30 de abril de 2015

PREGAR NO DESERTO

Uma Lição de Desapego e Perseverança

Múcio Teixeira




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Nota Editorial de 2015:

No poema a seguir há um aparente desânimo
diante da lentidão  do progresso humano. A
amargura, no entanto, é uma licença poética.

O ritmo da evolução da alma e da natureza não
deve obedecer às ansiedades humanas. A aceitação
madura do tempo de longo prazo liberta mais do
que o sentimento de pressa ou o desejo pessoal de
bem-estar. Nenhum esforço feito na direção correta
é jamais perdido. Por outro lado, o ser humano hoje
vive uma grande quantidade de dor desnecessária,
e é hora de abrir mão do cômodo apego à ignorância
organizada. Um Mestre de Sabedoria escreveu:

“Quanto à natureza humana em geral, ela é igual agora
a como era há um milhão de anos atrás: preconceito
baseado no egoísmo; uma resistência generalizada a
renunciar à ordem estabelecida das coisas em função
de novos modos de vida e de pensamento - e o estudo
oculto requer tudo isso e muito mais -; orgulho e uma
teimosa resistência à Verdade, quando ela abala as suas
noções prévias das coisas - tais são as características da
sua época, especialmente nas classes inferiores e médias.” [1]

O poema do brasileiro Múcio Teixeira faz uma
denúncia do velho hábito humano de rejeitar a sabedoria.

Diante do desafio, cabe trabalhar em paz. Pregar no deserto
significa emitir um mantra. A tarefa requer discernimento: se o
trabalho for bem feito, no ritmo certo surgirá e crescerá um oásis.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Pregar no Deserto

Múcio Teixeira

Sócrates diz: “Conhece-te a ti mesmo”.
E o mundo, que isto ouviu, caminha a esmo.

Abelard sentenciou: “Tudo é conceito”.
E o mundo segue desse mesmo jeito.

“Eu penso, logo sou” brada Descartes,
E o mundo lembra o Pedro Malasartes.

Locke exprimiu-se assim: “Sou, quando sinto”.
E o mundo anda no mesmo labirinto.

Hume, a cismar: “Sonho que sinto e penso”.
E o mundo sempre num nevoeiro denso...

Kant: “Tudo está no eu”. - E tudo e todos,
Num eterno vaivém, parecem doidos!  [2]


NOTAS:

[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Brasília, Vol. I, Carta 1, p. 38. (CCA)

[2] “Num eterno vaivém”. Alusão à teoria dos ciclos e da periodicidade da vida, que inclui a reencarnação. (CCA)

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O poeta Múcio Teixeira nasceu em Porto Alegre em 13 de setembro de 1857, e viveu até agosto de 1926.

O poema “Pregar no Deserto” foi publicado no volume “Brasas e Cinzas”, de Múcio Teixeira, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, quarta edição, 1922, 477 pp., ver pp. 256-257.  A ortografia foi atualizada.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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29 de abril de 2015

A CIÊNCIA DAS ESTRELAS

Trabalhar Pela Humanidade Começa
Quando Renunciamos ao Desejo Pessoal

Joana Maria Pinho

  


O sucesso de qualquer tarefa depende da energia motivadora e da qualidade da atenção. Quando nos concentramos apenas no desenvolvimento do trabalho nossas energias servem o processo criativo. Não importa quais os resultados do que tentamos empreender. Colocando o melhor de nós na tarefa ela resultará em ensinamento, felicidade e sentido de dever cumprido.

A Teosofia é a ciência das estrelas [1] e trabalha com dimensões de tempo e espaço eternas e infinitas. Aquele que trabalha para a causa teosófica  deve manter o foco na tarefa de semear a verdade e o altruísmo, sem esperar por recompensas. Focar a atenção na colheita que ainda não ocorreu não fará com que a semente dê fruto, mas dirigir a energia para o plantio faz toda diferença. A tarefa dos teosofistas é assim grandiosa e humilde.  Sem saberem como o luminoso alimento se irá desenvolver e quando ficará maduro, eles limitam-se a semear em abundância para que todos no futuro o possam colher. Um Mahatma dos Himalaias escreveu:

“… O dever do teosofista é como o do agricultor; abrir os sulcos e semear os seus grãos da melhor maneira possível: o resto é com a natureza, e ela é a escrava da Lei.” [2]

Há corações cheios de boa vontade que querem transformar o mundo num centro de conhecimento espiritual e de esperança. Mas a natureza humana é complexa e contraditória.  Ao mesmo tempo que há o impulso natural por viver o bem comum, surgem mecanismos construídos  por setores negativos do eu inferior que visam colocar a vida a serviço de desejos individuais.

A personalidade deve ser constantemente iluminada pela luz do autoconhecimento. O eu inferior não é o centro do universo e o mundo não gira à sua volta. O indivíduo que queira realmente agir de forma construtiva na natureza deve meditar nas seguintes palavras de “Luz no Caminho”:

“…O homem deve ter chegado àquele ponto em que vê a si mesmo apenas como mais um em meio às vastas multidões que vivem; apenas mais um, entre os grãos de areia levados para lá e para cá pelo mar da existência vibratória. Afirma-se que cada grão de areia no leito do oceano é levado a seu tempo até a praia e vive à luz do sol por um momento. O mesmo ocorre com os seres humanos. Eles são levados para lá e para cá por uma grande força; e cada um, no momento certo, sente sobre si os raios solares. Quando um ser humano é capaz de ver a sua própria vida como uma parte do todo, ele deixa de lutar para obter qualquer coisa para si mesmo.” [3]

Trabalhar pela humanidade começa quando renunciamos ao desejo pessoal. Os projetos tornam-se altruístas quando há neles o caráter puro e universal. E o caráter de um projeto não se encontra apenas nos planos das intenções e ideias. Ele está em contínua formação através daquilo que cada uma das suas partes cultiva num terreno que, apesar de parecer aos olhos de alguns como “próprio”, é um espaço coletivo.

Ninguém deve tentar fazer do trabalho teosófico um palco onde se encena altruísmo e se ganha aplausos. Teosofia não é um espetáculo de entretenimento. Ela é filosofia, ciência e arte transformadas em formas de vida. Qualquer tarefa que sirva a natureza divina é sagrada e o estudante deve-se esforçar por se tornar um ser completo ao cumprir todas elas. 

A sabedoria estelar só é dada a aqueles que entram em sintonia com as estrelas. De forma silenciosa e contínua elas dirigem seus raios de luz em todas as direções.  É necessário brilhar como elas brilham. Um Mestre de Sabedoria referiu numa Carta:

“ ‘Ousar, querer, agir e manter silêncio’ é o lema nosso e de todo cabalista e ocultista.” [4]

Nada é impossível para aquele que age com a energia pura do céu. Um Mahatma escreveu:

“Se ele não se cansar de tentar, pode descobrir o mais nobre de todos os fatos, seu verdadeiro EU. Mas terá que atravessar muitos níveis até chegar a Ele.” [5]

O autoconhecimento é a via que conduz à consciência universal e à sabedoria divina. Ele é um processo alquímico através do qual o estudante resgata a substância primordial. Não há outra forma de avançar no aprendizado teosófico que não seja por esforço próprio e é necessário que o estudante se transforme gradualmente numa força virtuosa. Em todos os tempos a verdade está sempre disponível para aqueles que partem em sua busca tendo o coração puro e a firme intenção de plantar a bondade por todo o mundo.

NOTAS:

[1] Ideia referida por um Mahatma dos Himalaias na Carta 111 de “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Vol. II, p. 207.

[2] Da obra “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, 2001, Vol. II, 395 pp., Carta 111, pp. 206-207.

[3] “Luz no Caminho”, de M. C., The Aquarian Theosophist, Portugal, 2014, 85 pp., pp. 75-76.

[4] Reproduzido da obra “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, 2010, 295 pp., Carta 65, p. 241.

[5] Da obra “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Vol. II, Carta 111, p. 209.

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28 de abril de 2015

O PODER DA CONFIANÇA

 Já Está Bem Demarcado o
Caminho do Esforço Autorresponsável

John Garrigues




Uma das palavras mais sagradas da nossa língua é “confiança”, e constitui um mensageiro alado entre duas almas. Confiança é uma qualidade natural e não uma abstração vazia. A sua expressão é espontânea, ou não há confiança.

A mais alta expressão de confiança é aquela que existe entre o Mestre e o aprendiz dedicado; em segundo lugar está a confiança entre os aprendizes do mesmo Instrutor autêntico. Depois vem a confiança, realmente sublime, que o Eu Superior deposita na mãe ao reencarnar; quando tem condições de expandir-se, esta confiança passa a incluir toda a família imediata ao seu redor, e à medida que o tempo passa abarcará os mais próximos, a comunidade, o estado, a nação, e também o mundo.

Basta refletir um pouco para percebermos: nenhuma ação é possível, a menos que tenha  como premissa uma convicção espontânea de que “a Vida sustenta todas as formas que necessitam de Vida”.

Que nação poderia sobreviver, se não tivesse como alicerce esta qualidade básica? A resposta é “nenhuma nação”, e isso tem sido confirmado uma e outra vez pela história.

O mesmo resultado infeliz ocorre quando não há uma confiança espontânea a durável entre as nações, ou entre os indivíduos. Neste caso a ruptura das amizades e uma ação separativa se tornam a regra. A experiência histórica nos permite adotar critérios valiosos, e para o estudante de teosofia alguns fatos da história recente trazem lições da maior importância sobre o princípio da Confiança e a sua aplicação prática. 

A instrutora, Helena P. Blavatsky, veio a um mundo em que as pessoas em geral confiam pouco e desconfiam muito, e trouxe uma Mensagem de Confiança Daqueles em quem ela confiava e que confiavam nela.

A vida e o trabalho de H. P. B. demonstram que ela também confiava na humanidade. Ela confiava no seu próprio poder de ensinar à humanidade e na capacidade humana de aprender; e por isso ela fez o Grande Sacrifício. A grande massa da humanidade não conseguiu confiar nela, conforme puderam constatar os poucos estudantes de teosofia que a entenderam. 

Se a Confiança é algo espontâneo, por que será necessário expressá-la? Este não é um mistério sem solução, porque o ser humano tem o poder autoconsciente de escolher. E este poder tem sido usado durante uma quantidade incalculável de séculos para colocar a confiança no que é externo ao próprio ser humano. Desde a sua infância a humanidade tem sido instruída regularmente sobre o “comportamento correto” pelos “Irmãos Mais Velhos” que alcançaram um nível elevado de evolução através da observação e da experiência. Em seu próprio momento eles foram ajudados por outros Irmãos Mais Velhos, em uma linhagem que se perde no passado remoto e no tempo infinito.

O caminho do esforço autoplanejado e autorresponsável está demarcado de modo claro, e a humanidade tem tido que fazer esforços por sua conta. Se não fosse assim, nenhuma lição seria verdadeiramente aprendida.  Foi nas tentativas de colocar as lições em prática, portanto,  que aconteceram os fracassos. Com as derrotas surgiu uma gradual perda do sentido de responsabilidade individual. Ao mesmo tempo, alguns proclamaram a si mesmos como instrutores e como guias espirituais. Desta maneira a confiança foi colocada onde não deveria. Surgiram as ideias de deuses personalizados, religiões formais e salvações vicárias, e passou a predominar a doutrina da irresponsabilidade. Mas mesmo estes males que ameaçam a humanidade - e que foram criados por ela própria - deixarão de existir no final do seu ciclo.

Foi ao terminar todo um período cíclico que H. P. B. fez soar a nota-chave de uma nova era, melhor e mais iluminada. Ela sabia que estamos em uma época de transição na história humana, na qual todos os sistemas de pensamento, sistemas científicos e religiosos, sistemas de governo e sistemas sociais estão mudando. Sabia que num tal período é necessária a promulgação de ideias verdadeiras, mas também se abrem as portas para abusos de todo tipo, especialmente contra aqueles que se esforçam para colocar as novas correntes de pensamento em canais construtivos.

O poder da desconfiança se tornou comparável, em força, ao poder da Confiança. Mas, assim como no caso das almas valentes que arriscaram tudo para constituir a República [dos Estados Unidos da América do Norte], H. P. Blavatsky também encontrou alguns voluntários que a ajudaram a fundar e a impulsionar mais uma vez entre os seres humanos o movimento teosófico.  Alguns poucos confiaram em H. P. B. e mantiveram vivo o movimento que ela começou.  Hoje são mais numerosos que na época dela, os que estão dispostos a continuar a missão, mas ainda não são muitos! É evidente que a Confiança espontânea não se expressa com a força que deveria ter, mais de cinquenta anos depois. [1]

William Q. Judge, que confiava em H. P. B., e em quem ela confiava, certa vez citou algumas palavras que despertam aquela confiança espontânea no coração de todos que as leem:

“Nós fazemos um apelo, portanto, a todos os que querem erguer-se e erguer os outros seres - humanos e animais - no sentido de que deixem de lado a rotina impensada da vida diária egoísta. Não pensamos que a Utopia possa ser construída em um dia: mas, através da divulgação da ideia da Fraternidade Universal, a verdade presente em todas as coisas pode ser descoberta. O que necessitamos é um verdadeiro conhecimento da dimensão espiritual do ser humano, do seu objetivo e do seu destino. O estudo deste tema nos leva a aceitar o conselho de Prajapati a seus filhos: ‘Sejam modestos, sejam generosos, tenham compaixão: assim morre o egoísmo’.” [2]

E Robert Crosbie, que fundou a Loja Unida de Teosofistas porque confiava nos Mestres, disse: 
“…Tenho a impressão de que a confiança  é o elo que une e faz a força do movimento, porque é algo que pertence ao coração.”

NOTAS:

[1] O movimento teosófico foi fundado em 1875.  O artigo “O Poder da Confiança” foi publicado pela primeira vez em 1934, mais de cinquenta anos depois. (CCA)

[2] Garrigues está citando um artigo intitulado “The Path”. Veja “Theosophical Articles”, W. Q. Judge, Theosophy Co., Los Angeles, Vol. II, p. 572. (CCA)

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O texto acima foi publicado pela primeira vez pela revista “Theosophy”, de Los Angeles, edição de maio de 1934, pp. 307-308, sem indicação de nome de autor. Uma análise do seu estilo e conteúdo feita em 2015 indica que foi escrito por John Garrigues (1868-1944). Título original: “Trust”. Em relação aos critérios usados para identificar textos de  J. G., veja o artigo “Life and Writings of John Garrigues”, de Carlos Cardoso Aveline. O texto está disponível em www.TheosophyOnline.com  e seus websites associados.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


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26 de abril de 2015

CONVERSANDO COM SIGMUND FREUD

Breve Diálogo Com a
Obra do Criador da Psicanálise


Carlos Cardoso Aveline

Capa do livro “Conversas na Biblioteca”


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O texto a seguir foi construído com
a mesma técnica, bibliograficamente
documentada, utilizada no livro “Conversas
na Biblioteca - um diálogo de 25 séculos”,
de Carlos Cardoso Aveline (Ed. Edifurb, 
Blumenau, 2007, 170 pp., www.furb.br/editora).  

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É grande o valor da contribuição de Sigmund Freud e da psicanálise para que se possa compreender melhor a enganosa relação da alma humana com os instintos animais.

Freud incluiu em suas pesquisas psicanalíticas as mais diferentes áreas de conhecimento - inclusive fisiologia, história, antropologia, mitologia e literatura de ficção - e provocou com sua obra um avanço significativo do conhecimento humano. Infelizmente, não rompeu com a visão materialista da vida e, vivendo na primeira metade do século 20, não lhe foi dado o dom do otimismo.    

Reconhecido como um dos pensadores mais importantes desde o surgimento da ciência moderna, Freud nasceu em seis de maio de 1856, na Morávia, e foi viver em Viena quatro anos depois. Tinha pouco mais de 40 anos quando criou a psicanálise. No final da vida, a consagração internacional veio junto com o perigo. Idoso, judeu, ele mudou-se para a Inglaterra para evitar a perseguição nazista.  Morreu em Londres aos 83 anos de idade.      

Todo pesquisador tem erros e acertos. As  limitações de Freud, do ponto de vista da filosofia esotérica, são evidentes. Ao examinar a emoção humana diante da beleza, por exemplo, ele afirma que a atração pelo belo é uma função sexual [1]. Esqueceu que a beleza do nascer do Sol, da lua cheia, das estrelas à noite e das paisagens naturais emociona a quase todos. Há vários outros aspectos frágeis em sua obra. Mesmo assim, o valor dela é inegável.      

Uma parte fundamental do pensamento de Freud ainda está por ser compreendida. A sua visão científica sobre as grandes religiões modernas é subestimada hoje inclusive nos meios esotéricos, embora todo espiritualista tenha vários motivos para libertar-se de dogmatismos e para aceitar os métodos da ciência moderna, sem cair em suas ilusões materialistas.   

No século 21, o enfoque de Freud sobre as religiões torna-se cada vez mais atual e necessário, enquanto o mundo enfrenta fenômenos como fanatismo fundamentalista, intolerância, guerra santa, terrorismo religioso e abuso de crianças por parte de sacerdotes católicos. 

Freud revelou os aspectos neuróticos e até criminosos da religião autoritária. Ele também revelou a única “divindade” em que acreditava: o Logos grego, a divina Razão universal.

Sua longa vida foi dedicada ao progresso da alma humana, mas não rotulou  seu próprio trabalho com slogans idealistas ou palavras-de-ordem aparentemente sublimes. Compartilhando os méritos e as limitações da ciência moderna, sua obra é uma das grandes expressões do humanismo do século 20. 

No campo maior do pensamento psicológico, o contraste entre Sigmund Freud e Carl Jung não é apenas pessoal, mas filosófico. Freud nunca se apresentou como espiritualista, mas defendia a ética, era judeu e foi perseguido. Jung adotou ares de espiritualista, mas ignorou a ética, escreveu textos com um tom anti-semita, não via diferença entre verdade e ilusão ou fantasia e - durante a fase ascendente do nazismo, na década de 1930 -  ocupou cargo de confiança no regime de Hitler.

A Psicologia vai além de Freud e Jung. Pensadores como Erich Fromm e Viktor Frankl, entre outros,  deram grandes contribuições ao pensamento psicológico, adotando pontos de vista eticamente corretos e mais claramente compatíveis com a transcendência da filosofia esotérica do que o ponto de vista adotado por Freud. Para uma avaliação adequada  das relações entre psicologia e teosofia, as ideias de Fromm e Frankl devem ser estudadas e reconhecidas.

A seguir, um breve diálogo com aspectos filosóficos da obra de Freud, um pensador que soube trazer para o dia claro as motivações inconscientes da alma humana, no que elas têm de primário e de instintivo, mas que também percebeu em algum momento algo maior e mais amplo, e investigou a origem da felicidade.[2]

1) O senhor não se filia à tradição esotérica, mas dá elementos para que as pessoas se libertem dos grilhões emocionais que as prendem ao mundo do desejo ilusório. O senhor não acredita nas religiões - e evita toda linguagem espiritualista - mas tem acesso a um saber que o coloca no território dos grandes pensadores de todos os tempos...

O nosso deus, o Logos, a Razão, talvez não seja um deus muito poderoso, e poderá ser capaz de efetuar apenas uma pequena parte do que seus antecessores [os outros deuses] prometeram.  Se tivermos de reconhecer isso, o faremos com resignação.  Não será por causa disso que perderemos nosso interesse no mundo e na vida, pois dispomos de um apoio seguro (...). Acreditamos ser possível ao trabalho científico conseguir um certo conhecimento da realidade do mundo, conhecimento através do qual podemos aumentar nosso poder e de acordo com o qual podemos organizar nossa vida.  

2) Para os gregos, o Logos é a razão divina. Ele pode ser percebido como uma voz suave dentro da consciência de cada ser humano. O Logos se relaciona com o Nous ou Intelecto, a inteligência pura...

A voz do intelecto é suave, mas não descansa enquanto não consegue atenção. Finalmente, após uma incontável sucessão de reveses, ela obtém êxito.  Esse é um dos pontos sobre os quais se pode ser otimista a respeito do futuro da humanidade e, em si mesmo, não é de pouca importância.

3) Os raja-iogues dos Himalaias que inspiraram a criação do movimento teosófico moderno ensinam que a busca da sabedoria divina é uma questão científica e não de crença religiosa. Um deles escreveu:“Um sentimento constante de dependência abjeta em relação a  uma Divindade vista como única fonte de poder faz com que um homem perca toda autoconfiança(...). Ele se torna como um menino e permanece assim até a idade avançada, esperando ser conduzido pela mão.” [3]  O que o senhor pensa disso? A crença religiosa convencional retira das pessoas a escolha e a responsabilidade?

A religião restringe o jogo de escolha e adaptação, na medida em que impõe igualmente a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. Sua técnica consiste em depreciar a vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante - uma maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. A esse preço, por fixar as pessoas à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastá-las a um delírio de massa, a religião consegue poupar a muitas pessoas de uma neurose individual. Dificilmente, porém, algo mais que isso. Existem muitos caminhos que podem levar à felicidade possível de ser alcançada pelos homens, mas nenhum caminho que o faça com toda segurança.

4) Certa vez, ao visitar a Grécia, o senhor sentiu que estava rejeitando emocionalmente uma sensação de felicidade, como se fosse algo excessivamente bom, que não merecia...

Esse é mais um caso de “bom demais para ser verdade”, que encontramos com tanta freqüência. É um exemplo de incredulidade que surge tantas vezes quando nos surpreendemos com uma boa notícia, quando sabemos que ganhamos um prêmio, por exemplo, ou que tivemos uma vitória (...). O que acontece [nesse] caso paradoxal é simplesmente que o lugar da frustração externa é tomado pela frustração interna. O sofredor não se permite a felicidade; a frustração interna ordena-lhe que se apegue à frustração externa.  Mas por quê? Porque – essa é a resposta, em muitos casos – a pessoa não pode esperar que o Destino lhe proporcione algo tão bom. (...) Encontramos um sentimento de culpa ou de inferioridade, que pode ser traduzido assim: “Não mereço tanta felicidade, não a mereço”.

5) E como podemos buscar a felicidade com mais eficiência?

O projeto de tornar-se feliz, que o princípio do prazer nos impõe, não pode ser realizado. Contudo, não devemos -  na verdade não podemos - abandonar nossos esforços de aproximar-nos dessa realização, de uma maneira ou de outra. Caminhos muito diferentes podem ser tomados nessa direção, e podemos dar prioridade  ao aspecto positivo da meta, obter prazer, ou ao aspecto negativo, evitar o desprazer. Nenhum desses caminhos nos leva a tudo o que desejamos. A felicidade, no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido [isto é, da administração do instinto vital] do indivíduo. Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: cada homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo. Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de dirigir sua escolha. É uma questão de quanta satisfação real ele pode esperar obter do mundo externo, de até onde é levado a tornar-se independente dele, e, finalmente, de quanta força sente à sua disposição para alterar o mundo, a fim de  adaptá-lo a seus desejos.

NOTAS:

[1] “O Mal-Estar na Civilização”, Sigmund Freud, Ed. Imago, RJ, 112 pp., ver pp. 32-33.

[2] Quando necessário para facilitar a compreensão, acrescento algumas palavras explicativas entre colchetes e em itálico. Fontes das respostas: 1) “O Futuro de Uma Ilusão”, Sigmund Freud, Ed. Imago, RJ, 87 pp., ver p. 85; 2) “O Futuro de Uma Ilusão”, obra citada, p. 83;  3) “O Mal-Estar na Civilização”, obra citada, p. 35; 4) “Um Distúrbio de Memória na Acrópole”, ver Edição Standard das Obras de Freud,  volume XXII, Ed. Imago, pp. 239 a 241;  5) “O Mal-Estar na Civilização”, ob. cit., pp. 33-34.

[3] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, Carta 43, primeira série, pp.103-104.

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Uma versão inicial do texto acima foi publicada na revista “Planeta”, de São Paulo, em sua edição de outubro de 2004.

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Para Ler Mais:

Para saber mais sobre a relação entre a Psicanálise e a Teosofia, veja o capítulo 11 da obra “Três Caminhos Para a Paz Interior”, de Carlos Cardoso Aveline, Ed. Teosófica, Brasília, 2002, 194 pp. O capítulo é intitulado “A Psicanálise das Religiões”.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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22 de abril de 2015

INVEJA E AMIZADE

 A Febre Alquímica nos Círculos Esotéricos

Carlos Cardoso Aveline





Como o caminho da sabedoria inclui desafios e oportunidades, a humildade constitui um ponto essencial.

É preciso ver os erros, antes de corrigi-los. E é inevitável corrigir os erros, antes de libertar-se das derrotas que eles causam.

A aparente morte da ética em setores significativos do movimento esotérico não constitui um fato isolado. [1] Tampouco surge por acaso.

Enfrentar o oposto da inteligência espiritual é o preço a pagar quando se evoca os níveis mais elevados da natureza humana. A ideia de que “tudo é agradável” no caminho da sabedoria constitui uma armadilha e leva à derrota. A alquimia da busca do conhecimento divino só pode ser vivida em altas temperaturas. Em grupos, assim como em indivíduos, a ignorância deve passar por uma espécie de febre. A ingenuidade e o egoísmo precisam ferver durante algum tempo para que a sua forma líquida evapore e se transforme em lições de sabedoria que as pessoas possam compreender.

A febre causada pelos ensinamentos sagrados na natureza interior dos círculos esotéricos pode curar a doença da ignorância. E também pode destruir os grupos cujo metabolismo não é  capaz de resistir à febre. A competição, aberta ou disfarçada, produz nos grupos filosóficos uma inveja ativa, e também má vontade, falsidade, injúria e ações traiçoeiras. E de onde surge a competição?

Os estudantes ingênuos de teosofia, mal orientados por uma pedagogia superficial e por falsos ensinamentos, podem ter em seus corações uma vaga boa vontade em relação à civilização humana. A admiração que sentem por seres sábios e instrutores sagrados (em alguns casos imaginários) está misturada com a expectativa de que eles próprios serão levados à condição de grandes sábios, passando a ser admirados por muitos.

À medida que são pressionados pelos fatos a ver que tais ilusões não têm base real, eles se tornam amargos em relação ao progresso feito por seus colegas de caminhada, e começam a comemorar secretamente as dificuldades e falhas dos seus irmãos. [2]

O antídoto deste veneno mortal para os grupos teosóficos está na criação de uma atmosfera em que o ritualismo e o amor por posições de poder são calma e severamente desmascarados, assim como as poses de sábio, a política de aparências, a manipulação de dinheiro e outras formas sutis de poder ilegítimo.

Como no caso da Medusa da mitologia grega, a prática da hipocrisia e do fingimento adota inúmeras formas diferentes. Elas devem ser sucessivamente identificadas, desmascaradas e derrotadas até que seja destruída sua causa central: a ignorância.

A tarefa individual de construir Antahkarana, a “ponte” para nossa própria alma espiritual, está entre as principais fontes para a legitimidade de qualquer associação teosófica.

A inveja, a competição e formas semelhantes de má vontade operam como extintores de Antahkarana. O pensamento negativo destrói as associações teosóficas de dentro para fora, deixando em bom estado apenas as máscaras psicológicas e os prédios materiais. Por esse motivo, os sentimentos de raiva e má vontade devem ser identificados desde o início. A competição hostil é um obstáculo para os tolos e os desinformados, e fecha diante deles as Portas do verdadeiro Conhecimento.  

A inveja implica um desejo de roubar do outro, ou de negar o seu progresso. É um sinal seguro de problemas na ligação do indivíduo com o seu próprio eu superior. Um sentimento de cobiça nasce dos aspectos negativos do mundo animal: a fraternidade, por outro lado, surge dos aspectos positivos e sua substância essencial é divina.  

Quando um indivíduo está em contato interior com algo sagrado, ele sofre ao ver os erros dos outros, e fica contente ao perceber a vitória dos seus semelhantes. Alguém que tem interesse em aprender buscará a amizade daqueles que podem saber mais do que ele, e sentirá gratidão. A admiração sincera leva o aprendiz a ter devoção e expande de modo radical a sua capacidade de compreender a vida.

A saúde de um grupo teosófico e de todo grupo de idealistas depende da combinação individual de altruísmo com realismo; de generosidade com vigilância; de otimismo e rigor. Um conhecimento eficiente do mundo divino opera lado a lado com um conhecimento dos impulsos egoístas e uma compreensão da habilidade que eles possuem de disfarçar-se como se fossem nobres. Deste modo são afastados os aspectos mais perigosos da febre probatória.

Quando a correta combinação alquímica do céu e da terra ocorre no plano do indivíduo, o seu equilíbrio criativo pode ser compartilhado com outros, em meio ao inevitável processo de testes cármicos. A harmonia vigilante se transforma então gradualmente em um elemento cultural e num fator vivo da construção de um movimento teosófico que será cada vez melhor, mais forte, e mais útil à humanidade.

NOTAS:

[1] A Sociedade Teosófica de Adyar e as outras principais correntes do movimento teosófico nominal enfrentam uma crise ética e institucional na primeira metade do século 21.

[2] O estágio final do caminho para o fracasso é a prática de deliberadamente colocar obstáculos no Caminho dos seres a quem se tem o dever de ajudar.

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Foi incluída no artigo acima a maior parte da breve nota “A Inveja e a Admiração”, da edição de abril de 2015 de “O Teosofista”. Embora escrita pelo mesmo autor, a nota foi publicada de modo anônimo em “O Teosofista”. 

Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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