3 de dezembro de 2016

Quatro Regras de Diplomacia


Visconde de Figanière





Nota Editorial:

O diplomata e pensador português Visconde de Figanière (1827-1908) foi amigo pessoal de Helena Blavatsky e colaborador das revistas teosóficas que ela editou. Seus escritos são citados em “A Doutrina Secreta”. Ele é o grande pioneiro do movimento teosófico em língua portuguesa.

Verdadeiro cidadão planetário, Figanière nasceu nos Estados Unidos e foi representante diplomático de Portugal no Brasil, na Rússia, na Inglaterra, na Espanha e na França. Seu romance “Palmitos”, publicado em três volumes, está ambientado no Brasil do século 19 e foi escrito em inglês enquanto morava na Rússia.

Figanière é mais conhecido por sua obra “Estudos Esotéricos - Submundo, Mundo e Supramundo”, de 1889. O livro que publicamos a seguir mostra a sua filosofia ética da vida e dos assuntos de Estado, e possui interesse teosófico.

A obra funciona em parte como metáfora; especialmente na sua parte principal, que vai até a página 80. A chave de leitura consiste em saber que o mundo interno e o mundo externo funcionam como espelhos um do outro.

Ao trilhar o caminho da sabedoria, todo peregrino percebe pouco a pouco que não “possui” uma alma imortal, mas, ao invés disso, pertence a ela.

A alma já existia quando ele nasceu e continuará viva quando terminar sua existência. O peregrino passa a perceber a si mesmo como um representante do seu eu superior no mundo externo. O governo a que deve ser leal é o reino da sua própria alma.  

Assim como no plano da política de Estado o representante de um país precisa ouvir sua consciência sobre o modo correto de agir, cada indivíduo dotado de autoconhecimento opera nas diferentes dimensões do mundo externo como um representante autorresponsável da consciência mais elevada e essencial que há em si, e trata de agir à altura.   

(Carlos Cardoso Aveline)

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Quatro Regras de Diplomacia

Visconde de Figanière


Discurso Preliminar

Dos diversos ramos do serviço publico, o diplomático é sem dúvida aquele em que ao agente é concedida maior liberdade no modus operandi. O que sobretudo se lhe pede é dar boa conta de si e dos negócios que lhe são cometidos. Isto depende em grande parte dos expedientes que adoptar, e das qualidades da sua pessoa. Aqui pois não há campo para regras absolutas.

Os deveres, esses são definidos, sendo de todos o primeiro, bem servir à pátria; mas no modo de os cumprir dá-se ampla margem; e, exceto no tocante ao estilo dos escritos, pode ser questão para alguns se a palavra regra é aplicável aos argumentos fundamentais em que se divide este trabalho, cujo fim é meramente sugestivo, não doutrinal, e sem ideia de esgotar a matéria.
(…)


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30 de novembro de 2016

As Ondas de Acontecimentos

A Liberdade e a Iluminação
Dependem de Hábitos Corretos

Carlos Cardoso Aveline





A Lei do Carma não trabalha com fatos isolados. Ela geralmente se manifesta através de ondas de eventos.

O buscador da verdade deve ter paciência para enfrentar as ondas de carma que a vida manda de volta para ele como resultado das suas tentativas de fazer o melhor possível na ciência da ação correta. Avançar no caminho da sabedoria atrai mais luz, mas também coloca em movimento tendências antigas de ignorância, própria e alheia, cuja existência talvez estivesse esquecida.

O primeiro estágio no tratamento das dificuldades deve ser, tanto quanto possível, “uma paciência que nada pode perturbar”.  

Dificuldades e oportunidades vêm juntas. A combinação de tempo e esforço produz experiência acumulada. Deste modo nossa visão das coisas melhora, as potencialidades positivas passam a ser vistas e surge a ocasião para tomar a iniciativa.

Abandonar erros é tão importante quanto promover a ação certa. Para alcançar a sabedoria, precisamos levar em conta que a ilusão depende dos hábitos mentais.

O nível de exatidão no modo como alguém enxerga um fato qualquer é inseparável do grau de precisão com que a pessoa examina outros aspectos da realidade. Portanto, se você bloquear da sua consciência uma visão precisa de alguma coisa, estará abrindo a porta para a autoilusão subconsciente nas outras áreas da vida.

Todos os seus olhares são interdependentes. Você pode negar um fato porque ele é emocionalmente doloroso, ou porque está apegado a algum tipo de satisfação imaginária ou sentido de segurança que a aceitação do fato irá destruir: isso não importa. Uma mentira faz com que surja outra mentira. Cada ilusão produz duas ou três mais. E uma visão verdadeira atrai outra.  

Se você olha honestamente para um fato, já vê com mais realismo outros dez acontecimentos. Quando as luzes estão ligadas, as coisas feias e bonitas ficam visíveis e a ética da verdade vence, embora alguns possam lamentar isso.  

Ondas inteiras de ilusão, relativas a todos os tipos de fatos interligados podem ser desmascaradas durante o mesmo segundo. Neste momento grandes grupos de verdades interconectadas revelam-nos horizontes imensos. Quando esta vivência paradoxal é demasiado ampla para ser descrita em palavras, ela é chamada de “iluminação”. E depois disso cabe ao peregrino comprovar que seu conhecimento é real.  

A Paz de um Oceano  

Ao ser testado pela vida, preserve a consciência do coração. Não tenha pena de si mesmo. Não lamente as “circunstâncias difíceis” nem pense que a vida é injusta. Desvencilhe-se do mal-estar psicológico causado pelos aborrecimentos que parecem “perseguir” você “sem que mereça”.

Instalado na paz incondicional, verá sem esforço a Causa Única das perturbações e o caminho para eliminá-la. Não há problema ou dificuldade na vida que não sirva para desafiar o apego à rotina, a busca de comodidade e os esquemas emocionais que reproduzem aspectos pouco iluminados do passado.

Você deve aproveitar a oportunidade. Examine com um olhar honesto os acontecimentos. Mantenha a visão impessoal diante dos vários tipos de crises fabricadas pelo eu inferior através da ansiedade, do medo, da ambição e de outras emoções semelhantes. Descubra a paz imensa de um oceano de sabedoria que prossegue além do horizonte.    

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Uma versão anterior do texto acima foi publicada na edição de março de 2016 de “O Teosofista”, pp. 8-9.

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Travessia

Para Aquele que Navega no Mar dos
Sonhos, Despertar Pode Parecer Um Naufrágio

Ribeiro Couto





É a sensação de um barco que naufraga
Este passar do incerto para o certo,
O descobrir do sol quando desperto
E logo a vida que vivi é vaga.

Por onde andei? Que misteriosa plaga?
Muito longe, talvez,  ou muito perto:
Um litoral em névoas encoberto
E um perfil de paisagem que se apaga.

Que fio do real prende esse mundo
Ao mundo que acordado tenho à vista,
Pois que em ambos respiro e me confundo?

Na viagem que à noite recomeço
Já qualquer coisa agora me contrista,
Mas não sei se a partida, ou se o regresso.

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O poema “Travessia” é reproduzido da p. 120 do livro “Longe”, de Ribeiro Couto, Editora Civilização Brasileira, RJ, 1961, 140 pp. O escritor e poeta brasileiro Ribeiro Couto nasceu a 12 de março de 1898, e viveu até 1963.

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28 de novembro de 2016

Jesus Segundo o Talmude

O Que a Tradição Judaica Tem a
Dizer Sobre o Mestre do Cristianismo


Eliphas Levi


Primeira página de um Talmude babilônico, à esquerda, e Eliphas Levi



“... Todas as religiões pretensamente
reveladas de uma maneira positiva e
particular desabam logo que a razão as toca.”


Nota Editorial:

O texto a seguir foi publicado online inicialmente na edição de maio de 2010 de “O Teosofista”. Ele revela elementos fundamentais da história de Jesus, tal como contada pelo Talmude judaico e publicada por Eliphas Levi - um precursor da teosofia moderna.

Levi tentou preservar a roupagem cristã enquanto ensinava, em grande parte, filosofia esotérica. Ao examinar com atenção suas obras, o leitor percebe que sua definição de “Deus” nega a ideia que o cristianismo e o judaísmo organizados têm a respeito. Levi define “Deus” como a Razão, o Logos, isto é, a Verdade, pura e simplesmente. Nisso, também, ele coincide com o movimento teosófico moderno, cujo lema  é “Não há religião mais elevada que a Verdade”.  O Deus monoteísta é, pois,  uma quimera.  A verdade suprema não pode ser delimitada em palavras, e, na Introdução de seu livro “A Ciência dos Espíritos[1] , Levi coincide com a filosofia esotérica ao afirmar que não é possível definir a realidade divina. Ele acrescenta:

“... Um deus definido é necessariamente um Deus finito, e todas as religiões pretensamente reveladas de uma maneira positiva e particular desabam logo que a razão as toca. Não há senão uma religião, e Vitor Hugo disse bem quando bradou: ‘Protesto, em nome da religião, contra todas as religiões’.” [2]

Eliphas Levi morreu em 1875, o ano da fundação do movimento teosófico. Alguns anos depois, seus manuscritos inéditos chegavam às mãos de Helena Blavatsky. O conteúdo dos seus escritos é, em boa parte, influenciado pela filosofia oriental. Há uma evidente afinidade interior. No entanto, ele quase força as palavras, usando-as de uma maneira muito particular, com o objetivo de manter a roupagem externa cristã em suas obras e, assim, evitar a incompreensão e a intolerância dogmáticas do seu tempo. Deste modo, ele escreve: 

“A guerra da filosofia contra a Igreja não a destruirá, mas a libertará; porque a Igreja é a sociedade dos homens, animada pelo espírito de Jesus Cristo. À medida que as superstições religiosas, ou antes, irreligiosas descem, o Evangelho sobe; ele é estável, eterno e inabalável, quadrado na base e simples como as pirâmides. Há sempre uma lógica no poder; forças sem razão seriam forças sem alcance e, por conseguinte, sem efeito. Se o Evangelho é um poder, existe uma lógica no Evangelho.  A lógica ou a razão, o logos do poder supremo, é Deus. Essa razão, essa lógica universal, ilumina todas as almas razoáveis. Ela resplandece nas obscuridades da dúvida; atravessa, penetra, dilacera as trevas da ignorância, e as trevas não podem compreendê-la, pegá-la, encerrá-la e aprisioná-la. Essa razão fala pela boca dos sábios; resumiu-se em um homem que, por isso, foi chamado de logos feito carne, ou grande razão encarnada. Os milagres desse homem foram milagres de luz, isto é, de inteligência e de razão. Ele fez os homens compreenderem que a verdadeira religião é a filantropia. (....) Ele os fez ver que não é nem em tal cidade, nem sobre tal montanha, nem no templo que se deve procurar Deus, mas no espírito e na verdade. Seu ensinamento foi simples como sua vida. Amar a Deus, isto é, ao espírito e à verdade, mais do que a todas as coisas, e ao próximo como a vós mesmos, eis, dizia ele, toda a lei.”[3]

E Eliphas Levi acrescenta:

“É dessa forma que ele abria os olhos dos cegos, que forçava os surdos a ouvirem e os coxos a caminharem direito. As maravilhas que operava nos espíritos foram contadas sob essa forma alegórica, tão familiar aos orientais. Sua palavra tornou-se um pão que se multiplica; seu poder moral, um pé que caminha sobre as ondas, uma mão que apazigua as tempestades. As lendas se multiplicaram com a admiração cada vez maior de seus discípulos. São contos encantadores, semelhantes aos das Mil e Uma Noites, e era digno dos séculos bárbaros, que acreditamos ter ultrapassado e que ainda não terminaram, tomar essas ficções graciosas por realidades materiais e grosseiras, discutir anatomicamente a virgindade maternal de Maria, estabelecer entre as mãos de Jesus uma padaria invisível e milagrosa para multiplicar os pães nos deserto, e ver correr um sangue globular e seroso, um sangue antropofágico e revoltante, sobre as brancas e puras hóstias que protestam contra o sangue e que anunciam para sempre a consumação do sacrifício.”

Na continuação, Levi diz, claramente, que nos Evangelhos nada pode ser entendido como literalmente verdadeiro. Tudo neles é lendário e simbólico. Ele diz isso sem meias palavras:

“O Evangelho pertence à ciência apenas como monumento da fé, e não como documento da história. É o símbolo das grandes aspirações da humanidade. É a lenda ideal do homem perfeito. Essa lenda, a Índia já  havia esboçado ao contar a maravilhosa encarnação de Vishnu na pessoa de Krishna. Krishna é também filho de uma virgem. A casta Devaki amamentando seu divino filho encontra-se no Panteão indiano e parece uma imagem de Maria. Perto do berço de Krishna encontra-se a figura simbólica do asno; a mãe leva a criança para livrá-la de um rei ciumento que queria matá-lo. Se os Vedas não fossem anteriores ao Evangelho, acreditar-se-ia que tudo isso é cópia de nosso Novo Testamento. Quer dizer que tudo isso é desprezível e nada contém de divino? Acreditamos que é necessário chegar a uma conclusão diametralmente oposta.” [4]

De fato, a lenda dos Evangelhos é uma adaptação de tradições anteriores, do Egito e dos povos orientais. 

A seguir, veremos a história humana e real de Jehoshua ou Jehosuah, o judeu Jesus, tal como registrada no Talmude, o antigo livro do seu povo, e conforme a tradução e a narrativa de Eliphas Levi. [5]   

O texto é de um valor extraordinário, e defende a tese de que as Igrejas dogmáticas promovem o Anticristianismo.

(Carlos Cardoso Aveline)

NOTAS:

[1] “A Ciência dos Espíritos”, Eliphas Levi, Martins Fontes / Sociedade das Ciências Antigas, SP, 1985, 284 pp.
[2] “A Ciência dos Espíritos”, obra citada, p. 18.
[3] “A Ciência dos Espíritos”, obra citada, pp. 20-21.
[4] “A Ciência dos Espíritos”, obra citada, p. 21.  
[5] A narrativa a seguir é reproduzido das pp. 27 a 40 de “A Ciência dos Espíritos”.

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História de Jesus Segundo os Talmudistas 

Eliphas Levi 

No ano seiscentos e setenta e sete do quarto milênio após a criação do mundo, durante os dias do rei Jannée, que também se denominava Alexandre, uma grande desgraça veio em ajuda dos inimigos de Israel. 

Apareceu então um certo miserável, homem sem consciência e sem moral, procedente de um dos ramos derivados da tribo de Judá, que se chamava Joseph Panther. 

Esse homem era de estatura elevada, de vigor pouco comum e de notável beleza; havia passado a melhor parte de sua vida nos desregramentos, roubos e violências, e morava em Belém, cidade de Judá. Tinha por vizinha uma viúva cuja filha se chamava Maria, e é essa mesma Maria, cabeleireira de mulheres, que é mencionada em diversas partes do Talmude. Essa jovem, ao se tornar adolescente, ficara noiva de um jovem chamado Jochanan, dotado de grande modéstia, de notável doçura e do verdadeiro temor a Deus. 

Ora, aconteceu que, por desgraça, Joseph, passando em frente à porta de Maria, olhou-a e sentiu arder por ela uma paixão impura; assim, ele passava, passava, sem cessar; mas ela nem mesmo o olhava. 

A apatia apodera-se dele, e sua mãe, vendo-o destruir-se, lhe diz: “Por que te vejo emagrecer e empalidecer?” Ele responde: “É que estou morrendo de amor por Maria, que é noiva de outro.” Sua mãe lhe diz: “Não é preciso te atormentares por isso; faz o que vou te dizer e poderás aproximar-te dela e com isso te satisfazeres.” Joseph Panther escutou sua mãe, passando a rondar incessantemente a porta de Maria, esperando a ocasião que não encontrava. Quando, numa noite de sábado, vestido como Jochanan e ocultando a cabeça com seu manto, encontrou Maria na porta, pegou-a pela mão sem dizer nada, e levou-a para dentro de casa. Ora, ela, acreditando ser Jochanan, seu noivo, lhe diz: “Não me toques; a hora em que deverei ser tua ainda não chegou e neste momento estou protegida contra ti pelas enfermidades comuns de meu sexo.” Mas ele, sem escutá-la, realizou sua má intenção e voltou para casa; em seguida, perto de meia-noite, como a paixão o atormentasse ainda, levantou-se, voltou à casa de Maria, que começou a chorar, lhe dizendo com horror: “Como vens me ultrajar uma segunda vez, tu que eu acreditava ser incapaz de abusar de nosso noivado, e como podes acrescentar ao crime a vergonha, visto que eu te disse que o estado que me encontro nesse momento devia me tornar sagrada para ti?” Mas ele não escutou suas palavras. Sem nada dizer, satisfazia seu desejo; em seguida retirou-se e continuou seu caminho. Ora, após três meses, vieram dizer a Jochanan que sua noiva estava grávida, e Jochanan, assustado, foi encontrar seu preceptor Simão, filho de Schetach, lhe revelando o que se passava, perguntou o que deveria fazer. Seu mestre perguntou-lhe: “Suspeitas de alguém?” Jochanan respondeu: “Só posso suspeitar de Joseph Panther, que é um grande libertino e mora na vizinhança.” Seu mestre lhe disse: “Meu filho, escuta meu conselho e cala-te. Se este homem abusou uma vez de sua noiva, não é possível que não procure revê-la. Trata de surpreendê-lo, chama testemunhas e faze com que seja julgado pelo grande Sinédrio.” O jovem partiu muito triste, só pensando na desgraça de sua noiva e na vergonha que poderia recair sobre ele; abandonou Judeia e foi para a Babilônia, onde permaneceu. 

Maria, em seguida, tornou-se mãe de um filho que chamou Jehosuah, nome de seu tio materno. Tendo a criança começado a crescer, sua mãe lhe deu por mestre Elchanan. O menino fazia grandes progressos, porque tinha um espírito preparado para a inteligência das coisas.

Isso é extraído e traduzido textualmente do Sepher Teldos Jeschu. 

A primeira juventude de Jesus é narrada como se segue pelos autores talmudistas do Sota e do Sanhédrin, que encontramos citados à página 19 do livro da disputa de Jéchiel. 

O rabino Jehosuah, filho de Pérachiah, continuou, após Elchanan, a educação do jovem Jesus, iniciou-o nos conhecimentos secretos, mas tendo Jannée feito massacrar todos os iniciados, Jehosuah, para escapar a essa condenação, fugiu para Alexandria, no Egito. 

Esse massacre dos iniciados, substituído pelo massacre dos inocentes, parece-nos notável, sobretudo se nos recordamos de que no livro primeiro dos Reis está dito que Saul, iniciado há pouco nos círculos dos profetas, era uma criança de um ano quando subiu ao trono. Ora, Saul tinha, na realidade, mais de vinte anos. Era, pois, costume nas iniciações proféticas da Judeia, assim como nas da Franco-Maçonaria moderna, designar o grau dos iniciados por uma idade  simbólica, e o Evangelho, ao falar da morte das crianças de até dois anos, não contradiria a asserção do Talmude, que a seu modo tornava-se historicamente mais aceitável do que a narração do Evangelho.

Podem-se encontrar traços da proscrição dos cabalistas, sempre perseguidos e denunciados pela sinagoga oficial, mas não se encontra essa abominável matança de crianças pequenas, que revolta a natureza e que desonrou para sempre o reino de Herodes, se é a Herodes, como quer o Evangelho, e não a Jannée, como pretendem os talmudistas, que se deve atribuir a condenação em questão. 

Aqui os talmudistas começam a envolver seu pensamento com alegorias, e eis aqui o que nos contam. Jesus e seu mestre Ben-Perachiach foram, pois, residir em Alexandria, na casa de uma senhora rica e sábia que os recebeu com honra e lhes ofereceu todos os seus tesouros. Essa senhora, como podemos compreender, é uma personificação do Egito. O jovem Jesus, tendo-a olhado, disse: “Esta mulher é bela, mas tem um defeito nos olhos que deve prejudicar a retidão de seus olhares. Essa terra é bela, mas é um magnífico exílio.” Seu mestre então irritou-se com ele, por ter ele encontrado alguma beleza no Egito e por ter admirado a terra da servidão. Jesus lhe disse: “Não há servidão para os filhos de Deus e a terra que os abriga é sempre a terra de Israel.” Ben-Perachiach amaldiçoou então seu discípulo e o rechaçou de sua presença. Jesus submeteu-se humildemente, apresentando-se muitas vezes à porta do mestre, rogando-lhe que o recebesse; o rabino permaneceu inflexível. Um dia, no entanto, quando lia os mandamentos de Deus que ordenavam amar ao próximo, Jesus apresentou-se, e o mestre, tocado pelo arrependimento, fez-lhe sinal para aguardar, tendo a intenção de ceder e de recebê-lo, mas Jesus, entendendo que ele o repelia uma vez mais, foi embora e não voltou. “Nossos pais procederam mal”, dizem, a esse respeito, os doutores do Talmude, “ao rechaçar Jesus sem escutá-lo, e sobretudo em, ao mesmo tempo, amaldiçoá-lo. Jamais batamos com as duas mãos naquele que desejamos punir; guardemos uma para levantá-lo, consolá-lo e curá-lo!”   Palavra que contém todo um futuro, palavra que deve um dia trazer a reconciliação entre os filhos e os pais; porque nós também amaldiçoamos os judeus, rechaçando-os com as duas mãos; portanto, agora também é com duas mãos que, de um lado e de outro, para expiar essa falta recíproca, devemos nos perdoar e abençoar! Mas voltemos à história de Jesus, segundo os autores do Talmude. 

Vimos que o jovem iniciado tinha admirado a ciência do Egito e fora rechaçado por seu mestre por ter sonhado com uma conciliação entre a filosofia do exílio e a religião pátria. A perseguição contra os cabalistas abrandou-se e Jesus voltou à Judeia com seu mestre, ou pelo menos ao mesmo tempo que ele. Como vivera no Egito? Trabalhando, sem dúvida, no seu ofício de carpinteiro. Ao entrar em sua cidade natal, que segundo os talmudistas não era Nazaré, mas sim Belém, passou em frente aos anciãos, que estavam reunidos, conforme o costume, à porta da cidade, e não os saudou, mas ao passar seu mestre, Jehosuah Ben-Perachiah, Jesus o saudou, provocando desta forma o murmúrio dos anciãos. Com efeito, o jovem os desprezava porque não eram iniciados na verdadeira ciência, e só reconhecia como seu superior aquele que lhe havia aberto a porta. Os anciãos indignaram-se e o chamaram de filho de mulher impura, o que surpreendeu Jesus, porque sempre tinha enxergado sua mãe como um exemplo de pureza. Foi consultar um de seus tios, aquele que tinha o seu próprio nome, e este lhe revelou a desgraça de Maria e todo o mistério de seu nascimento. Jesus retirou-se com o coração ferido e não retornou mais à casa de sua mãe, começando a pregar a nova ciência: a da reconciliação das nações e da religião universal com que tinha sonhado no Egito. É então que nossos autores chegam às bodas de Canaã, na Galileia, onde Jesus reencontrou sua mãe e respondeu-lhe duramente quando ela quis falar-lhe: “Mulher, o que há de comum entre tu e eu?” Em seguida, vendo-se que a pobre mulher resignava-se com doçura, ficou com o coração comovido, e, reunindo seus discípulos em torno de si, contou-lhes o crime de Panther e perguntou-lhes: “Credes que eu poderei honrar este homem como pai?” “Não!” Responderam todos em uma só voz. “Credes que minha mãe seja impura?” “Não”, responderam novamente. “Pois bem”, disse Jesus, “não tenho pai sobre a terra, meu pai é Deus que está no Céu, e quanto à minha mãe, sua virgindade não poderia ser manchada por um crime no qual ela não consentiu. Eu a considero sempre virgem. Pensais como eu?” “Sim”, responderam os discípulos. “E é por isso”, acrescentaram os autores judeus, “que Jesus foi considerado por todos os que creem nele como filho de Deus e de uma virgem.” Essa história apócrifa, ofensiva para os leitores cristãos, não deixa de ter uma certa grandiosidade, e pode-se aí observar que os maiores inimigos do cristianismo rendem uma homenagem involuntária à pureza de Maria e à elevação de Jesus. 

Aqui começa a narração dos milagres, e os talmudistas, longe de negá-los, parecem empenhar-se em exagerá-los. A lembrança dos milagres estava ainda bem viva e bem forte entre os judeus. Mas eis como explicam esses milagres. 

Eles dizem que existe, no santuário do Deus vivo, uma pedra cúbica sobre a qual estão esculpidas as letras santas, cujas combinações explicam as virtudes do nome incomunicável. Essa explicação é a chave secreta de todas as ciências e de todas as forças ocultas da natureza. É o que chamamos de Schema hamphorasch. Esta pedra é guardada por dois leões de ouro que rugem no momento em que tentamos aproximar-nos dela. Os leitores de nossas obras sabem o que é o Schema hamphorasch e reconhecerão nos dois leões os gigantescos querubins do santuário, cujas figuras monstruosas e simbólicas eram capazes de amedrontar e de fazer recuar os profanos. Além do mais, as portas do templo eram bem guardadas, acrescentam nossos rabinos;  e a porta do santuário, e a porta do santuário só se abria uma vez ao ano, e somente para o grande sacerdote. Mas Jesus tinha aprendido no Egito os grandes mistérios da iniciação e apoderou-se das chaves invisíveis, com a ajuda das quais pôde entrar sem ser descoberto. Copiou os segredos da pedra cúbica, ocultando-os entre as pernas, como na mitologia grega vemos Júpiter ocultar Baco; em seguida, saiu e começou a surpreender o mundo. À sua voz os mortos levantavam-se e os leprosos ficavam curados, fazia subir do fundo do mar as pedras que lá estavam enterradas há séculos, e essas pedras formavam uma montanha sobre as águas, e do cume dessa montanha Jesus instruía a multidão.

Reencontramos aqui, com todo o gênio do simbolismo oriental, o motivo secreto do ódio dos sacerdotes contra Jesus. Ele revelou ao povo a verdade que eles queriam esconder só para eles, adivinhou a teologia oculta de Israel e a comparou com a sabedoria do Egito, e aí encontrou a razão de uma síntese religiosa universal. Os sacerdotes procuraram então arruiná-lo, e enviaram à sua presença um falso irmão chamado Judas Iscariotes, para fazê-lo cometer algumas faltas e entregá-lo, assim, a seus inimigos. Esse foi o Judas que levou Jesus a realizar, no momento em que os chefes da religião apresentavam animosidade contra ele, uma entrada triunfal em Jerusalém, seguida de um tumulto no templo. Fizeram, ao mesmo tempo, correr o boato de que Jesus encantava as árvores e as tornava estéreis, que blasfemava contra a lei de Moisés, querendo fazer-se adorar-se como Deus. No entanto, Jesus ia todos os dias ao templo, mas como os judeus oravam com a cabeça coberta, ele se perdia nessa multidão envolvida em hábitos brancos. Judas prometeu aos sacerdotes entregá-lo a eles e fazer, ao mesmo tempo, um grande escândalo, que pudesse comprometê-lo aos olhos de todo o povo. Ele veio com uma multidão de pessoas dedicada aos fariseus e, prosternando-se diante de Jesus, ele o adorou. Os cúmplices de Judas revoltaram-se contra o sacrilégio e quiseram lançar-se contra Jesus. Os discípulos de Jesus tentaram defendê-lo. Jesus conseguiu escapar e refugiou-se no Jardim das Oliveiras, onde foi perseguido e preso pelos guardas do templo. Colocaram-no então numa prisão, onde ficou quarenta dias, durante os quais fizeram proclamar seu ato de acusação ao som de trombetas e perguntaram se alguém queria tomar sua defesa; mas ninguém se apresentou. Jesus foi então flagelado como rebelde e, em seguida, apedrejado como blasfemador, num lugar chamado Lud ou Lydda. Logo depois, deixaram-no expirar sobre uma cruz em forma de forcado. Alguns de seus discípulos, que eram ricos, resgataram seu corpo e simularam ostensivamente seu sepultamento; mas, na realidade, arrastaram-no secretamente e enterraram-no no fundo do leito de um rio, cujas águas foram desviadas para abrir sua tumba; depois, deixaram as águas retomarem seu curso. Isto explica por que o corpo não mais foi encontrado quando os discípulos declararam que seu mestre havia ressuscitado.  

A essa narrativa fundamental os autores do Sepher Toldos Jeschu acrescentaram as mais ridículas fábulas, tiradas, evidentemente, das lendas cristãs alteradas ou disfarçadas. É dessa forma que encontramos aqui a história da ascensão de Simão, o Mágico, atribuída ao próprio Jesus Cristo, com a intenção evidente de confundir o Messias dos cristãos como o famoso impostor. É desse modo ainda que Simão Pedro ou Céphas é confundido, aqui, com Simão, o Estilita, prova evidente do pouco valor histórico desse Sepher, que foi composto evidentemente vários séculos após o início da era cristã. Os documentos talmúdicos são mais sérios, porque o Talmude é a compilação de todas as tradições judaicas, e é lá somente, fora dos monumentos cristãos, que se deve procurar a lembrança desse personagem tão importante para a história, mas que todos os escritores profanos ignoram ou desconhecem. 

Essas tradições, marcadas como devem ser por menosprezo e ódio com relação ao sábio que os judeus crucificaram, contêm confissões preciosas em favor das crenças cristãs.

Das narrações do Talmude resulta, com efeito, segundo as tradições judaicas: 

1) que Jesus de fato existiu;

2) que ele nasceu em Belém;

3) que sua mãe, de moral irrepreensível, era somente noiva de um homem justo e crente em Deus, incapaz portanto de abusar de sua noiva;

4) que o nascimento extraordinário de Jesus só se explica por um milagre ou por um atentado que os judeus deviam necessariamente supor, visto que reconheceriam a elevada moralidade da jovem virgem e não admitiam o milagre.

5) que Jesus foi perseguido pela Sinagoga por causa do mistério de seu nascimento, e mais ainda por causa da superioridade de sua doutrina;

6) que essa doutrina supunha a iniciação nos segredos da mais alta teologia dos hebreus, em conformidade,  em muitos pontos, com a filosofia transcendente dos iniciados egípcios;

7) que ele realizava coisas prodigiosas, curando os doentes, ressuscitando os mortos e adivinhando coisas ocultas;

8) que só foi possível condená-lo e fazê-lo morrer por traição;

9) que seu corpo não foi encontrado quando seus discípulos declararam que ele havia ressuscitado. 

Não podemos, racionalmente, perguntar mais sobre esse assunto aos doutores hebreus adversários de Jesus Cristo. As asserções do Talmude e do Sepher Toldos Jeschu estão repetidas no Nizzachon vetus, ou antigo livro da Vitória, na Controvérsia do rabino Jechiele em outras compilações rabínicas. O Sepher Toldos, ao qual os judeus atribuem grande antiguidade e que ocultam dos cristãos com precauções tão grandes que esse livro durante muito tempo não foi encontrado, é citado pela primeira vez por Raymond Martin, da ordem dos Irmãos Pregadores, quase no final do século XIII. Porchetus Salvaticus, pouco tempo depois, publicou alguns fragmentos, dos quais Lutero se serviu e que se encontram no VIII tomo de suas obras, edição da Iéna; mas não se possuía ainda o texto hebraico. Esse texto, encontrado finalmente por Munster e por Buxtorf, foi publicado em 1681 por Christophe Wagenseilius em Nuremberg, e em Frankfurt, numa coleção intitulada Tela ígnea Satanoe, as flechas ardentes de Satã. 

Esse livro foi evidentemente escrito por um rabino iniciado nos mistérios da Cabala. Está  escrito por dentro e por fora - para usarmos uma expressão de São João, o grande iniciado cristão -, isto é, apresenta um sentido oculto e um sentido vulgar. Os contos absurdos dos quais está impregnado são parábolas que o autor quer opor àquelas do Evangelho. Censuram aqui duas coisas em Jesus Cristo: 1) o fato de ter surpreendido ou adivinhado os mistérios do templo; 2) tê-los profanado narrando-os ao vulgo, que os desfigurou e compreendeu mal. 

Não podendo retirar a pedra cúbica do templo, ele fabricou, segundo o autor de Sepher Toldos, uma pedra de argila, que mostrou às nações como sendo a verdadeira pedra cúbica de Israel. Juntamos a esse fato a confissão que São Paulo deixa escapar em uma de suas epístolas: “Somente a natureza podia revelar Deus aos homens, e eles são imperdoáveis por não o compreender. Mas já que, com efeito, não chegaram a Deus pela sabedoria, foi preciso salvá-los pela loucura, e perguntar à fé o que não se obtinha pela ciência.” Quoniam non cognovissent per sapientiam Deum, placuit per stuiltitiam proedications salvos facere credentes.  É essa loucura da fé que os judeus não querem compreender e que denominam uma pedra de argila, como se a fé, que é a confiança do amor, não fosse também durável e frequentemente mais invencível que a razão da existência dos seres submissos às investigações da ciência. O amor encontra o que a razão procura, ele vê aquilo que escapa às investigações da ciência. Quando ele não sabe mais, começa a crer, e quando a razão esgotada pára e cai no umbral do infinito, a fé abre suas asas, lança-se, dilacera as nuvens, faz descer à terra a escada luminosa de Jacó e sorri docemente estendendo a mão à sua irmã. 

Talvez os cristãos tenham primeiro glorificado a fé de maneira a fazer crer que renunciavam à razão. É por isso que, em relação a nós, os judeus transformaram-se em severos guardiões das tradições antigas e protestam eternamente contra todas as idolatrias. São adversários que nos vigiam, que nos advertem e que reconciliaremos um dia ao lhes provar que toda dissidência que os separa de nós repousa sobre um mal-entendido.  

Encontram-se nos livros atribuídos a Hermes essas estranhas lamentações do sábio Trismegisto: “Ah, meu filho, um dia virá em que os hieróglifos sagrados tornar-se-ão ídolos; tomarão os signos das ciências para os deuses, e acusar-se-á o grande Egito de ter adorado monstros. Mas aqueles que nos caluniarão dessa forma adorarão eles mesmos a morte ao invés da vida, a loucura ao invés da sabedoria; amaldiçoarão  o amor e a fecundidade, encherão seus templos de ossadas, esgotarão a juventude na solidão e nas lágrimas. As virgens serão viúvas antes do tempo e extinguir-se-ão na tristeza, porque os homens terão desprezado e profanado os mistérios sagrados de Ísis.”  

O que o profeta egípcio anunciava antecipadamente, os judeus nos acusam de ter feito. Dizem eles que desprezamos o verdadeiro Deus, e adoramos a carne de um enforcado. Rendemos cultos a essas relíquias da morte que Moisés declara imundas.

Consagramos nossos padres e nossos religiosos a um celibato que reprova a natureza e que condena aquele que disse aos seres: “crescei e multiplicai-vos”. 

Quanto à moral de nossos evangelhos, confessam que é pura, não reprovam nada em nossos apóstolos, e o autor do Sepher Toldos Jeschu diz que São Pedro era um servidor do verdadeiro Deus, que vivia na austeridade e em penitência, compondo hinos e morando no alto de uma torre; que pregava a misericórdia e a doçura, recomendando aos cristãos que não maltratassem os judeus. Mas, acrescenta o mesmo autor, após a morte de Cephas, outro doutor veio a Roma; este sustentava que São Pedro tinha alterado os ensinamentos do Mestre. Ele misturava um falso judaísmo às práticas cristãs, ameaçava aqueles que não o obedeciam com um inferno ardente e lodoso; prometia às multidões um milagre em confirmação de sua doutrina; mas quando ergueu sua cabeça contra o céu, uma pedra caiu do céu e o esmagou. Assim perecem todos os seus inimigos, Senhor, acrescenta finalizando o autor do Sepher, e que todos aqueles que te amam sejam como o sol quando brilha com toda sua força. 

Desse modo, segundo os judeus que aceitam o Sepher Toldos Jeschu, não é o cristianismo, mas sim o anticristianismo que os rechaça. 

Ora, o anticristianismo apareceu na Igreja, com efeito, desde os primeiros séculos e no tempo mesmo dos apóstolos. O anticristo, dizia São João, é o que divide Jesus Cristo, e ele já está neste mundo. 

Em outro lugar, esse apóstolo escreve que não ousa visitar seus fiéis, porque um prelado orgulhoso, chamado Diotrephes, impede-os de recebê-los. “Sabei”, dizia São Paulo, “que o mistério da iniquidade já se realiza, de modo que aquele que tem agora terá até a morte, depois se manifestará o filho da iniquidade que se eleva acima de tudo que é divino, a ponto de sentar-se no templo de Deus e de se mostrar, ele próprio, como Deus, até que o Senhor o destrua pelo espírito de sua palavra e pela luz resplandecente de seu segundo advento.” 

Jesus era um verdadeiro profeta e um verdadeiro sábio, dizem os muçulmanos, mas seus discípulos tornaram-se insensatos e adoram-no como sendo um Deus. 

No entanto, judeus e muçulmanos se enganam; não adoramos Jesus como sendo um Deus diferente do próprio Deus. Dizemos como Miguel dos hebreus: “Quis ut Deus? Dizemos com os crentes do islamismo: “Não há outro deus além do Deus”; mas esse Deus único, indivisível, universal, nós o adoramos manifestando a perfeição humana em Jesus Cristo. Acreditamos em uma aliança íntima da divindade com a humanidade, da qual resulta, para empregar a linguagem dos teólogos, não a confusão, mas a comunicação dos idiomas.  Deus adota, para curá-las, as fraquezas da humanidade, que ele eleva até ele, com sua força e seus esplendores. Toda alma dotada do sentido inferior que adora, todo coração que padece da necessidade de amar até o infinito, sentirá que nesta concepção sublime, e só nela, o ideal religioso se determina e se completa; que todos os sonhos dogmáticos e simbólicos só podem ser a investigação e a produção dessa síntese, ao mesmo tempo divina e humana, que Deus em nós e nós em Deus com Jesus Cristo e por Jesus Cristo é a paz, é a fé, é a esperança, é a caridade sobre a terra, é, no céu, a eternidade da vida e da felicidade. Eis por que nenhuma religião jamais substituirá o cristianismo no mundo. O que se poderia acrescentar ao infinito? Que ideia seria ao mesmo tempo mais grandiosa e mais consoladora que a do homem Deus consolidando, pelo seu exemplo, a grande lei da abnegação que realiza os sacrifícios, assim consagrando para sempre a aliança e como que a identificação de Deus com a humanidade? 

Os antigos acreditavam que nem toda verdade deve ser dita a todos, ao menos não da mesma maneira, e ocultavam a ciência sob o véu da alegoria. É assim que as mitologias se formaram. Aqueles que se enfadam dos símbolos mitológicos devem renunciar à ciência do velho mundo cujos monumentos são todos mais ou menos mitológicos.

Nosso século que, contra todas as evidências, não admite em princípio a desigualdade das inteligências, detesta a mitologia. Procuram-se agora, fatos históricos e positivos até nas teogonias de Sanchoniation e de Hesíodo. O que não se compreende é tratado como absurdo e tolice, e é assim que [ Ernest ] Renan, mutilando e estropiando os textos da lenda evangélica, criou sua pretensa Vida de Jesus

O Jesus de Renan, espécie de pastorinho entusiasta e entregue a não sei que onanismo intelectual, meio louco e meio impostor, vendendo tudo barato desde que seja adorado, é, apesar de toda a doce poesia que cerca as reminiscências verdadeiramente cristãs do autor, um ser ridículo e odioso. Não se trata, assim, do verdadeiro Jesus da lenda evangélica.

Aliás, sendo Renan, segundo dizem, um estudioso eminente, versado na língua hebraica, como pôde ignorar ou negligenciar o Sepher Toldos Jeschu, as tradições talmudistas e os evangelhos apócrifos?  

É que o gênio simbólico causava horror à sua imaginação fria e positiva. É que ele queria agradar aos ignorantes, cuja preguiça intelectual repele tudo o que exige trabalho para ser compreendido. É que ele precisava de fama imediata, e é preciso convir que conseguiu muito bem. 

Mas, conseguir agradar não é conseguir fazer bem. “Faça, pois, para refutar Renan, alguma coisa que chegue a ser lida como seu livro”, dizia-nos um grande artista, que nessa circunstância talvez não fosse um grande crítico. Não podemos, em nome da ciência, aceitar esse desafio. Dizendo a verdade não chegaremos a ser lidos tão universalmente, nem tão avidamente e de imediato, mas chegaremos a ser lidos por leitores mais eminentes e por mais tempo. 

O Evangelho é  um livro simbólico, o que não prova que Jesus não tenha existido. Rousseau dizia que o inventor de uma história semelhante seria mais extraordinário que o herói. Aceitamos plenamente este argumento. Jesus é suficientemente grande quanto à inteligência e quanto ao coração para criar esta admirável lenda, é superior àquele que adora estupidamente, ou que nega mais estupidamente ainda o vulgo; ele é verdadeiramente a encarnação sempre viva do verbo de verdade, e nós o saudamos Filho de Deus, em todo o resplendor e em toda a energia do termo. 

Até o presente só se viu do Evangelho a letra que mata e a casca que seca; iremos revelar o espírito e a vida. “Minhas palavras”, dizia Jesus, “são espírito e vida, e, para compreendê-las, a matéria e a carne de nada servem.” 

Mas, para explicar esse texto sagrado, quais são as nossas autoridades?

A ciência e a razão. 

- Mas a fé o explicou de outro modo.

- A fé cega, sim; a fé esclarecida, não.

- Mas só Deus pode esclarecer a fé.

- Sim, pela razão e pela ciência, que são também filhas de Deus. 

Dito isso, comecemos nosso estudo.

A palavra “Cristo” quer dizer ungido ou sagrado; isto é, sacerdote e rei. O cristianismo é a religião hierárquica das almas e a monarquia da mais perfeita devoção. O cristianismo primitivo dos apóstolos de Jesus era uma doutrina secreta que tinha seus signos, seus símbolos e seus diferentes graus de iniciação. 

Para os santos ou eleitos, o dogma cristão era uma sabedoria elevada e profunda; para os simples catecúmenos, era uma maravilhosa e obscura revelação. Sabemos que o Mestre sempre se exprimia por parábolas e ocultava a verdade sob o véu transparente das imagens, a fim de proteger a nova ciência contra as blasfêmias da ignorância e as profanações da maldade: “Não atirem suas pérolas aos porcos”, dizia ele a seus discípulos, “para que eles não as pisoteiem, e para que, voltando-se contra vocês, não os devorem”. Jesus também não deixou coisa alguma escrita, mas legou a seus apóstolos suas tradições e seu método de ensino. 

Ora, eis qual era o fundamento do dogma cristão:

A inteligência é  eterna; ela se expande porque é viva. A vida da inteligência, sua expansão, é a palavra, o Verbo. O Verbo é, pois, eterno como a inteligência, e o que é eterno é Deus. 

O Verbo manifesta-se pela ação criadora que produz a forma. Ele se reveste da forma humana, e a carne torna-se a vestimenta do Verbo; havia o Verbo mesmo quando não existia a expressão exata: assim o Verbo se fez carne

O Verbo perfeito é  a unidade divina expressa na vida humana. O homem verdadeiro é  nosso Senhor, o chefe do qual todos os fiéis são os membros. A humanidade, constituída por uma escala hierárquica e progressiva, tem por chefe aquele que é Deus, porque ele é ao mesmo tempo o melhor dos homens, aquele que morreu pelos outros a fim de reviver em todos. Somos todos, pois, um mesmo corpo cuja alma deve ser a de Jesus Cristo, nosso protótipo e nosso modelo, o Verbo feito carne, o Homem-Deus. 

Tudo, portanto, deve em princípio ser comum entre nós, como entre os membros de um mesmo corpo; mas, de fato, cada membro deve se contentar com o lugar que ocupa, e a ordem hierárquica é sagrada, como a vontade de Deus. 

Cristo, revelando a lei da unidade, que é a lei do amor, deu ao espírito força para vencer o egoísmo da carne, que é a divisão e a morte; instituiu um signo chamado Comunhão, para opô-lo ao egoísmo, que é o espírito de divisão e de separação. 

Ora, a comunhão não era outra coisa senão a caridade representada por uma mesa comum, e como Cristo havia destinado sua carne à dor e à morte para legar a seus fiéis o pão fraterno ao qual ligava, no futuro, seu pensamento perseverante e sua nova vida, dizia-lhes: “Comam todos, esta é a minha carne!” Também dizia do vinho da fraternidade: “Bebam todos, este é o meu sangue, porque eu o derramei inteiramente para assegurar a vocês para sempre a realidade desse signo.” 

A comunhão era, pois, a fraternidade divina e humana, e por conseguinte também a liberdade; pois como pode haver opressor entre irmãos cujo pai é o próprio Deus? 

O cristianismo era, portanto, a mudança mais radical, e vinha subverter o velho mundo. Isso basta para explicar a necessidade dos mistérios, porque o mundo há  mil e oitocentos anos devia estar ainda menos disposto do que hoje a se deixar destruir: ele tinha mais tempo para viver.

Todavia, o Cristo não queria concluir revoluções senão pela força moral, sabendo bem que só  essa força não é cega. Ele havia plantado o grão da mostardeira, e dizia a seus discípulos para esperar a árvore. Havia ocultado o fermento na massa, e queria que a deixassem fermentar. 

A vida de Cristo estava toda em sua doutrina, e, sobretudo para seus discípulos, sua existência devia ser inteiramente moral. O que dizia, fazia-o no domínio do espírito; é por isso que os livros evangélicos contêm o dogma e a moral em parábolas, e frequentemente o próprio Mestre é o sujeito das narrações alegóricas de seus apóstolos. 

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Em setembro de 2016, depois de cuidadosa análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas, que tem como uma das suas prioridades a construção de um futuro melhor nas diversas dimensões da vida.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 

  
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