27 de agosto de 2016

A RELIGIÃO AQUARIANA

Um Sonho Antigo Pode Florescer no Século 21

Carlos Cardoso Aveline 




Como será a religiosidade do futuro? E qual será o papel do país em que vivemos no processo do seu surgimento?

Não há uma resposta pronta para a segunda pergunta, mas o tema é oportuno. Deve ser investigado e debatido pelos pioneiros.

Em relação à primeira questão, a teosofia clássica ensina que a religião do futuro será planetária. Ela não terá dogmas ou rituais. Será desburocratizada. Estará aberta à livre expressão individual  e isenta de sacerdotes assalariados.

A religião do futuro será uma religião-filosofia. Sem donos ou papas, ela respeitará a diversidade cultural dos povos e será uma religião da natureza. Levando em conta que a vida está dinamicamente presente em tudo o que existe, ela ensinará a unidade e a harmonia entre o espírito e a matéria. Ela também ensinará que a consciência dirige a matéria e não o contrário. A  base desta religião será a compreensão prática do fato da fraternidade universal.

Nas obras de Helena Blavatsky e nas Cartas dos Mahatmas encontramos uma formulação moderna e abrangente da religião do futuro. Pouco antes de Blavatsky, Eliphas Levi ajudou a preparar o seu enunciado. E também é verdade que as bases da religião do futuro vêm sendo construídas há milênios. A ideia da cidadania planetária era proposta por Pitágoras e  Demócrito na Grécia antiga, e defendida por Lúcio Sêneca no império romano. Demócrito afirmava que a pátria da boa alma é todo o universo.[1]  O imperador romano Marco Aurélio agia conforme a religião do futuro. E muito antes de Marco Aurélio, o imperador  Ashoka fez o mesmo na Índia.
À medida que passa o tempo, o sonho se torna mais concreto. O iluminismo do final do século 18 foi um ponto forte do processo. Em 1795, Immanuel Kant propôs a religião do futuro ao escrever o seu tratado sobre a paz perpétua. Este foi o primeiro rascunho e a concepção inicial do que é hoje a Organização das Nações Unidas.[2] 

Karl Dietrich Krause, o filósofo kantiano alemão, aprofundou a proposta da fraternidade universal.  Inúmeros pensadores e ativistas  trabalharam nesta linha ao longo do tempo; mas, para florescer, a religião do futuro ainda terá que derrubar o muro separatista dos dogmas sustentados pelas igrejas e seitas das diversas religiões. Será preciso fazer isso de modo fraterno. As chaves para o cumprimento desta tarefa foram estabelecidas no século 18.

O livro “História da Civilização Ocidental”, de Edward McNall Burns [3], descreve da seguinte maneira o Deísmo, uma das principais correntes filosóficas do iluminismo:  

“A mais notável filosofia religiosa [do Iluminismo] foi o deísmo. Parece que quem deu origem a esta filosofia foi um inglês de nome Lord Herbert of Cherbury (1583-1648). No século XVIII, as doutrinas deístas foram propagadas por homens como Voltaire, Diderot e Rousseau, na França; Alexander Pope, Lord Bolingbroke e Lord Shaftesbury, na Inglaterra; e Thomas Paine, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, na América. Não satisfeitos em condenar os elementos irracionais da religião, os deístas chegaram à denúncia de qualquer forma de fé organizada. O cristianismo não foi mais poupado que as outras religiões. As religiões instituídas eram estigmatizadas como instrumentos de exploração, que velhacos espertos tinham inventado para possibilitar-lhes a manipulação das massas ignorantes. Voltaire dizia: ‘O primeiro teólogo foi o primeiro espertalhão que encontrou o primeiro tolo’.” [4] 

Voltaire é conhecido por sua maneira irreverente de escrever. Os deístas acreditavam em “Deus”. Porém o seu conceito de Deus correspondia ao que a teosofia universal chama de Lei Universal ou Princípio Supremo.  Trata-se de algo impessoal, destituído de atributos,  e sobre o qual é inútil especular verbalmente ou com o raciocínio convencional do hemisfério cerebral esquerdo. Este mesmo princípio abstrato é chamado de Tao no primeiro verso do clássico chinês “Tao Te King”.

Edward Burns prossegue:

“Os objetivos dos deístas não eram porém todos destrutivos. Não se interessavam somente em destruir o cristianismo, mas em construir uma religião mais simples e mais natural para substituí-la. Os dogmas fundamentais dessa nova religião eram mais ou menos os que se seguem: 1) Há um Deus que criou o universo e ordenou as leis naturais que o controlam; 2) Deus não intervém nos negócios do homem, neste mundo: ele não é um Deus caprichoso, como o deus dos cristãos e judeus, que dá  ‘uma oportunidade para o bem e outra para o mal’, segundo seus caprichos momentâneos; 3) Oração, sacramento e ritual são meros absurdos inúteis; Deus não pode ser enganado ou subornado para violar as leis naturais em benefício dos indivíduos particulares; o homem é dotado de livre arbítrio para escolher entre o bem e o mal; não há predestinação para alguns serem salvos e outros serem condenados, mas as recompensas e as punições (….) são determinadas unicamente pela conduta terrena do indivíduo.” 

O deísmo defendido por Thomas Paine,  Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Denis Diderot e Jean-Jacques Rousseau  propunha claramente  uma religião universal.  Edward Burns  escreveu:

“.... O deísmo era bastante diferente do supernaturalismo racionalista. Enquanto os expoentes deste último ainda adotavam a crença na revelação,  em milagres e na racionalidade do cristianismo,  os deístas desfizeram-se de tudo que não concordava com suas ideias de religião naturalAfirmavam que todo mortal inteligente que seguisse a orientação da razão chegaria por fim a acreditar num Deus criador, em futuras recompensas e punições e em leis naturais e morais.  Desse modo, o deísmo era tido como uma religião universal aplicável a todas as condições e climas e passível de ser descoberta tanto pelo sábio chinês como pelo nativo astuto da floresta virgem. O cristianismo era desprezado como não sendo melhor que o islamismo e, mesmo, como sendo um pouco pior, dada a malícia do seu clero e sua maior carga de dogmas místicos. Por outro lado, muitos dos deístas dedicavam profunda admiração ao nobre caráter de Jesus e alguns até tentaram provar que também ele era um deísta. Voltaire pensava ser um insulto chamar Jesus de cristão.”

A proposta de uma religião da ética universal foi enriquecida ao longo dos séculos 19 e 20. Albert Einstein, Teillard de Chardin, Mahatma Gandhi e inúmeros cidadãos de boa vontade ajudaram a prepará-la. 

Quanto falta para que  seja concluída a tarefa da sua construção? Não sabemos exatamente, mas segundo Helena Blavatsky é possível que o sonho não tenha que esperar até o século 22 para ser realizado. Cabe a cada um fazer o melhor no instante presente. No tempo certo, quando a humanidade merecer, nascerá a civilização da fraternidade.  

NOTAS:

[1] “Los Filósofos Presocráticos”, Leucipo y Demócrito,  Planeta deAgostini, Editorial Gredós, España, 1998, 308 pp., ver p. 247. 

[2] “À Paz Perpétua”, Immanuel Kant, L & PM Pocket, Porto Alegre, 2008, 85 pp.  

[3] “História da Civilização Ocidental”, de Edward McNall Burns, Editora Globo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo, 1948, 958 pp., ver pp. 552-553.

[4] “Dicionário Filosófico”, Voltaire, verbete “Religião”. (Nota de Edward McNall Burns)

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O texto acima foi publicado inicialmente na edição de maio de 2009 de “O Teosofista”, 
sem indicação do nome do autor.

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Sobre a missão do movimento teosófico, que envolve o despertar da humanidade para a vivência da fraternidade universal, veja o livro “The Fire and Light of Theosophical Literature”, de Carlos Cardoso Aveline.


A obra tem 255 páginas e foi publicada em outubro de  2013 por “The Aquarian Theosophist”. O volume pode ser comprado através de Amazon Books.  

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26 de agosto de 2016

O FETICÍDIO É UM CRIME?

Teosofia Afirma que o Aborto
Tem Consequências Desastrosas

Helena P. Blavatsky 

O futuro da humanidade depende do respeito às crianças


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Nota Editorial:

Reproduzimos a seguir uma pergunta sobre
a prática do aborto,  feita por um médico norte-
americano ao jornal “The Theosophist”,  e a resposta de
Helena Blavatsky, que editava a publicação. A pergunta
e  a resposta foram publicadas pela primeira vez na Índia, 
na edição do  mês de agosto de 1883  de “The Theosophist”.   

(CCA)

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1. Pergunta de um Leitor:

Os artigos em seu jornal, intitulados “Suicídio é Crime?”, sugeriram-me fazer outra pergunta:

“Feticídio é crime?”

Não que eu, pessoalmente, tenha qualquer dúvida séria sobre a ilegalidade de tal ato, mas o costume prevalece com tamanha força nos Estados Unidos que há relativamente poucas pessoas que conseguem ver algo de errado nisso. Remédios para este propósito são anunciados e vendidos livremente; em “famílias respeitáveis”, a cerimônia é regularmente realizada todo ano e o médico da família que pensasse em se recusar a realizar tal trabalho seria peremptoriamente demitido e substituído por outro mais dócil.  

Conversei com médicos que não veem diferença entre produzir um aborto e administrar um remédio qualquer; por outro lado, há certos tratados contra esta prática, publicados por setores ortodoxos; mas a maior parte deles exagera tanto ao descrever as suas “temíveis consequências” que perde a capacidade de influenciar o leitor comum devido ao seu caráter absurdo.

Deve-se dizer que há certas circunstâncias em que a melhor coisa a fazer, tanto para a criança que vai nascer como para a comunidade em geral, é, aparentemente, que sua vinda ao mundo seja impedida. Por exemplo, no caso em que a mãe deseja intensamente a destruição da criança, o seu desejo provavelmente influenciará a formação do caráter da criança e a tornará, nos seus dias de maturidade, um assassino, um criminoso ou um ser para quem teria sido melhor “se nunca tivesse nascido”.

Mas se o feticídio é justificável, não seria então ainda melhor matar a criança depois de nascida, já que então não haveria mais nenhum perigo para a mãe?  E se é justificável matar as crianças, antes ou depois de nascerem, então surge a próxima pergunta:  “Em que idade e sob que circunstâncias é o assassinato justificável?”

Como a pergunta acima é uma questão de grande importância para milhares de pessoas, eu ficaria muito grato se ela fosse tratada do ponto de vista teosófico.

Um médico, membro da Sociedade Teosófica.

George Town, Colorado,
Estados Unidos da América.

2. Resposta de Helena Blavatsky

A Teosofia em geral responde: 

“Em nenhuma idade e nenhuma circunstância o assassinato é justificável!”

E a Teosofia oculta acrescenta:

“No entanto, não é nem do ponto de vista da lei, nem de qualquer outro argumento de um ou outro ‘ismo’ ortodoxo que a voz de alerta se levanta contra esta prática imoral e perigosa, mas sim porque, na filosofia oculta, tanto a fisiologia como a psicologia mostram as desastrosas consequências de tal ato”.

No caso específico, o argumento não lida com as causas, mas com os efeitos produzidos. Nossa filosofia chega ao ponto de dizer que, se o Código Penal de muitos países pune tentativas de suicídio, ele deveria, por coerência consigo mesmo, punir duplamente o feticídio como tentativa de “duplo suicídio”.

Porque, de fato, mesmo quando o aborto tem sucesso e a mãe não morre em consequência dele, ele encurta a vida dela na terra para prolongá-la numa triste proporção em kama-loka, a esfera intermediária entre a terra e a região do descanso, um lugar que não é o “purgatório de São Patrício”, mas um fato e um necessário lugar de parada da evolução no grau da vida.

O crime cometido reside precisamente na destruição propositada e pecaminosa da vida, e na interferência com as operações da natureza, portanto – na interferência com o CARMA. O pecado não é considerado pelos ocultistas como algo de caráter religioso, porque, na verdade, não existe uma presença maior de espírito e alma num feto, ou mesmo numa criança antes que ela adquira a autoconsciência, do que em qualquer outro pequeno animal. Nós negamos a ausência de alma, tanto no mineral quanto na planta ou no animal; e acreditamos que há apenas uma diferença de grau nestes vários casos.  Mas o feticídio é um crime contra a natureza.

Naturalmente, todos os tipos de céticos zombarão das nossas concepções e as chamarão de superstições absurdas e “tolices não científicas”. Mas nós não escrevemos para os céticos. Foi-nos pedido que déssemos a visão da Teosofia (ou melhor, da filosofia oculta) sobre o assunto, e respondemos à questão, até onde sabemos.

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Título original do texto: “Is Foeticide a Crime?”  Traduzido de “Theosophical Articles”,  H. P. Blavatsky,  Theosophy Company, three volumes, Los Angeles, 1981, ver volume II, páginas 335-336. 

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Veja em nossos websites associados o artigo “Impedir o Filicídio e Respeitar as Crianças”, de Carlos Cardoso Aveline.

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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto), visite a página do nosso e-grupo SerAtento em YahooGrupos e faça seu ingresso de lá mesmo.


O link direto é o seguinte: 


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25 de agosto de 2016

A PSICOLOGIA DO SATORI OU ILUMINAÇÃO

Um Estado de Consciência  
Em Que Há Completa Vitalidade

Erich Fromm

Erich Fromm (1900-1980)

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Nota Editorial:

O texto a seguir é reproduzido da edição de outubro
de 2009  de “O Teosofista”. Nós o traduzimos da obra “Zen
Buddhism and Psychoanalysis”, de D.T. Suzuki, Erich Fromm
e R. De Martino, First Evergreen edition, 1963, EUA, 180 pp.,
ver pp. 115 a 118. O título da edição brasileira da obra é “Zen
Budismo e Psicanálise”, e nela o mesmo trecho aparece (com
uma tradução naturalmente diferente da nossa) às pp. 132-137.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Se quisermos expressar o que é a iluminação em termos psicológicos, eu diria que ela é um estado em que o indivíduo está completamente em sintonia com a sua realidade interna e externa, em que está plenamente consciente da realidade e a capta de modo integral. Ele está consciente dela, isto é, não se trata do seu cérebro, nem qualquer outra parte do seu organismo, mas ele, o homem inteiro. Ele está consciente dela; não como se a realidade fosse um objeto que ele capta com seu pensamento, mas ele capta a flor, o cachorro, o homem, em sua realidade completa.

Aquele que desperta está aberto e é capaz de responder ao mundo, e ele pode ser aberto e ser capaz de responder ao mundo porque renunciou a agarrar-se a si mesmo como uma coisa, e assim tornou-se vazio e capaz de perceber. Estar iluminado significa “o completo despertar da personalidade total diante da realidade.”

É muito importante compreender que o estado de iluminação não é um estado de dissociação ou de transe no qual o indivíduo acredita que está desperto, quando na verdade está profundamente adormecido. O psicólogo ocidental, naturalmente, terá uma tendência a acreditar que satori [ a iluminação] é apenas um estado subjetivo, e mesmo um psicólogo tão simpático em relação ao Zen quanto o dr. [Carl] Jung não consegue evitar o mesmo erro. Jung escreve: “A própria imaginação é uma ocorrência psíquica, e portanto, não faz diferença alguma se uma iluminação é qualificada de real ou imaginária. O homem que tem a iluminação, ou alega que a tem, pensa em qualquer caso que é iluminado (......) Mesmo que ele estivesse mentindo, a sua mentira seria um fato espiritual.”[1] 

Isso faz parte, é claro, da posição geral de relativismo adotada por Jung em relação à “verdade” da experiência religiosa. Ao contrário dele, eu acredito que uma mentira nunca é “um fato espiritual”, nem qualquer outro fato, na verdade, exceto o fato de ser uma mentira. Mas, de qualquer modo, a posição de Jung certamente não é compartilhada pelos zen budistas. Bem pelo contrário. Para eles é de crucial importância saber a diferença entre a experiência autêntica de satori, na qual a aquisição de um novo ponto de vista é real, e portanto verdadeira, e uma pseudo-experiência que pode ser de natureza histérica ou psicótica, na qual o estudante Zen está convencido de haver obtido satori, enquanto o mestre Zen tem que demonstrar que ele não obteve. Uma das funções do mestre Zen é, precisamente, estar vigilante em relação à confusão que o seu aluno faz entre a iluminação real e a iluminação imaginária.

O completo despertar para a realidade significa, falando em termos psicológicos, ter alcançado “uma orientação completamente produtiva”. Isso significa não relacionar-se com o mundo de modo receptivo, explorador, acumulativo, ou mercantilista; mas sim criativamente, ativamente (no sentido de Spinoza). No estado de completa produtividade não há véus que separem o eu do “não-eu”. O objeto não é mais um objeto; ele não fica contra mim, mas está comigo. A rosa que eu vejo não é um objeto para o meu pensamento, da maneira pela qual, quando eu digo “vejo uma rosa”, apenas afirmo que o objeto, rosa, cai na categoria “rosa”; mas da maneira em que se diz que “uma rosa é uma rosa é uma rosa”. 

O estado de produtividade é ao mesmo tempo o estado da mais alta objetividade. Eu vejo o objeto sem as distorções provocadas pela minha cobiça e pelo meu medo. Vejo-o como ele é, e não como eu quero que ele seja, ou que não seja. Neste modo de percepção não há distorções paratáxicas [através do uso das palavras]. Há completa vitalidade, e existe uma síntese de objetividade e subjetividade. Eu tenho uma experiência intensa - e no entanto é permitido ao objeto que ele seja como ele é. Eu trago o objeto à vida, e o objeto me traz à vida. O satori parece misterioso apenas para a pessoa que não está consciente de até que ponto a sua percepção do mundo é puramente mental, ou paratáxica. Se o indivíduo estiver consciente disso, ele também perceberá uma consciência diferente, que se pode chamar de consciência completamente realista. O indivíduo pode ter experimentado apenas vislumbres dela: no entanto, ele pode imaginar como ela é. Um garoto pequeno que estuda piano não toca como um grande mestre. No entanto a performance do mestre não é um mistério: trata-se apenas da perfeição da experiência rudimentar que o garoto tem.

O fato de que a percepção não distorcida e não-cerebral da realidade constitui um elemento essencial da experiência Zen é expressado muito claramente em duas histórias Zen. Uma delas conta a conversa de um mestre com um monge:

“Você faz algum esforço para tornar-se disciplinado na verdade?”

“Sim.”

“Como você se exercita nisso?”

“Quando tenho fome, eu como; quando estou cansado, eu durmo”.

“Isto é o que todo mundo faz; podemos dizer então que todos estão fazendo o mesmo exercício?”

“Não.”

“Por quê?”

“Porque, quando eles comem, eles não comem, mas estão pensando em várias outras coisas, e assim permitindo-se ficar perturbados; quando eles dormem, eles não dormem, mas sonham com mil e uma coisas. É por isso que eles não são como eu.” [2]

A história dificilmente precisa de alguma explicação. O indivíduo comum, levado pela insegurança, pela cobiça, pelo medo, é constantemente imerso em um mundo de fantasias (e nem sempre é consciente disso), no qual ele vê o mundo como se tivesse qualidades que ele projeta sobre o mundo, mas que não estão lá. Isso era um fato quando esta conversa ocorreu; e continua sendo um fato verdadeiro hoje, quando quase todos veem, ouvem, sentem e saboreiam mais com base em seus próprios pensamentos, do que com base naquelas funções dentro de si que são capazes de ver, ouvir, sentir e saborear.

A outra história, igualmente cheia de significado, é a afirmação de um mestre Zen que disse: “Antes que eu alcançasse a iluminação, os rios eram rios e as montanhas eram montanhas. Quando comecei a ficar iluminado, os rios não eram mais rios, e as montanhas não eram montanhas. Agora, desde que estou iluminado, os rios voltaram a ser rios e as montanhas são montanhas.” 

Outra vez, temos o novo enfoque da realidade. O indivíduo comum é como o homem na caverna de Platão, que olha só as sombras e pensa que elas são a substância. Quando reconhece este erro, ele sabe apenas que as sombras não são a substância. Mas quando se torna um iluminado, ele troca a caverna e a sua escuridão pela luz do dia. Então ele vê a substância e não as sombras. Ele está desperto. Enquanto permanece no escuro, ele não pode entender a luz. (Como diz a Bíblia: “Uma luz brilhou na escuridão e a escuridão não a entendeu.”[3] ) Uma vez que está fora da escuridão, ele compreende a diferença entre a sua visão anterior do mundo como sombras, e a sua visão atual do mundo como realidade.

NOTAS:

[1] Do prefácio de Carl Jung para a obra de D.T. Suzuki intitulada “Introduction to Zen Buddhism”, London, Rider, 1949, p. 15. (E. Fromm)

[2] D.T. Suzuki, “Introduction to Zen Buddhism”, p. 86. (E. Fromm)

[3] Evangelho segundo João, 1: 5. (CCA)

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24 de agosto de 2016

A FILOSOFIA DO AIKIDÔ

A Voz da Paz Pode Ressoar Como um Trovão
Que Arranca os Seres Humanos da Sua Apatia

Morihei Ueshiba

Morihei Ueshiba

  

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Nota Editorial de 2016:
 
Reproduzimos a seguir alguns pensamentos do livro
A Arte da Paz”, de Morihei Ueshiba (1883-1969), o 
fundador do Aikidô. O livro foi publicado por Edições
Coisas de Ler, em Lisboa, 2005, e tem 95 páginas. Os números
das páginas estão ao final de cada citação, entre parênteses.

A identidade interna do Aikidô com muitos aspectos da
filosofia esotérica clássica é fácil de perceber quando lemos
estes axiomas. Um Mestre de Sabedoria escreveu: “Esforcem-se
em direção à Luz, todos vocês, bravos guerreiros da Verdade,
mas não deixem que o egoísmo penetre em seu meio”. [1]

As metáforas militares fazem parte da tradição espiritual
de quase todas as nações: o Novo Testamento cristão e o
Bhagavad Gita hindu são dois exemplos entre muitos. O
aforismo 103 de “O Dhammapada” afirma: “Melhor que um
homem que vence em batalhas mil vezes mil homens, é aquele
que vence a si mesmo. Ele é, na realidade, o maior dos guerreiros.” 

Morihei Ueshiba ensina o mesmo princípio da sabedoria universal.

(Carlos Cardoso Aveline)

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* Acalenta e aperfeiçoa o espírito guerreiro enquanto serves o mundo; Ilumina o Caminho de acordo com a tua luz interior. (p. 42)

* O Caminho da Paz é muito vasto, refletindo o grande desenho dos mundos ocultos e visíveis. Um guerreiro é um santuário vivo do divino que serve esse grandioso desígnio. (p. 43)

* O teu espírito deverá estar em harmonia com o funcionamento do universo; o teu corpo deve estar em consonância com o movimento do universo; corpo e espírito devem ser um só, unidos com a atividade do universo. (p. 43)

* A Arte da Paz é o princípio da não resistência. Por ser não resistente é vitoriosa desde o início. Aqueles com intenções malévolas ou maus pensamentos são vencidos. A Arte da Paz é invencível porque não colide com nada. (p. 53)

* Não há disputas na Arte da Paz. Um verdadeiro guerreiro é invencível porque ele ou ela não disputa nada. Derrotar significa derrotar o espírito do conflito que abrigamos dentro de nós. (p. 53)

* Transcende os limites da vida e da morte, e então conseguirás fazer calmamente o teu caminho através de qualquer crise com que sejas confrontado. (p. 69)

* O teu coração está cheio de sementes férteis à espera de desabrocharem. Tal como uma flor de lótus floresce para desabrochar de forma esplêndida, também a interação faz com que a flor do espírito desabroche e dê frutos. (p. 28)

* Estuda os ensinamentos do pinheiro, do bambu, dos rebentos das ameixeiras. O pinheiro é verde, tem raízes firmes e veneráveis. O bambu é sólido, resistente, inquebrável. Os rebentos das ameixeiras são cheirosos e elegantes. (p. 29)

* Mantém sempre o teu espírito luminoso e claro como o vasto céu, o pico mais elevado e o oceano mais profundo, vazio de quaisquer pensamentos limitadores. (p. 29)

* Quando te começares a preocupar com o “bem” e o “mal” dos teus companheiros, estás a abrir uma porta no teu coração para que a malícia possa entrar. Testar, criticar e competir com os outros enfraquece-te e derrota-te. (p. 31)

* A Arte da Paz não é fácil. É uma luta até ao fim, o desfazer de desejos malévolos e de toda a falsidade. De vez em quando a voz da paz ressoa como um trovão fazendo sair os seres humanos da sua apatia. (p. 33)

* Encara qualquer desafio que esteja à tua frente. Quando um ataque aparece à tua frente, utiliza o princípio da “lua refletida na água”. A lua parece estar realmente presente, mas se tocares a água, não estará lá nada. Também o teu oponente não encontrará nada sólido para atacar. Tal como a luz da lua, envolve o teu oponente física e espiritualmente, até não haver separação entre vós. (p. 69)

* Os ataques podem vir de qualquer direção - de cima, do meio, de baixo; da frente, de trás, da esquerda, da direita. Mantém-te concentrado e serás intocável. (p. 70)

* Sê grato mesmo pelos reveses e pelas dificuldades. Lidar com os obstáculos é uma parte essencial do treino da Arte da Paz. (p. 70)

* A única cura para o materialismo é a limpeza dos seis sentidos (olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e espírito). Se os sentidos estiverem embaçados, a percepção fica afetada. Quanto mais afetada, mais contaminados ficam os sentidos. Isto prova a desordem no mundo e esse é o pior mal de todos. Purifica o coração, liberta os seis sentidos e deixa-os funcionar sem obstrução, e todo o teu corpo e alma brilharão. (p. 37)

* Há muitos métodos para chegar ao cimo e todos eles nos levam às alturas. Não há necessidade de nos guerrearmos uns com os outros - todos somos irmãos e irmãs que deveriam fazer juntos o Caminho, mão na mão. Mantém-te no teu Caminho e nada mais importará. Quando perderes o desejo por coisas que não têm importância, serás livre. (p. 39)

* Nunca temas quem te desafia, por mais imponente que seja. Nunca desprezes quem te desafia, por mais insignificante que seja. (p. 39)

* Os mais fortes nem sempre derrotam os mais fracos. Os pequenos podem tornar-se grandes se trabalharem constantemente para isso; os fortes podem tornar-se fracos se não o fizerem. (p. 40)

* A lealdade e a devoção conduzem à bravura; a bravura ao espírito de autossacrifício. O espírito de autossacrifício cria a confiança no poder do amor. (p. 40)

* Toda a vida é uma manifestação do espírito, a manifestação do amor. E a Arte da Paz é a forma mais pura desse princípio. A um guerreiro compete pôr termo a toda a discussão e contenda. O amor universal funciona de diversas maneiras; cada manifestação deve ser livre de se expressar. A Arte da Paz é a verdadeira democracia. (p. 38)

NOTA:

[1] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa, Editora Teosófica, Brasília, 1996, 295 pp., ver Carta 20 da primeira série, p. 66.

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Uma versão inicial do texto acima foi publicada na edição de janeiro de 2016 de “O Teosofista”.

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