29 de julho de 2016

O AMOR ALÉM DA ILUSÃO

 O Afeto Verdadeiro
Não Depende de Recompensas

Theosophy

Talvez a fraternidade constitua a essência do amor

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O artigo a seguir foi publicado pela
primeira vez na revista “Theosophy”, de Los
Angeles, em sua edição de fevereiro de 1950, pp.
163-167. O título original é “Love and Illusion”.  

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O amor verdadeiro é tão difícil de encontrar como a própria sabedoria. Talvez, afinal de contas, este seja o objetivo da sabedoria, e talvez o amor seja algo que só pode ser obtido através da sabedoria?

Pelo menos, embora seja tema de conversas por todo lado e seja buscado por jovens e velhos, o amor evita os seus buscadores mais ardentes e parece favorecer os seus candidatos mais improváveis. No entanto, todos os que sabem o que é um amor verdadeiro e durável têm certas qualidades em comum. Idade, sexo, características sociais e raciais, educação e condições econômicas não alteram o fato central de que aqueles que amam profundamente têm naturezas fortes e generosas, e se caracterizam por grande integridade, honestidade, sinceridade e altruísmo.

Pode ser o amor entre os pais e a criança, entre o homem e a esposa, ou entre o irmão e a irmã. E pode ser o amor de uma amizade duradoura ou a relação entre o mestre e o discípulo. Aqueles que amam podem viver na mesma casa ou no outro lado do globo terrestre; ou o amor pode ser dirigido a alguém muito distante no tempo, que é reconhecido apenas através da corrente que flui pela palavra escrita. O contato pode ser estreito e frequente, raro e imprevisível, ou completamente intangível. O amor, quando é a energia dominante, não pode ser limitado por condição alguma: ele domina o tempo, o espaço, a mente e a matéria.

É comum associar o amor com as emoções, e de vez em quando com a mente, algumas vezes com a alma - embora esta última seja descrita de forma vaga. A emoção do amor foi completamente examinada pelos especialistas em psicologia de vários séculos, e cada geração a investiga novamente. Na verdade, o investigador individual pode repetir muitas vezes na mesma encarnação a sua rendição impulsiva ao “amor”, aparentemente sem determinar de modo satisfatório para si mesmo qual é a sua verdadeira natureza. O sonho de uma emoção vitoriosa de amor é o ingrediente principal de muitas novelas, contos e romances populares e, indiretamente, o leitor continua a buscar pelo prêmio que ainda fascina mas nunca é alcançado.

A História e a experiência estão longe de haver demonstrado que o êxtase emocional é um começo inteligente para a exigente relação do casamento. Além disso, tem havido exemplos surpreendentes de casamentos felizes que não ocorreram através de preferências pessoais, mas para satisfazer necessidades muito diferentes. No entanto, a ideia de recomendar que o casamento tenha como razões primordiais o dever e a responsabilidade seria pouco aplaudida entre os povos ocidentais. Os norte-americanos, especialmente, parecem sentir que a busca da felicidade (seu direito inalienável e, ao mesmo tempo, o seu esforço mais desesperado) consiste - principalmente, se não exclusivamente - em “assumir os riscos da loteria, já que há muito mais alvos do que prêmios”, como H. P. Blavatsky assinalou certa vez. Hoje, quando uma estimativa calcula que setenta e cinco por cento dos casamentos norte-americanos terminam em divórcio, só podemos ficar surpresos com a força de uma superstição que é mantida por resultados tão pouco favoráveis.

Que outro tipo de amor existe?

Devemos considerar as intensidades ilusórias da paixão, que às vezes escondem o desejo puramente egoísta de conquista e posse? Neste caso o “amor” não é garantia de que não haverá ódio e crueldade em relação ao objeto de tais “afetos”.

Devemos incluir os casos de simples paixões tolas e de fantasias capazes de apagar todas as considerações racionais? Com que base, já que emoções primariamente irracionais não podem beneficiar intencionalmente nem os seus sujeitos, nem os seus objetos? A filosofia, propriamente falando, lida apenas com as atitudes da mente; com questões sujeitas ao pensamento e que se supõe que serão melhoradas por um tipo diferente de pensamento, por uma outra atitude mental. O mistério do amor é dificilmente percebido por aqueles que não se perguntam sobre a sua origem, não examinam o seu poder, e não tentam através da imaginação e da vontade erguer o seu amor até a potência mais elevada.  

Exceto no caso das suas expressões mais elevadas, talvez o amor seja como o “Grande Enganador” descrito figurativamente em “A Voz do Silêncio”[1].

Três Salões devem ser percorridos, segundo aquela obra, antes que a “grande e terrível heresia da Separatividade” seja superada por completo. Primeiro, o Salão da Ignorância, que é atravessado em segurança quando a mente já não confunde “os fogos da luxúria que ardem ali com a luz do sol da vida”. Depois há o Salão do Aprendizado. Nele o neófito encontra as flores da vida, “mas sob cada flor haverá uma serpente enroscada”, e ele é aconselhado:

“Os SÁBIOS não se demoram nas regiões prazenteiras dos sentidos. Os SÁBIOS não dão atenção às vozes encantadoras da ilusão. Busca por aquele que te fará nascer no Salão da Sabedoria, o Salão que está mais além. Nele todas as sombras são desconhecidas, e a luz da verdade brilha com uma glória que jamais perde sua força.”

O Salão do Aprendizado é o lugar da provação da alma. É o perigoso reino de Mara, no qual existe a luz enganosa do conhecimento parcial. Nele deve ser enfrentada e vencida “a fascinação que o vício exerce sobre certas naturezas”. A radiação ilusória lança sobre a tela mental a escuridão de imagens incertas e os demônios zombeteiros do pensamento inseguro. “Ela domina os sentidos, cega a mente, e deixa o imprudente abandonado e destruído.” A saída está no caminho que leva à integridade da mente e ao conhecimento da alma.

Só a alma, a força interior, pode suportar a guerra sutil de atrito que é promovida por Mara. As ilusões aparecem e desaparecem, assim como falsas crenças se desintegram e aparentes verdades explodem. A mente tem necessidade de verdades que pertencem a um plano situado acima da ilusão, que crescem desde a origem do Ser e não dependem de condições ou bases pessoais. Por acaso não é um fato que certas verdades entram diretamente na consciência, e transmitem uma experiência interior tão clara que elas parecem ter sido conhecidas desde sempre? Por exemplo, existe a impressão de que a ideia de ser deixado sozinho, sem a companhia de pelo menos um outro ser humano, é fundamentalmente rejeitada no nível mais profundo do coração humano. Isso não deve ser superficialmente rotulado como medo da solidão, como um medo de si mesmo, ou como o resultado de uma consciência culpada. Na verdade, esta é a esmagadora compreensão de que o princípio da fraternidade é natural para a alma - por mais precária que seja a forma externa pela qual o ser humano vive este princípio.

Aqui chegamos a outro aspecto do amor. Ou talvez a fraternidade, na verdade, constitua a essência do amor.

A Fraternidade, em última instância, é a convicção inabalável de que cada vida e cada alma têm uma relação e uma identidade com todas as outras. A Fraternidade é o conhecimento do “ponto de acordo” entre todos os seres, e através do qual todos compartilham da Alma Universal. Se poderia dizer que quando o amor existe por si mesmo, sem a expectativa de recompensa ou reciprocidade, sem referência a qualidades particulares e portanto sem ser ameaçado por defeitos pessoais, ele é fraternidade pura e simples. Um tal amor é, evidentemente, uma sabedoria. Ele é intocado pelos pares de opostos. Ele não é ameaçado pela ação, pelo resultado da ação, ou por desejos. Ele mantém o prumo perfeito da equanimidade, que é a perfeição da habilidade na realização das ações. Ele é a intenção que dá forma à ação correta.

Como pode ser obtida a sabedoria do amor? Ela é obtida do modo como sempre se alcança a sabedoria. Ela é obtida por aquele que se torna digno dela.

O Carma, a lei da ação, regula este processo assim como regula todas as coisas. Um amor mais sábio não é obtido pela inação, nem é dado pelo capricho ou pelo acaso. Desrespeitar em nome do amor a integridade de outra pessoa, ainda que a outra pessoa não se oponha a isso e não veja a paralisação da sua própria vontade, é trair a fraternidade humana e negar a si mesmo o poder elevado do verdadeiro amor. Manchar ou tornar cega a compaixão, insistindo em que o amor deve ser homenageado, recompensado ou admirado, é selecionar para o futuro individual o sofrimento de uma paixão exigente. O amor, a fraternidade e a compaixão não podem ser ensinados, mas podem ser aprendidos.

Os paradoxos são úteis quando descrevemos o intangível, porque eles dissolvem as definições rígidas e sugerem uma realidade mais inclusiva. Assim, o amor, que parece ser intensamente pessoal, se torna com frequência maior e mais invencível quando é verdadeiramente impessoal. O “coração de criança”, a confiança dada tão livremente pelo ser humano não-sofisticado, é encontrado também naqueles em quem a sabedoria está estabelecida, cuja visão não tem véus, aqueles que conhecem o bem e o “mal” e permanecem imperturbados por qualquer coisa que ocorra.

Há uma impressão de que aqueles que estão “apaixonados” sabem pouco sobre o amor, simplesmente porque não podem ficar à parte e compreender que o amor é uma energia a ser dirigida conscientemente.

Assim como a vontade, o amor é uma força sem cor determinada, que assume o seu caráter conforme as motivações daquele que o vive. O amor não é uma desculpa, não é uma razão, não é uma justificação e tampouco é uma causa. Ele é uma energia que pode ser colocada em ação em qualquer plano, através de qualquer um dos princípios ou instrumentos da consciência humana. Dependendo do plano ou estado de consciência em que o Eu está agindo, esta energia pode ser de união ou destruição.

O amor, quando real, puro e profundo, tem sido para muitos uma antecipação da imortalidade, e, de certo modo, uma evidência de que há uma alma que não morre. Teosoficamente, isso também significa uma evidência da reencarnação. A doutrina do renascimento é a única explicação das afinidades - sejam casuais ou dominantes - que emergem com toda força nas vidas das pessoas e produzem amor ou ódio contrariando aparentemente o que elas querem e desejam. O amor e o ódio, na filosofia da reencarnação, são as grandes forças de atração que reúnem, uma e outra vez, amigos e inimigos do passado.

Porém, tanto o amor quanto o ódio, como opostos, devem desaparecer, porque “se um indivíduo trabalha, ainda que indiretamente, para si mesmo e de modo parcial, ele se torna nesta mesma medida um mago antievolutivo”.

H. P. Blavatsky distingue o real do parcial da seguinte maneira:

“O amor puro e divino não é apenas o fruto de um coração humano, mas tem sua origem na eternidade. O amor espiritual e sagrado é imortal, e o Carma faz com que, cedo ou tarde, todos os que se amaram com afeto espiritual nasçam no mesmo grupo familiar. Nós dizemos novamente que o amor além da morte, ainda que possa ser chamado de ilusão, tem uma potência mágica e divina que reage sobre os vivos…... Ele se manifesta nos seus sonhos, e frequentemente em vários acontecimentos - em proteção e fatos providenciais, porque o amor é um escudo forte, e não é limitado por espaço ou tempo.”

O laço cármico da afeição espiritual talvez vá criar famílias cujos membros são fraternalmente devotados a viver a vida mais elevada e a seguir “a doutrina do coração”. Os casais em que o amor de um pelo outro abre em certa medida o “terceiro olho” irão encontrar na vida cotidiana correspondências e analogias com a raça etérea dos Filhos nascidos da Mente, e começarão a sentir a força de uma profecia teosófica dada em “A Doutrina Secreta”. [2]

As crianças que crescerem na presença de um amor que é verdadeiramente “a luz do sol da vida” irão assimilar mais decididamente o carma da sua hereditariedade e do seu ambiente, e compreenderão mais cedo a função das afinidades na evolução da alma. 

Uma família cujo ideal é a afeição espiritual jamais se desintegrará. Ela permanece como um núcleo de incontáveis ramificações e relacionamentos, cujo denominador comum é o impulso em direção à fraternidade: ela é um “movimento teosófico”, com potencialidades incalculáveis do ponto de vista do progresso da humanidade. 

NOTAS:

[1] No seu Fragmento I, ou primeira parte, “A Voz do Silêncio”, de Helena Blavatsky, se refere ao “Grande Enganador” ou “Mara”. (CCA)

[2] “The Secret Doctrine”, H. P. Blavatsky, Theosophy Co., Los Angeles, volume II, p. 415. (CCA)   
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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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28 de julho de 2016

A LUZ DA ALMA IMORTAL

Examinando a Prática do Caminho Teosófico

Carlos Cardoso Aveline 



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Nota Editorial:

A filosofia esotérica ensina que o ser humano tem
sete princípios ou níveis de consciência. O primeiro
deles é o físico, Sthula-sharira.  O segundo é o princípio
vital, ou Prana.  O terceiro, Linga-sharira, o “modelo”
cármico sutil do corpo físico, que inclui o patrimônio genético.
O quarto, Kama, é o centro das emoções pessoais e animais. O
quinto princípio é Manas, a mente. Buddhi é o sexto princípio,
a inteligência espiritual, a alma imortal. Atma é o sétimo
princípio, o princípio supremo, o verdadeiro eu, e também a
consciência universal impessoal: o verdadeiro ser não é “alguém”.
O texto a seguir investiga a relação entre Buddhi e as emoções.

(CCA)

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A vida é mais complexa do que parece. Buddhi, o sexto princípio da consciência humana, não funciona como um bloco compacto, mas como uma tríade. 

A alma espiritual é o nível de consciência simbolizado - na lenda cristã - pela figura de Jesus Cristo. Buddhi é aquele que se sacrifica.  Ele desce ao plano da alma mortal e do mundo externo, encarna, é crucificado neste plano, e vive a ressurreição. A ressurreição ocorre no pós-morte, através do Devachan, ou na vida concreta,  através do caminho teosófico e iniciático, e como resultado de um esforço que dura várias encarnações.

Na sua relação dinâmica com a alma mortal, Buddhi é uma tríade:

1) Buddhi em si;
2) Buddhi-Manas;
3) Buddhi-Kama.

Buddhi-manas é a combinação de Buddhi com o mundo mental. E existe também a combinação de Buddhi com o mundo emocional pessoal, Buddhi-kama. Esta última não é um processo fácil.

Buddhi-Manas, sem Buddhi-Kama, está sujeito a um “sequestro emocional” (termo criado por Daniel Goleman). O sequestro ocorre quando emoções inferiores “roubam” ideias espirituais e colocam o discurso altruísta a serviço de objetivos egocêntricos.

É comum surgir uma desconexão entre as emoções e ambições pessoais profundas e as ideias universais que o indivíduo adotou.

Então as emoções antievolutivas desafiam veladamente os ideais filosóficos, e tratam de usar as ideias generosas para seus fins egoístas. Isso configura o “sequestro” do que é generoso por parte daquilo que é antievolutivo. Esta luta deve ser compreendida, porque ela ocorre na maior parte das pessoas e traz perigo real.

O que produz um progresso espiritual verdadeiro, portanto, não é apenas aumentar as ideias e o conhecimento no plano conceitual, como se as ideias tivessem peso próprio decisivo. Ideias são feitas de ar e não de terra. O que trará progresso, além de ter ideias filosoficamente corretas, é examinar constantemente os sentimentos pessoais, olhando para eles desde o ponto de vista de Atma e Buddhi. Isso diminuirá o peso dos sentimentos opacos e inferiores, e irá restaurar o equilíbrio necessário entre os dois pratos da balança: o prato de Buddhi-Manas, e o prato de Buddhi-Kama.

Buddhi-Kama é feito pelas emoções da alma imortal, e entre elas está o sentimento do herói, que enfrenta perigos por uma causa maior e renuncia voluntariamente à sua vida menor para fazer a jornada nobre do autossacrifício, vivendo a vida maior. Esta decisão voluntária produz a devoção pelo companheiro de caminhada que é mais experiente, a devoção pelo crescimento e aprendizagem de todos os seres, e a devoção pelo mestre - ou mestres - como fontes de ensinamento sagrado.

Devoção é o amor do pequeno pelo grande, do terrestre pelo celestial. A percepção intelectual do divino fica prejudicada sem a sua contrapartida emocional, o amor pelo mundo divino e seus habitantes. Este compromisso maior gera a psicologia do herói em sua jornada épica, cujo nome técnico é “discipulado”. 

O aprendiz deve examinar com cuidado o processo da aspiração espiritual em si mesmo.  Deve verificar se há um equilíbrio entre dois elementos:

A) De um lado, a curiosidade intelectual-búdica, a vontade de compreender a si mesmo e ao universo.   

B) De outro lado, a vivência emocional-búdica, a ânsia por contribuir altruisticamente com a Causa da evolução humana e com o bem-estar de todos os seres.  

No plano intelectual, buscamos a verdade. No emocional, buscamos retribuir à vida  por aquilo que ganhamos dela.

Quando a relação na balança entre pensamentos e sentimentos é disfuncional, ao invés de existirem emoções búdicas e pensamentos búdicos lado a lado nos dois pratos, temos emoções de raiva, competição, inveja e rancor - ao lado de pensamentos universais e búdicos.

Desta maneira, a substância que um prato da balança está pesando é o oposto da substância  que o outro prato da balança contém. Em uma simetria desfavorável, os dois polos do processo anulam-se reciprocamente, e o resultado prático é o oposto do amor e da verdade, ainda quando o individuo, no plano externo, possa usar as palavras e as aparências da espiritualidade. 

Em que condições o fiel da balança é de fato a Sabedoria, como deve ser? 

O equilíbrio se dá na Sabedoria quando os dois pratos da balança contêm respectivamente VERDADE IMPESSOAL (Buddhi-Manas) e AMOR ALTRUÍSTA (Buddhi-Kama).

Não é por acaso que o sentimento de Amor pela Verdade está na origem da palavra “filo-sofia” (“amor ao saber”) e no lema do movimento teosófico: “Não Há Religião Mais Elevada Que a Verdade”. 

Em última instância, a construção do movimento teosófico autêntico em língua portuguesa depende do despertar de Buddhi, que combina emoções como devoção e renúncia, por um lado, com pensamentos universais, impessoais e lúcidos, de outro lado. 

A mudança externa da vida de um estudante ocorre quando emoções sinceras e generosas acompanham passo a passo as concepções filosóficas.  

Quando as emoções não acompanham os pensamentos universais, elas passam a contrapor-se ativamente a eles. Alimentadas pelas motivações e pelas ações reais no mundo externo, as emoções passam então a ser OPOSTAS aos pensamentos e ao discurso de natureza universal. Elas passam a desafiá-los, a boicotá-los. Levam o indivíduo a odiar, competir e invejar ativamente aqueles que, em seu mundo pessoal, deveriam co-personificar a vivência do universal. Daí a luta interna que alguns estudantes enfrentam em suas próprias almas. Daí, também, as lutas neuróticas e subterrâneas pelo poder e pela “liderança” nos movimentos esotéricos cuja proposta de ensino e aprendizagem não é a melhor.

Embora as palavras e os conceitos sejam fundamentais, eles não bastam. É preciso restabelecer o equilíbrio na balança entre buddhi-manas e buddhi-kama: a balança entre as ideias e os sentimentos. 

A teosofia é búdica. O princípio búdico transforma todos os aspectos da vida, ainda que isso às vezes tome mais tempo do que se pode prever. 

Em última instância, Buddhi não funciona apenas como uma tríade, mas é uma luz setenária, cuja energia, além de preservar-se em seu próprio âmbito búdico, se combina com cada um dos outros seis princípios da consciência. 

A verdadeira luz de buddhi é literalmente como a luz do sol. Atma é sol, e Buddhi é luz.  A luz ilumina tudo, e não só pensamentos. A luz búdica transforma tudo, ou não transforma nada. Ela desmancha todas as paredes e proteções, ou não é búdica. Palavras sobre a luz não substituem a luz. Quando o estudante percebe a luz, ele compreende que  ela ilumina tanto coisas agradáveis como coisas desagradáveis. Ele deve concentrar o foco da visão na luz, evitando a dispersão, porque no seu devido tempo a visão universal transmuta todas as coisas para melhor. O buscador da verdade  deve manter a visão ampla e o foco preciso. Deve ser fundamentalmente otimista, porque está em contato prioritário com o que é ótimo. Num segundo plano,  deve ser calmamente rigoroso e severo em relação às ilusões, porque só há progresso real na medida em que elas são deixadas de lado.

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Uma versão inicial do artigo acima foi publicada de modo anônimo na edição de abril de 2010 de “O Teosofista”.

Leia também o  texto “Os Sete Princípios da Consciência”, de Carlos Cardoso Aveline, que pode ser encontrado em nossos websites associados.

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Sobre o crescimento interior e a transformação pessoal no século 21, leia a obra “O Poder da Sabedoria”, de Carlos Cardoso Aveline.


O livro foi publicado pela Editora Teosófica, de Brasília, tem 189 páginas divididas por 20 capítulos e inclui uma série de exercícios práticos. Está na terceira edição.  

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27 de julho de 2016

COMO NASCE A ESCOLA ESOTÉRICA

Em 1888, Helena Blavatsky Cria a
Seção Interna do Movimento Teosófico

Sylvia Cranston
  

Sylvia Cranston (Anita Atkins), e a capa da edição brasileira da obra sobre HPB


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Nota Editorial de 2016

O texto a seguir reproduz o capítulo 10
da parte seis da obra “Helena Blavatsky”,
de Sylvia Cranston,  Ed. Teosófica, Brasília.
O capítulo é intitulado “A Seção Esotérica”.

“Sylvia Cranston” é o nome literário de
Anita Atkins (1915-2000), notável teosofista e
associada ativa da Loja Unida de Teosofistas, LUT.

Nesta transcrição, mantenho as principais
notas de rodapé de  Cranston, acrescento outras, e
reproduzo algumas das notas da edição brasileira de
1997, de cuja preparação participei como revisor técnico.    

(Carlos Cardoso Aveline)

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No outono de 1888, “Lucifer” [1] trazia um anúncio da formação de uma Seção Esotérica da Sociedade Teosófica. Como presidente da S.T., o coronel Olcott explicava a finalidade e estrutura da nova seção:

“1. Para promover os objetivos esotéricos da Sociedade Teosófica por meio do estudo mais profundo da filosofia esotérica, é criado por este instrumento um corpo a ser conhecido como ‘Seção Esotérica da Sociedade Teosófica’.”

“2. A constituição e a única direção desta Seção estão centradas na sra. Blavatsky, que é a sua Chefe; somente ela é responsável quanto aos resultados obtidos pelos membros; e a Seção não tem nenhuma ligação com a Sociedade Exotérica salvo através da pessoa do presidente-fundador.”

“3. As pessoas que desejarem unir-se a esta Seção, e que estejam dispostas a aceitar as suas regras, devem comunicar-se diretamente com: - sra. H.P. Blavatsky, Lansdowne Road, 17, Holland Park, Londres, W.”

Na época da morte de HPB, ele recorda que havia um ou dois mil membros entusiásticos da S.E.

Uma carta de HPB para o dr. J.D. Buck, nos Estados Unidos, datada do dia 1 de dezembro de 1888, indica a finalidade e a natureza da seção interna:

“A necessidade desta seção era muito sentida em toda parte. Sendo impossível apresentar muitos ensinamentos publicamente (quer seja em ‘Lucifer’, ou em ‘A Doutrina Secreta’), e havendo membros antigos e bem testados aptos para aprender certas coisas do ocultismo - mais do que os simples estranhos - a formação de tal seção, enquanto eu estiver viva e puder ser útil às pessoas, foi muito solicitada de todos os lados. Não há espaço para despotismo e autoritarismo... nela... nem glória para mim, mas haverá uma série de mal entendidos, calúnias, suspeitas e ingratidão num futuro quase imediato; mas, se da centena de teosofistas (109) que já assumiram seus compromissos [2], eu puder colocar na senda verdadeira e correta uma meia dúzia deles - morrerei tranquila. Muitos são chamados, poucos os escolhidos... Só posso indicar o caminho para aqueles cujos olhos estão abertos para a verdade, cujas almas estão cheias de altruísmo, caridade e amor por toda a criação e só por último pensam em si mesmos.”

“...A Seção Esotérica não é da terra terrena; ela não interfere na administração exotérica das lojas... Ela não exige subscrições, taxas, nem dinheiro, porque assim como eu nada recebi, nada repassarei, e preferiria morrer de fome na sarjeta do que receber um centavo pelo meu ensinamento das verdades sagradas. O correio e o material para correspondência são as únicas despesas, e estas serão pagas pelo Conselho da Loja Blavatsky, caso a minha ‘A Doutrina Secreta’ não me trouxer o suficiente para cobrir tais despesas... Que aquele que quiser a sua herança antes de eu morrer - que a solicite - pois ele terá muito pouco depois que eu partir. O que tenho, ou melhor, o que me é permitido dar estou pronta a oferecer, embora não seja muito.” [3]

A recusa dela em fazer promessas grandiosas com relação às coisas maravilhosas que poderiam ocorrer se os membros se filiassem à S.E. forma um contraste completo com as atrações oferecidas pela assim chamada mídia do oculto e as fabulosas importâncias que quase sempre exigem.

Antes de filiar-se à S.E., os interessados frequentemente escreviam a HPB para saber quais os compromissos que teriam. Um desses interessados quis saber se um soldado poderia tornar-se um membro. Ela respondeu: “O que é que quer dizer com ‘o soldado não é livre’? É claro, nenhum soldado pode estar livre para mover o seu corpo físico para onde quer. Mas o que o ensinamento esotérico tem a ver com o homem externo? Um soldado pode estar preso à sua casa de sentinela como uma âncora ao seu navio, mas o Ego do soldado está livre para ir onde quiser e pensar o que achar melhor.” Entretanto, ela acrescenta:

Não é solicitado a nenhum homem carregar uma carga mais pesada do que possa suportar; nem fazer mais do que lhe é possível fazer... um homem amarrado por seu dever a um lugar não tem o direito de abandoná-lo para atender a outro dever, mesmo que ele seja maior do que o primeiro; pois o primeiro dever ensinado em ocultismo é que façamos o nosso dever sem desistir dele por nenhum outro dever. Perdoem esse aparente paradoxo absurdo, mas tive que repetir isso ad nauseam usque no último mês. ‘Será que corro o risco de que me mandem abandonar minha esposa, desertar dos meus filhos e lar se eu fizer o voto?’ - alguém me pergunta. ‘Não’, eu digo, ‘pois aquele que é negligente numa coisa será infiel em outra. Nenhum MESTRE verdadeiro e autêntico irá aceitar um chela que sacrifica qualquer pessoa além de si mesmo para ir até aquele Mestre.’ Se alguém, devido às circunstâncias ou a sua posição na vida, não puder tornar-se um adepto pleno nesta existência, que ele prepare a sua bagagem mental para a próxima, a fim de que esteja pronto a atender o primeiro chamado quando renascer mais uma vez.[4]

Na Seção Esotérica não era ensinado aos membros ocultismo prático, ou como executar fenômenos psíquicos. Também era excluído o que é chamado de magia cerimonial, tão popular hoje em dia. Em uma das cartas de HPB a Ralston Skinner, que está na coleção de Harvard, ela revela que tais cerimônias podem ser perigosas:

Eu li e reli o seu ‘Hebrew Egyptian Mystery’ (‘O Mistério Hebreu Egípcio’) mais de vinte vezes e recomendo-o a todos os nossos cabalistas como o rev. A. W. Ayton... e Mathers, um cabalista muito bom, mas que perde muito de seu rumo com a magia cerimonial, que eu detesto. [Certos] diagramas geométricos e figuras têm o poder de reagir quando as criaturas dos elementos, meio cegas e sem cérebro, despertam para a atividade - poder e criaturas estas cuja existência você pode negar... Nós, da filosofia Vedanta esotérica do Hinduísmo..., sabemos o poder que certos círculos e diagramas possuem sobre os elementos. Esta é a razão por que eu acredito na magia cerimonial, mas a odeio e a temo. Tenha cuidado com certas figuras e combinações, portanto, sr. Skinner...[5]

Observa um escritor:

“Com a formação da Seção Esotérica, uma nova influência começou a ser sentida na história teosófica. Apesar de pouco ter sido impresso nas publicações teosóficas a respeito dessa Seção - pois todas as suas atividades eram realizadas sob um estrito  juramento de segredo[6] - o efeito dessa nova organização era consolidar as energias e a devoção dos membros mais ardentes da Sociedade, o que obviamente beneficia o trabalho do Movimento. Como chefe dessa Seção, HPB estava livre dos procedimentos organizacionais em suas relações com os estudantes esotéricos, que ela considerava seus alunos, e a quem ela deu, privadamente, os ensinamentos apropriados ao ciclo de desenvolvimento interno que estavam vivendo.” [7]

Como a circulação dos ensinamentos era privativa, nenhuma tipografia comercial podia ser usada. HPB menciona o método adotado para reproduzir os documentos esotéricos numa carta a Vera, que vinha se lamentando por não ter recebido notícias de sua irmã durante muito tempo:

“Dêem-se ao trabalho de contar as minhas ocupações, vocês, injustas sem coração. Todo mês eu escrevo de quarenta a cinquenta páginas de ‘Instruções Esotéricas’, instruções em ciências secretas, que não podem ser impressas em gráficas públicas. Cinco ou seis pobres mártires voluntários entre os meus esoteristas têm que desenhar, escrever e litografar [8] durante as noites cerca de 320 cópias, que eu tenho que supervisionar, retificar, comparar e corrigir, para que não ocorram enganos e minhas informações ocultas não causem vergonha.”

Segue-se uma longa lista de outras atividades que ela executava. [9]

James Pryse descreve como o problema de reproduzir os ensinamentos esotéricos foi finalmente resolvido. A história começa em Los Angeles, na primavera de 1888:

“Naqueles dias, muitos teosofistas estavam ansiosos por tornar-se ‘chelas’ ou ‘chelas leigos’ entrando em comunicação com os Mestres a quem HPB representava. Não tendo dúvida de que os Mestres estavam sendo importunados por tantos pretendentes, evitei fazer qualquer tentativa para chegar até HPB ou seu Mestre, ou atrair a atenção deles para o meu ser insignificante...”

“Uma noite, quando estava meditando [sobre Paracelso], o rosto de HPB apareceu como em uma luz brilhante diante de mim. Eu a reconheci devido ao retrato dela que está em Ísis, embora agora me parecesse muito mais velha. Pensando que aquilo que eu considerava uma representação astral correspondia a um devaneio da imaginação, tentei excluir a imagem da minha mente, mas então seu rosto mostrou impaciência, fui puxado instantaneamente do meu corpo e em seguida estava parado ‘no astral’ diante de HPB, em Londres. Isto foi durante a manhã lá, mas ela ainda estava sentada à sua escrivaninha. Enquanto ela falava comigo, de forma muito amável, eu não podia deixar de pensar o quanto era estranho que uma mulher, aparentemente velha e mortal, pudesse ser um Adepto. Tentei tirar esse pensamento indelicado da minha mente, mas ela leu isso e, como se fosse uma resposta, o seu corpo físico tornou-se translúcido, revelando então um corpo interno maravilhoso que parecia feito de ouro derretido.”

“Então, subitamente, o Mestre M. apareceu diante de nós em seu mayavirupa. [10] Fiz uma profunda prostração diante dele, pois me parecia ser mais um Deus do que um homem. De algum modo eu sabia quem ele era, embora essa fosse a primeira vez que o via. Ele me falou afavelmente e disse: ‘Eu terei um trabalho para você em seis meses.’ Ele caminhou então para o extremo do quarto, abanou a sua mão em despedida e partiu...”

“Seis meses depois, a promessa do Mestre foi concretizada. Meu irmão John e eu, retornando de uma viagem à América do Sul, desembarcamos em Nova Iorque. Encontramos o sr. Judge desorientado diante de um problema difícil. HPB havia encaminhado a ele as suas instruções para que as enviasse a todos os membros da S.E.; mas enviara-lhe apenas uma via, e ele não tinha como fazer as cópias necessárias. Solucionamos o problema para ele criando [uma gráfica] e imprimindo em forma de livro, as instruções.”

Os dois irmãos eram tipógrafos excelentes e tinham sido editores de um certo número de pequenos jornais em cidades dos Estados Unidos. Após auxiliarem Judge, receberam ordem de HPB, de Londres, para que James criasse a editora HPB Press, em Nova Iorque, na qual não só seriam impressas as instruções da S.E., mas também livros da Sociedade e outras obras. [11]  

NOTAS:

[1] “Lucifer” - o nome da revista editada por H. P. Blavatsky em Londres. O termo tem sido distorcido desde a idade média pelos teólogos da superstição. A palavra “Lúcifer” significa “portador da luz” e é o termo antigo para designar Vênus, a estrela d’alva, a estrela vespertina, a “irmã mais velha da Terra”, que ampara nossa evolução espiritual segundo Helena Blavatsky. (CCA)

[2] Sobre o Compromisso da escola esotérica original, que foi depois distorcida por Annie Besant e pelo falso clarividente Charles Leadbeater, veja em nossos websites associados os textos “O Significado de um Compromisso”, de Autor Anônimo, e “As Sete Cláusulas de um Compromisso”. A respeito do abandono da teosofia autêntica na Escola de Adyar após a morte de HPB, veja o texto  “A Fraude da Escola Esotérica”. (CCA)

[3] Cranston indica a fonte em nota de pé de página. Trata-se do artigo “Extracts From Private Letters”, de Helena P. Blavatsky. O texto está publicado em nossos websites associados.  (CCA)

[4] Do texto “Extracts From Private Letters”, de Helena P. Blavatsky. Disponível em nossos websites. (CCA)

[5] Nota de Sylvia Cranston: Blavatsky, “Letters to Ralston Skinner”, Ralston Skinner Collections, Universidade de Harvard, Cambridge, Massachusetts, EUA.

[6] Nota de Sylvia Cranston: HPB foi acusada de fraude certa vez por manter silêncio com relação a uma informação dada a ela sob juramento. Ela respondeu: “Se eu for considerada uma impostora neste assunto, então todo Maçom, todo Oddfellow, todo sacerdote que recebe uma confissão, todo médico que fez juramento de Hipócrates ou advogado será um impostor.” (Blavatsky: “Collected Writings”, vol. 6, p. 289.)

[7] Cranston indica a fonte de forma incompleta em nota de pé de página. Trata-se do livro “The Theosophical Movement 1875-1950”, p. 139.  Cranston indica erradamente a p. 79, na sua edição original em inglês. O livro foi  publicado em Los Angeles em 1951 por The Cunningham Press, 351 pp. A obra não tem indicação de nome de autor, mas foi escrita pelo teosofista Henry Geiger, da Loja Unida de Teosofistas, e é uma versão resumida e politicamente suave da obra “The Theosophical Movement 1875-1925”. A versão original do livro, impressa em 1925 e também publicada anonimamente,  foi redigida por John Garrigues, um dos principais fundadores da LUT, e publicada em 1925 por  Dutton & Co.,  em Nova Iorque. Veja em nossos websites o artigo “A Vida e os Escritos de John Garrigues”. (CCA)

[8] Nota da edição brasileira do livro “Helena Blavatsky”: Litografia é um sistema de impressão sobre pedra calcárea ou placa de metal.

[9] Nota de Sylvia Cranston: Blavatsky, “Letters of H.P. Blavatsky XII”, “The Path”, novembro de 1895, p. 238.

[10] Nota da edição brasileira de “Helena Blavatsky”: Mayavirupa: em sânscrito, literalmente, “forma ilusória”. É um veículo artificial feito de matéria dos planos mental inferior e astral, e construído através do exercício da vontade de um Adepto. Este tipo de corpo pode transportar-se a grandes distâncias e é usado por Mestres ou discípulos avançados para atuar nos planos astral e mental.

[11] Nota de Sylvia Cranston: “Faces of Friends” (Rostos de Amigos), “The Canadian Theosophist”, março de 1933, p. 2; “The Path”, junho de 1894, pp. 90-91.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.
  

Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.


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24 de julho de 2016

RASCUNHO DE UMA ORAÇÃO

A Harmonia do Eterno com o Intermitente

Carlos Cardoso Aveline



Om.

Quero pensar agora no espírito do cosmos e na lei universal.   

Não há fronteiras no tempo ou no espaço: sou um ponto abstrato sem nome e sem dimensões. Habito um pequeno sistema solar no grupo local de galáxias. Meu endereço é a totalidade do que existe.

Quando a consciência da Lei onipresente se expande, a ideia pessoal fica de lado e a vontade se amplifica sem esforço. O que existe agora é a paz da Vida Una, livre de formas ou imagens.

Ao longo de éons terrestres, cada alma humana habita o espaço-tempo infinito e faz isso conforme a Lei.

A existência física é intermitente: a vida real é eterna.

Enquanto cumpre os deveres diários, o aprendiz vive o aspecto permanente da paz.

No templo do coração o sentido de “eu” não está separado de coisa alguma e a nada se apega. Cada indivíduo é um centro anônimo abstrato de autorresponsabilidade. A lei da ajuda mútua une a todos. 

Esquecer de si próprio liberta: a união com a Lei é alcançada no nível do não-eu.

O sentimento de dever impessoal coloca em movimento uma consciência da unidade com o universo, e revela a substância  do contentamento eterno.  

Om, Shanti.

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Uma versão inicial de “Rascunho de uma Oração” foi publicada na edição de janeiro de 2015 de “O Teosofista”, pp. 1-2.

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Para conhecer a teosofia original desde o ângulo da vivência direta, leia o livro “Três Caminhos Para a Paz Interior”, de Carlos Cardoso Aveline.


Com 19 capítulos e 191 páginas, a obra foi publicada em 2002 pela Editora Teosófica de Brasília. 

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