21 de Abril de 2014

O DILEMA ÉTICO DE S. PAULO

Como Fazer de Fato o Bem que Queremos
Fazer, e Evitar os Erros Que Não Desejamos

Carlos Cardoso Aveline




Medir e avaliar  são tarefas indispensáveis  no momento de tomar uma decisão



A arte de agir corretamente ensina a plantar o bom carma que desejamos colher. Para isso, nem sempre a boa vontade é suficiente, porque o caminho para a sabedoria é estreito e íngreme, e um agudo discernimento é indispensável. 

Um aspecto central dos desafios a enfrentar é mencionado por São Paulo em Romanos, 7: 18-19: 

“Não faço o bem que quero fazer, mas faço o mal que não quero  fazer.”

O carma da paz e da bem-aventurança não vem por acaso. Ele deve ser preparado e construído a cada momento, durante muito tempo. Será necessário identificar a cada instante o que é verdadeiro e o que é falso.  Porém, a capacidade de enxergar com clareza só vem pouco a pouco, à medida que tentamos constantemente o melhor, sem deixar-nos influenciar pelo aparente fracasso.  Devemos usar o nosso melhor critério -  mesmo que ele seja imperfeito -  e fazer isso durante o tempo necessário. Aprenderemos com os erros. O discernimento se desenvolverá talvez lentamente e entre um fracasso e outro, mas de modo seguro.

Será indispensável praticar a renúncia e a moderação. O  “Dhammapada” budista afirma:

“Aquele que se entrega a distrações inconvenientes, e não a uma reflexão adequada, renuncia a seu próprio bem-estar. Procurando prazeres, ele inveja o homem que se dedica à meditação.  Não se apegue ao agradável, nem ao desagradável. Ver o agradável implica ver o desagradável - ambos são  dolorosos. Portanto não seja atraído para coisa alguma. A perda de um objeto amado é dolorosa, mas não há prisão para aquele que não gosta nem desgosta.  Do apego surge o sofrimento. Do apego surge o medo. Não há sofrimento para aquele que está livre do apego.” [1]

Os desejos desregulados provocam uma luta entre o querer consciente  e o querer subconsciente. O comportamento médio resulta da luta ou da cooperação que existe entre os vários níveis de consciência.
  
Grande parte da ação é involuntária e subconsciente, e o dilema ético de São Paulo pode ser formulado assim: 

“Não faço o bem que quero conscientemente fazer; mas cometo o erro que subconscientemente  desejo fazer.”

Como as ações  humanas nunca são totalmente voluntárias, o autoconhecimento, a purificação interior e a higiene mental são indispensáveis.  O conhecimento de  si mesmo permite ver e avaliar com clareza as situações da vida.

Em seu diálogo “Protágoras”, Platão escreve:

“Suponha que a felicidade consiste em fazer e escolher o que é grande; e em não fazer, ou evitar, aquilo que é menor. Qual seria o princípio da salvação da vida humana?  A arte de medir não seria o princípio da salvação? Ou seria o poder das aparências?  Esse último não é aquela  arte enganadora que nos faz oscilar para cima e para baixo, e optar, em um momento, por coisas das quais nos arrependeremos depois, tanto em nossas ações como ao escolher entre coisas grandes e pequenas?  A arte de medir deixa de lado a força das aparências, e, ao mostrar a verdade, ensina de bom grado à alma como encontrar descanso na verdade, e assim salva nossa vida. Será que a humanidade não reconhece, em geral, que a arte que produz esse resultado é a arte de medir?  (.....)” [2]

“Medição” é, na verdade, “discernimento”, ou “Viveka” em sânscrito. 

Platão prossegue:

“... Vendo que a salvação da vida humana é reconhecida como  algo que consiste na escolha correta de prazeres e dores, na escolha do que é mais e do que é menos, do grande e do pequeno, e do próximo e do longínquo, será que essa medição não é a avaliação do que há em  excesso ou que falta, e  da igualdade na relação entre um e outro?”

O lema do movimento teosófico afirma que “não há religião mais elevada que a verdade”. Platão, por sua vez,  ensina que não existe coisa alguma mais poderosa que o conhecimento da verdade. Ele escreveu:

“... Nós dois estávamos concordando em que não há nada mais poderoso que o conhecimento, e que o conhecimento, onde quer que esteja, é vantajoso em relação ao prazer e a  todas as outras coisas...”

O diálogo platônico prossegue:

“...  Você (...) admitiu que os homens erram em suas escolhas de prazeres e sofrimentos; isto é, na sua escolha entre bem e mal; e erram  por falta de conhecimento; e você admitiu mais,  que eles erram, não só por falta de conhecimento em geral, mas por falta daquele tipo específico de conhecimento que se chama medição.”

As pessoas erram ao avaliar as situações.

Descrever o discernimento como uma medição é usar uma imagem geométrica para definir a capacidade de diferenciar o que é certo e errado, ou “grande” e “pequeno”.

Para Platão, a divindade suprema - a lei do carma e do equilíbrio -  é “o grande  geômetra do universo”. O mundo é regulado pela lei da harmonia.  Do ponto de vista do ser humano,  a primeira coisa a ser “medida” é o seu próprio ser.  E, de fato, um ditado popular brasileiro afirma:

“Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.” 

O Dhammapada assegura:

“Se renunciando a um prazer de pequeno valor é possível obter um contentamento valioso, o homem sábio renunciará ao prazer de pequeno valor para garantir o contentamento profundo.” [3] 

O desafio é saber medir.

Platão afirma:  

“ ... Ninguém busca voluntariamente o mal, ou aquilo que considera  ser o mal. Preferir o mal ao bem não faz parte da natureza humana; e quando um homem é forçado a escolher entre dois males, ele nunca escolhe o maior, se puder escolher o menor.”

O filósofo grego ensina que o medo e a falta de autocontrole estão entre as causas dos erros que se comete ao tentar medir as situações. A sabedoria, por outro lado, dá ao  ser humano um sentido correto de justiça e de equilíbrio, e permite que ele enxergue as oportunidades para o bem que a  vida coloca a todo momento diante de si.                                 

NOTAS:

[1] “O Dhammapada”,  edição online de  www.FilosofiaEsoterica.com, capítulo 16.

[2] “Protagoras”, de Platão,  no volume “Plato”, Great Books of the Western World, The Encyclopaedia Britannica,  Chicago, London, Toronto, 1952,  814 pp.  Ver pp. 60-64, e especialmente 61-62.  

[3] “O Dhammapada” obra citada,  capítulo 21.

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Sobre a missão do movimento teosófico, que envolve o despertar da humanidade para a vivência da fraternidade universal, veja o livro “The Fire and Light of Theosophical Literature”, de Carlos Cardoso Aveline.

 

A obra tem 255 páginas e foi publicada em outubro de  2013 por “The Aquarian Theosophist”. O volume pode ser comprado através de Amazon Books.

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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia original, escreva a lutbr@terra.com.br e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.


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14 de Abril de 2014

CELEBRANDO O MOVIMENTO TEOSÓFICO

A Unidade dos Cidadãos de Boa
Vontade é Criativa, e Ignora Burocracias


Carlos Cardoso Aveline



“.... A misteriosa força do pensamento [...] pode
produzir resultados externos, perceptíveis, no plano
dos fenômenos, a partir da sua própria energia inerente.”

Helena Blavatsky [1]
  


A seguir, uma forma prática de celebrar a unidade transcendente do movimento esotérico moderno, e de tornar mais fácil o cumprimento do seu dever coletivo:

1) Sente-se numa postura ereta, e relaxe. Adote uma respiração calma e profunda. Deixe de lado as preocupações com assuntos pessoais ou de curto prazo.

2) Relembre o artigo de William Q. Judge [2]: o movimento teosófico é ético, universal, essencialmente invisível, e contínuo no tempo. As associações teosóficas, por outro lado, enfrentam mudanças e devem renascer de tempos em tempos, de acordo com a lei do Carma.

3) A vida brota e se renova desde o mundo interior.  Visualize o movimento teosófico enquanto ele cumpre o seu dever, oferecendo elementos para que em todo o mundo os cidadãos de boa vontade tirem conscientemente lições de cada desafio que enfrentam. Veja a sabedoria e a solidariedade permeando as relações entre todos, em cada continente. Enxergue o movimento teosófico ajudando ativamente este processo. 

4) Imagine a humanidade a despertar agora mesmo para a força ilimitada da ajuda mútua. Mantenha diante de si, por um instante, a imagem de cada cidade e comunidade rural acordando para a solução fraterna dos seus problemas.

5) Veja o movimento teosófico cumprindo o seu papel numa civilização planetária que terá por base os princípios da autorresponsabilidade e da ajuda mútua.

6) Fortaleça seu compromisso pessoal com esta visão do futuro. Você é responsável por ela. A humanidade e o movimento teosófico são como o círculo de Pascal, cujo centro está no coração de todo cidadão, e cuja circunferência não é limitada por nenhuma estrutura externa ou visível. 

7) Visualize por alguns instantes os membros do movimento teosófico participando ativamente do despertar planetário para a ética da fraternidade universal. Guarde consigo esta imagem. Mantenha-a nítida em sua mente e coração. Partilhe a notícia com seus amigos, familiares e colegas.

Om, Shanti.


NOTAS:

[1] “The Secret Doctrine” (“A Doutrina Secreta”), edição original em inglês, Theosophy Co., Los Angeles, vol. I, p. 293.

[2] “O Movimento Teosófico”, de William Q. Judge. O texto pode ser encontrado em
  www.FilosofiaEsoterica.com  e seus websites associados.

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Veja os textos “Meditação pelo Despertar Planetário” e “O Centro do Círculo de Pascal”, de Carlos Cardoso Aveline. Ambos estão disponíveis em  www.FilosofiaEsoterica.com  e seus websites associados.

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Sobre a missão do movimento teosófico, que envolve o despertar da humanidade para a vivência da fraternidade universal, veja o livro “The Fire and Light of Theosophical Literature”, de Carlos Cardoso Aveline. 


A obra tem 255 páginas e foi publicada em outubro de  2013 por “The Aquarian Theosophist”. O volume pode ser comprado através de Amazon Books.

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O MOVIMENTO TEOSÓFICO

Interesses Corporativos Não
Controlam a Sabedoria Universal


William Q. Judge




O movimento teosófico é criativo e se renova constantemente, mantendo, porém,  o projeto original



Nota Editorial:
Lealdade a Adyar Não Faz Sentido  

A visão não-burocrática do movimento teosófico colocada aqui por W. Q. Judge compartilha do ponto de vista  defendido por H. P. Blavatsky, Robert Crosbie e John Garrigues, entre outros. 

Em seu texto intitulado “A Puzzle From Adyar” (“Um Enigma Vindo de Adyar”), H.P.B. desmascarou sem meias palavras a ideia de que ela, ou qualquer teosofista,  deveria ser “leal à Sociedade Teosófica e a Adyar”.

Mencionando a si mesma na terceira pessoa, ela escreveu:

“É puro absurdo dizer que ‘H.P.B. ..... é leal à Sociedade Teosófica e a Adyar (!?).   H.P.B. é leal até a morte  à CAUSA teosófica, e a aqueles grandes Professores cuja filosofia,  e só ela,  pode unir a Humanidade toda em uma Fraternidade. (.....) Portanto o grau da simpatia dela em relação à ‘Sociedade Teosófica e Adyar’ depende do grau de lealdade daquela Sociedade à CAUSA.  Se ela afastar-se das linhas originais e mostrar deslealdade em suas ações à CAUSA e ao programa original da Sociedade,  H.P.B.  chamará a S.T. de desleal  e a afastará de si como pó dos seus pés. E o que significa ‘lealdade a Adyar’, em nome de todos os prodígios? O que é Adyar, exceto a CAUSA e os dois (não um, por  favor) fundadores que a representam? Por que não ser leal aos prédios e banheiros de Adyar?  Adyar é a atual Sede  da Sociedade ......  Não há mais uma ‘Sociedade Matriz’; ela foi abolida e substituída  por um corpo agregado de Sociedades Teosóficas, todas autônomas, como são os Estados Unidos da América, e todas sob um presidente, que, junto com H. P. Blavatsky, irá defender a CAUSA contra o mundo todo. Esta é a real situação das coisas.” [1]

Nem mesmo estas palavras claras e enfáticas foram  suficientes.  Quando H.P.B. morreu, William Q. Judge - que havia surgido a partir de 1886 como grande  aliado dela - teve de afastar-se da “ST de Adyar”  para permanecer seguindo e ensinando  a filosofia e a proposta originais. Nisso, Judge  foi acompanhado pela seção norte-americana do movimento.  O texto a seguir explica e contextualiza as palavras de H.P.B. citadas acima.

(Carlos Cardoso Aveline)


O Movimento Teosófico
           
William Q. Judge


Há uma diferença muito grande entre o Movimento Teosófico e qualquer Sociedade Teosófica. O Movimento é moral, ético, espiritual, universal,  invisível exceto nos  seus efeitos, e contínuo. Uma  Sociedade formada para o trabalho teosófico é uma organização visível, um efeito, uma máquina para conservar energia e para colocá-la em ação; ela não é nem pode ser universal, nem é contínua.  As corporações teosóficas organizadas são feitas pelos homens para uma melhor cooperação, mas, como são meras cascas externas, elas devem mudar de tempos em tempos à medida que  as falhas humanas aparecem, à medida que os tempos mudam, e à medida que o grande movimento espiritual subjacente provoca  tais alterações.

Como o Movimento Teosófico é contínuo, ele pode ser encontrado em  todos os tempos e todas as nações. Onde  quer que o pensamento venha lutando para ser livre, onde  quer que as ideias espirituais tenham sido promulgadas em oposição às formas e ao dogmatismo, lá o grande movimento pode ser percebido.  A obra de Jacob Boehme era parte dele, e assim também a Sociedade Teosófica de mais de cem anos atrás; a reforma de Lutero pode ser reconhecida como uma parte dele; e a grande luta entre a ciência e a religião, claramente descrita por Draper, era tão parte do Movimento Teosófico como a atual Sociedade sob este nome - na verdade aquela luta, e a liberdade então obtida para a Ciência, foram tão importantes no avanço do mundo como são as nossas diferentes organizações. E entre os exemplos políticos do movimento deve ser apontada a Independência  das colônias norte-americanas,  que concluiu com a formação de uma grande nação,  baseada teoricamente na Fraternidade.  Podemos ver então que adorar uma organização, ainda que seja a querida organização teosófica, é cair até o nível da Forma, e tornar-se escravo mais uma vez  daquele dogmatismo que a nossa porção do Movimento Teosófico, a S.T., visava destruir.

Alguns membros  passaram a adorar a chamada “Sociedade Teosófica”,  pensando que ela é tudo o que se necessita, deixando de perceber claramente o seu caráter organizativo  informal, como uma colcha de retalhos,   e tampouco percebendo que esta devoção à mera forma iria provavelmente levar à anulação da Fraternidade durante a primeira tensão que surgisse.  E a tensão realmente ocorreu com vários membros. Eles até esqueceram, e ainda esquecem, que a própria H.P.Blavatsky declarou que seria melhor deixar de lado a Sociedade do que destruir a Fraternidade, e  que  H.P.B. proclamou a  liberdade e a independência  da parte europeia da Sociedade.  Estes adoradores pensam que deve haver uma continuação da velha forma,  para que a Sociedade possa ter um caráter internacional.

Mas a verdadeira unidade e predominância,  e o verdadeiro internacionalismo, não consistem em ter uma só organização. Eles estão na similaridade da meta, da aspiração, do propósito, do ensinamento, da ética. A Maçonaria - uma parte grande e importante do verdadeiro Movimento Teosófico -  é universalmente internacional; e no  entanto as suas organizações são numerosas,  autônomas, soberanas, independentes. A Grande Loja do Estado de Nova Iorque, que inclui as suas diferentes Lojas, é independente de todas as outras em qualquer Estado, e no entanto cada membro é um maçom e todos estão trabalhando por um mesmo plano.  Os franco-maçons de todo o mundo pertencem ao grande Corpo Maçônico Internacional, mas têm suas direções livres e independentes por toda parte.

Quando a Sociedade Teosófica era jovem e pequena, era necessário que houvesse uma só direção para toda ela.  Mas agora que ela se tornou grande e forte, tendo se espalhado para muitas nações  bastante diferentes uma das outras,  como a nação norte-americana, a inglesa, a espanhola, a sueca e outras na Europa, e a hindu, é essencial que seja feita uma mudança na forma externa.  Ela deve tornar-se como os franco-maçons - com direções independentes onde quer que as condições geográficas ou nacionais indiquem esta necessidade.  E não há a menor dúvida de que isso ocorrerá no seu devido tempo, não importando o que certas pessoas possam dizer em contrário.

O grupo norte-americano, estando separado por condições geográficas e outras, começou a mudança de modo a ter uma  direção livre e independente, mas permanece unido a todos os verdadeiros teosofistas na base, na aspiração, no objetivo e no trabalho.  

Nós não mudamos o trabalho de H.P.B.; nós o ampliamos. Afirmamos que qualquer pessoa  que tenha sido admitida a qualquer Sociedade Teosófica deveria ser  recebida em todas as partes entre os teosofistas, assim como os maçons são recebidos entre os maçons. Não é teosófico rejeitar a mudança feita pelo grupo norte-americano. Isto não é Teosofia; e tampouco ajuda na sua divulgação fazer exigências legais em relação aos nomes, símbolos e selos teosóficos, de modo a impedir que outros possam usá-los.  Qualquer um deveria ser convidado a usar nossa propriedade teosófica tão livremente quanto quiser.  Aqueles que desejam manter a guerra de H.P.B. contra o dogmatismo  irão aplaudir e encorajar o movimento americano, porque suas mentes libertas o permitem; mas aqueles que não conhecem a verdadeira Teosofia, nem veem a diferença entre a forma e a alma das coisas,  irão continuar a adorar a Forma, e a sacrificar a Fraternidade em função de uma casca externa.

NOTA:

[1]  Veja “Theosophical Articles by H.P.B.”, Theosophy Co., Los Angeles,  vol. I, pp. 219-220.  Ou  também “HPB Collected Writings”, TPH, Adyar, Índia, vol. XI, pp. 380-381. 

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O título original do texto acima é “The Theosophical Movement”, e foi publicado pela primeira vez na revista “Path” em agosto de 1895. Traduzido ao português desde a coletânea  em dois volumes “Theosophical Articles”, William Q. Judge, The Theosophy Co., Los Angeles, 1980; ver vol. II, pp. 124-126.

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Sobre a missão do movimento teosófico, que envolve o despertar da humanidade para a vivência da fraternidade universal, veja o livro “The Fire and Light of Theosophical Literature”, de Carlos Cardoso Aveline.

 

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10 de Abril de 2014

A ARTE DE PLANEJAR O FUTURO

O Tempo Constitui Um Recurso Natural Valioso


Carlos Cardoso Aveline

A intenção correta funciona como uma bússola na arte de construir o futuro



Qualquer momento é adequado para planejar com atenção o uso do tempo. É preciso, no entanto, ter a capacidade interior de observar com calma o ritmo atual das nossas atividades, para então decidir onde e como modificar a rotina e usar da melhor forma possível esse recurso limitado e de enorme valor.    

“Águas passadas não movem moinho”, afirma o ditado. De fato, o tempo pode ser considerado um recurso natural em grande parte não-renovável. O uso correto do misterioso tempo - talvez o mais valioso dos recursos naturais - é um dos grandes desafios do cidadão em todas as épocas. Vivemos hoje sob a ditadura dos relógios, e a sensação de que o tempo é curto é quase universal nos dias atuais. Somos interrompidos a todo momento em algumas das nossas atividades. Por isso nem sempre é fácil viver profundamente ou descobrir que, como almas espirituais, teremos o tempo eterno à nossa disposição, se  usarmos com alguma sabedoria o tempo miúdo de curto prazo.   

Apesar dos obstáculos criados pela nossa própria ignorância, é provavelmente possível para cada um de nós planejar e usar o tempo de modo mais inteligente. 

A solução está em definir um rumo próprio para nossas vidas e em não nos deixar levar para lá e para cá pelas pressões de curto prazo. Um dos primeiros passos talvez seja descrever por escrito, em um caderno de anotações, as metas dos próximos doze meses, ou da próxima década. O mero ato de escrever parece dar mais clareza às nossas ideias. Mas é essencial, também, fazer periodicamente uma avaliação dos resultados obtidos, revisando e atualizando as metas a partir dos fatos novos e da experiência adquirida. Planejamentos eficientes são flexíveis e abertos às possibilidades do futuro, incluindo as agradáveis e as não-agradáveis.   

O tempo é parcialmente renovável, porque é cíclico. Ao longo do seu desdobramento, velhas oportunidades ressurgem renovadas, em determinadas ocasiões. Mesmo assim, é melhor aproveitar este recurso limitado da melhor maneira possível. Aos poucos, esse esforço nos dará uma visão clara e capaz de identificar e aproveitar as oportunidades ocultas que estão o tempo todo ao nosso redor; e também reconhecer as grandes oportunidades que só se apresentam em certos momentos especiais.   

Se já sabemos qual é nossa meta central nesta vida, um cálculo realista das forças de que dispomos para alcançá-la mostrará que, na verdade, o uso correto do tempo depende, em grande parte, da nossa auto-estima profunda.

Sem um grau suficiente de autoconfiança e de respeito por nós próprios - no plano profundo do ser mas também no plano emocional e mental - somos facilmente arrastados pelos estímulos ou desestímulos externos. 

Tentamos sinceramente viver com sabedoria, mas nos falta a estrutura necessária para manter um curso firme diante das pressões violentas que nos lançam para um lado e outro. Esse problema tem solução: podemos aumentar nossa autoestima pouco a pouco. A tarefa é essencial, porque “tempo é ritmo”. Se não dermos um ritmo próprio e relativamente constante à nossa vida, a dispersão e a perda de tempo impedirão qualquer progresso real e o tempo passará quase em vão.    

É claro que uma parte importante de nós necessita da aprovação dos outros.  Isto é normal e saudável.  A aprovação da nossa própria consciência, porém, é ainda mais importante. A autoestima profunda dá segurança emocional, diminui a ansiedade, permite tomar serenamente decisões importantes, e nos torna capazes de emitir e distribuir pensamentos positivos ao nosso redor, estabelecendo laços de apoio mútuo com outras pessoas. Sentimos tranquilidade, porque o nosso subconsciente nos diz que nosso tempo e nossa energia vital estão sendo bem empregados.

Mas a presença de uma autoestima profunda se reflete ainda de outras maneiras. Vejamos algumas delas. A autoestima se mostra:

* pela capacidade de ficar sozinhos com nós mesmos; 

* pelo prazer de examinar carinhosamente nossa vida, observando nossos erros e decidindo não repeti-los, identificando nossos pontos fortes e decidindo aperfeiçoá-los ainda mais;

* pela tranquilidade e decisão necessárias para planejar e preparar psicologicamente as nossas atividades futuras.

* pela capacidade de, conhecendo de fato a si mesmo, esquecer então a si mesmo e pensar nos outros seres e na humanidade. 

Se você tem respeito pela vida, vale a pena pensar e decidir qual é a melhor maneira de usar seu tempo. Ninguém pode viver por você: portanto, a decisão sobre como levar adiante sua vida é exclusivamente sua, embora você deva levar em conta o bem-estar dos outros. 

Muitas vezes será necessário frustrar as expectativas alheias, ou ser indiferente em relação ao jogo de conveniências externas. Será necessário até parecer antipático a alguns, para que você possa manter em funcionamento três funções básicas:

a) ouvir seu coração;
b) obedecer à voz da sua consciência;
c) ser coerente consigo próprio.

Para usar bem o tempo, é essencial diminuir os desejos pessoais e fazer com que eles sejam coerentes entre si. A quantidade excessiva de desejos - frequentemente contraditórios e anulando-se uns aos outros - é uma doença dos tempos atuais e produz a falsa sensação de que o tempo é curto. Quando queremos fazer muitas coisas ao mesmo tempo, não podemos realizar nada direito. A multiplicação dos desejos, na verdade, anda junto com a ausência de uma autoestima profunda. 

Como todo ser humano, cada um de nós tem muitos talentos e possibilidades diversas. Mas o cidadão sensato escolhe os talentos que desenvolverá e dá uma prioridade definida a eles, ao invés de fazer tentativas confusas em todas as direções, com a vaga expectativa de “ver qual dará certo”. 

Aquele que tem metas claras e coragem de planejar sua vida raramente é prisioneiro de dúvidas ou escravo das incertezas. Planejar é um modo de meditar e de visualizar o futuro, criando no plano ideal as realidades que você deseja ver, e colocando em funcionamento as forças mentais e materiais que realizarão o sonho.
  
Depois de definir suas necessidades básicas e seus desejos mais elevados, basta trabalhar em função da meta. Ao longo da caminhada, faça simultaneamente três coisas:

1) Visualize o melhor;
2) Mantenha o pensamento positivo, sem negar os obstáculos;
3) Evite a dispersão das forças. 

Também é útil avaliar a possível utilidade das seguintes recomendações:

* Defina metas e ações que sejam não só desafiadoras e estimulantes, mas realistas. Elas devem ser suficientemente difíceis para que você tenha de usar todas as suas forças e todo seu talento. Ao mesmo tempo, devem ser alcançáveis, pelo menos em parte, para que você não caia no desânimo nem desista na metade.

* Estabeleça metas flexíveis e abra espaço em seu planejamento para as vitórias parciais. Uma tentativa honesta, intensa, já deve ter o mérito de estabelecer um saldo favorável. Evite qualquer sistema de metas que só tenha duas opções - a vitória total e o fracasso completo. Considere que, do ponto de vista espiritual, a única derrota é não tentar.

* Não queira mudar sua vida em todos os aspectos de um momento para outro. Faça do tempo o seu melhor amigo. A verdade sempre ganha no final: seja verdadeiro e o tempo trabalhará para você. Um esforço duradouro e suave pode ser o melhor caminho para a vitória.

* A prática mostra que, a longo prazo, só valem a pena as metas altruístas, cujos resultados são ao mesmo tempo bons para nós e  bons para os outros. Um objetivo que inclui a derrota de outras pessoas, ou que não é obtido de modo ético e correto, acaba trazendo contraindicações que, mais adiante, causam arrependimento e um fracasso muito maior do que a aparente vitória inicial.

* A astrologia - inclusive a astrologia chinesa - pode revelar aspectos importantes dos padrões vibratórios de diferentes momentos e etapas. Os ciclos e trânsitos de Saturno, por exemplo, têm influência decisiva na vida de cada um de nós. A análise dinâmica da influência deste planeta ajuda a compreender o foco central de uma vida, ao longo das suas várias etapas. Este é apenas um exemplo e a boa astrologia tem muitas utilidades no planejamento de uma vida vista como processo de aprendizado espiritual.

* Uma avaliação correta das nossas forças, qualidades e limitações é essencial para que possamos planejar com realismo. Escolha alguns amigos como conselheiros e testemunhas do seu esforço. Estabeleça um sistema de controle de qualidade dos seus esforços, através do diálogo com eles.

A título de exemplo, faço a seguir o esboço de um esquema para possíveis metas pessoais. Não se trata de um planejamento mecânico, mas de um exercício para despertar a consciência da sua responsabilidade sobre sua vida. Leve em conta que os prazos do planejamento devem incluir os vários ciclos do tempo: o dia, a semana, o ano, a década, até a vida inteira. É claro que os objetivos definidos para os próximos doze meses serão diferentes das metas para os próximos sete anos ou a próxima década, mas todos são importantes como sinais visíveis da sua potencialidade interior.   

O sistema de metas também deve incluir os objetivos a serem alcançados até o final da vida, os quais devem ser mais interiores do que externos. O planejamento da vida inteira tem um papel importante no despertar da nossa alma imortal - do nosso potencial maior - e também aumenta nossa eficácia no curto prazo. Mas devemos dar a nós próprios a liberdade de reexaminar e escrever com outras palavras, a cada ciclo de tempo, nossas metas de longo e de curto prazo.  

O fato de observar a mudança e a evolução dos nossos objetivos de longo prazo nos traz lições valiosas e revela aspectos fundamentais do nosso aprendizado. Todo planejamento deve ser sempre objeto de exame crítico e de revisão periódica. É assim que ele se fortalece: permanecendo aberto aos fatos novos. Vejamos, a seguir, alguns exemplos de possíveis metas em várias áreas da vida.

1) Metas Físicas

A) Manter e melhorar a saúde. Exemplos de ações: Aprender tai-chi-chuan? Caminhar pelo parque todo domingo? Andar de bicicleta? Melhorar a alimentação? De que modo?

B) Melhorar a situação econômica e material. Exemplos de ações: fazer uma poupança mensal? Anotar, controlar e reduzir os gastos? Evitar novas dívidas? Comprar bens? Quais? Reformar a casa? Sucesso financeiro?

2) Metas Profissionais

A) Realizar certo objetivo naquela área específica. Exemplos de ações: abandonar alguma outra meta para concentrar mais energias nesta direção? É necessário investir dinheiro? É possível construir parcerias? Quais?

B) Criar um planejamento estratégico no trabalho. Exemplos de ações: avaliar a caminhada até aqui? Consultar amigos e colegas? Procurar alternativas e possibilidades de mudança na área profissional?

3) Metas Emocionais

A) Mais harmonia naquele determinado relacionamento. Ações: quais gestos de boa vontade (um não basta) podem ser feitos? Que nova atitude pode ser adotada? Que ações concretas para romper os hábitos e padrões negativos de ação e reação mútuas? Que novas maneiras de enfrentar as situações negativas que vêm se repetindo?

B) Mais paz interior. Ações: separar quanto tempo, em que horário, para estar regularmente sozinho consigo mesmo? Para planejar suas ações? Para escutar música? Para ler bons livros e textos sobre teosofia, filosofia, psicologia? Examine se você tem auto-estima suficiente para fazer isto.

4) Metas Intelectuais

A) Aprender um idioma. Ações: Matricular-se em um curso? Comprar um livro?

B) Fazer um curso, despertar uma nova habilidade qualquer. Ações: identificar e abandonar rotinas de desperdício de tempo que tornam aparentemente difícil realizar este potencial. 

C) Ler aquele livro que está na estante. Ações: separar uma hora para um exame sério do livro, e determinar, então, se sua leitura é prioritária. Caso ela seja, separar alguns minutos por dia para isto.

5) Metas Espirituais

A) Diminuir os compromissos, para ter mais tempo e poder vivenciar melhor a sabedoria eterna. Possíveis ações: limitar os objetivos econômicos e externos e optar por uma vida simples, com menos complicações.

B) Meditar e refletir diariamente sobre a vida. Com horário e método definidos, embora flexíveis. Ações: dormir mais cedo e assim levantar mais cedo, para meditar sem pressa antes de começar as atividades do dia. 

C) Estudar lenta e calmamente, todos os dias, escrituras sagradas de diversas religiões e  filosofias. 

Embora cada um deva fazer seu próprio esquema de metas, não há nada de errado em pedir a opinião de pessoas próximas, que querem sinceramente o nosso bem, ou que têm mais experiência e sabedoria. Ouvir opiniões não diminui nossa liberdade, mas amplia o horizonte e revela novos dados sobre como os outros nos vêem e sobre nossas possibilidades. É algo que estimula um diálogo profundo e verdadeiro com os amigos. 

Todo ser humano cria sua própria felicidade e seu sofrimento, e faz isto de dois modos: consciente ou inconsciente. O processo é consciente quando você assume o comando da sua vida, mas é inconsciente quando se deixa  arrastar pelas pressões externas e tendências de curto prazo.

O fato de você definir seus objetivos e escolher como prefere chegar até eles o colocará gradualmente no comando da sua vida e o tornará mais feliz. Você deixará de reclamar das situações, dos outros ou de si mesmo, e perderá a falsa sensação de que o tempo é “demasiado curto”. Na verdade, o tempo só parece curto quando não está sendo bem usado.

Há três trunfos e três instrumentos básicos para aquele que ousa enfrentar o teste do tempo. Eles são: A) um objetivo de vida nobre; B) uma mente aberta, e  C) um coração perseverante.  

Um quarto instrumento, igualmente significativo, é planejar o uso das suas forças. E este instrumento traz uma chave-mestra para o êxito e a felicidade.

De fato, uma das melhores maneiras de conhecer o futuro consiste não em “saber”, mas em definir como ele será, naquilo que depende de você. E isso se faz com ajuda do bom planejamento e da ação correta. O que se planta, se colhe, mais cedo ou mais tarde. 

O tempo é surpreendente e misterioso na sua passagem. Às vezes ele parece ser conservador, e outras vezes atua como um revolucionário. Ele pode evitar mudanças durante um longo período, apenas para fazê-las de modo mais profundo, depois.

Isto também ocorre na busca espiritual. Ela costuma ser lenta e árida durante muito tempo, até que chegue a hora de você colher - talvez, em um único instante -  os bons frutos de todos os esforços anteriores.   

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Sobre a missão do movimento teosófico, que envolve o despertar da humanidade para a vivência da fraternidade universal, veja o livro “The Fire and Light of Theosophical Literature”, de Carlos Cardoso Aveline.



A obra tem 255 páginas e foi publicada em outubro de  2013 por “The Aquarian Theosophist”. O volume pode ser comprado através de Amazon Books.

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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia original, escreva a lutbr@terra.com.br e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.

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