17 de dezembro de 2014

SE CRISTO VOLTAR NESTE NATAL

O Que Ocorrerá Se Subitamente Surgir Em
Público Um Grande Instrutor da Humanidade? 
  

Carlos Cardoso Aveline

  


Jesus poderia decidir materializar-se na sede das Nações Unidas em Nova
Iorque (foto), se atualizássemos o enfoque de Dostoievsky sobre o seu retorno.


Os rótulos não substituem a realidade. A sabedoria divina flutua acima de aparências visíveis, nomes próprios e imagens personalizadas.

O conhecimento universal é como um círculo infinito cujo centro está em todas as partes: a essência de cada religião ou filosofia contém, portanto, a essência de todas as outras.

Quando olhamos em profundidade para a figura de Jesus Cristo, o reconhecemos como um símbolo daqueles sábios e instrutores que, atravessando o oceano do tempo, conduzem os seres humanos na direção da verdade. Krishna, Buddha, Pitágoras, Platão, Lao-tzu, Confúcio e Cristo ensinam a mesma sabedoria universal.

Os grandes sábios jamais se afastaram da humanidade, mas o contato com eles não é verbal nem  visual. Os seres humanos recebem sua ajuda e sua inspiração em planos superiores de consciência, acima do que é percebido pelos cinco sentidos e pelo nível “pessoal”, denso e primário, da atividade do cérebro. Deve-se buscar contato com a sabedoria em si mesma e não com a personalidade externa deste ou daquele instrutor.  

Qual é, então, o verdadeiro significado que possui a esperança de uma volta visível de Jesus? 

Do ponto de vista da alma, a ideia simboliza o retorno dos sábios ao convívio humano, em um plano consciente. É a volta da sabedoria, e a reconquista da paz e do equilíbrio nos assuntos humanos visíveis. Não há por que personalizar indevidamente o retorno. Trata-se de recuperar a paz individual e coletiva, e não de pedir autógrafo ou favores pessoais a algum artista famoso recém-chegado do céu.   

“Quando ocorrerá a volta?”, perguntam as pessoas de boa vontade.

Vale a pena examinar a questão. Suponhamos que, de fato, um dos grandes instrutores da humanidade aceite a tarefa de retomar uma presença reconhecida e consciente junto à comunidade humana atual.  Adotemos, também, a hipótese de que, para a ocasião, ele decida aproveitar o clima de confraternização das festas de final de ano, retomando o contato de um modo que sua presença física possa ser facilmente reconhecida pelas pessoas de boa vontade como a presença do mesmo Jesus do Novo Testamento.   

Ele se tornará visível em Nova Iorque, entrando na sede das Nações Unidas? Ele conversará ali, a portas fechadas, com o secretário-geral?  Ou ele surgirá curando doentes entre os povos mais pobres e humildes da África? Talvez o instrutor sagrado mande um e-mail para os principais chefes de Estado? Quais as consequências políticas, sociais e econômicas do seu reaparecimento? Estas perguntas práticas são incômodas.  A aparição pública entre nós de um grande ser, um mestre sagrado, poderia colocar em cheque os hábitos pessoais e os apegos de muitos. Abalaria instituições e estruturas sociais. 

Para investigar o que ocorreria de fato se Jesus reaparecesse na próxima véspera de Natal, o primeiro passo consiste em resgatar um texto clássico. O escritor russo Fiódor Dostoievsky descreveu em 1880 como teria sido o retorno físico de Cristo durante o século 16. 

Ao escrever o relato, intitulado “O Grande Inquisidor”, Dostoievsky pode ter sido inspirado desde níveis superiores de consciência. Um raja-iogue dos Himalaias não só pediu que o trecho fosse traduzido do russo e publicado em inglês por Helena Blavatsky  em 1881, mas também escreveu, em uma carta para um discípulo leigo:

“A sugestão de traduzir O Grande Inquisidor é minha; porque seu autor, sobre quem já pesava a mão da Morte enquanto escrevia, deu a descrição mais convincente e mais verídica jamais escrita da Sociedade de Jesus. Está contida ali uma grande lição para muitos, e mesmo você poderá tirar proveito dela.” [1]

A narrativa faz parte da obra “Os Irmãos Karamázovi”, e nela Dostoievsky descreve a aparição do instrutor divino entre os habitantes de Sevilha, na Espanha.  Na época, a Inquisição estava no auge.  O Vaticano prendia, torturava e matava em nome de Jesus. O Inquisidor tinha poder absoluto na Espanha.  Supostos hereges eram queimados vivos todos os dias em fogueiras públicas, “para maior glória de Deus”, conforme o lema dos implacáveis jesuítas. Como seria, nestas condições, a volta do Cristo?

Segundo a narrativa de Dostoievsky, o Mestre decidiu voltar sem anúncio prévio:
 
“Ele apareceu docemente, sem se fazer notar e - coisa estranha - todos o reconheciam imediatamente. (...)  Atraído por uma força irresistível, o   povo comprime-se à sua passagem e segue-lhe os passos.   Silencioso,  ele passa por entre a multidão com um sorriso de compaixão infinita. Seu coração está abrasado de amor, seus olhos desprendem uma Luz, uma Ciência, e uma Força que irradiam e despertam o amor nos corações. Estende-lhes os braços e  abençoa-os. Uma força curativa emana do seu contato e até mesmo de suas vestes. Um velho, cego desde a infância, exclama no meio da multidão: ‘Senhor, cura-me e eu te verei’.  Uma casca cai dos seus olhos e o cego vê.  O povo derrama lágrimas de alegria e beija o chão sobre as marcas dos seus passos. As crianças lançam flores e gritam ‘Hosanna!’ à passagem do Senhor.” [2]

Os membros do povo repetem emocionados: “é Ele, é Ele”.  O Cristo avança pela praça de Sevilha e ressuscita uma garota. No auge da emoção popular, surge na praça da cidade a figura temível do grande Inquisidor. É um ancião quase nonagenário, com uma rigorosa seriedade no rosto e a expressão de quem não admite ser contrariado.  Vestido com uma velha batina preta, rodeado pela sua guarda pessoal, ele percebe num instante o que está ocorrendo. Diante do seu olhar severo a multidão emudece e se inclina até o chão,  respeitosa e  atemorizada.  “Tão grande é o seu poder, e o povo está de tal maneira acostumado a submeter-se, a obedecer-lhe tremendo, que a multidão se afasta imediatamente diante dos guardas”, conta Dostoievsky.  Em meio de um silêncio mortal, Cristo é arrastado para a prisão. 

Horas depois, a porta de uma masmorra se abre, rangendo, e o Inquisidor entra na cela do prisioneiro.   Ele olha a Santa Face, como para confirmar a identidade do seu interlocutor, e diz ao Mestre:

“És tu? Não digas nada. Cala-te. Aliás, que poderias dizer? Não tens o direito de acrescentar uma palavra além do que disseste outrora. Por que vieste estorvar-nos? Porque tu nos estorvas, bem o sabes. Mas sabes o que acontecerá amanhã? Ignoro quem tu és e não quero sabê-lo: tu ou apenas tua aparência. Mas amanhã eu te condenarei e serás queimado como o pior dos heréticos, e este mesmo povo que hoje te beijava os pés, amanhã, a um sinal meu, irá alimentar a tua fogueira.”

Enfático, o chefe da Inquisição faz um discurso sacerdotal. Ele alega que o “caminho estreito” ensinado pelo Mestre não pode ser percorrido na prática. Ele é demasiado difícil e só causa mais sofrimento, porque é excessivamente verdadeiro. Afirma que é impossível avançar de fato  pelo caminho da luz e do amor incondicional. Só uma religião autoritária, em que o dogma substitua a sabedoria, pode dar felicidade ao povo. Apenas a mentira organizada e institucionalizada pode garantir a ordem.  A verdade universal não é conveniente.  

Cristo apenas escuta. Ele fita seu carcereiro com olhos serenos, enquanto nos seus lábios há um sorriso de compreensão infinita.  A mente do teólogo-carcereiro não tem segredos para ele. Suas frases já são conhecidas antes que as pronuncie. O guardião da Igreja condena a liberdade individual pregada por Jesus. Os sacerdotes necessitam rebanhos. O Inquisidor considera absurda a ideia de que cada homem seja senhor do seu próprio destino. Ele conclui assegurando ao preso que a sua heresia, e a sua audácia de reaparecer em público, serão punidas com a morte.  

Terminadas as longas alegações, o Mestre não diz uma palavra, mas mantém seu silêncio calmo e cheio de paz.  Depois de alguns instantes, Jesus ergue-se, olha seu acusador nos olhos e o abraça.   O  poderoso Inquisidor fica surpreso, confuso, assustado.  Ele luta para manter o autocontrole psicológico.  A força da santidade do Mestre parece vencê-lo. Ele abre com força a pesada porta da cela. Ele aponta nervosamente para a saída e diz ao Cristo:

“Vá embora. Vá e não volte jamais. Nunca mais!”

O prisioneiro não responde. Com o olhar iluminado e os passos calmos, ele sai da cela, passa pelos guardas e desaparece na noite escura.

Este, resumidamente, é o relato de Dostoievsky referente ao século 16. 

O que ocorreria se Cristo aparecesse subitamente no momento atual, cinco séculos depois? Os desafios não seriam poucos.  Quem estaria disposto a largar seus dogmas para viver o ensinamento?  O escritor Anthony de Mello, jesuíta herege do século 20 que foi  inspirado por ideias teosóficas e duramente criticado pelo Vaticano, examinou este dilema em um pequeno conto simbólico, ambientado em uma situação posterior à volta de Cristo. 

Mello escreveu:

“Foi feita uma proposta, nas Nações Unidas, no sentido de que se corrigissem todos os livros sagrados de todas as religiões. Tudo o que neles tivesse algum sabor de intolerância, crueldade ou fanatismo deveria ser eliminado. O mesmo se faria com toda e qualquer parte que atentasse contra a dignidade e o bem-estar do homem. Imaginem o burburinho quando se veio a saber que a proposta viera do próprio Jesus Cristo! Os repórteres correram à sua residência, ávidos de esclarecimento.  A sua explicação foi simples e curta: ‘As Escrituras, como o Sábado, foram feitas para o homem, e não o homem para as Escrituras!’, disse ele.” [3] 

O que seria então das grandes instituições humanas se Jesus voltasse, e não fosse morto nem encarcerado?  Qual o poder revolucionário da sua presença física consciente entre os habitantes do século 21?

Como Jesus é judeu, ele poderia reaparecer em meio a um tiroteio, no auge de um conflito provocado por antissemitismo e ódio religioso.

Quando os atiradores o metralhassem, veriam que seu corpo era imaterial: o Mestre estaria usando apenas um corpo sutil - uma réplica do seu corpo físico - o mayavi-rupa da filosofia esotérica. Ele seria perfeitamente visível, mas não poderia ser tocado ou morto.  

Depois disso, o Mestre surgiria nas ruas de Nova Iorque com seu corpo físico denso. Ele caminharia em direção ao prédio da ONU e seria reconhecido ao atravessar uma rua com sinal vermelho. Os carros parariam. Uma aura de luz branca, transparente, rodearia completamente seu corpo. “Só pode ser Ele”, pensariam as pessoas imediatamente.

O engarrafamento de trânsito se expande enquanto ele avança. Não se ouvem buzinas, porém. Os carros são abandonados com as portas abertas.  Homens e mulheres se ajoelham ao ver o Mestre. Crianças correm para Ele e ele abençoa o povo. De quando em quando, ele interrompe sua caminhada por um momento e cura alguém; e aconselha, consola, ensina.  No portão externo do prédio das Nações Unidas, ele menciona que quer falar com o secretário-geral e são solicitados seus documentos. O Mestre explica que não tem passaporte consigo, mas avisa que “não pretende tomar muito tempo do secretário-geral”.

O sistema de segurança é acionado: em poucos segundos, o Mestre é rodeado por forças especiais do FBI e detido para interrogatório.  Quando as perguntas começam,  o “estrangeiro sem documentos” permanece em silêncio.  Quando a pressão institucional aumenta,  o Mestre sorri, abandona o plano material denso e desaparece no ar.

Do episódio restou apenas a perplexidade do público e dos policiais.  Ficava claro mais uma vez para os Iniciados que uma aproximação visível e consciente entre os Mestres e a nossa civilização não é fácil. O Mestre volta ao silêncio do seu retiro nos Himalaias, um dos locais  sagrados do planeta de onde são inspirados os corações de boa vontade.  

Devido às limitações da consciência humana no seu estágio atual de evolução, nenhum grande instrutor pode aparecer no mundo desta forma externa e óbvia, que gera constrangimento e incompreensão.  Os Mestres tampouco “canalizam” mensagens verbais através dos numerosos profetas e intermediários que hoje se pode encontrar a cada esquina. Toda “volta” ou “aparição” personalizada, ocorrendo no plano físico ou verbal, é ilusão.  

O Jesus do Novo Testamento é um personagem simbólico, e não histórico.

A narrativa da sua vida segundo os evangelhos cristãos constitui uma bela parábola com lições teosóficas, budistas e pitagóricas. Os evangelhos mais conhecidos atualmente contam que Jesus só foi reconhecido como um mestre e compreendido por alguns poucos indivíduos. Mesmo entre os poucos, a compreensão do Mestre foi parcial e precária, como é ilustrado em inúmeros episódios, inclusive a traição de Judas e o fato de Pedro negar o Mestre três vezes.   

Os Imortais, os Arhats, os Rishis, os Mestres de Sabedoria, ajudam anônima e incessantemente a humanidade há milênios sem conta. Eles têm colocado à nossa disposição, sob diferentes linguagens e roupagens culturais, uma sabedoria eterna que contém respostas para todos os males humanos. Taoismo, budismo, hinduísmo, judaísmo, islamismo, cristianismo e diversas filosofias e tradições de distintas épocas contêm lições de suprema beleza e eficácia. Para tirar real proveito delas, basta transcender o dogmatismo e o emocionalismo que tendem a personalizar indevidamente o que é sagrado.  

As diferentes personificações da sabedoria - entre elas as figuras de Cristo,  Krishna, Buddha e Lao-tzu - funcionam como sinais da existência de seres aperfeiçoados. Tais Mestres não têm vida pública.  Eles preservam corpos físicos, mas vivem anonimamente, afastados da vida social, e trabalham em um plano de consciência elevado, em que palavras não são necessárias, mas que dá vida e significado às palavras.

Em um nível subjetivo, as imagens públicas dos instrutores podem sintetizar as nossas melhores aspirações à virtude e à sabedoria.  As imagens conscientes que as pessoas de boa vontade alimentam sobre eles são, em parte, projeções criadas a partir da divindade presente na alma humana. Porém, não devem ser entendidas de modo literal.  

Existe em cada ser humano uma semente divina, e ela deve germinar. Esotericamente, a verdadeira “volta” ou “reaparição” de Cristo é o processo de re-nascimento na alma humana deste nível universal de consciência.  Sobre a volta de Jesus, o Evangelho segundo Mateus afirma:

“Então, se alguém vos disser: ‘Eis que o Cristo está aqui’, ou ‘ali’, não lhe deis crédito. Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos. Eis que eu vo-lo tenho predito. Portanto, se vos disserem: ‘Eis que ele está no deserto’, não saiais. ‘Eis que ele está no interior da casa’; não acrediteis. Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem.” (Mt. 24: 23-27)

A luz da sabedoria vem do Oriente, de fato.  Mas, na última frase desta citação, a palavra grega parusia, traduzida como “vinda”, significa, na realidade, presença. A frase afirma que a presença de Cristo será percebida como um relâmpago de leste a oeste, isto é, em todo o mundo. Helena Blavatsky, a fundadora do movimento esotérico moderno, escreveu que o significado desta passagem é duplo.

Em primeiro lugar, a expressão “Vinda de Cristo” significa na verdade a presença da consciência crística “em um mundo regenerado e não, de forma alguma, a vinda corporal de Cristo Jesus”. 

Em segundo lugar, este “Cristo” não deve ser buscado “nem no deserto nem em lugares retirados, nem no santuário de algum templo ou igreja construída pelo homem, porque Cristo - o verdadeiro Salvador esotérico - não é um homem mas o Princípio Divino em cada ser humano.” 

Para Helena Blavatsky, ver Cristo literalmente como um ser humano é um equívoco, mas a imagem pode ser usada no plano simbólico. Ela prossegue:

“Aquele que se esforça por promover a ressurreição do Espírito crucificado em si mesmo pelas suas próprias paixões terrenas, e enterrado profundamente no sepulcro da sua própria carne, aquele que tem força para fazer rolar a pedra da matéria para longe da porta do seu próprio santuário interno, este faz despertar Cristo em si mesmo.” [4]
                                     
Há milhares de anos, nas mais diferentes tradições, o céu simboliza o mundo da alma espiritual e a consciência elevada.

A reaparição de Cristo “entre as nuvens do céu” (Mateus, 24:30) significa que o Mestre interior e a sabedoria divina ressurgirão primeiro nos níveis superiores da mente humana, isto é, no plano da inteligência espiritual, da fraternidade universal e do amor incondicional à verdade.

Neste sentido, Cristo não é uma pessoa, mas a luz da Lei do Universo.  A “volta” dele deve ocorrer como um renascimento em cada coração humano. De fato, qualquer grande instrutor da humanidade só poderá aparecer no mundo externo - e ser interiormente reconhecido - quando houver em nós a pureza, a ética e a verdade que formam a essência do sentimento religioso e filosófico. Como diz 2 Coríntios,  6:16:

“Que há de comum entre o templo de Deus e os ídolos? Ora, vocês é que são o templo do Deus vivo...”

A grande oportunidade diante de nós é, pois, a tarefa da autotransformação. O Natal que comemoramos a cada final de ano simboliza o ressurgimento periódico da esperança de redenção individual e coletiva. Ele significa a renovação cíclica do nosso aprendizado, e também a decisão de nascer de novo a partir da consciência do Mestre interior, a alma imortal, que vive em unidade com o universo.

Um renascimento interior acontece enquanto o Natal externo se desdobra. A troca de presentes e outras celebrações visíveis refletem externamente a renovação da consciência da vida no plano do coração.  

Quando olhamos além das formalidades vemos que cada Natal traz, na medida das nossas possibilidades, a volta de Cristo, de Buddha e de outros grandes instrutores.

Nesta época do ano, um sentimento de paz ilumina a mente humana “como um relâmpago que sai do Oriente”. Ele ilumina o planeta inteiro. Ele cura os sofrimentos das almas e as prepara para um novo ciclo anual.

Não pergunte, pois, quando, ou onde, se dará a volta do Cristo.  A volta do Cristo se dará em sua mente e seu coração, neste exato Natal e neste Ano Novo, e sempre e quando você estiver preparado para ela.

É da consciência de cada cidadão de boa vontade que o grande Advento se irradia, estimulando a regeneração e a renovação de todas as formas de vida. 

NOTAS:

[1] “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, edição em dois volumes, Ed. Teosófica, Brasília, 2001, ver volume I, Carta 21, p. 142.

[2] “Os Irmãos Karamázovi”, de Fiódor Dostoievsky, Ed. Nova Cultural, Círculo do Livro. Veja o Capítulo V do Livro V, pp. 203-217.  Em alguns detalhes, segui a tradução feita por Helena Blavatsky diretamente do russo e publicada na revista The Theosophist, Índia, edição de novembro de 1881.

[3] “O Canto do Pássaro”, de Anthony de Mello, S. J., Edições Loyola, SP, 1995, p. 61.

[4] “Collected Writings of Helena P. Blavatsky”, TPH, EUA-Índia, volume VIII, pp. 172-173.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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15 de dezembro de 2014

A CONSCIÊNCIA DO ESTÔMAGO

O Efeito Revolucionário das
Pequenas Coisas do Cotidiano

Carlos Cardoso Aveline



Os aspectos físicos e espirituais da vida estão ligados pela interdependência. Céu e terra são distintos, mas são inseparáveis, e uma grande parte da bem-aventurança humana é produzida pela flora intestinal.

A relação direta entre felicidade e sistema digestivo não é novidade para a filosofia esotérica.  Os jejuns e as dietas especiais são decisivos na vida dos sábios de todos os tempos, inclusive Pitágoras, Jesus, Buda e Lao-tzu.    

Cada célula do organismo humano possui uma inteligência implícita e coopera criativamente com as outras células dentro de um plano geral de preservação da vida. O aparelho gastrintestinal influencia decisivamente os estados de consciência. Ele ajuda a determinar o que pensamos, o que fazemos, e quais são as nossas emoções básicas.

A ciência moderna revela que o sistema digestivo possui um verdadeiro cérebro próprio. Durante as 24 horas do dia ele toma decisões para proteger nossa saúde, e tem plena autonomia e independência em relação aos outros setores de coordenação inteligente do corpo.  E nem sempre o cérebro lógico, o neocórtex, está à altura da inteligência intestinal.  Grande parte das pessoas toma decisões erradas na hora de comer, o que não só dificulta o trabalho do sistema digestivo, mas desperdiça energia vital e ameaça a saúde geral do corpo.

A ecologia do sistema gastrintestinal tem um equilíbrio complexo. A flora intestinal inclui uma quantidade fabulosa de bactérias, fungos e outros microorganismos invisíveis. O médico brasileiro Helion Póvoa explica: “Alojados no intestino grosso, também chamado cólon e que circunda todo o intestino delgado, [os microorganismos] fazem parte do ecossistema humano e são, portanto, fundamentais para a nossa sobrevivência. Temos mais bactérias dentro do intestino do que células no corpo. Um adulto pode possuir cerca de 50 trilhões desses microorganismos!”[1]

A ciência sabe há muito tempo que a alegria de viver não ocorre por acaso. Ela depende da serotonina, substância neurotransmissora presente no cérebro. E a produção da serotonina depende do sistema gastrintestinal.

Helion Póvoa escreve:

“Não é exagero (....) afirmar que a infelicidade pode acontecer  a partir de um problema gastrintestinal. E isso ficou ainda mais evidente há poucos anos, quando alguns pesquisadores descobriram que a serotonina não é fabricada apenas no cérebro, mas também no intestino. Na verdade, cerca de 90% da serotonina de nosso organismo é produzida neste órgão.” [2]

O intestino é responsável por 80% do sistema imunológico. O plexo nervoso que envolve o intestino conta com nada menos que cem milhões de neurônios, enquanto apenas três mil células ligam o intestino ao sistema nervoso central, que é formado pelo cérebro e pela medula espinhal.  Os cem milhões de neurônios garantem não apenas a inteligência, mas também a independência operacional do intestino.

Como todo processo ecológico, a bioquímica da felicidade humana depende de vários fatores, e alguns deles são bem conhecidos:

* Ter uma vida simples;

* Praticar exercícios e conviver com a natureza;

* Pequenos jejuns ajudam a purificar o organismo;

* O consumo de açúcar deve ser reduzido.  

Esse último item merece atenção especial. O hábito de comer doces transforma cidadãos  orgulhosos da sua independência pessoal em escravos subconscientes de um hábil germe intestinal cujo nome científico é Clostridium difficile.

O Clostridium é astucioso. Interessado em alimentar-se de açúcar, ele manda das tripas para o nosso cérebro um certo tipo de toxinas que inibe a produção de serotonina. Em seguida, a falta de serotonina provoca em nós uma sensação de falta de felicidade e nos induz ao desejo de “compensar isso” comendo doces. E doces são o lanche preferido do Clostridium, que prolifera com a farta alimentação e, assim, é capaz de mandar toxinas em quantidade maior, para inibir ainda mais a presença de serotonina em nosso cérebro.  

A abstenção de doces rompe esse círculo vicioso e facilita a obtenção da felicidade. Mas é necessário ter uma boa dose de força de vontade para deixar de lado o açúcar e provar ao Clostridium que somos mais espertos do que ele. Um pouco de preguiça é suficiente para fazer-nos cair na sua manipulação emocional em favor do açúcar.  

Raramente é fácil mudar hábitos pessoais. Até costumes aparentemente sem importância resistem a serem removidos. Às vezes a solução vem de fora, como mostra este diálogo entre duas velhas amigas:

“Alcancei a felicidade na semana passada. Depois de 25 anos de tentativas frustradas, consegui que meu marido parasse de roer as unhas.”

“E como conseguiu isso?”

“Escondi a dentadura dele.”

“Ah - parabéns.”

A falta de consciência corporal dificulta o trabalho inteligente dos intestinos, facilitando a vida dos vilões do sistema digestivo. O estímulo consumista ao prazer de curto prazo não nos coloca em sintonia com nosso corpo, mas, ao contrário, nos distancia dele. O estudo de teosofia permite ao buscador da verdade reconhecer a prática alimentar como um campo de testes e aprendizado e uma fonte de saúde, ou de sofrimento.

Para Helion Póvoa, não sabemos perceber as nossas verdadeiras necessidades corporais:

“O ritmo da vida moderna, que nos faz comer apressadamente e substituir as refeições por lanches, é com certeza uma das razões pelas quais evitamos o diálogo com o nosso próprio corpo. Estamos sujeitos também à publicidade maciça de produtos alimentares, que acaba interferindo na escuta que deveríamos ter com as nossas necessidades nutricionais. O apelo de um belo sanduíche estampado num outdoor ou um maravilhoso sorvete que aparece na televisão é muito maior do que a autêntica reivindicação nutricional do organismo. (...) O que podemos verificar hoje é que (...) o ato de comer deixou de ser apenas o meio de sustentação do organismo para se transformar num instrumento de compensação de tristezas, ansiedades e frustrações.” [3]

A pressa ao comer produz adrenalina e outros elementos que bloqueiam a produção de serotonina. O caminho da felicidade passa por recuperar o diálogo com nosso organismo e reaprender a arte de identificar o que é bom para ele. Não há por que esperar que surja uma grave doença para só então dar valor à saúde. Por isso atualmente as práticas de alimentação saudável se multiplicam.

O valor medicinal dos alimentos deixa de ser uma ideia antiga para converter-se em tendência de mercado em matéria de ideias e literatura. E há modos práticos de identificar os alimentos que previnem e curam as diferentes doenças. 

Jean Carper e outros autores dão indicações que permitem - como ensinava Hipócrates - fazer dos alimentos o nosso remédio. Esse pode ser um plano de saúde preferível aos esquemas convencionais. Mencionemos alguns itens que aumentam a paz do sistema digestivo e a alegria de viver.

* Cabe evitar o consumo de carne de animais mamíferos. Esta maldição da sociedade humana é um forte fator cancerígeno, assim como a gordura nos alimentos.  

* A alimentação vegetariana é um fator central para a manutenção da saúde e a obtenção de uma vida longa. 

* Fumo e bebidas alcoólicas podem abrir caminho para o câncer.

* O abacate beneficia as artérias, reduz o colesterol e dilata os vasos sanguíneos. É antioxidante, ou seja, evita o envelhecimento e melhora o estado geral da saúde.

* O açúcar deve ser usado com moderação, porque é desmineralizante e reduz as defesas do organismo. Também está ligado ao ciclo da depressão e da tristeza.   

* O alho combate parasitas intestinais, é antibiótico, diminui a pressão arterial e afina o sangue, evitando a formação de coágulos. Previne doenças cardíacas, ajuda a curar a gripe e a prevenir o câncer, e aumenta as defesas do organismo.  

* A aveia reduz o colesterol, tem efeitos antidepressivos e é um forte estimulante das funções intelectuais.  

* O azeite de oliva protege as artérias e reduz o colesterol ruim.

* A berinjela reduz o colesterol.

* O brócolis tem alta ação anticancerígena, especialmente contra câncer de pulmão, de cólon e de mama. É melhor comê-lo cru ou levemente cozido.

* Cebola é antioxidante, anticancerígena, anti-inflamatória e antibiótica. Combate a bronquite e outros problemas pulmonares. Melhora o sangue, combate o mau colesterol e aumenta o bom colesterol. Deve ser ingerida crua, ou quase.

* A cenoura é um medicamento poderoso. Antioxidante e anticancerígena, ela protege as artérias. Em jejum, ajuda a eliminar parasitas intestinais. Combate a dor no peito (angina), melhora a visão, diminui o mau colesterol e aumenta a imunidade.   

* A couve combate e previne o câncer, é antioxidante e afasta diversas doenças.

* O espinafre, além de antioxidante, é um dos vegetais que previnem o câncer com mais eficácia.  Combate o mau colesterol. Deve ser comido cru ou levemente cozido.

* O gengibre ajuda nas doenças nervosas, afasta a dor de cabeça, a congestão do peito e o reumatismo. Elimina a dor de garganta. É antioxidante e anticancerígeno. É antidepressivo, elimina sentimentos ou pensamentos negativos e protege inclusive de maus pensamentos alheios.

* Lactobacilos e iogurte são benéficos para a vida do intestino.

* O queijo, o leite, a manteiga e toda gordura de origem animal aumentam o perigo do câncer e não fazem bem às artérias.

* Laranja e lima purificam o sangue e protegem a saúde.

* Originário da Ásia, mais precisamente da região que fica entre a Índia e o sudeste dos Himalaias, o limão é grande purificador do sangue. Tem poder curativo sobre numerosos aspectos da vida humana: previne gripes, combate a obesidade, auxilia o fígado, a vesícula e os olhos. É bom para os pulmões, os rins e a bexiga. Cura doenças de pele e ajuda decisivamente os sistemas digestivo e cardiovascular. [4]

* Maçã reduz o colesterol e contém agentes anticancerígenos.

* O mel é antibiótico e tranquilizante. Bom para o coração.

* As nozes previnem o câncer e protegem o coração.

* A pimenta evita coágulos sanguíneos e combate a dor de cabeça. É antiexpectorante e descongestionante.

* A soja tem efeito preventivo em relação ao câncer de mama e de próstata. Diminui o colesterol, e ajuda a impedir e dissolver os cálculos renais.

* A uva tem função anticancerígena e antioxidante, e aumenta o colesterol bom.[5]

Assim como tudo o que está no alto depende do que está embaixo, também o cérebro e o coração de cada um necessitam do bom trabalho da flora intestinal. O que é grande reflete o que é pequeno, e o que é pequeno reflete o que é grande. O todo está eternamente contido em cada uma das suas partes. [6]

A plenitude não resulta do exagero, portanto. Ela surge, isso sim, da moderação e do equilíbrio que acompanham a sabedoria. O clássico do taoismo chinês “Wen-tzu” afirma:

“As pessoas que alcançaram o Caminho não conquistam ganhos equivocados e não passam problemas para os outros. Não abandonam o que é seu e não pegam o que não é seu. Essas pessoas estão sempre plenas, mas nunca passam dos limites; estão sempre vazias, e com pouca coisa já têm o suficiente. Por isso, quando nos adaptamos às medidas corretas através das artes do Caminho, comemos o suficiente para satisfazer a fome e vestimos roupas suficientemente boas para evitar o frio, e assim damos calor e saciedade suficientes para o corpo. Se não temos as artes do Caminho para avaliar as medidas apropriadas e queremos nobreza e posição social, todo o poder e toda a riqueza do mundo não serão suficientes para nos tornar contentes e felizes. Assim, os sábios têm a mente equânime e tolerante. O espírito vital deles é guardado no interior e não se ilude com as coisas.” [7]

Viver é algo que se deve fazer com calma, e os pequenos mistérios bioquímicos - como a silenciosa digestão dos alimentos - são quase sempre mais importantes que os grandes eventos espetaculares. Os pacifistas do início do século 20 gritavam:

“Mais pão e menos canhão!”

E eles estavam certos. As pequenas coisas do cotidiano possuem um efeito silencioso e revolucionário. O pão é preferível ao canhão, e hoje podemos acrescentar que o limão e o abacate são preferíveis às usinas nucleares.

A cenoura, o brócolis e a cebolinha verde são melhores que os mísseis balísticos intercontinentais. O alho, a couve, a rúcula e a berinjela devem substituir os submarinos equipados com armas atômicas. O amor, a alface e os morangos devem ser escolhidos para o lugar do ódio, da inveja e da corrupção na política. O renascimento da civilização humana ocorre a partir das opções de cada indivíduo. O milagre da satisfação interior combina a ética, a chuva, o vento, o olhar sereno e o afeto, e tem como sua base o sol, as nuvens, o respeito pela verdade e as folhas verdes que crescem do solo.     

NOTAS:

[1] “O Cérebro Desconhecido”, de Helion Póvoa, Ed. Objetiva, RJ, 2002, 222 pp., ver p. 37.

[2] “O Cérebro Desconhecido”, obra citada, p. 56.  Veja também as páginas anteriores.

[3] “O Cérebro Desconhecido”, obra citada, pp. 162 e 163.

[4] “O Poder de Cura do Limão”, de Conceição Trucom, Editorial Estampa, Lisboa, 2010, 215 pp. Edição brasileira, Ed. Alaúde.

[5] Veja a obra “Alimentação Que Pode Prevenir e Curar o Câncer” (pp. 113 a 137) e também o livro “Alimentação Que Pode Prevenir e Curar Doenças Cardiovasculares” (pp. 117 a 142). Os dois volumes são de Jean Carper e foram publicados por  Alegro/Campus/Elsevier,  RJ, 2004.  São indispensáveis os clássicos de Alfons Balbach intitulados “As Hortaliças na Medicina Doméstica” e “As Frutas na Medicina Doméstica”, Edições “A Edificação do Lar”, SP.

[6] Veja a este respeito o texto “A Tábua de Esmeralda”, de Carlos Cardoso Aveline. O artigo está disponível em www.FilosofiaEsoterica.com e seus websites associados.

[7] Do livro “Wen-tzu - A Compreensão dos Mistérios”, de Lao-tzu, Ed. Teosófica, Brasília, p. 144.

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Uma versão inicial do artigo acima foi publicada em julho de 2004 pela revista “Planeta”, de São Paulo.

A respeito da relação entre o corpo e o espírito, veja o capítulo 14 da obra “Três Caminhos Para a Paz Interior” de Carlos Cardoso Aveline, Ed. Teosófica, Brasília. O título do capítulo é “O Corpo Inseparável da Alma”.

Leia os artigos “A Ética da Alimentação Vegetariana”, e “70 Itens Para Uma Vida Natural”, do mesmo autor. Os dois textos estão disponíveis em  www.FilosofiaEsoterica.com  e seus websites associados.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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10 de dezembro de 2014

A SABEDORIA É SÓ TEÓRICA?

O Que é Impossível Para
Um, É Possível Para Outros
  
Carlos Cardoso Aveline




Há vários aspectos a examinar na complexa relação entre teoria e prática,  ao longo do caminho do autoconhecimento.

Devemos investigar, por exemplo, o que há de ilusório - do ponto de vista da filosofia esotérica - neste raciocínio  repetido automaticamente por milhares e milhares de pessoas: 

“Pode ser muito bonita a teoria segundo a qual devemos viver com calma  e com sabedoria,  evitando o estresse. Mas,  na prática, não é assim que a vida funciona.  Temos mesmo que fazer 45 coisas ao mesmo tempo e não há como evitar a ansiedade ou a agitação.”

O que há de equivocado neste enfoque da questão da “vida simples”?  As ilusões do argumento acima podem ser organizadas em três pontos principais.

Em primeiro lugar, a ideia desvincula a teoria  da prática.

A desvinculação entre teoria e prática, descrevendo-se a teoria como “algo bonito mas sem utilidade prática”, leva, mais cedo ou mais tarde, à hipocrisia.  Só por isso o enfoque  já não poderia ser aceito, porque nesse caso a chamada “teoria” não passa de uma mentira elaborada para iludir a si mesmo ou os outros.  

Em segundo lugar, a ideia expressa o abandono implícito até mesmo da intenção de tentar ser coerente. A pessoa se autojustifica de antemão e desiste completamente da ideia de viver  a sabedoria em sua vida prática.  Neste caso, ela deve ser pelo menos honesta o suficiente para abandonar também a teoria, evitando resvalar para o abismo ético da mentira sobre assuntos espirituais.   

Em  terceiro lugar,  a afirmação de que “na prática,  a teoria que propõe uma  vida calma deve ser  vista como algo meramente decorativo”  simplesmente  não corresponde à mais elementar realidade dos fatos.  Essa visão superficial ignora a realidade de que a prática da calma e da sabedoria é exercida desde que existe a humanidade - e também nos dias atuais -  por milhões de indivíduos  que estavam ou estão comprometidos, formal ou informalmente, consciente ou inconscientemente,  com o centro de paz em suas próprias consciências.

A paz e a calma são sobretudo  interiores e não negam a movimentação externa própria de tudo o que vive. 

É bem conhecido e documentado o testemunho de milhares de sábios e aprendizes da sabedoria universal, nas mais diferentes religiões, desde pelo menos 3.000 anos atrás.

Estes testemunhos de vida mostram que é perfeitamente possível viver uma vida baseada na simplicidade, e não na complicação. Milhões de cidadãos trilham hoje em todo o mundo este caminho prático, dentro das suas possibilidades e dos seus limites.

Devemos levar em conta, ao mesmo tempo,  que não existe uma divisão simples e definitiva entre “aqueles que vivem o ensinamento” e “aqueles que não vivem o ensinamento”. 

A distinção a ser feita é mais complexa, e mais dinâmica. Há uma divisão, isso sim, entre aqueles que “se esforçam para viver cada vez mais o ensinamento, gradualmente e dentro da sua realidade”, e aqueles que “criam pretextos para justificar o fato de que não se esforçam para viver cada vez mais o ensinamento, nem mesmo dentro das suas possibilidades”. 

Não importa, pois, se a pessoa vive muito ou pouco o ensinamento.

Importa - e isso é significativo para ela mesma, não tanto para os outros - se a capacidade da pessoa de vivenciar o ensinamento é crescente ou decrescente.

Seria perfeitamente correto, portanto,  dizer:

“A teoria segundo a qual devo viver com calma e com sabedoria é bonita e inspiradora: porém,  na prática, eu ainda não consigo aplicá-la tanto quanto eu gostaria”. 

E todos nós devemos fazer esta mesma honesta admissão, sem dúvida, ao colocarmos diante de nós o ideal da perfeição humana ensinado pela filosofia e pela teosofia.    

Conforme Helena Blavatsky esclarece em seu livro “A Chave da Teosofia”, é verdade que muitos teosofistas têm dificuldades para vivenciar o ensinamento, mas essa é uma limitação deles, e não do ensinamento.  Os alunos devem amadurecer o suficiente para compreender a importância do ensinamento. A filosofia esotérica não pode ser definida como falso, ou como meramente  “especulativa”,  apenas porque tais ou quais pessoas ainda não estão à altura dele.  

A verdade é que,  em todos os tempos, muita gente vivenciou a sabedoria secreta e universal. E cada um de nós pode vivê-la dentro das suas possibilidades. 

Em último caso, poderemos admitir honestamente que, segundo pensamos, nós, individualmente, em nossa etapa atual, não podemos viver tal ou qual aspecto da sabedoria.  Para isso, porém,  não há necessidade de definir a sabedoria como algo falso e destituído de razão de existir, ao afirmar que ela “na prática ela não pode ser vivenciada”.

Se hoje não conseguimos vivenciar plenamente a sabedoria, isso é humano. Admitir o fato é honesto. Mas a  limitação é apenas individual  e não coletiva. No futuro,  venceremos esse obstáculo. E mesmo hoje é possível ver outras pessoas que  consideram fácil e natural viver a calma e a paz da sabedoria, e aprender com elas.   

Seja qual for o nosso estágio de evolução, se examinarmos a estranha “sensação de impossibilidade que temos diante da ideia de alcançar e praticar certos níveis de ensinamento sagrado que já distinguimos e compreendemos,  mas que ainda parecem estar acima do nosso alcance,  talvez vejamos que tal sensação será facilmente removida,  no dia em que aprofundarmos melhor o contato direto com o potencial ilimitado que há em nosso interior.

Aprender é superar limites. Os estudantes de teosofia ou filosofia não devem esquecer disso.  A médio e longo prazo, os “limites” e “impossibilidades” do aprendizado terminam por revelar-se  apenas criações ilusórias da ignorância acumulada,  algo que estamos aprendendo a  remover gradualmente do nosso ser interior. 
   
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Veja o ainda texto “A Diferença Entre Teoria e Discurso”, do mesmo  autor, que está disponível em www.FilosofiaEsoterica.com e seus websites associados.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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