno.

Este gigantesco embaixador da galáxia transmite sem palavras à minha alma a paz insondável do oceano primordial. Aprendo com Netuno sobre a alma do universo. Descubro a arte de dissolver o que é pequeno no que é grande, para que a unidade sem fronteiras seja vivenciada no templo do coração. Mas a vigilância é necessária. A cautela manda evitar toda falta de discernimento quando se trata da energia netuniana.

No templo da minha alma, agradeço silenciosamente às inteligências planetárias de Urano.  

O regente da era de Aquário ensina sobre a amplitude ilimitada do ar, a intensidade do relâmpago, a determinação de mudar e o potencial de cada instante. Aprendo com Urano a expressar uma parcela da energia luminosa e criativa do universo. Porém, a energia de Urano não deve anular minha persistência, e nisso sou grato a Saturno.

O Mestre do Anéis transmuta lentamente as estruturas densas e sutis do meu ser. Não faz isso em função do que seria agradável nesse ou naquele momento, mas segundo o que é correto perante a Lei. Quero aprender com o mestre do Tempo e do Carma a viver em sintonia crescente com o dever mais sagrado, com base em uma perspectiva de longo prazo.

O rigor metódico do Carma é compensado pela vocação de vitória, e Júpiter é o mestre da firmeza e do otimismo. Graças a ele, se expande em mim a determinação de buscar o melhor em todas as circunstâncias.

Com Júpiter os seres humanos aprendem a erguer seu olhar na direção do mundo celeste e a ter confiança no futuro luminoso da vida infinita. Ao mesmo tempo, cabe evitar exageros quando vivemos a energia expansiva de Júpiter.

Agradeço a Marte, o mestre do bom combate, uma fonte sagrada de coragem para inovar. Aprendo com o deus da luta a expressar em minha vida algo da energia transformadora do cosmo. Abstenho-me, porém, da violência desnecessária.

Sou grato à Terra, que vive há séculos o renascimento de uma consciência cósmica. Vênus é o irmão mais velho que protege a alma do nosso planeta. Agradeço à estrela da manhã e do anoitecer pelo equilíbrio e pela força da sua energia. Tentarei colocar em ação com perseverança o amor pelo que é bom e verdadeiro.

Mercúrio,  o mensageiro dos deuses, é  um mestre da compreensão. Dá clareza a meus pensamentos e aumenta em minha mente a pureza e a força da Verdade Eterna. Minha honestidade será testada na interação de alma com Mercúrio.

A pequena Lua se sacrifica maternalmente pela Terra.

Ela ensina amor, autossacrifício e respeito pelo passado. Agradeço a ela por testar e fortalecer minha determinação de  agir e amar além das marés oscilantes de curto prazo.

Penso agora no Mestre dos Mestres.

Seu círculo dourado domina o céu.

Comemoro em minha consciência a luz eterna e a vida infinita. O Sol, o Surya indiano, o Apolo grego, é a contrapartida celeste do meu coração. É o centro astronômico, astrológico e oculto  da nossa pequena aldeia cósmica,  na periferia da Via Láctea. Em sintonia com a influência benéfica do Sol espiritual, mando paz a todos os seres, e agradeço.

Om, Shanti.
Shanti, Om.

NOTAS:

[1] “Assim Falou Einstein”, compilação de Alice Calaprice, Ed. Civilização Brasileira, RJ, 1998, ver pp. 159-160.

[2] “Three Books of Occult Philosophy or Magic”, de Henry Cornelius Agrippa, 288 pp., Kessinger Publishing Co., Montana, U.S.A. Veja especialmente as pp. 210 e 211. Agrippa é citado nas Cartas dos Mahatmas.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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16 de Novembro de 2014

A TEOSOFIA DOS ANDES

Algumas Lições da Milenar Sabedoria
Andina São Decisivas Para o Século 21

Carlos Cardoso Aveline

  



A religião dos antigos é a religião do futuro. Dentro
de alguns séculos, não haverá mais crenças sectárias
em nenhuma das grandes religiões da humanidade.”

Helena P. Blavatsky, em 1877 [1]


Quando o discípulo está pronto, a lição aparece. Quando a sociedade atual estiver disposta a resgatar a paz, ela poderá ouvir as lições que emanam da elevada cordilheira dos Andes. Se verá então que alguns dos  ensinamentos mais importantes não são verbais, mas ocorrem no diálogo com os seres da natureza.

Depois de séculos de repressão, a cultura andina tradicional começou a ser revalorizada durante o século 20. Durante as próximas décadas, é possível que ela dê contribuições significativas para a construção de uma civilização global fraterna.     

Os povos andinos vêm exercendo uma atração crescente sobre milhares de pessoas de todas as partes do mundo. Herdeiros do legendário continente perdido da Atlântida, eles possuem uma sabedoria e uma experiência milenares. A Cordilheira dos Andes abriga centros magnéticos que influenciam a vida oculta e a fisiologia sutil do planeta Terra. Por vários níveis de motivos, o mundo andino tem um papel a cumprir na transformação cultural necessária à passagem para uma civilização sustentável.  

A música encantadora das quenas, as montanhas nevadas e o contato direto, calmo e respeitoso do homem com a terra, com a água e o sol, constituem uma vasta mensagem não-verbal que a nossa civilização deve ser capaz de assimilar,  para que possa redescobrir o caminho do coração e vencer os desafios éticos, ecológicos e sociais que a ameaçam.

Não se trata de idealizar cegamente as culturas andinas. Em vários aspectos, elas estão erradas e não dão um bom exemplo. É o caso da prática pré-colonial de sacrifícios de seres humanos,  ou de sacrifícios de animais,  como a lhama. É o caso, também, das  suas práticas supersticiosas, ou do uso intensivo de bebidas alcoólicas em suas cerimônias religiosas populares. A teocracia incaica, comparada por Helena Blavatsky ao sistema de castas da Índia, não será útil para  a próxima civilização. Tampouco a perspectiva tribal da vida. A sabedoria eterna não está na casca envelhecida da cultura andina, na qual os sacrifícios com sangue parecem corresponder aos  tempos da decadência final, já pouco antes da chegada dos espanhóis.  A sabedoria útil para as próximas etapas da evolução humana está na essência invisível aos olhos - a doutrina do coração -  e na noção de unidade entre todos os seres e o cosmo, vivenciada pelas culturas aimara e quechua.[2]  

Cada aspecto da vida diária é reconhecido pela filosofia andina como parte de um processo integralmente divino, que inclui ao mesmo tempo o material e o espiritual. Esta ideia é um axioma da filosofia teosófica, e é defendida pelo filósofo ocidental Spinoza. 

Não existe para os andinos a dissociação - inventada pelo cristianismo - entre o mundo divino e o mundo material. Na cultura andina, a mãe-terra, Pachamama, é sagrada.  Como toda mãe, a terra é quase onipresente na vida dos seus filhos pequenos. Está sempre perto deles. É ela que os alimenta, através da agricultura. É ela que lhes dá abrigo, através das casas de barro, vistas como extensões dos braços maternos.  “A analogia da mãe reprodutora e da terra reprodutora é fácil de perceber”, escreve o estudioso Homer L. Firestone. “Os laços que unem o homem ao pai criador podem ser ocultos ou desconhecidos, mas os laços entre mãe e filho são mais evidentes”. [3]

Comparado com o cidadão ocidental típico, o homem andino tem sua consciência centrada mais no hemisfério cerebral direito - que percebe as coisas de modo simultâneo e por analogia  - do que no hemisfério cerebral esquerdo, caracterizado pela lógica linear e pelas operações sequenciais.  A consciência andina é naturalmente mística. No ocidente cristão, Francisco de Assis fez no seu famoso Cântico das Criaturas uma oração panteísta,  tratando como seus irmãos a Lua, o Sol, o fogo, a terra, a água e o vento. Do mesmo modo, os habitantes tradicionais das Cordilheira dos Andes sabem que a energia sagrada está presente em todas as coisas. Para eles, além de Pachamama, a mãe-terra sagrada, existe a Pacsamama, mãe-lua; a Coyamama, mãe metal; Axomama, mãe-batata; Saramama, mãe-milho; e Mamacocha, mãe-mar.   O homem tem uma atitude de humildade e gratidão diante de cada aspecto e elemento do meio ambiente.

Um detalhe das línguas aimara e quechua - as duas principais do mundo andino  - deixa clara a predominância do hemisfério cerebral direito e da função intuitiva, não-dualista. Em aimara, a palavra pacha significa tanto tempo como lugar.  Isso implica que espaço, tempo e lugar são um só e indivisíveis.  Já em quechua, há uma  diferença mínima entre lugar (pach) e tempo (pacha).  No Ocidente, sabe-se que espaço e tempo são conceitos inseparáveis quando vistos desde níveis superiores e abstratos de consciência.  Assim, de certo modo, Pachamama não é apenas a nossa mãe-terra, mas também nossa mãe-espaço-tempo,  a mãe-matéria, Maya, Maria, a virgem primordial que dá nascimento e vida ao mundo físico, segundo a tradição esotérica presente em todas as grandes religiões.  “A união do espaço e do tempo em pachamama produz um sentido de infinitude: mostra o lado imaterial dela”, escreve Homer L. Firestone.

Durante os últimos séculos,  o avanço civilizatório liderado pelos povos que tiveram como base territorial inicial a Europa girou em grande parte em torno da atividade separadora do hemisfério cerebral esquerdo. Separamos céu e terra, bem e mal, luz e  sombra. Separamos o sagrado e o profano, o homem e a natureza. Acentuamos a distância entre pobres e ricos, aumentamos a distância entre o mundo humano e o mundo divino, e aprendemos a separar as partículas atômicas,  criando o fantasma das guerras nucleares. Felizmente, esse ciclo já se esgota e nosso aprendizado avança por novos rumos.  Surgem pouco a pouco os elementos de uma futura civilização que redescobrirá a síntese. Nela a ciência deverá ser interdisciplinar e inseparável da ética; a religiosidade será desburocratizada e universal; as filosofias serão comparadas; e as fronteiras nacionais perderão a importância que tinham até o século 20.  

A consciência humana se desloca novamente para o hemisfério cerebral direito, ganhando amplitude à medida que avança em direção ao plano do intuitivo, mas sem perder nada do que ganhou com o desenvolvimento do hemisfério cerebral esquerdo, lógico, sucessivo - eficiente no mundo concreto. Nessa volta para o caminho da percepção integrada das coisas, a consciência humana reencontra e recupera as  tradições, as visões de mundo e os modos de ser da cultura andina e de outros povos indígenas americanos. Não se trata de uma volta ao passado.  É o  passado que volta até nós, emergindo ciclicamente das sombras do esquecimento, e ele faz isso de um modo que nos possibilita compreender e viabilizar nosso futuro. Porque o tempo avança em espiral: o fio dourado da eternidade nos leva ao futuro resgatando criativamente a essência das experiências passadas. 

Os mitos andinos antigos integram em si o conhecimento filosófico, cosmológico e histórico.  Neste contexto,  Wiracocha, o deus criador, interage com Pachamama, a mãe-terra. Como toda figura paterna, Wiracocha impõe limites. Este deus masculino deu à humanidade três mandamentos:

“Não mentir, não ser frouxo e não roubar.” [4]

Vale a pena comparar esses mandamentos com o livro II dos Ioga Sutras de Patañjali, o grande tratado oriental de Raja Ioga. Ali vemos cinco votos de abstenções ou de autorrestrições [yama]:

* a abstenção de violência [ahimsa];

* abstenção de falsidade [satya];

* abstenção de roubo [asteya, que vai muito além de mero roubo de objetos físicos];

* abstenção de indulgência [brahmacharia], e

* abstenção de cobiça [aparigraha]. 

É clara a correspondência entre as abstenções da Raja Ioga  e os três mandamentos de Wiracocha.  Não mentir é satya.  Não roubar é asteya. Não ser frouxo inclui tanto a renúncia à indulgência e à preguiça [brahmacharia], como  o abandono da  cobiça [aparigraha]  e o abandono da violência [ahimsa].  

Este é apenas um exemplo, entre muitos, do fato de que há uma sabedoria universal, e ela está  presente tanto nos Andes como no Oriente. Desse saber teosófico sem fronteiras participam também as civilizações antigas da Grécia e de Roma. Os preceitos vistos acima apontam para a essência da filosofia estóica e da tradição pitagórica e platônica.

Wiracocha é apenas uma das divindades andinas.  O mito milenar conta que, no começo de tudo, Wiracocha emergiu do fundo do lago Titicaca, símbolo das águas primordiais do cosmo.  E Wiracocha fez o Sol, a Lua e as estrelas. Depois ele criou o povo andino. Ele fez isso  assoprando a vida para dentro de estátuas de pedra. A imagem simbólica das estátuas de pedra se refere  às formas sutis primordiais ou modelos de seres humanos depositados na luz astral desde  manvântaras anteriores, isto é, desde os períodos prévios de manifestação da vida no cosmo.  A dureza das pedras simboliza a longa durabilidade de tais imagens arquetípicas. Wiracocha não criou os homens a partir do nada por um motivo bastante simples. A natureza é eterna e nela nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, tudo se recicla constantemente, conforme dizem a lei de Lavoisier, o livro bíblico Eclesiastes (capítulo 1), e a filosofia esotérica clássica de H.P. Blavatsky.

É famosa a imagem de Wiracocha gravada na Porta do Sol, nas ruínas da cultura Tiahuanaco, às margens do lago Titicaca. Ele usa o Sol como coroa, ou seja, o sol é o seu veículo físico e externo, segundo explica a sra. Blavatsky.  Wiracocha carrega trovões como armas em suas mãos, e ele chora derramando lágrimas cujo simbolismo é duplo.  Elas expressam tanto a compaixão, no plano moral e espiritual,  como as chuvas que purificam e renovam a vida física. Um dos numerosos deuses hindus, Brahma, também chora. Seu pranto é de arrependimento, e expressa autopurificação. [5]

Na verdade, a figura personalizada de Wiracocha simboliza não só a lei do carma, mas também o conjunto das inteligências divinas que guiam a evolução da vida planetária.  Vencida certa etapa depois da “criação”,  Wiracocha fica “insatisfeito” com os seres humanos. No momento certo do ciclo evolutivo, Wiracocha varre então o mundo com uma inundação, eliminando a raça de gigantes que habitava a vasta Atlântida. A seguir,  Wiracocha faz outros homens melhores, também da pedra, como na primeira vez, ou seja, a partir das imagens primordiais da luz astral.  

Na física moderna, o conceito de ordem implícita formulado por David Bohm permite explicar o processo como Wiracocha criou o homem: há uma ordem implícita ou um arquétipo que se manifesta de tempos em tempos no mundo visível como  presença explícita.  O conceito de campo mórfico, formulado pelo biólogo Rupert Sheldrake,  aponta para a mesma realidade.

Segundo a literatura teosófica, as primeiras raças humanas não usavam corpos físicos. Só a terceira e quarta raças tinham corpos, que eram muito maiores que o nosso organismo atual, segundo revela Helena Blavatsky em “A Doutrina Secreta” [6].  De fato, lendas e tradições de todos os povos contam sobre a existência passada de seres gigantescos - animais e humanos - e a cultura andina está longe de ser uma exceção. 

A inundação, usada  como instrumento para  eliminar os homens que Wiracocha criara e com os quais estava insatisfeito, corresponde naturalmente ao grande dilúvio da narrativa judaica, adotada pelos cristãos. Mas o fato também equivale à inundação de Atlântida, sobre a qual escreveu Platão. A catástrofe ocorreu quando a maior parte da população do continente havia caído  em um egoísmo desenfreado, deixando de corresponder ao propósito da evolução, que é o autoaperfeiçoamento. Todas as tradições culturais e religiosas estabelecem uma relação de causa e efeito entre a ética de um povo e o ciclo geológico e ambiental ao qual ele está ligado e do qual depende. Os cidadãos das primeiras décadas do século 21 têm motivos para refletir sobre esse ponto.

É interessante  registrar que, para evitar um novo fracasso da sua criação, Wiracocha passou a caminhar pessoalmente entre os homens, disfarçado como um pobre mendigo esfarrapado, mas ensinando coisas úteis ao progresso civilizatório; e ele também fazia milagres. É comum, na mitologia hindu, que grandes deuses apareçam entre os homens caracterizados como mendigos. Essa imagem simboliza a presença constante de sábios e mensageiros divinos entre os humanos - embora quase sempre incógnitos.  Os deuses-mendigos nem sempre são reconhecidos.

Uma das principais lições  que o mundo andino nos transmite é, pois, a de que o egoísmo leva à decadência, não só para um indivíduo, mas para uma civilização. É pelo altruísmo que se consegue a regeneração da vida.  

A tradição dos Andes ensina que a energia divina do cosmo está presente nas árvores, nos rios, nas pedras, estrelas e montanhas, assim como nas plantas e nos animais. Este é também o ensinamento das filosofias asiáticas, e um mestre dos Himalaias afirmou, referindo-se ao espírito universal:

“Cada grão de areia, cada pedra arredondada ou rochedo de granito é aquele espírito cristalizado ou petrificado.” [7]

Enrique Rocha Franz, um estudioso boliviano, explicou no final do século 20:

“A religiosidade andina tradicional está fundada na percepção do poder manifesto da sacralidade ou dignidade tutelar dos elementos vitais da natureza em cada entorno territorial, e resumidos no poder matricial da Pachamama [mãe-terra]. A relação fundamental, tanto humana como cosmo-comunitária, não é de adoração mas de reciprocidade entre o dar, o receber e o retribuir. Há uma inter-relação solidária profunda e íntima, tanto entre as pessoas como nas energias da terra e do cosmo, das quais dependem as relações de produção...”

E ainda:

“Constituímos um mundo de intimidade familiar a todos os níveis, no plano  humano e no plano terrestre ou  cosmo-circunstancial temporal. Dialogamos, conversamos com cada um dos elementos da natureza, resumidos em terra, água, ar e calor solar, que são energias sagradas.” [8]

A filosofia andina antiga vê o homem integrado a todos os seres. Ela supera o intelectualismo frio que ainda conduz vastos setores da nossa civilização. A retomada da motivação altruísta é parte do nosso despertar espiritual.  Porém, o sentimento correto e profundo não nega o uso da  razão. Ao contrário, ele amplia o seu alcance, porque só um mundo emocional purificado coloca a razão humana a serviço do bem coletivo e da verdade universal. 

Para a sabedoria andina, cada gesto humano e cada  aspecto da  nossa vida cotidiana devem fazer parte de um grande ritual permanente de celebração da vida e do cosmo.  Os deuses andinos são inseparáveis do cotidiano.  Por isso, a batata e o milho estão vinculados a seres divinos. Plantar é sagrado. Colher é sagrado.  Separar sementes para as plantações do próximo ano é um ritual sagrado. Construir uma casa é algo que se faz na presença dos deuses.  Há uma unidade fundamental entre o cotidiano e o sagrado. Cada atitude nossa faz parte da vida do cosmo, e, consequentemente, precisamos agir de modo correto.

Depois de  séculos de  destruição colonial e neocolonial, a resistência cultural andina vem produzindo frutos e se aproxima de uma nova primavera. Surge passo a passo uma autoestima coletiva nos povos andinos. Na área científica, desde o século 20, inúmeras pesquisas têm mostrado a importância das culturas da cordilheira sul-americana. Os avanços arqueológicos são um exemplo disso. No norte do Chile, no local chamado El Morro, foram descobertas, em 1983, noventa e seis múmias cuja antiguidade está calculada - graças a testes com carbono 14 -  em cerca de 7.800 anos.  Estas  relíquias são vários milhares de anos mais antigas que as múmias egípcias. O processo usado para a mumificação é mais complexo que o usado no Egito. O fato reforça as afirmativas da filosofia esotérica segundo as quais havia civilizações avançadas habitando essas terras há dezenas, e mesmo há centenas de milhares de anos - e elas dominavam a escrita.   

De fato, ao contrário do que a ciência convencional afirmava até recentemente - mas confirmando as afirmações de Helena Blavatsky no século 19 - existem provas e indícios  suficientes para confirmar que os povos andinos usavam a escrita por hieróglifos, assim como faziam os egípcios.

Pesquisadores como Dick Edgar Ibarra Grasso, Aldo Ottolenghi e mais recentemente  José Huidobro Bellido juntaram uma massa impressionante de evidências, como inscrições em pedras e estátuas, textos em couros, e até a estátua de um escriba, em Cusco, representando um homem que lê hieróglifos escritos em uma tabuleta presa em suas mãos. Os  pesquisadores registraram 12 tipos diferentes de escrita.[9]

Muito antes de serem divulgadas essas evidências sobre o uso da escrita no mundo andino tradicional, Helena Blavatsky - que viajou pessoalmente durante meses pelos Andes - escreveu em “A Doutrina Secreta”, obra publicada em 1888:

“Os membros de várias escolas esotéricas, cuja sede central está além dos Himalaias , e cujas ramificações podem ser encontradas na China, no Japão, na Índia, no Tibete e mesmo na Síria, além da América do Sul, afirmam ter em sua posse a soma total das obras sagradas e filosóficas, em volumes manuscritos e impressos; todas as obras, de fato, que já foram escritas, em quaisquer idiomas ou caracteres, desde que começou a arte de escrever, incluindo os hieróglifos ideográficos, o alfabeto de Cadmo, e o Devanagari.” [10]

Nesse trecho Blavatsky sugere que a ramificação sul-americana - leia-se, andina - de uma biblioteca esotérica global possui textos gerados nessa parte do planeta há muitos séculos. Ao dizer isso, ela antecipou em mais de 50 anos a tese dos pesquisadores do século 20.  Mas ela  também afirmou mais expressamente - em outros textos - que os andinos tiveram escrita  em tempos anteriores à época da chegada dos europeus. Na verdade, a escrita foi inventada em Atlântida, e não na Fenícia, e era inicialmente ideográfica e cifrada, como nos Andes. [11]

A redescoberta e a revalorização da sabedoria universal e ecológica dos Andes tradicionais é um dos elementos pelos quais a sociedade sul-americana pode reunificar-se com sua própria alma e sua essência, e assim  eliminar as fontes desnecessárias de sofrimento e ignorância. A filosofia esotérica mostra como isso pode ser feito.

Neste vasto contexto, os mandamentos éticos de Wiracocha - não mentir, não ser frouxo e não ser desonesto -  constituem uma parte do legado andino para a civilização universalista do futuro.

NOTAS:

[1] “Ísis Sem Véu”, Helena Blavatsky, Ed. Pensamento, SP, edição em quatro volumes, ver volume II, p. 281. Na edição original em língua inglesa, ver “Isis Unveiled”, Theosophy Co., Los Angeles, 1982, volume I, p. 613. A primeira edição foi publicada em 1877.

[2] Pronúncia: “quêtchua”.

[3] “Pachamama en la Cultura Andina”, de Homer L. Firestone,  Ed. Los Amigos del Libro, La Paz, Bolivia, 1988, 135 pp., ver p. 23.

[4] “Pachamama en la Cultura Andina”,  obra citada, p. 39.  

[5]  Sobre o choro de Brahma, veja “Isis Unveiled”, obra citada, volume I, p. 265. Na edição brasileira, “Ísis Sem Véu”, obra citada, volume I, p. 317.  

[6] “A Doutrina Secreta”. A tradução passo a passo da edição original desta obra está disponível em www.FilosofiaEsoterica.com.  A edição da Editora Pensamento, em seis volumes, traduz a edição adulterada por Annie Besant em língua inglesa.

[7] “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, Carta 67, volume I, p. 288.

[8] “Visión Cósmica de la Religiosidad Andina Tradicional”, texto do investigador Enrique Rocha Franz do Centro de Culturas Andinas, CECUA. Documento datilografado de duas páginas, transcrição de uma palestra dada na Bolívia em janeiro de 1998.  

[9] “La Verdadera Escritura Aymara”, de José Huidobro Bellido, Freddy Arce Helguero e Pascual Quispe Condori, Ed. Producciones CIMA, La Paz, Bolívia, 1994, 141 pp. Sobre a escrita andina, veja também a obra “La Verdadera Historia de los Incas”, de Dick Ibarra Grasso, Editorial “Los Amigos del Libro”, La Paz / Cochabamba, 1978, 648 pp., especialmente pp. 208 e seguintes.

[10] “A Doutrina Secreta”, tradução passo a passo disponível em www.FilosofiaEsoterica.com. Veja a página 15. Na edição original em inglês (“The Secret Doctrine”, Theosophy Co.), veja volume I, p. XXIII.

[11]  Veja os primeiros parágrafos da parte IV do texto “A Land of Mystery”, publicado em espanhol sob o título “Una Tierra de Misterio”. O texto pode ser localizado  na seção “Teosofía en Español” e na seção “Helena P. Blavatsky”  de  www.FilosofiaEsoterica.comElementos comuns entre a escrita andina, a escrita de outros povos americanos e o Senzar, o idioma esotérico  dos Iniciados orientais, são mencionados por H.P.B. no prefácio de “A Voz do Silêncio”. A semelhança entre as linguagens escritas da América pré-colonial e o Senzar também fica clara na página 439, volume II, de “The Secret Doctrine”, de H.P.B., edição original da Theosophy Company, Los Angeles. Ali, HPB também afirma que a escrita foi inventada pelos atlantes, e não pelos fenícios, e menciona a escrita ideográfica de indígenas norte-americanos, feita com base em uma combinação de imagens de pássaros e outros animais. As evidências disponíveis das linguagens escritas andinas têm frequentemente as mesmas características.

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Leia em www.FilosofiaEsoterica.com  o texto “Una Tierra de Misterio”,  de Helena P. Blavatsky.  Veja também o artigo “Um Parentesco Entre a Índia e os Andes”, de Carlos Cardoso Aveline.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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