27 de Agosto de 2014

A ESSÊNCIA DO MOVIMENTO TEOSÓFICO

Uma Vez Que a Visão da Vida Foi
Ampliada, a Raja Ioga Ensina a Concentrar a Vontade

Carlos Cardoso Aveline





Talvez a Raja Ioga, a ioga do autoconhecimento e do autocontrole, possa ser definida como a dimensão interna do movimento teosófico.

Na primeira fase do contato com a sabedoria, amplia-se a visão de mundo. O estudante deixa de identificar-se de modo excludente apenas com esta ou aquela religião ou filosofia. Ele aprende a ver tanto o joio como o trigo, tanto o erro como o acerto, em cada área de conhecimento humano. Ele passa a pensar e avaliar todas as coisas. Ele “esquece de si mesmo” e adota uma visão altruísta da vida.

Mas nisso há um teste e uma provação. O perigo é permanecer entusiasmado com a nova amplidão de horizontes e deixar de firmar a vontade. Neste caso o aprendiz esquece o lema do filósofo Epicteto: 

“Devemos fazer aquilo que depende de nós e não perder energia com aquilo que não depende de nós”. [1]

A verdade é que o aprendiz precisa tanto de expansão como de concentração. Sístole e diástole são, ambas, indispensáveis.  Se a teosofia amplia radicalmente os horizontes, ela também deve nos levar a uma concentração  e a uma força de vontade muito maiores do que as que havia antes da ampliação de horizontes.

É necessário desenvolver a força de vontade, possuir uma meta clara e  produzir fatos concretos na direção buscada, que é nobre e elevada.  A meta é construir algo, ao invés de apenas coletar informações sobre o que está ocorrendo aqui ou ali.   

Mas onde construir, se não dentro de nós mesmos e na nossa relação com o mundo?

O que construir, exceto uma consciência compartilhada da fraternidade universal e de responsabilidade pelo futuro? 

Quem poderá construir, se não for cada um de nós?  E quando construir, se não for agora? [2]

Portanto,  depois de obtida uma percepção ampla e de longo prazo da vida, a tarefa seguinte é desenvolver uma firme força de vontade e colocá-la a serviço do projeto de  busca ativa da sabedoria.

Este é um tema central da Raja Ioga, ensinada através dos Aforismos de Patañjali [3] e de outras obras. Um mestre de sabedoria resumiu a meta citando trecho de um poema de Alfred Tennyson:

“Autorrespeito, autoconhecimento, autocontrole, só estes três dão à vida um poder soberano”.[4]  Ao longo deste aprendizado devemos agradecer aos obstáculos, porque é graças a eles que - quando a meta é clara - a Vontade se fortalece. 

NOTAS:

[1] “A Manual for Living”, Epictetus, a New Interpretation by Sharon Lebell, HarperSanFrancisco, 1994, 88 pp., ver pp. 9-11.

[2] Estas perguntas são uma adaptação de pensamentos do grande rabino Hillel, citados no Talmude judaico. Veja o livro “A Ética do Sinai”, de Irving Bunim, Ed. Sêfer, SP, p. 54.

[3] A obra “Aforismos de Ioga”, de Patañjali, está disponível em seção temática independente em  www.FilosofiaEsoterica.com.

[4] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa,  Ed. Teosófica, Brasília, 1996, p. 148.

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Uma versão inicial do texto acima foi publicada de modo anônimo na edição de junho de 2010  do boletim “O Teosofista”.  

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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SENSO CRÍTICO E PENSAMENTO POSITIVO

Dois Instrumentos Necessários à Caminhada Teosófica

 Carlos Cardoso Aveline





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Uma versão inicial do texto a seguir
foi publicada de modo anônimo em
O Teosofista”, edição de maio de 2009.

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Estudante A:

Para alguns, o caminho espiritual parece ser feito exclusivamente de pensamentos positivos. Mas, neste caso, como será possível  identificar e corrigir os erros e defeitos?

Estudante B:

O  estudante que preserva o seu bom senso não perde o sentido crítico. Uma visão exotérica e  emocional do caminho prefere  acreditar na  proposta ingênua de fazer de conta que o mundo é uma maravilha. Mas para cada ingênuo há um espertalhão, quando não é o espertalhão que se faz passar por ingênuo.  O aprendiz que  aprende a agir com discernimento desafia as rotinas mentais. Ele mostra as falhas dos sistemas eclesiásticos e da ciência convencional, e propõe as práticas corretas. Ele não teme apontar os erros que devem ser corrigidos, embora saiba que será testado por isso. Ele sabe que não há aprendizado sem testes. 

Estudante A:

Mas qual é a diferença entre o espírito crítico e o pensamento negativo? Quando é que termina um e começa o outro?

Estudante B:

Uma primeira  característica fundamental do bom espírito crítico está na intenção. O aprendiz fala dos erros com o propósito interior de que eles sejam corrigidos. A sua intenção não é destruir. As suas críticas nunca se dirigem a pessoas, mas a fatos e ações. E a  crítica ao que é externo anda junto com uma autocrítica honesta. Uma segunda  característica é que o espírito crítico saudável dá o apoio e o realismo necessários  ao pensamento positivo, para que ele possa ter eficiência prática.  Quem possui bom senso sabe que o pensamento positivo é o fundamental e o sentido crítico é o secundário. Uma terceira característica é que o espírito crítico, quando unido ao pensamento positivo, leva o estudante à ação construtiva de longo prazo,  com discernimento e confiança no futuro. A confiança no futuro resulta do contato ampliado com a alma imortal. Ela  permite olhar os  erros de frente sem cair no pessimismo. 

Do mesmo modo que um bom médico não faz de conta que o paciente está bem, se o paciente está doente - mas anuncia com honestidade que será necessário este ou aquele tratamento doloroso para superar a doença -,  também a teosofia original não finge que tudo está bem com nossa civilização. Ela mostra honestamente o caminho para corrigir o rumo.

Não há melhor carma do que o pensamento voltado ativamente para o bem da humanidade.  Quem deseja o bem da humanidade e é estudante da sabedoria universal faz três coisas básicas:

1) Ele formula ou ajuda a formular um diagnóstico adequado. 

2) Ele chega a um prognóstico (uma  proposta saudável de futuro). 

3) Ele trabalha pela superação das causas do sofrimento; e também pela construção do que é novo. 

O pensamento correto não está na superfície da mente ou na simples fala. Sabemos que as palavras amáveis ocultam frequentemente segundas e terceiras intenções. Se palavras agradáveis  fossem suficientes, não haveria qualquer diferença entre o sábio e o mentiroso. Em filosofia esotérica, pensamento correto é aquele que surge de uma Intenção interior que é nobre e elevada.

Assim, o pensamento severo e a fala crítica podem ser corretos.  O pensamento agradável e a fala mansa podem ser causadores de grande mau carma e sofrimento.  É a motivação do indivíduo perante a vida, a sua meta central e suas metas auxiliares -  assim como os seus hábitos de pensamento, sentimento e ação - que direcionam e dão valor real ao que ele pensa e diz.

Quando o Jesus do Novo Testamento denuncia os “sepulcros caiados” do clero profissional (Mateus 23: 13-27), ou quando expulsa os comerciantes do templo (Marcos 11: 15-18), o seu discurso e o seu pensamento rigorosos têm efeitos positivos, porque a Intenção  é nobre, e a ação é sábia. A teosofia ensina equilíbrio e rigor. O senso crítico e o pensamento positivo são dois instrumentos igualmente indispensáveis, que funcionam como os pratos de uma balança. A sua combinação correta indica o caminho da paz.  

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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26 de Agosto de 2014

SOBRE A ESPERANÇA DE SER INFALÍVEL

Simplicidade Voluntária é Indispensável na Caminhada


Carlos Cardoso Aveline

Cachorros transmitem lições de teosofia sem necessidade de palavras

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Uma versão inicial do texto a
seguir foi publicada de modo anônimo
na edição de março de 2009 de “O Teosofista”.

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Estudante A:

Alguns “líderes espirituais” parecem considerar a si mesmos como incapazes de errar.  O que diz a teosofia a respeito?

Estudante  B:

A marca de uma pessoa desinformada é a esperança de ser infalível.  O orgulho que decorre desta esperança é sintoma que não há um bom contato com a alma imortal. 

Os seres humanos são todos aprendizes, quando são sábios. O importante é aprender a aprender,  e H. P. Blavatsky  escreveu:

“Por que deveria qualquer um de nós - sim, e até mesmo o maior conhecedor da sabedoria oculta entre os teosofistas - adotar a pose da infalibilidade? É melhor admitirmos humildemente como Sócrates que ‘só sabemos que nada sabemos’; pelo menos, em comparação com o que ainda temos que aprender.” [1]

A luz da aprendizagem interior ilumina melhor aquele que corrige seus erros com gratidão e simplicidade, enquanto avança pelo caminho estreito e íngreme que vai morro acima em direção à visão do Todo. 

Estudante A:

Compreendo.  Mas neste ponto surge outra dúvida. 

Estudante B:

Diga. Franqueza é fundamental.

Estudante A:

A humildade é indispensável. Certo.  E isso significa que, para sermos humildes, devemos renunciar à audácia? Será necessário deixar de lado, por exemplo, a esperança de mudar o mundo?  É nossa obrigação abandonar o desejo de fazer coisas significativas para melhorar definitivamente a situação humana? Talvez seja uma arrogância ter a pretensão de mudar o mundo e abrir espaço para uma civilização baseada na ética e na sabedoria.

Estudante B:

Não é arrogância.  

A coragem e a simplicidade - assim como a audácia e a autocrítica -  são igualmente importantes. Saber perder é uma condição indispensável para obter o verdadeiro êxito. Abrir espaço para a civilização da fraternidade é uma tarefa prática que requer uma visão de longo prazo.  Devemos viver a renúncia e, ao mesmo tempo, agir com uma profunda vocação de vitória.  Robert Crosbie escreveu sobre a necessidade de combinar humildade e coragem.

Ele disse:

“Nós assumimos uma alta missão e uma tarefa pesada - não porque pensemos que estamos notavelmente à altura dela, mas porque vemos que ela deve ser feita e que não há mais ninguém para fazê-la; e também porque sabemos que não estaremos sós no esforço.” [2]

Lições de filosofia esotérica podem ser encontradas em toda parte.  Basta ter olhos para ver. Os animais, por exemplo, ensinam sabedoria sem necessidade de palavras.  Podemos aprender com os cachorros a ser simultaneamente mais leais, mais humildes, mais confiantes - e mais corajosos.  

Estudante A:

Percebo que a esperança de ser infalível é uma atitude infantil. Mas o comodismo também é coisa de criança. Só é possível trabalhar com eficiência por uma causa nobre quando sabemos conviver bem com nossos erros e aprender com eles. Deve-se corrigi-los gradualmente e com firmeza.   

Estudante B:

Exato.

Quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece. Aquele que sabe aprender observa os seus fracassos desde o ponto de vista do seu potencial sagrado, e evita repeti-los.

O desafio do peregrino é agir a cada momento da maneira mais correta possível: mas é preciso fazer isso com realismo, porque as auto-exigências exageradas são apenas um modo disfarçado de levar a si mesmo a derrotas desnecessárias.  O equilíbrio e a paz-ciência são indispensáveis.

Estudante A:

Quais são as condições básicas necessárias à vitória?

Estudante B:

Posso citar quatro delas:

1) Buscar uma meta elevada;

2) Usar a clareza e discernimento de que dispomos; 

3) Combinar grande audácia com absoluta humildade;

4) Perseverar sem expectativa de recompensas no plano pessoal.  

E ser realista nem sempre é fácil. Não basta erguer o olhar para um ideal nobre: é preciso vigilância para preservar a humildade e o bom senso. O discernimento está na base da perseverança, e a perseverança prepara uma vitória durável.   

NOTAS:

[1] “Theosophical Articles”, H. P. Blavatsky, Theosophy Co., Los Angeles, edição em 3 volumes,  1981, ver volume 1, p. 22, texto “Esoteric Buddhism and The Secret Doctrine”.

[2] “The Friendly Philosopher” Robert Crosbie, Theosophy Company,  Los Angeles, 1945, p.  370.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.



Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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A SABEDORIA DE PITÁGORAS

Como a Filosofia Elimina as Causas do Sofrimento


Carlos Cardoso Aveline


(fonte: Wikipedia)

 Busto de Pitágoras nos Museus Capitolini,  em Roma



Desânimo, preocupação, ansiedade? Experimente deixar de lado as inúmeras urgências que provocam o sofrimento do cidadão moderno. A filosofia é uma atividade prática. Respire fundo um instante, relaxe os músculos e decida pensar por alguns minutos em um assunto simples e eterno, o tema mais importante da vida: a felicidade humana. 
 
Mesmo estando instalado no século 21, você pode dialogar, através da filosofia, com os principais pensadores da Grécia, de Roma e da Índia. Basta desligar um pouco a televisão e as preocupações da semana que passou. Parar um pouco não é perda de tempo. Felicidade é bom negócio: quem vive relaxado e de bem com a vida tem melhores chances de êxito em todas as áreas de atividade.  

O filósofo não é alguém que fala coisas complicadas e que só ele entende. É  um cidadão que vive de maneira simples. Ele dedica sua vida a compreender o mundo e a si mesmo, de modo a produzir  paz interior e felicidade. A palavra “filósofo” significa apenas amigo da sabedoria. “Ser filósofo é o mesmo que ser bom”, escreveu Musônio Rufo no início da era cristã. Ele ainda disse: “a filosofia consiste em ocupar-se da perfeita honestidade e nada mais”[1].

É verdade que os filósofos não dão muita importância às coisas de curto prazo. Eles parecem ter quase todo o tempo do mundo à sua disposição, e raramente são escravos do hábito de olhar para o relógio de cinco em cinco minutos. Além de atuar nas situações do seu próprio tempo, as diferentes gerações de filósofos dialogam com bastante naturalidade entre si, mesmo separadas umas das outras por milênios. Um filósofo pitagórico diz algo  no século 6 antes de Cristo e outro filósofo responde no mundo romano, nos primeiros séculos da nossa era. A polêmica tem outro momento importante nos séculos 18 ou 19, mas você pode participar dela no século 21 e também retomá-la em sua próxima encarnação, dentro de, digamos, uns 2000 anos. 

A virtude é um dos temas centrais da filosofia. O pitagórico Theages afirmou: “a verdadeira virtude é o hábito de ficar dentro do que é adequado.” Musônio Rufo definia a questão como um processo científico-experimental: “a virtude é uma ciência não só teórica, mas também prática, assim como a medicina e a música”. Para a filosofia clássica, a virtude é a capacidade de viver corretamente, isto é,  sem causar dor para si nem para os outros. Nesta linha, o pitagórico Hipodamus concluiu: “A felicidade não pode durar sem virtude, e a virtude nasce primeiro em quem é racional”.
        
A doutrina de Pitágoras ensina que para viver a felicidade e a iluminação do espírito é necessário purificar a alma de toda paixão humana. A ideia está certa. Mas libertar a mente das ansiedades e preocupações em relação ao mundo externo é uma tarefa de longo prazo. “O homem não é nem feliz nem bom por natureza, mas é preciso disciplina e cuidados  para alcançar bondade e felicidade”, escreveu o pitagórico Hipodamus [2]. “Para ser bom”, disse ele, “o homem deve ter virtude. Mas para ter felicidade, ele deve ter boa fortuna.” 

O que significa a palavra “fortuna”, usada aqui por Hipodamus? Superficialmente, é apenas boa sorte. Mas, para a filosofia esotérica, “boa fortuna” significa bom carma. Quem parece ser protegido pela boa sorte está, na verdade, colhendo um carma positivo plantado antes, nesta existência ou em uma vida anterior. É sempre recomendável aproveitar a oportunidade atual, portanto, plantando mais bom carma agora, para ter o que colher no futuro.

Hipodamus deu ainda outro motivo para explicar por que nem todas as pessoas boas são felizes: “O homem bom que busca o mundo divino é feliz; mas o homem bom que busca coisas de natureza mortal é infeliz”. A importância prática desta ideia é enorme. Embora sejamos bons, sofreremos bastante se estivermos identificados com coisas passageiras. Mas, se possuirmos a sabedoria e o desapego necessários, poderemos conhecer uma felicidade duradoura. Isso nos leva a outro problema: administrar os momentos felizes requer talento, porque é fácil apegar-se cegamente à satisfação e destruir a fonte de felicidade. A chave para resolver o problema, segundo Hipodamus, está na humildade e na busca contínua de inspiração interior: 

“O homem deve administrar as coisas terrenas agradáveis buscando a virtude, assim como o piloto de um barco navega nas águas observando as estrelas, mesmo quando o vento é favorável. Aquele que faz assim não só segue o ser sagrado, mas harmoniza o bem humano com o bem divino.”

Segundo Hipodamus, a felicidade individual é inseparável da felicidade coletiva: “Se não há harmonia e  inspiração divina nos assuntos diários, as coisas belas não podem permanecer em uma condição excelente. Se não existe uma legislação justa na cidade, não é possível  que o cidadão seja bom ou feliz. Se não houver saúde, não será possível que o pé ou a mão sejam fortes e saudáveis.  (...) A harmonia, sem dúvida, é a virtude do mundo. A legislação justa é a virtude de uma cidade. Saúde e força são a virtude de um corpo. Nestas três coisas - o mundo, a cidade e o corpo - as partes vivem em função do todo e do Universo.”

Onde está o alicerce da nossa vida? Onde podemos apoiar-nos? O filósofo Estobeu registrou que “a riqueza é uma âncora sem firmeza; a glória tem ainda menos estabilidade, assim como o corpo físico ou o poder pessoal e as honras. A prudência, a generosidade e a força interior são as âncoras poderosas. Nenhuma tempestade pode sacudi-las.” De fato, podemos evitar bastante sofrimento aprendendo a construir nossa vida sobre a base firme da verdade, e não sobre coisas efêmeras.  

Para os filósofos clássicos, cada ser humano é autor e diretor de sua própria vida. Ele deve construí-la como quem faz uma obra de arte. “Assim como numa estátua, todas as partes de uma vida devem ser bonitas”, ensinou Estobeu. É melhor avançar pela vida e ganhar experiência de modo integral e equilibrado. Todos os aspectos do nosso ser devem participar da aprendizagem: deste modo, os pontos fracos são gradualmente reduzidos e eliminados. 

“Quem é escravo das suas paixões não pode atingir a liberdade”, afirma o mesmo texto de Estobeu. Aqui o filósofo questiona as ideias superficiais sobre  liberdade.  Para ele, obedecer aos desejos animais não é liberdade.  A verdadeira liberdade surge do ato de  compreender os desejos exagerados como parte do ciclo da ignorância e da dor. Livre deles, o amigo da verdade vive moderadamente. Este equilíbrio interior traz felicidade. Traduzo mais quatro fragmentos preciosos de Estobeu sobre o uso da palavra, a ética e a pureza:

* “Fique em silêncio ou diga algo melhor que o silêncio. (...) Um conhecimento científico do mundo divino faz com que o homem use poucas palavras”.

* “Quando um homem sábio abre sua boca, a beleza da sua alma fica à mostra, como no caso das estátuas em um templo.” 

* “Aqueles que não punem os maus gostariam de agredir os bons.” 

* “Perceba o seu corpo como a roupa do seu espírito; e, portanto, mantenha-o puro”.

Junto com a pureza e a ética, uma das questões básicas da filosofia pitagórica é a da brevidade da vida. Quando o cidadão finalmente aceita este fato doloroso, ele encontra a paz. Hiparchus escreveu, em seu tratado sobre a tranquilidade:

“Já que os homens vivem durante um período muito breve, se sua vida é comparada com o tempo todo que existe, eles farão, digamos, uma viagem mais bonita se passarem pela vida com tranquilidade. Eles terão tranquilidade no mais alto grau se conhecerem cientificamente e com exatidão a si mesmos, isto é, se reconhecerem que são frágeis e mortais, que têm um corpo que pode adoecer e ser ferido facilmente, e que é ameaçado por muitas coisas seriamente prejudiciais até seu último momento de vida (...). Mas as doenças que atacam a alma são muito maiores e mais graves [que as doenças do corpo]. Porque toda conduta injusta,  má, ilegal e perversa da vida do homem se origina das paixões da alma.”

Além de observar de que modo a ignorância espiritual produz sofrimento, é preciso colocar em movimento, de fato, a sabedoria em nossas vidas. Em seu Tratado Sobre o Homem Bom e Feliz, o pitagórico Architas escreveu:

“Dos bens, alguns são desejáveis em si mesmos, e não por causa de outras coisas; outros são desejados por causa de um segundo objetivo e não por seu próprio valor. Porém há alguns bens que são desejados tanto por seu próprio valor quanto em função de outros objetivos. Qual é, vejamos, o bem desejável em si mesmo, e não em função de alguma outra coisa? Evidentemente, é a felicidade. Porque nós aspiramos outras coisas para alcançar a felicidade, mas não aspiramos à felicidade para alcançar outra coisa qualquer.  E quais são os bens que nós desejamos em função de outra meta, e não por seu próprio valor? É evidente que são as coisas úteis, que permitem obter objetivos desejados, como trabalhos corporais e exercícios que criam bons hábitos no corpo, e também leitura, meditação e estudo, que são realizados em função da virtude e de coisas belas. Mas quais são as coisas desejadas por seu próprio valor, e também em função de outro objetivo? Estas são as virtudes, e os bons hábitos que vêm com elas; as decisões e ações deliberadas e conscientes,  e tudo aquilo que acompanha o que é realmente belo.”

Os pitagóricos ensinam que o bem supremo é a justiça. Nada mais natural, porque justiça é apenas o nome ocidental da lei do Carma, que governa o universo e também cada uma das suas partes. Theages escreveu:

“A justiça é aquilo que separa todos os erros e todas as virtudes da alma. Justiça é uma certa ordem na combinação correta das partes da alma. É uma virtude perfeita e suprema, porque todas as coisas boas estão contidas nela, mas as outras qualidades positivas da alma não podem existir sem ela. Por isso a justiça tem grande força tanto entre os deuses como entre os homens. Esta virtude contém o laço pelo qual o todo e o universo são mantidos juntos, e pelo qual deuses e homens mantêm contato.”

Para Theages, “a virtude não está em eliminar os sentimentos da alma, mas em harmonizá-los. Porque a saúde, que é uma certa combinação das energias do corpo, não é alcançada com a eliminação do que é quente ou frio, úmido ou seco, mas sim com a combinação correta destes elementos. Assim também, na música, a beleza não consiste em eliminar o agudo e o grave, mas, quando eles são harmonizados, o acorde é produzido e a dissonância é eliminada. (...) Deste modo, quando a raiva e o desejo são harmonizados, os vícios e outras paixões são extirpados e a conduta é regenerada.” [3] 

Não devemos, pois, buscar necessariamente a eliminação dos contrastes e das dificuldades nas situações concretas da nossa vida. Situações fáceis muitas vezes produzem grandes quantidades de preguiça, acomodação e rotina. Em compensação, as situações difíceis e os grandes desafios nos forçam a crescer.   

As verdadeiras causas do conflito e da ansiedade é que devem ser eliminadas. As crises servem para alargar nosso horizonte. A incerteza do futuro nos faz acordar para a necessidade de compreender a vida eterna e redescobrir conscientemente a nossa vocação para o que é infinito. 

NOTAS:

[1] Musônio Rufo em “Disertaciones, Fragmentos Menores”, Biblioteca Clásica Gredos, Editorial Gredos S. A., Madrid., 1995. Ver pp. 59, 85, 87. 

[2] A seguir, em várias citações, traduzo trechos pitagóricos inéditos em português, incluídos em “Life of Pythagoras”, de Iamblichus (Jâmblico). A tradução do grego é de Thomas Taylor, em livro editado em Londres por John Watkins, 1926. Há uma excelente coletânea de material pitagórico publicada nos EUA sob o título “The Pythagorean Sourcebook and Library”, compilada por Kenneth Sylvan Guthrie, editada por Phanes Press, Michigan, em 1987, com 361 pp. 

[3] “Life of Pythagoras”, Iamblichus, 1926, obra citada, p. 170.


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