27 de Maio de 2012

A IOGA DO DEVER


A Ação Correta Como Caminho Para A Felicidade  


Carlos Cardoso Aveline



A palavra “responsabilidade”  simboliza uma capacidade de responder às situações que a vida coloca diante de nós, e também de arcar  com as consequências de ações prévias, agindo à altura de cada novo desafio.  Na tentativa de agir corretamente, porém,  nem tudo é simples ou previsível,  e uma ou duas perguntas parecem ser inevitáveis: 

“A que situações devemos responder?  Quais são os desafios que devem ser atendidos prioritariamente, no caminho do autoconhecimento?”

É provável que, antes mesmo de reagir a qualquer desafio externo, o primeiro dever de alguém seja ouvir a sua própria consciência e permanecer leal a ela. E isto parece ser verdade por um motivo muito simples.  Se alguém não for leal consigo mesmo, deixará, mais cedo ou mais tarde, de ser leal com os outros.  Em compensação,  quando o indivíduo permanece leal para com a sua própria consciência, ele tende naturalmente a ser honesto com os outros,  nas diferentes situações da vida.  

É relativamente fácil perceber que, para ser íntegro como indivíduo, um cidadão deve tentar ser honesto com todos os seres, e deve ser ainda mais honesto consigo mesmo e em relação às suas próprias decisões.  Porém, nem todos têm a auto-estima necessária para ser honestos em seu mundo interior. Muitos enganam a si mesmos,  e convencem a si próprios de coisas que são falsas.  A relação entre intenção e ação, por exemplo,  é complexa e desafiadora,  e constitui um teste constante para a coerência interior de qualquer um.  

Eliphas Levi,  um precursor de Helena Blavatsky,  escreveu:

“Toda intenção que não se manifesta por atos é uma intenção vã, e a palavra que a exprime é uma palavra ociosa. É a ação que prova a vida, e é também a ação que prova e demonstra a vontade. Por isso, está escrito nos livros simbólicos e sagrados que os homens serão julgados, não conforme seus pensamentos e suas idéias, mas segundo suas obras. Para ser, é preciso  fazer.” [1]

Se temos uma intenção nobre, pois, é nosso dever transformá-la em atos. Isso não deve ser feito a partir de uma perspectiva de curto prazo, nem esperando resultados fáceis, mas como um compromisso consciente cujo prazo de duração é ilimitado. Deve-se evitar expectativas pessoais, e Robert Crosbie, o principal fundador da Loja Unida de Teosofistas, escreveu certa vez a um amigo:

“Lamento que a viagem tenha sido difícil e sem resultados imediatos, mas nós sabemos que não há derrota na ausência de resultados, se fazemos o melhor que podemos.  É possível confiar nisso e avançar para cumprir o próximo dever, livres de qualquer ansiedade.”

Sábias palavras,  e Crosbie fez da sua vida uma lição prática de desapego. Na mesma carta,  ele afirma que o grande talismã teosófico é o cumprimento do dever:

“Nós não somos nosso corpo, nosso cérebro, nossas circunstâncias, obrigações nem qualquer coisa mutável; tudo isso constitui apenas nossos instrumentos e oportunidades; todos estes fatores mudam e deixam de existir com o tempo. Em todos eles, ‘o dever é o supremo talismã’.” [2]

Se reconhecemos a importância do  cumprimento do dever, surge em seguida uma questão prática. É preciso saber quem deve decidir qual é nosso dever.  A resposta correta  é que,  na decisão, deve haver uma autonomia com bom senso. Não há liberdade sem responsabilidade, e a recíproca é verdadeira. Independência e solidariedade devem estar juntas, cabendo a cada indivíduo fazer a combinação adequada entre estes dois fatores da vida.     

No momento atual da experiência humana, os cidadãos já não cumprem os seus deveres éticos apenas por que alguém faça algum apelo emocional aos seus bons sentimentos.  Tais apelos têm agora cada vez menos força, em parte porque a adoração do dinheiro e a ostentação de poder e de status social passam a ser a regra geral,  e se convertem em um dogma quase obrigatório da sociedade consumista.   

A sociedade materialista  tem sua própria teologia, e ela é totalitária.  Na utopia neoliberal,  o deus onipresente,  que serve como medida de todas as coisas, é a moeda emitida pelos bancos centrais.  Os devotos pagadores de impostos,   tementes ao deus todo-poderoso que mora no Banco Central, fazem as suas adorações rituais através dos gastos e dos investimentos financeiros.  Os shopping-centers são templos menores para o deus monetário.  Os bancos constituem os grandes locais de penitência. Os milagres divinos são inúmeros, e são realizados pela moderna tecnologia. Como os outros deuses monoteístas, o dinheiro aprova e provoca guerras, e muita violência é feita em seu santo nome, tanto em pequena como em grande escala.

Sempre que podem, os devotos  procuram o êxtase de um contato místico e direto com o deus ilimitado da riqueza materialista. Eles fazem isto  através dos  “sonhos de consumo” e de outros desejos de falsa  transcendência,  todos cuidadosamente  fabricados e popularizados pelos altos sacerdotes da propaganda comercial. Os pobres e marginalizados são automaticamente considerados seres inferiores e destituídos de alma, porque o dinheiro é a alma da vida e do negócio,  na religião da materialidade.  Destituídos de alma monetária, os pobres passam a ser socialmente invisíveis, e ninguém percebe sua presença.

O estudante da teosofia autêntica avança na contramão desta teologia materialista. Ele observa com calma e lucidez a  falta de ética e de bom senso a seu redor.  Ele ouve a sua própria consciência, e assim derruba os falsos consensos.  Ele percebe que, como indivíduo,  só tem a  ganhar, e não a perder, por cumprir com independência o seu dever ético diante da vida.  Sabe que o caminho da felicidade  está em agir correta e conscientemente,  e não por atos reflexos ou por obediência hipnótica.  

Abordando o tema da ação correta, Robert Crosbie escreveu:

“Aqueles que são sábios têm um ponto de vista amplo e avaliam, antes de agir,  todos os resultados possíveis. Para eles, tomar uma decisão é, em grande parte,  uma questão de cumprimento do dever, independentemente do que os outros pensem, exceto quando a opinião dos outros possa interferir com o cumprimento de deveres mais amplos, e influenciar outras ocasiões,  futuras. Na verdade, há tantas coisas que devem ser levadas em conta e que só a pessoa que está envolvida pode ver e colocar em prática, que ninguém mais, exceto ela própria,  é capaz de dizer o que deve ser feito. Podem ser colocados  os princípios gerais:  e cada indivíduo deve ficar livre para aplicá-los como achar melhor. Não há progresso de outro modo.  Em última análise,  para que não enganemos a nós mesmos, temos que perceber se somos governados  mais por impulsos do que pelo sentimento de dever.  Seja o que for, portanto, que seja decidido com toda honestidade por nós mesmos, esse é o nosso dever, e mais ninguém poderá ser nosso juiz.” [3]

Cumprir nossas obrigações é uma fonte de bênçãos, e o “Dnyaneshwary”,  um famoso comentário ao “Bhagavad Gita” hindu,   deixa isso claro.  Escrito no final do século 13 e elogiado por H.P. Blavatsky no prefácio de “A Voz do Silêncio”, o  “Dnyaneshwary”  defende a ioga do cumprimento das nossas obrigações.  O abandono do dever, para  esta obra, é uma desgraça:

“Assim como a vida abandona um corpo morto, assim como a prosperidade não é encontrada na casa de um pobre e como a luz se extingue quando o lampião é apagado, assim também, quando alguém falha no cumprimento das  suas obrigações, fica separado da fonte de toda felicidade.” [4]

É  claro que o dever mais alto e mais elementar  que podemos cumprir é o dever de agir a cada momento de modo responsável. Nisso, porém, discernimento e bom senso são essenciais, e o  “Dnyaneshwary” alerta:   

“A ilusão é a irmã mais nova da esperança, e  pode causar destruição tão rapidamente quanto as crianças devoram um pacote de doces. A ilusão fortalece o desejo. O desejo e a raiva têm como origem o egoísmo. O desejo e a raiva criam a hipocrisia e suprimem a verdade.  Eles destroem a paz mental e materializam a ilusão (Maya) que vence até os sábios.” [5] 

E acrescenta:

“Aqueles que deixam de lado o seu dever (Dharma)  e são levados pelo orgulho de haver chegado a alguma coisa,  ou se perdem pelos objetos de satisfação pessoal, cairão como vítimas de um agudo sofrimento. Eles perderão não só a prosperidade, mas terão dificuldade até mesmo para aproveitar o que possuem.” [6]

Robert Crosbie aborda o mesmo desafio:

“A coisa mais importante contra a qual a maior parte dos estudantes devem ter cuidado é a auto-ilusão. A versatilidade de Manas [a Mente] inferior neste sentido está além de toda descrição. Assim, temos de observar para ver se as nossas intenções ostensivas não são uma vestimenta para outras intenções, mais profundas.” [7]

O “Dnyaneshwary”  propõe a alternativa para este problema:  

“Agarre-se ao seu dever e nunca deixe que os seus sentidos o desviem. As criaturas aquáticas morrem quando deixam a água; um homem morre [interiormente] quando deixa de lado o seu dever. Um homem que emprega todos os seus recursos disponíveis para desenvolver ações adequadas sem qualquer desejo de recompensa (.....) está livre de todo mal. Seus pecados desaparecem do mesmo modo como a doença com o uso de néctar, ou a ilusão,  quando são escutados os ensinamentos dos sábios.” [8]

Assim, a ioga do cumprimento do dever é a ioga da ação responsável, e constitui um dos caminhos mais diretos para a verdadeira felicidade e para a satisfação duradoura.

Não é difícil ver que, no século 21,   este dever passa a ter uma forte dimensão planetária.  Já são cada vez mais numerosos aqueles que  percebem o brilho da vida universal  fluindo além do horizonte –aparentemente estreito – das suas vidas pessoais.  

Para tais indivíduos,  o caminho natural a seguir é o da simplicidade voluntária em relação às coisas do mundo físico.  Há, porém,  neste caminho,  uma  ambição ilimitada e impessoal  de aprender, e de ser útil,  no processo que leva a uma nova consciência de ética planetária  e de fraternidade universal


NOTAS:

[1] “Dogma e Ritual da Alta Magia”, Eliphas Levi, Ed. Pensamento, SP, 466 pp., p. 239.

[2]  “The Friendly Philosopher”, Robert Crosbie, Theosophy Company, Los Angeles, 1945, 416 pp. O primeiro trecho citado está na página 99. O segundo, na  página 100.

[3] “The Friendly Philosopher”,  obra citada, p. 40.

[4] “Gita the Mother”, Dnyaneshwar Maharaj and Manu Subedar, Kalyany Publishers, New Delhi, India, 1972, reprinted, 2000,  318 pp., ver p. 74.

[5] “Gita the Mother”, p. 78.

[6] “Gita the Mother”, p. 74.

[7] “The Friendly Philosopher”,  obra citada, p. 124.

[8] “Gita the Mother”, p. 74.
  

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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia original, escreva a lutbr@terra.com.br e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.

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26 de Maio de 2012

A ARTE DE ESTUDAR TEOSOFIA


Todo Ensino e Aprendizado Verdadeiros
Têm Como Base a Autonomia do Aprendiz 

Carlos Cardoso Aveline



“Ensinar não é transferir conhecimento,
mas criar as possibilidades para a sua
própria produção ou a sua construção.”

Paulo Freire


 O educador Paulo Freire
(1921-1997) criou uma pedagogia
compatível com a filosofia esotérica
  


Com frequência, estudantes escrevem aos editores do site www.FilosofiaEsoterica.com para fazer um par de perguntas cuja importância é fundamental.  

Eles querem saber qual é o melhor método para estudar teosofia. Desejam conhecer a sequência mais adequada de textos, em suas leituras de filosofia esotérica.

Nem todos ficam entusiasmados com a resposta: no aprendizado, a independência é tão importante quanto a ajuda mútua. A sabedoria só pode ser alcançada por decisão própria. O poeta espanhol Antonio Machado explicou em um poema:

“Caminante no hay camino, se hace camino al andar.” [1]

De fato, não há um programa de estudos eficiente para todos. O caminho e a aprendizagem corretos são feitos “ao andar”, e acontecem a cada passo. Internamente, o caminho da sabedoria universal é um só. Mas, no mundo externo, cada estudante deve construir com independência sua própria trajetória para chegar ao conhecimento.  Em “A Voz do Silêncio”, de Helena Blavatsky, encontramos esta advertência:

“Prepára-te, pois terás de viajar sozinho. O Instrutor só pode apontar o caminho. O Caminho é um para todos, os meios para chegar à meta devem variar de acordo com os peregrinos.” [2]

Assim, não é possível dizer às pessoas exatamente o que elas devem ler, ou como devem estudar.  A tarefa pedagógica da teosofia original consiste em dar elementos para que cada estudante construa o seu próprio modo e método de estudo.   

Enquanto as mais diversas seitas e igrejas estimulam a crença cega, o caminho da filosofia aponta para a direção correta. Os grandes sábios de todos os povos ensinaram, e ensinam,  que é necessário compreender a vida por mérito próprio. A busca da verdade deve estruturar-se de dentro para fora na mente e no coração de cada estudante. O pensador brasileiro Paulo Freire expressou o método filosófico quando escreveu:

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” [3]

E Freire acrescentou:

“O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros.” [4]

A ajuda mútua é fundamental, mas, ao mesmo tempo, cada um deve saber pensar por si. Por isso um dos lemas do website www.FilosofiaEsoterica.com  é “independência solidária”.  No mundo teosófico não há lugar para clero, sacerdotes, rituais, gurus e mestres que pensam e decidem por seus discípulos transformados em cordeiros.  

A teosofia mostra a falsidade da figura do “intermediário”. O impulso em busca do conhecimento filosófico deve ser individual, porque a responsabilidade cármica diante da vida pertence a cada um e não pode ser transferida para alguma organização ou líder.  Embora a motivação teosófica seja altruísta e solidária, a tomada de decisão e a responsabilidade devem ser predominantemente individuais.  

O estudo da filosofia teosófica provoca uma expansão de consciência que não pode ser alcançada através da crença em salvadores externos. O ponto de vista correto para compreender o ensinamento surge gradualmente. A intenção eficiente emerge ao lado do discernimento.  A habilidade de diferenciar o verdadeiro do falso resulta da prática de “tentar repetidamente o melhor, aprendendo com a observação dos resultados”.

Ao entrar em contato com  www.FilosofiaEsoterica.com , o estudante deve ler livremente o que mais chama a atenção. É correto observar quais são os textos e autores que despertam em sua consciência um sentimento de proximidade interior. As decisões sobre o rumo do estudo devem ser guiadas pelo critério da afinidade.  

Para que a informação se transforme em conhecimento, ela deve ser testada e confirmada  vivencialmente.  A preguiça mental é um dos obstáculos a serem vencidos, mas há também a  preguiça emocional. É preciso estabelecer uma relação transformadora  entre a leitura e a vida  diária do estudante, e isso ocorre pouco a pouco. É deste modo que o indivíduo vê abrir-se, diante de si, o caminho do autoconhecimento, da autodisciplina e da auto-libertação.

Ao estudar teosofia, devo perguntar-me de que modo ela muda a minha vida para melhor. A resposta nem sempre será óbvia, porque o progresso é homeopático e, no começo, quase imperceptível.

A teosofia ensina a viver com sabedoria, mas o despertar acontece pouco a pouco. Progressos espetaculares são enganosos. É útil comprar um caderno para fazer anotações e registrar a data em que cada reflexão é feita. Com o tempo, será possível observar um aprendizado real, que na maior parte das vezes não tem nada de espetacular, mas cura e liberta.  Vale a pena examinar regularmente quais princípios e preceitos já são sabidos e praticados;  e quais, entre eles, são já compreendidos,  mas ainda falta vivenciar.    

É indispensável pensar no significado da expressão “colocar algo em prática”.  Nem tudo que é real ocorre no plano físico. O calmo estudo das leis universais é algo muito prático, embora não pareça. A reflexão filosófica deve ser realizada diariamente, porque torna possível a abertura de circuitos mais amplos de percepção e ação cerebral, que capacitam o indivíduo para ouvir e compreender (sem necessidade de palavras) a sua própria alma imortal.  

Cabe a cada estudante de teosofia evitar as receitas prontas.  Quais são os livros e artigos de  www.FilosofiaEsoterica.com  que despertam o melhor e o mais elevado dentro de si?  Pode ser o “Dhammapada” budista. Ou talvez os Aforismos de Ioga de Patañjali, ou os textos curtos de H. P. Blavatsky,  Robert Crosbie e William Judge.  Talvez a consciência seja mais fortemente ampliada pela leitura dos artigos sobre a mudança planetária; ou sobre a história do movimento teosófico.   Estas e outras áreas temáticas são objetos de estudo diário no e-grupo SerAtento.  Todas elas são necessárias: mas o estudante deve perceber qual é, para si mesmo, a sequência natural de prioridades.  Deste modo ele cria o seu jeito próprio de buscar a verdade através da teosofia clássica.

A filosofia esotérica original apenas indica o caminho em termos gerais. Ela dá a chave-mestra para abrir a porta que leva à sabedoria. Ela permite chegar a um ponto de vista a partir do qual é possível compreender as filosofias e tradições culturais de todos os povos e de todas as épocas. Neste processo, é válido o método Paulo Freire da autonomia do aprendiz.

Cada um deve ser, basicamente, seu próprio mestre e seu aluno. Aprender e ensinar são dois processos inseparáveis, e eles acontecem graças à solidariedade natural que existe entre todos os seres.

Ninguém sabe tanto que já não precise aprender algumas lições fundamentais sobre a arte de viver. Ninguém é tão ignorante que não tenha algo de valioso para ensinar aos outros.  Mas é recomendável examinar a seguinte pergunta:  

“O que é mais importante para mim: aquilo que penso que já sei, ou aquilo que ainda não sei, mas posso aprender?”  

A teosofia flui livremente para os que aprendem por mérito próprio, compartilhando com os outros as lições da caminhada.  

NOTAS:

[1] “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao andar.”

[2] Ver o segundo parágrafo do Fragmento III  (Parte III)  de “A Voz do Silêncio”.  A obra, traduzida e comentada por  H. P. Blavatsky,  está disponível em PDF em seção temática própria no website www.FilosofiaEsoterica.com.

[3] “Pedagogia da Autonomia”, Paulo Freire, Ed. Paz e Terra, nona edição, 1998, edição de bolso, 165 pp., ver p. 52.

[4] “Pedagogia da Autonomia”, Paulo Freire, p. 66.

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Para ter acesso a um estudo diário da filosofia esotérica original, escreva a lutbr@terra.com.br  e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.

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REFLEXÕES SOBRE A IMPERMANÊNCIA



Autor Clássico Examina a Eterna Renovação da Vida


Matias Aires



Capa da edição de 1941 da obra de Matias Aires, que
consiste de exemplares numerados. A imagem é reproduzida
do exemplar número 1.172, que pertence à  Biblioteca da LUT
no Brasil. A primeira edição do livro apareceu no ano de 1752.



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O texto a seguir foi publicado
inicialmente na edição de julho de
2011 do boletim eletrônico “O Teosofista”.

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Nota Editorial:

Matias Aires (1705-1763) foi um dos grandes humanistas luso-brasileiros do século 18. Também é considerado o primeiro filósofo brasileiro. Nascido em São Paulo, ele viveu no Brasil até os onze anos de idade, quando foi para Portugal. Em Paris, estudou com um orientalista. Paracelso estava entre os autores que despertaram seu interesse. Estudou a filosofia estóica, e foi amigo de Antônio José da Silva, “o Judeu”, assassinado pela Inquisição católica. Foi influenciado pelos jansenistas e por La Rochefoucauld. 

Seu livro “Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens[1], um comentário a Eclesiastes, 1, foi publicado em 1752 e  tem correlações com diferentes tradições de pensamento. Esta obra imortal pode ser vista como um estudo sobre o Vazio budista e o conceito oriental de Maya, Ilusão.  É correto interpretá-la como um comentário ao famoso fragmento de Heráclito sobre a Impermanência: “ninguém pode banhar-se duas vezes no mesmo rio” -  porque tanto o rio como aquele que se banha nele mudam a  todo momento.  Por outro lado, a obra de Matias Aires é sem dúvida um exame rigoroso da primeira das Quatro Nobres Verdades do senhor Buddha, segundo a qual “Dukkha” - dor, ou aflição -, é inerente à vida. Entre os pensadores do século 21, o ponto de vista tradicional adotado por Matias Aires ressurge no conceito de “Vida Líquida”, de Zygmunt Bauman. [2]

Ao fazer a presente transcrição, mudamos em algumas frases a pontuação e substituímos algumas palavras caídas em desuso por sinônimos que são usados hoje. Ao final de cada parágrafo, assinalamos o número da página.  

(Carlos Cardoso Aveline) 

Reflexões Sobre a Impermanência

Matias Aires

*Em nada podemos estar firmes, pois vivemos no meio de mil revoluções diversas: as idades, e a fortuna continuamente combatem a nossa constância. Tudo consiste em representação que começa, não para existir, mas para acabar; menos para ser, que para ter sido.  Vimos ao mundo a mostrar-nos, a fazer parte da diversidade dele; parece que as coisas nos vão fugindo, até que nós vimos a desaparecer também. Somos formados de inclinações opostas entre si, e temos em nós uma propensão oculta que, sob a aparência de buscar os objetos, só procura neles a mudança. A inconstância nos serve de alívio, e nos desoprime, porque a firmeza é como um peso que não podemos suportar sempre, por mais que seja leve: e com efeito como podem as nossas ideias serem fixas, e sempre as mesmas, se nós sempre vamos sendo outros? Tudo nos é dado por um certo tempo; em breves dias, e em breves horas se desvanece a razão da novidade,  que nos fazia apetecer; fica invisível aquele agrado, que nos tinha induzido para desejar.  (p.101)

*Não temos liberdade para deixar de amar a formosura do mundo, e das suas partes; não temos livre o arbítrio para resistir ao encanto que a natureza esconde nas suas produções. A variedade das cores, o movimento dos animais, o canto das aves, o elevado dos montes, o ameno dos vales, a verdura dos campos, a suavidade das flores, e o cristalino das águas, tudo atrai a nossa admiração, e tudo nos infunde amor.   A fábrica do universo é como um retrato da Onipotência; a grandeza do efeito indica a majestade da causa; por isso o amor, ou o louvor da obra, cede em honra do artífice. (pp. 122-123)

*A primeira coisa que a natureza nos ensina é amar; e assim o primeiro afeto que sabemos é aquele mesmo por onde a nossa existência começa a ter princípio.  Novos no mundo, porém não no amor, esse se manifesta em nós logo no berço; ali mostramos para alguns objetos desagrado, e inclinação para outros; a uns buscamos com riso, e de outros fugimos com medo; uns nos servem de espanto, outros de divertimento; choramos por alcançar uns, e também choramos por evitar outros; como se o ódio e o amor naquela idade não tivessem outro modo de explicar-se, nem soubessem mais idioma que o das lágrimas. Também não é novo o chorar-se de gosto, do mesmo modo como se chora de pena. (p. 124)

*Vemos confusamente as aparências de que o mundo se compõe: os nossos discursos raramente se encontram com a verdade, com a dúvida sempre; de modo que a ciência humana toda consiste em dúvidas. Ainda dos primeiros princípios visíveis, e materiais, só conhecemos a existência, a natureza não; porque a contextura do universo é em si [tão] unida, e regular em forma, que na ordem das suas partes não se podem conhecer umas, sem se conhecerem todas; por isso todas se ignoram, porque nenhuma se conhece. Só a vaidade costuma decidir sem embaraço, porque não chega a imaginar-se capaz de erro.  Os homens mais obstinados são os mais vaidosos, e sempre a porfia vem na proporção da vaidade. (pp. 56-59)

*A nossa tristeza nos faz parecer tudo o que vemos triste; a nossa alegria tudo nos mostra alegre; e o nosso contentamento tudo nos mostra com agrado.  Os objetos influem menos em nós, do que nós influímos em nós mesmos.  Vemos como de fora as aparências de que o mundo se compõe, por isso não conhecemos o seu verdadeiro ser, nem gozamos delas no estado em que as achamos, mas sim no estado em que elas nos acham. A delícia dos olhos, e do gosto, depende mais da nossa disposição que da sua eficácia; o mesmo que ontem nos atraiu, hoje nos aborrece; ontem porque estava sem perturbação o nosso ânimo, hoje porque está com desassossego;  e tudo porque não somos, hoje,o que ontem fomos.  O mesmo que hoje nos agrada, amanhã nos desgosta, e os objetos, por serem os mesmos, não causam sempre em nós as mesmas impressões. (pp. 112-115)

*Não somos firmes no amor, porque em nada podemos ser constantes. Continuamente nos vai mudando o tempo. Uma hora a mais é mais uma mudança em nós. A cada passo que damos no decurso da vida, vamos nascendo de novo, porque a cada passo vamos deixando o que fomos, e começamos a ser outros. Cada dia nascemos, porque cada dia mudamos, e quanto mais nascemos deste modo, tanto mais nos fica perto o fim que nos espera. A inconstância, que é um ato da alma, ou da vontade, não se faz sem movimento; a natureza só se conserva e dura porque muda e se move. O mundo teve o seu princípio no primeiro impulso que lhe deu o supremo Artífice; a própria luz, que é uma bela imagem da Onipotência, toda se compõe de uma matéria trêmula, inconstante, e vária. Tudo vive enfim do movimento. A falta de movimento é o mesmo que falta de vida, e de existência; assim a firmeza é como um atributo essencial da morte.  (p.126)

*É próprio da vaidade o [ato de] dar valor a muitas coisas que não o têm, e quase tudo o que a vaidade estima é vão. Que coisa pode haver que tenha em si menos substância do que certas felicidades que,  ponderada a melhor parte delas, consiste, ou em palavras, ou em gestos? A denominação de grande, de maior, e de excelente, e as submissões, que indicam o respeito, fazem uma parte essencial das glórias deste mundo. A primeira não consiste mais do que em palavras; a segunda toda se compõe de gestos.  Que importa à felicidade do homem que os outros, quando lhe falam, articulem mais um som que outro, e que nas reverências que a lisonja introduziu se dobrem mais, ou menos?  A vaidade nos faz crer [que somos] felizes à proporção que ouvimos esta, ou aquela voz, e que vemos este, ou aquele culto; a vida civil se reduz a um cerimonial composto de genuflexões, e de palavras. (pp. 63-64)

*No desprezo da vida, é onde a vaidade se mostra altiva e arrogante. Os clarins que incitam ao combate não são vozes que a natureza entenda, a vaidade sim; aquela sempre vai com um passo vacilante e trêmulo; esta conduz o peito ardente e furioso. Por mais que se encontrem precipícios, e que os olhos só vejam fogo e sangue, nem por isso desmaia o coração que a vaidade anima. Aquele a quem o escudo da fortuna cobre, e quem marcha resoluto, já pensa que está vendo os faustos do triunfo. Aquele que prostrado já fica agonizando, parece-lhe que expira nos braços da vitória, ou nos da fama. Que felicidade de morrer! A vaidade tira da morte o semblante pálido e horroroso, e só a deixa ornada de palmas e troféus. (pp. 80-81)

*Os retiros e as solidões nem sempre são efeitos do desengano. Na maior parte das vezes são delírios de um sentimento vão, ou furores em que brota a vaidade. Então nos move o fim oculto de querermos que a demonstração da dor nos faça recomendáveis. Fazemos vaidade de tudo quanto é grande: o próprio sofrimento, quando é excessivo, nos lisonjeia; porque nos promete a admiração do mundo. (p. 45)

*De todas as paixões, a que mais se esconde é a vaidade; e se esconde de tal forma que a si mesma se oculta e ignora. Ainda as ações mais piedosas nascem muitas vezes de uma vaidade mística, que quem a tem não a conhece, nem distingue: a satisfação própria que a alma recebe é como um espelho em que nos vemos superiores aos outros homens pelo bem que realizamos, e nisso consiste a vaidade de fazer o bem. (p. 34)

*Travam os homens entre si uma contínua guerra de vaidade; e conhecendo todos a vaidade alheia, nenhum conhece a sua.  A vaidade é um instrumento que tira dos nossos olhos os defeitos próprios, e faz com que apenas os vejamos em uma distância imensa, ao mesmo tempo que expõe à nossa vista os defeitos dos outros ainda mais perto, e maiores do que são. A nossa vaidade é o que nos faz ser insuportável a vaidade dos outros;  por isso a quem não tivesse vaidade não lhe importaria nunca que os outros a tivessem. (p. 36)

*A vaidade satisfeita, ou ofendida, é a que nos faz buscar a solidão e o retiro, como temerosos de perder a tristeza em que achamos uma felicidade de gênero diverso. Há muitos males em que a vaidade parece [que] se deleita; e ainda sem vaidade a alegria muitas vezes nos soçobra. Não só o excesso, mas ainda a mediocridade dela; porque nunca a gozamos sem alguma perturbação. Um receio insensível de a perdermos basta para oprimir-nos, e por mais que o contentamento nos extasie, nunca nos deixa em um estado de não sentir. A vaidade satisfeita  não nos entrega à alegria sem primeiro a temperar, com  a mesma equidade com que nunca nos entrega de todo à tristeza. A união do gosto com o pesar não é incompatível, por mais infinita que nos pareça a distância de um a outro extremo. Também a vaidade e a humildade muitas vezes se encontram, se unem e se conservam. (pp. 106-107)

*Quantas dores há, que se formam do gosto, e quantos gostos, que resultam da dor! Essa infinita variedade dos objetos tem a mesma causa por origem.  As diferentes produções que vemos, todas se compõem dos mesmos princípios, e se formam com os mesmos instrumentos. Algumas coisas degeneram à proporção que se afastam do seu primeiro ser; outras se dignificam, e quase todas vão mudando de forma à medida que vão ficando distantes de si mesmas. As águas de uma fonte a cada passo mudam; porque apenas deixam a fonte ou rocha de onde nascem, quando em uma parte ficam sendo limo, em outra flor, e em outra diamante. Que coisa é a natureza, se não uma perpétua e singular metamorfose? (pp. 37-38)

NOTAS:

[1] “Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens”, Matias Aires, Livraria Martins, São Paulo, 1942, 234 pp., introdução de Alceu Amoroso Lima. Uma segunda edição da obra foi feita pela mesma editora, em 1952. Sobre a vida de Matias Aires, veja-se a obra “Dois Paulistas Insignes”, de Ernesto Ennes, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1944, 488 pp.  O nome completo desse pensador é Matias Aires Ramos da Silva de Eça, e ele nasceu a 27 de março de 1705. (CCA)

[2] Veja-se “Vida Líquida”, de Zygmunt Bauman, Ed. Zahar, RJ, 210 pp., copyright 2005,  ou “Tempos Líquidos”, do mesmo autor,  Ed. Zahar, RJ, 2007, 120 pp.  Uma limitação de Bauman - que não tira o valor de suas obras - consiste em supor que os “tempos líquidos” são recentes. No tempo recente, a liquidez apenas se acentua. A vida sempre foi fluída. (CCA)

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25 de Maio de 2012

UM ELOGIO AOS IDIOTAS

Fyodor Dostoyevsky




Carlos Cardoso Aveline


Na vida acelerada do mundo de hoje, todos desejam ser espertos, vivos e astuciosos.

Ninguém quer ficar para trás – quando você está indo, os outros já estão voltando. Ninguém mais diz frases com segundas intenções: dizem coisas com terceiras, quartas e quintas intenções. Frases que, com sorte, um leigo no assunto precisa de várias horas para decifrar e talvez dois ou três dias para imaginar uma resposta à altura. 

Em compensação, alguém que diz diretamente aquilo que pensa acaba provocando escândalo e mal-estar. É imediatamente catalogado como perigoso e tratado como idiota. A sinceridade parece contrariar as normas da convivência e da boa educação modernas. Assim, as pessoas bem educadas são amáveis, mas nem sempre se deve acreditar no que dizem. 

A idiotice é um tema vasto, com muitos aspectos diferentes, e está inscrita com destaque na cultura brasileira.  Um exemplo  disso são as tradicionais piadas de português.  Elas são uma projeção da brasilidade. No fundo, os portugueses idiotas das piadas somos nós. Os episódios que envolvem Manuel, Joaquim e Maria são todos parte da alma do nosso país –  tanto é assim que só são conhecidos no Brasil. Em Portugal, ao contrário, circulam piadas de brasileiros.  

É certo que, quando examinamos a questão da inteligência e da idiotice, surgem algumas perguntas indiscretas. O que é inteligência? O que é burrice?  Quantos tipos há de idiotas?

Podemos dizer que inteligência é a capacidade de perceber o real.  Como há realidades muito diferentes no mundo, não existe um tipo único de inteligência. Cada situação da vida requer um tipo específico de percepção, e por isso as inteligências são múltiplas.   A idiotice e a burrice podem ser definidas como a incapacidade de perceber o real, e são tão variadas quanto as inteligências. Há, portanto, muitos tipos de idiotas. Alguns deles, inclusive, são espertalhões. Sim, há muitos idiotas que passam por inteligentes, e também grande número de  pessoas inteligentes que passam por idiotas. 

Além disso, quem é inteligente em uma área da vida pode ser burro em outras. Você é esperto em política e burro na hora de jogar futebol. Sua namorada pode ser menos intelectual que você, na hora de discutir filosofia, mas há aspectos da vida em que ela coloca você no chinelo. Há coisas que seus filhos  fazem bem melhor que você, como, talvez, compreender as sutilezas de um videogame ou computador. Felizmente, ter sabedoria não é saber tudo. Ter sabedoria é saber o mais importante – e administrar bem os seus talentos.

Dos inúmeros tipos de idiotas, um dos mais interessantes foi examinado por François Rabelais, o escritor francês do século 16. Ele abordou a imbecilidade doutoral específica dos “eruditos” que usam palavras complicadas para não dizer coisa alguma. Um deles – conta Rabelais –  fez certo dia uma longa pesquisa para saber “se uma entidade imaginária, zumbindo no vácuo, é capaz de devorar segundas intenções.”  Outro queria saber  “se uma idéia platônica, dirigindo-se para a direita sob o orifício do Caos, poderia afastar os átomos de Demócrito”. Um terceiro investigava “se a frigidez hibernal dos antípodas, passando numa linha ortogonal através da homogênea solidez do centro, podia, por uma delicada antiperístase, aquecer a convexidade dos nossos calcanhares”. Rabelais qualifica tais idiotas eruditos  como professores cegos de discípulos cegos, “que tateiam em um quarto escuro à procura de um gato preto que não está lá”. [1]  Tais indivíduos eram precursores de Rolando Lero, o grande erudito que iluminou a televisão brasileira nos anos 1990.  Não é de todo impossível  encontrar esse tipo de pesquisador fazendo teses de pós-doutorado em certas universidades.   

Conheço seres humanos que têm tanto medo de parecer burros que aplaudem  – ou pelo menos fingem que compreendem –  esse tipo de raciocínio longo, difícil, sem significado algum. Mas tal constrangimento é desnecessário: deixando de lado o medo de parecer idiotas, perderemos menos tempo fingindo e  seremos mais felizes.

O exemplo de Albert Einstein, um dos maiores gênios da ciência moderna, é ilustrativo. No início da vida, ele recusou-se a falar até os três anos de idade. Seus pais – pessoas sensatas – pensavam que fosse retardado mental. Mais tarde, quando Einstein ingressou na escola, ele foi novamente considerado imbecil. Seu biógrafo é obrigado a admitir:

“Para os colegas de classe, Albert era uma anomalia que não demonstrava interesse nenhum pelos esportes. Para os professores, era um idiota que não conseguia decorar nada e se comportava de modo estranho. Em vez de responder imediatamente a uma pergunta, como os outros alunos, sempre hesitava. E quando respondia, movia os lábios em silêncio, repetindo as palavras.” [2]

Décadas mais tarde, Einstein deu o troco. Ele qualificou o nosso moderno sistema educacional como uma  estrutura que reprime a inteligência e busca fabricar idiotas obedientes: 

“A humilhação e a opressão mental imposta por professores ignorantes e pretensiosos causam danos terríveis na mente jovem; danos que não podem ser reparados e que geralmente exercem influências maléficas na vida futura.”

E ainda:

“A maioria dos professores perde tempo fazendo perguntas para descobrir o que o aluno não sabe, quando a verdadeira arte consiste em descobrir o que o aluno sabe ou é capaz de saber.” [3]

O sábio, o santo e o idiota têm muito em comum, não só entre si, mas também com as árvores e os animais. Todos eles vivem em um estado de comunhão com todas as coisas que é independente do pensamento lógico. Isso contraria a inteligência situada no hemisfério cerebral esquerdo, que rotula e classifica todas as coisas. Essa inteligência gosta de colocar-se como se tivesse o monopólio da consciência. Esse, aliás, é um dos grandes obstáculos para a prática da meditação: a mente pensante não aceita passar o poder à mente que contempla e que compreende a verdade sem necessidade de pensamentos. 

A primeira frase dos famosos “Ioga Sutras de Patañjali”, o tratado milenar sobre Raja Ioga, afirma: “Ioga é a cessação das modificações da mente”.  Para alcançar a hiper-consciência, o estado mental do êxtase divino, é necessário paralisar momentaneamente a mente inferior. O sábio é um ser que renunciou à inteligência convencional e optou por uma percepção que a mente comum não consegue captar. Por isso, mesmo no século 21, se aquele que ingressa no caminho espiritual não tiver certos cuidados, pode ser considerado louco ou idiota pelos parentes e amigos. Mas, do ponto de vista do sábio, a situação se inverte e idiota é aquele que fica preso à lógica do mundo externo. 

O ser humano geralmente vive imerso em ilusões que ele mesmo criou. Para obter a sabedoria, ele deve aprender algumas coisas e desaprender outras. Helena Blavatsky escreveu:

“A primeira condição necessária para obter autoconhecimento é tornar-se profundamente consciente da ignorância; sentir com cada fibra do coração que somos incessantemente iludidos. O segundo requisito é uma convicção ainda mais profunda de que tal conhecimento – um conhecimento intuitivo e seguro – pode ser obtido por esforço próprio. A terceira condição, a mais importante, é uma determinação indômita de obter e enfrentar aquele conhecimento.” [4]


Quase todo o potencial da mente humana ainda está por ser desenvolvido.  A ciência reconhece que usamos uma parcela muito pequena do cérebro.  O problema não é, pois, que sejamos um tanto limitados mentalmente. O lamentável é que, sendo limitados, nos consideramos extremamente espertos. O filósofo Sócrates, escolhido como o homem mais  sábio da Grécia, explicou: 


“Eu e os homens notáveis de Atenas nada sabemos, e a única diferença entre eu e eles é que eu, nada sabendo, sei que nada sei, enquanto que eles, nada sabendo, pensam que sabem muito”.

Seguindo na mesma linha de raciocínio, o pensador espanhol Balthazar Gracián constatou:  

“O maior tolo é aquele que acha que não é, e que só os outros são. Para ser sábio não basta  parecer sábio, nem, muito menos, parecer sábio a si próprio. (....) Embora o mundo esteja cheio de tolos, ninguém se julga um deles, nem receia ser um.” [5]

Quando superamos a necessidade de parecer inteligentes e deixamos de lado o medo de parecer idiotas, libertamos nosso potencial criativo e a nossa capacidade de conhecer novos aspectos da consciência.  Quando temos coragem de colocar toda nossa mente em algo, parecemos tolos e distraídos do ponto de vista daqueles aspectos do mundo que optamos por ignorar completamente. Um exemplo claro disso é dado pela história do grande cientista que caminha absorto pela rua, perto da sua Universidade, quando encontra um colega e param para conversar um minuto.  Ao se despedirem,  o cientista  pergunta a seu colega:

“Diga-me, amigo, em que direção eu estava caminhando?” 

“Você estava indo para lá”, aponta o outro.

“Ah, obrigado”, agradece o sábio distraído.  Isso significa que eu já almocei.”

A relativa idiotice dos sábios tem outro exemplo no caso do famoso escritor inglês G. K. Chesterton.  Ele morava em Londres quando ainda não havia telefones, e vivia em um mundo tão abstrato que, certa vez, ficou aguardando notícias de sua esposa em uma agência de correios após mandar o  seguinte telegrama para ela:

“Querida, estou  no mercado Harborough. Mas onde eu deveria estar, para fazer o quê?” [6]  

No romance “O Príncipe Idiota”, o escritor Fiódor Dostoievsky descreve um Cristo moderno que aparece na Rússia com 26 anos de idade – e se comporta como um idiota desde todos os pontos de vista práticos. Ele não tem a couraça de auto-defesa que caracteriza o tipo moderno de  cidadão “esperto”.  Por isso as pessoas riem da cara dele e ele acha graça junto com os que o desprezam. Chamam-no de burro – e ele concorda, amavelmente, porque só sabe falar a verdade –  e percebe que, realmente,  não tem a astúcia dos seus perseguidores.

Leon Muishkin, o Cristo-príncipe de Dostoievsky, é epiléptico.  O escritor descreve os seus ataques como momentos de iluminação mística: “Não podia duvidar nem admitir sequer a possibilidade de dúvida: naqueles momentos havia, com efeito, beleza e oração, e aqueles instantes eram a maior síntese da vida (...). [E ele] via claramente que a conseqüência evidente desses minutos indescritíveis era a imbecilidade, o obscurecimento das suas faculdades, o idiotismo.” [7]

Dostoievsky está certo em mais de um sentido. Epilepsia à parte, há um fato que poucos estudiosos do caminho do autoconhecimento confessam abertamente: quando se desperta a inteligência espiritual, perde-se, irremediavelmente, a inteligência astuciosa que permite coisas como mentir com habilidade, usar a lisonja na medida certa e falar a verdade só quando ela traz vantagens. 

Desse despertar vem a sensação de nada saber diante do mundo. A expansão mística da consciência traz consigo uma inocência idiota em relação à realidade externa. É por isso que os sábios renunciam à agitação e a todas as formas de esperteza associadas com ela, e preferem optar por uma vida retirada. Quem deseja alcançar a consciência celestial deve abandonar a inteligência egoísta e assumir, em certos assuntos, a aparência de um abobado. 

“A razão expulsou Deus com chicotadas para o meio dos loucos”, escreveu Louis Pauwels.[8]  E o escritor sufi Idries Shah – grande pensador do islamismo místico–  escreveu um livro intitulado “A Sabedoria dos Idiotas”. Na abertura da obra, Idries Shah explicou:

“Aquilo que os homens de pensamento estreito imaginam que seja sabedoria é freqüentemente considerado loucura pelos sábios sufis. Assim os sufis, por sua vez, chamam a si mesmos de ‘idiotas’. Por uma feliz coincidência, a palavra árabe que significa ‘santo’ (wali) tem a mesma equivalência numérica que a palavra que significa ‘idiota’ (balid). Assim, temos dois motivos para ver os grandes sufis como os nossos Idiotas.” [9] 

A astúcia impede o autoconhecimento.   A milenar tradição chinesa conta que certa vez Confúcio procurou Lao-tzu – fundador da filosofia taoísta – e fez a ele uma complexa consulta sobre uma questão ritualística que considerava de grande  importância.  Desprezando a pergunta sofisticada, o mestre disse a Confúcio:

“Você precisa abandonar a sua esperteza e deixar de lado a espada da sua ambição. Os grandes sábios freqüentemente parecem tolos e estúpidos. Aqueles que obtiveram o verdadeiro aprendizado não insistem em ostentar o seu conhecimento.” [10]

Um dos maiores místicos cristãos de todos os tempos, São João da Cruz, estudou filosofia clássica grega na juventude. O modo como ele descreve poeticamente o paradoxo do “nada saber para perceber tudo”  coincide com a tradição socrática, mas também pode ser visto como uma ioga: 

“Para chegares a saborear tudo, 
Não queiras ter gosto em coisa alguma.
Para chegares a possuir tudo,
Não queiras possuir coisa alguma.
Para chegares a ser tudo,
Não queiras ser coisa alguma.
Para chegares a  saber tudo,
Não queiras saber coisa alguma.” [11]

E João da Cruz descreveu o seu êxtase místico nesses versos:

“Entrei onde não sabia,
e fiquei sem saber,
toda a ciência transcendendo.

Eu não sabia onde entrava,
porém, quando lá me vi,
sem saber onde estava,
grandes coisas entendi.
Não direi o que senti
pois fiquei sem saber,
toda a ciência transcendendo.

De paz e de piedade
era a ciência perfeita,
em profunda solidão,
diretamente entendida;
era coisa tão secreta,
que fiquei balbuciando,
toda a ciência transcendendo.

Estava tão enlevado,
tão absorto e desatento,
que meu sentido ficou
de todo sentir privado;
e o espírito dotado
de um entendimento sem entender
toda ciência transcendendo.” [12]

Embora seja verdade que nem todo idiota alcança a iluminação, é certo que todo iluminado tem algo de idiota e parecerá um tolo desde mais de um ponto de vista.  

O aprendiz da arte de viver deve romper os limites das chantagens do que é “politicamente correto” e deixar de lado os mecanismos da ignorância coletiva que buscam impor falsos consensos em função dos interesses desse ou daquele esquema de poder.

Mas, para fugir da idiotice coletiva organizada –  com sua psicologia de rebanho que proíbe o indivíduo de pensar por si mesmo –   é indispensável vencer o medo de que nos seja colocado o rótulo de ovelha negra, ou de idiota.  Só assim poderemos viver com responsabilidade própria e independência pessoal. Há uma história de Ramakrishna, o sábio indiano do século 19, que ilustra bem esse ponto:

“Era uma noite completamente escura, séculos atrás. De repente, um sujeito acende uma tocha para iluminar seu caminho e vai até a casa do vizinho. Ele quer pedir fogo, porque a noite está demasiado escura. Depois de muito gritar e bater na porta, o vizinho finalmente abre a porta, ouve seu pedido e responde: ‘Ah, ah, você é muito imbecil! Raciocine! Você já tem uma tocha acesa na sua mão!’  [13]

Todos nós corremos o risco de fazer como o pobre coitado que bateu na porta do vizinho. A verdade eterna e a fonte da felicidade estão em nossas próprias mãos. Só dependem de nós. Mas insistimos em procurá-las nas coisas externas e pedi-las de outras pessoas, renunciando à autonomia da nossa caminhada. 

Os sábios, como os idiotas, são íntegros.  Eles não fingem que são inteligentes e não têm medo de errar. Tentam, erram e conhecem o sabor da derrota.  Mas, quando acertam, são geniais. O idiota de hoje pode ser o sábio de amanhã, graças à experiência adquirida. Em compensação, aquele que não possui ânimo para tentar não tem chance alguma de aprender.

Por isso devemos criar uma cultura em que é permitido a cada um cair e levantar livremente. Porque somos todos apenas aprendizes. Erramos e aprendemos o tempo todo, e devemos estimular em cada ser humano a coragem de buscar – mesmo tropeçando – os seus sonhos mais elevados. Banindo da nossa cultura o medo ao ridículo, cada um se permitirá um pouco mais de deselegância e autenticidade em sua maneira de viver.


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NOTAS:

[1] “Vidas de Grandes Romancistas”, por Henry Thomas e Dana Lee Thomas, Editora Globo, RJ-POA-SP, 1954, 244 pp., ver p. 32.

[2] “Einstein, a Ciência da Vida”, uma biografia escrita por Denis Brian, Editora Ática, SP, 1998, 551 pp., ver pp. 1, 3 e 4.

[3] “Assim Falou Einstein”, coletânea editada por Alice Calaprice, Ed. Civilização Brasileira, RJ, 1998, 258 pp., ver pp. 64 (primeira frase da citação) e 63 (segunda frase).

[4] “Collected Writings of H. P. Blavatsky”, TPH, Índia/EUA,  volume VIII, 1990, p. 108.

[5]  “A Arte da Prudência”, Baltazar Gracián, Ed.  Martin Claret, SP, 2001, 151 pp., ver p. 102.

[6] “Father Brown Stories”, G.K. Chesterton, Penguin Books, England, ver Introdução. 

[7] “El Príncipe Idiota”, Fiódor Dostoievsky, Editorial Porrúa, S.A., México, 190 pp.,ver p. 158. Veja também o filme clássico de Akira Kurosawa baseado nesta obra, “O Idiota”, atualmente disponível em DVD.

[8] “Ramakrishna, o louco de Deus”, Introdução de Louis Pauwels, Planeta Especial, Fevereiro de 1995, 146 pp. em formato de livro, ver p. 09.

[9] “Wisdom of the Idiots”, Idries Shah, The Octagon Press, Londres, 1991, 179 pp., ver p. 5.

[10] “Tales of  the Taoist Immortals”, de Eva Wong, Shambhalla Inc., Boston, EUA, 2001, 168 pp., ver p. 56.

[11] “São João da Cruz”, Obras Completas,  Ed. Vozes, 1149 pp., ver p. 182.

[12] “São João da Cruz – Pequena Biografia ”, Bernard Sesé, Ed. Paulinas, SP, 176 pp., 1995, ver p. 135.  Uma tradução não tão boa do mesmo trecho pode ser encontrada  nas pp. 38 a 40 das “Obras Completas”.

[13] “Pictorial Parables of Sri Ramakrishna”, Advaita Ashrama, Calcutá, Índia, 65 p., 1997, p. 7.   

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Uma primeira versão do artigo acima foi publicada pela Revista “Planeta”, de São Paulo.  

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Texto do website www.filosofiaesoterica.com

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