20 de Outubro de 2014

A FILOSOFIA ESOTÉRICA E OS RITUAIS

Teosofia Autêntica Ensina a Ir
Além da Rotina e das Formas Externas


Carlos Cardoso Aveline

  



A teosofia é uma filosofia universal e por isso transcende cada uma das seitas, religiões e filosofias existentes.   Para a sabedoria esotérica, o próprio estudante é o telescópio pelo qual ele deve olhar a vida. Por esta razão prática, a compreensão da teosofia requer que o estudante tenha uma vida limpa, uma mente aberta e um coração puro.  

A sabedoria deve ser obtida por mérito próprio. É indispensável libertar-se do apego a formas externas, rituais e crenças supersticiosas.  Este ponto é ensinado pela literatura teosófica original, e ignorado pela pseudoteosofia fabricada por alguns líderes da Sociedade de Adyar no período que vai de 1900 a 1934.

Os Melhores Rituais São Bolhas Para Divertir Crianças

Em uma das “Cartas dos Mahatmas”, um raja-iogue dos Himalaias menciona a ilusão da “crença na eficácia de vãos rituais e cerimônias, em orações e em intercessão”.[1] No mesmo trecho, há uma nota de pé de página em que é feita citação das seguintes palavras de C. Jinarajadasa:

“Dos dez ‘grilhões’ existentes no Caminho da Libertação, os três últimos são: 1) Sakkayaditthi, a ilusão do eu; 2) Vichikicheha, dúvida; e 3) Silabbataparamasa, crença na eficácia de ritos e cerimônias.”

Em outro parágrafo da mesma carta, o raja-iogue menciona um ritual feito por altos lamas no Tibete, bem antes da invasão chinesa de meados do século 20, e um ritual de que ele próprio, um Mahatma, participaria. E o Mestre esclarece que mesmo uma cerimônia deste nível não passa de uma superficialidade fútil, cuja utilidade é limitada a almas infantis e pouco evoluídas.  O Mestre escreve:

“Dentro de cerca de uma semana - novas cerimônias religiosas, novas bolhas resplandecentes para divertir os bebês, e mais uma vez estarei ocupado noite e dia ...” [2]

A filosofia esotérica dá elementos para que cada indivíduo se liberte de tais ilusões.

Na famosa carta de 1900, para Annie Besant, um Mestre profetiza os principais erros que a Sociedade de Adyar cometeria a partir daquele momento.  Ele esclarece que o movimento teosófico moderno foi concebido “para ser a pedra angular das futuras religiões da humanidade”. Para realizar este objetivo, os que o lideram, diz o Mestre, “devem deixar de lado suas frágeis predileções pelas formas e cerimônias de qualquer credo particular, e demonstrar que são verdadeiros teosofistas, tanto no pensamento interno quanto no comportamento externo.” [3]

A advertência foi inútil para Annie Besant.  Poucos anos depois ela adotou diversos ritualismos. Besant e seus colegas de falsa clarividência misturaram teosofia com maçonaria, promoveram uma “igreja católica teosófica” e passaram a organizar uma “volta de Cristo” através da pessoa de Jiddu Krishnamurti. Depois de cumprir durante quase duas décadas o papel de Jesus Cristo enquanto era manipulado por Annie Besant, Krishnamurti finalmente abandonou a Sociedade de Besant em 1929,  encerrando a parte principal e mais visível da tragicomédia “adventista”.

Henry S. Olcott, Contra o Culto a Formas Externas

O pensador norte-americano Henry S. Olcott foi um dos principais fundadores do movimento teosófico, em 1875. Em seu livro Catecismo Budista, Olcott escreveu o seguinte, referindo-se a Gautama Buda:

“Desde o começo, ele condenou o costume das cerimônias e outras práticas exteriores que não tendem senão a aumentar nossa cegueira espiritual e nosso apego às formas inertes.” [4]

Numa das Cartas dos Mahatmas, um mestre afirma que é impossível fazer boa magia cerimonial no Ocidente. Ele narra a experiência frustrada de algumas reuniões de que ele participou pessoalmente, em Londres em torno de 1860, com Edward Bulwer-Lytton, Eliphas Levi e outros ocultistas.[5] 

Rituais Vãos e Cerimônias Vazias

Esclarecendo o significado mais profundo da palavra “budista”, um sábio dos Himalaias escreveu:

“Muitos preferem chamar-se budistas não porque a palavra se refira ao sistema eclesiástico construído sobre as ideias básicas da filosofia do nosso Senhor Gautama Buddha, mas pela palavra sânscrita ‘buddhi’ - sabedoria, iluminação; e como um protesto silencioso contra os vãos rituais e cerimônias vazias que, em um número excessivo de casos, têm produzido as maiores calamidades. Esta é a origem também do termo caldeu mago.” [6]

“Ísis Sem Véu” é uma das obras mais importantes de Helena Blavatsky. Ali podemos ver a abordagem crítica que ela desenvolveu em relação aos rituais maçônicos modernos. HPB revela que a maçonaria foi amplamente infiltrada e seus rituais alterados e adulterados pelos jesuítas, que formavam o aparelho de inteligência e espionagem a serviço do Vaticano.[7]

No artigo “The Beacon of the Unknown” (“O Farol do Desconhecido”), H.P. Blavatsky referiu-se à “ST”, isto é, à Sociedade Teosófica original, que deixaria de existir depois da sua morte devido à deslealdade de Annie Besant e outros.  HPB escreveu:

“Não tendo nenhum dogma nem ritual - e estes dois são apenas obstáculos, um corpo material que sufoca a alma - nós não empregamos a ‘magia cerimonial’ dos cabalistas ocidentais. Sabemos muito bem dos seus perigos para termos qualquer coisa a ver com ela. Na ST cada membro tem a liberdade de estudar o que deseja, uma vez que não se aventure em caminhos desconhecidos que o levariam certamente à magia negra, a feitiçaria contra a qual Eliphas Levi advertiu o público tão abertamente.” [8]

Grande parte do movimento teosófico ainda não compreende a importância das palavras citadas acima. No entanto, uma parcela considerável do movimento teosófico internacional permaneceu livre da crença cega e disponível para o livre pensamento. No século 21, é possível imaginar um futuro em que o movimento teosófico todo, inclusive Adyar, esteja livre de estruturas burocráticas e ritualistas e organizado de modo espontâneo em torno dos ensinamentos autênticos.   

É deste modo que a loja luso-brasileira da Loja Unida de Teosofistas visualiza o futuro do movimento teosófico. A Sociedade de Adyar está caminhando nesta direção, ainda que, talvez, tão lentamente que a maior parte das pessoas não consegue perceber.  

Um velho ditado popular brasileiro afirma que “a mentira tem pernas curtas”.  Enquanto a falsa teosofia de Annie Besant e C. W. Leadbeater vai sendo abandonada, cresce em diferentes países o número de teosofistas de Adyar que descobrem o valor permanente da literatura teosófica verdadeira e se voltam para o ensinamento de Helena Blavatsky. 

Com o tempo, a velocidade deste processo sofre uma aceleração, o que é benéfico para o movimento esotérico como um todo.

Não há necessidade real de arrastar durante mais cem ou duzentos anos o processo pelo qual Adyar deixa de lado as envelhecidas ilusões produzidas por falsos clarividentes durante a primeira parte do século vinte.   

NOTAS:

[1] Carta 68, na metade da p. 311, do volume um de “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica.

[2] Carta 68, p. 317.

[3] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa, Ed. Teosófica, Brasília, Carta 46, primeira série, p. 107.

[4] “Catecismo Budista”, H. S. Olcott, Edições IBRASA, SP, 132 pp., ver p. 68.

[5] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, vol. I,  Carta 11, pp. 75-76.

[6] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 120, vol. II, pp. 257-258.

[7] Veja “Ísis Sem Véu”, H. P. Blavatsky, Ed. Pensamento, vol. IV, Capítulo VIII, pp. 9 e seguintes. Na edição original em inglês (“Isis Unveiled”, Theosophy Co.), veja o volume II, pp. 385-391, entre outros trechos.

[8] “Collected Writings of H.P. Blavatsky”, TPH, Adyar, Índia, volume XI, p. 266.

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Uma versão inicial do texto acima foi publicada sem indicação do nome de autor na edição de setembro de 2010 de “O Teosofista”.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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19 de Outubro de 2014

O PODER DA AMIZADE

Todo Progresso é Resultado de Cooperação

Carlos Cardoso Aveline



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O texto a seguir foi publicado
inicialmente na edição de maio de
2011 do boletim eletrônico “O Teosofista”.

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“De todos os bens que a sabedoria
proporciona para produzir a felicidade por
toda a vida, o maior, sem comparação, é a amizade.”

(Epicuro)



A amizade é uma forma de afeto em que há um sereno respeito pela liberdade e pela autonomia de cada um.

Livre de apegos cegos, o sentimento de amizade não é necessariamente dirigido apenas a este ou aquele indivíduo em especial. Os sábios são amigos de todos os seres: a amizade pode ser incondicional. Por outro lado, cada amizade tem suas características específicas e possui uma capacidade própria de resistir a adversidades. “Amigos na dificuldade, amigos de verdade”, diz o ditado popular em língua inglesa.

A verdadeira amizade surge do eu superior, ou alma imortal. Ela corresponde ao primeiro objetivo do movimento teosófico moderno, que busca ser um núcleo de fraternidade sem fronteiras. A mesma ideia está presente no budismo, no taoísmo, no hinduísmo e outras filosofias orientais e ocidentais. A prática da amizade universal é pitagórica: Thomas Stanley, um filósofo do século 17, escreveu em sua obra sobre o ensinamento de Pitágoras:

“Há uma amizade e uma afinidade de todos por todos: entre deuses e homens, através da compaixão e do sentimento religioso; entre as diferentes doutrinas; entre a alma e o corpo (a parte racional e a parte irracional do ser humano) através da filosofia e das suas teorias; e entre os diferentes seres humanos...” [1]

A fraternidade universal é uma verdade básica que pode ser observada por todos. No mundo animal - assim como no reino humano - a regra geral é dada pela cooperação e pela amizade. A competição se dá no interior do processo de cooperação. É esta última que predomina. O escritor anarquista russo Piotr Kropotkin, um partidário da ação não-violenta, desenvolveu um cuidadoso estudo histórico mostrando de modo inegável que, ao contrário do que o darwinismo pensa, não foi a competição, mas sim a ajuda mútua, que possibilitou desde o início da vida a evolução das espécies.[2]  

Tudo o que rodeia um cidadão - mesa, computador, ônibus, roupas, ruas, prédios - é resultado da cooperação e da ajuda mútua. A civilização materialista leva seus cidadãos a esquecerem disso. Muitos pensam que a competição é central, e isto os torna infelizes. A maneira natural dos seres humanos relacionarem-se é através da amizade. Por que motivo é tão difícil seguir essa tendência natural? O ser humano cresce na luta com os paradoxos. Um poderoso jogo de pressões e conveniências ensina a ele desde cedo que é preciso desenvolver a competição. Assim se limita a amizade como impulso natural e se dificulta a plena ajuda mútua. Uma condição básica para que possamos voltar a viver plenamente a solidariedade consciente é ser autênticos, primeiro, com nós mesmos. Aceitar os outros como eles são, estimulando o melhor neles, e ser grato à vida inclusive pelas suas lições dolorosas, são hábitos realistas que nos tornam mais sábios e mais capazes de compreender a vida e de ser amigos.

Amar é melhor do que ser amado. Ser amigo é mais importante que ter amigos. Mas a única base sólida para a afinidade entre os seres humanos é um respeito sagrado de cada um por si mesmo. Este sentimento surge da percepção de que pertencemos à alma imortal existente em nosso próprio coração. Não temos uma alma, mas a alma nos tem. Nosso “eu superior” é nossa origem e nosso destino, e também nossa fonte de inspiração. O respeito por si mesmo está, pois, na origem do respeito pelos outros. Voltaire, o filósofo francês do século 18, escreveu:  

“Amizade é um contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. Sensíveis, porque um monge, um solitário, pode não ser ruim e viver sem conhecer a amizade. Virtuosas, porque os maus não buscam mais que cúmplices. Os sensuais buscam companheiros de devassidão. Os interesseiros reúnem sócios. Os políticos congregam partidários. O comum dos homens ociosos mantêm relações. Os príncipes têm cortesãos. Só os virtuosos possuem amigos.”[3]  

Assim, a verdadeira amizade é inseparável da ética e do altruísmo. O significado original da palavra “filosofia” é “amor pela sabedoria”, e Voltaire afirma:

“O filósofo é um amigo da sabedoria, ou seja, da verdade. Esse duplo caráter esteve presente em todos os filósofos. Não houve nenhum na Antigüidade que não desse exemplo de virtude aos homens e lições de verdades morais.” [4]

Sem dúvida, é comum encontrar gente que ignora qualquer diferença entre ser amigo e ser cúmplice. Deste ponto de vista, dois amigos devem apoiar um ao outro “em qualquer situação”, inclusive em ações contrárias à verdade e ao equilíbrio.

Os mafiosos criam os seus próprios “códigos de ética” e “compromissos de lealdade”. O uso da amizade em jogos de conveniências gera confusão e sofrimento. O pensador romano Cícero (106 a.C.- 43 a.C.) esclareceu esta questão há pouco mais de dois mil anos. Em seu tratado sobre a amizade, ele escreveu:

“Uma associação de pessoas sem fé nem lei não poderia se abrigar sob a desculpa da amizade (...). Essa é, portanto, a primeira lei que se deve instaurar na amizade: não pedir a nossos amigos senão coisas honestas, não prestar a nossos amigos senão serviços honestos, sem esperar que eles nos sejam pedidos; permanecer sempre confiante, banir a hesitação, ousar dar um conselho em total liberdade. No domínio da amizade, é preciso que predomine a autoridade dos amigos mais bem avisados, e que esta influência se aplique em acautelar os outros, não só com franqueza mas com suficiente energia, se a situação o exigir, para que o conselho seja posto em prática.” [5]

Amizade verdadeira é inseparável de sentimentos nobres, e Cícero explica:

“A amizade nos foi dada pela natureza como auxiliar das nossas virtudes, e não como cúmplice dos nossos vícios, para que a virtude de um, não podendo alcançar sozinha o supremo bem, o alcance apoiada na virtude do outro”. Para o filósofo romano, “há uma simpatia quase inevitável entre os bons entre si, que é o princípio da amizade instaurado pela natureza.”

Em outro trecho do seu tratado sobre a amizade, Cícero afirma:

“O amor, de onde provém a palavra amizade, é no seu primeiro fundamento simpatia recíproca (...). Na amizade nada é fingido, nada é simulado, tudo é verdadeiro e espontâneo.”[6]   

O nível da franqueza existente entre amigos é um indicador da solidez do vínculo. Quando  dois amigos usam muita cautela para não se ferirem mutuamente, a amizade pode ser superficial. Uma amizade mais profunda produz certa ausência de cuidado com as palavras, e torna possível um grau maior de espontaneidade. Às vezes isso só surge com o tempo: a confiança mútua raramente se constrói em um dia.

Toda amizade enfrenta testes, e, para Aristóteles, “somente a amizade entre pessoas boas é imune à calúnia”. Ele explica:

“É entre pessoas boas que encontramos a confiança, o sentimento de que uma nunca fará mal à outra, e tudo mais que se espera em uma amizade sincera. Nas outras espécies de amizade, todavia, nada impede o aparecimento de suspeitas”. [7]

Platão fazia deste sentimento uma virtude social e política, elemento auxiliar importante para a construção da sociedade ideal. Mas Epicuro, que viveu em um período de decadência política, via a amizade como um fim em si e dava a ela importância suprema.

Considerado um sábio por Helena Blavatsky, Epicuro tinha uma filosofia próxima à dos estóicos. Ele fundou uma comunidade em Atenas para viver com os amigos, o Jardim, e sua vida foi um exemplo de ética e autodisciplina. Para Epicuro, “de todos os bens que a sabedoria proporciona para produzir a felicidade por toda a vida, o maior, sem comparação, é a amizade”. E acrescentou: “A mesma convicção que nos inspira a confiança de que nada existe de terrível que dure para sempre, nem mesmo por muito tempo, também nos habilita a ver que dentro dos limites da vida nada aumenta tanto a nossa segurança como a amizade.” [8]

Na Bíblia, o Eclesiástico parece concordar com Epicuro. Primeiro o texto aconselha cautela   (em 6: 7): “Se queres um amigo, adquire-o pela prova e não te apresses a confiar nele”. Pouco depois, o Eclesiástico acrescenta:

“Afasta-te de teus inimigos e acautela-te com teus amigos. Um amigo fiel é um poderoso refúgio; quem o descobriu, descobriu um tesouro. Um amigo fiel não tem preço, é imponderável seu valor. Um amigo fiel é um bálsamo vital, e os que temem o Senhor o encontrarão. Aquele que teme ao Senhor faz amigos verdadeiros, pois tal como ele é, assim é seu amigo (6:13-17).”

Amigos cometem erros. Mesmo numa amizade sincera pode ocorrer decepção. Por outro lado, devemos respeitar nossos adversários. O texto clássico de teosofia “Luz no Caminho” afirma o seguinte, sem meios termos:

“A inteligência é imparcial: ninguém é teu inimigo; ninguém é teu amigo. Todos são teus instrutores.” [9]

Carlos Castaneda ensina que o adversário é sempre um instrumento precioso do nosso crescimento, porque identifica as falhas que devemos corrigir e mostra como funcionam em nós o medo e o ódio, para que, então, estes dois sentimentos sejam extirpados pela luz da compreensão.

Outros autores, como Plutarco, destacam que os amigos frequentemente acobertam nossas falhas, nos acostumam mal e nos levam a ficar preguiçosos, enquanto que os adversários nos mantêm alertas, nos obrigam a crescer e a superar a rotina que, de outro modo, nos engoliria. Tais testemunhos reforçam a ideia de que a verdadeira amizade é um processo livre de apego, em que o afeto não é colocado acima da sabedoria nem dos valores éticos, mas sim a serviço deles. A verdadeira amizade é nobre, e Khalil Gibran escreveu:

“Não deve haver outra finalidade na amizade a não ser o amadurecimento do espírito. Pois o amor que procura outra coisa a não ser a revelação do seu próprio mistério não é amor, mas uma rede armada, e somente coisas inúteis são apanhadas nela.”[10]

A frase de Gibran pode ser dura, mas ela é realista. Quanto mais cedo renunciarmos à autoilusão, melhor para nós. A verdadeira amizade requer desapego. Os “Versos de Ouro” de Pitágoras expressam a sabedoria teosófica, e neles podemos ler o seguinte sobre a combinação de firmeza com flexibilidade:

“Escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso. Aproveita seus discursos inspiradores, e aprende com os seus atos úteis e virtuosos. Mas não afasta teu amigo por um pequeno erro, porque a força da vida é limitada pela necessidade.” [11]

NOTAS:

[1] “Pythagoras, His Life and Teachings”, de Thomas Stanley, Philosophical Research Society, Califórnia, EUA, 1970.

[2] “El Apoyo Mútuo, Un Factor de la Evolución”, de Piotr Kropotkin,  Ed. Proyección, Buenos Aires, 1970, 328 pp. Há uma edição em inglês:  “Mutual Aid, a factor of evolution”, Peter Kropotkin, Dover Publications Inc., Mineola, New York, 2006, 312 pp. 

[3] “Dicionário Filosófico”, Voltaire, Ed. Martin Claret, p. 23.

[4] “Dicionário Filosófico”, p. 232.

[5] “A Amizade”, de Cícero, texto incluído no volume de ensaios dele intitulado “Saber Envelhecer”, Ed. L&PM, Porto Alegre, 151 pp. Ver respectivamente as pp. 104 e 105.

[6] “A Amizade”, de Cícero, em “Saber Envelhecer”, Ed. L&PM, Porto Alegre, 151 pp.  Ver respectivamente as  pp. 91 e 131.

[7] “Ética a Nicômacos”, de Aristóteles, Ed. UnB, Brasília, terceira edição, 238 pp., ver p.157.

[8] “Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres”, Diógenes Laertios, Editora UnB, Brasília, 1977, 357 pp., ver p. 319.

[9] Veja a análise do item 10 da segunda série de regras, em “Luz no Caminho”, M. C., The Aquarian Theosophist, 2014, Portugal,  tradução e notas de Carlos Cardoso Aveline, 85 pp., p. 35.

[10] “O Profeta”, Gibran Khalil Gibran, Ed. ACIGI, RJ, 89 pp., ver p. 56.

[11] A íntegra de “Os Versos de Ouro de Pitágoras” pode ser facilmente encontrada pela Lista de Textos por Ordem Alfabética do website  www.FilosofiaEsoterica.com, ou na seção de “Filosofia Ocidental, Clássica e Moderna” do mesmo website.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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A CHEGADA DO NOVO CICLO

O Movimento Teosófico
Deve Abrir Espaço Para o Futuro

Carlos Cardoso Aveline



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Esse texto foi  publicado inicialmente sob o
título “The  Coming  of  the  New  Cycle”  na
revista eletrônica “The Aquarian Theosophist”,
edição do mês  de  novembro de 2005, pp. 01-07.
A coleção completa de “The Aquarian” pode ser
vista no website www.TheosophyOnline.com .

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Neste início do século 21, os estudantes da filosofia esotérica podem se perguntar qual é a sua responsabilidade em relação ao conjunto do carma humano.

De certo modo, eles são guardiães de uma sabedoria tão antiga quanto moderna.  No entanto, eles não devem estudar a Sabedoria somente para seu próprio benefício. Se o fizerem,  seu  fracasso será desde o começo inevitável.  

Para entender o espírito da sabedoria sagrada, o objetivo do estudante deve ser beneficiar a humanidade. E mesmo isso não é suficiente:  Helena P. Blavatsky  ensinou que o conhecimento filosófico também deve ser um processo vivo e criativo, constantemente aplicado e testado na nossa vida cotidiana. Não se alcança a sabedoria repetindo sempre as mesmas  ideias contidas nos livros sagrados.

Mas, se tivermos algum grau de verdadeiro altruísmo e de vontade de agir a partir desse sentimento,  pode ser, então,  que nos confrontemos com uma questão  bastante desconfortável:

“À medida que nossa civilização se confronta com perigos grandes e crescentes de vários tipos, de que forma devemos nos sentir responsáveis por seu futuro?  Qual é a nossa responsabilidade real?”

Responder a essa questão não é tarefa simples. Há, porém, pelo menos uma coisa sobre a qual podemos ter certeza:  estamos rodeados de crises e oportunidades.

A cada noite,  elas estão nos noticiários de televisão. Elas são apresentadas em  nossos jornais e programas de TV favoritos. Por toda a África, Europa, Ásia e Américas, inundações, incêndios florestais, secas, furacões e outros eventos semelhantes parecem promover uma mudança climática global que pode ter efeitos drásticos sobre o destino da nossa civilização. Essas centenas de eventos climáticos são mostradas na mídia como se fossem fatos isolados que  acontecem nesse momento apenas por alguma estranha coincidência.  

Isso, porém,  não é verdade. Também não é por coincidência que os sinais de decadência ética e social da nossa civilização – incluindo crime organizado,  corrupção na política, miséria,  guerras e ataques terroristas – ocorrem ao mesmo tempo que o desmatamento,  a poluição ambiental e as mudanças climáticas. A verdade é que espírito e matéria evoluem juntos: ao longo da História,  cada vez que a ganância do homem o fez destruir seu ambiente natural, ele mesmo acabou pagando caro por isso.

Ao escrever em 1879 sobre os efeitos do desmatamento na Índia, por exemplo, H. P. Blavatsky disse:

“Uma rápida olhada nas páginas da História já mostra que a ruína e a extinção definitiva do poder nacional se segue à extirpação das florestas, tão certo como a noite segue o dia. A natureza providenciou os meios para o desenvolvimento humano, e suas leis nunca podem ser violadas sem desastre.” [1]   

Os ecologistas e aqueles que estudam a filosofia esotérica sabem que tudo no planeta  se inter-relaciona.

Por outro lado, também vemos que ter acesso à informação  não é o mesmo que ter conhecimento. A diferença entre conhecimento e  informação é que o conhecimento leva à ação correta, mas a mera informação,  não.

Assim, para responder à pergunta sobre a nossa responsabilidade em relação ao destino da civilização atual, nós teremos que começar por examinar um questionamento prévio e também desconfortável:

“Quanto conhecimento direto temos sobre filosofia esotérica?”

A importância disso é que só o conhecimento direto provoca um sentimento duradouro de responsabilidade, livre de vaidade ou messianismo.   

Uma percepção exata das coisas, sentida profundamente, produz um senso de ética e uma intenção ativa de ser útil. Talvez tenha sido para ressaltar o significado desse sentimento de responsabilidade pessoal que Thomas Taylor, o filósofo neoplatônico, escreveu há alguns séculos:

“Um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa.
Beba muito, ou  então não prove da fonte PLATÔNICA;
Nela,   pequenos goles intoxicam o cérebro,
E beber profundamente  nos faz sóbrios de novo.” [2]

A responsabilidade que emerge do conhecimento profundo nos torna sóbrios de novo – porque ela  nos leva  para a ação,  externa e  interna.

Quando os estudantes têm um sentido de responsabilidade natural e espontânea  em função daquilo que estão aprendendo, então surge o momento certo para um número crescente deles começar a pensar, de forma calma e tranquila, sobre duas questões:

1) Para a filosofia esotérica, o tempo é circular, ou cíclico. Ele avança em espiral. Como podemos avaliar o atual momento de nossa civilização, do ponto de vista dessa doutrina dos ciclos  ou eras?

2) Qual é a relação entre o surgimento de um  novo ciclo do tempo humano e as crescentes dificuldades enfrentadas por tantos países nesta primeira parte do século 21?

Talvez possamos obter apenas alguns fragmentos da resposta  – mas isso não é, em absoluto, razão para desistir. Investigar pacientemente o assunto e compartilhar nossos  esforços pode ser útil tanto para a causa do bem da humanidade como para nós mesmos. Cada aspirante à verdade deve começar pelos fragmentos que estão ao seu alcance.  Cedo ou tarde a intuição e o bom senso podem ajudá-lo a preencher os espaços em branco. À medida que o tempo  passa, o Carma e aqueles que sabem mais do que nós tendem a facilitar nossa tarefa  de vários modos  visíveis ou invisíveis.

Ao investigar a doutrina dos ciclos, relacionando-a ao momento atual da história da humanidade, há algo que devemos lembrar desde o início. É inútil tentar estabelecer o momento exato em que esse ou aquele “grande evento” deverá acontecer.  As mudanças dos ciclos de tempo, ou eras,  não ocorrem de acordo com a nossa noção de tempo superficial. No texto de HPB, Conversations on Occultism (Conversações Sobre Ocultismo), um estudante pergunta:

“Será correto inquirir sobre os períodos em que os ciclos mudam, e especular sobre mudanças, astrológicas ou outras, que anunciam uma queda?” 

E um sábio responde:

“Não. Há um antigo ditado que diz que os deuses têm ciúmes dessas coisas, não desejando que os mortais as saibam. Nós podemos analisar a era, mas é melhor não tentar fixar a hora de uma mudança de ciclo. Além disso, você não será capaz de determiná-la porque um ciclo não começa em um certo dia ou ano de um outro ciclo, eles se sobrepõem, de modo que embora a roda de um período ainda esteja girando, o momento inicial do outro já começou.” [3]

Quanto à chegada do novo ciclo, iniciada no final do  século 19, há um parágrafo bem conhecido,  escrito por um discípulo conforme o ditado de um Mestre de Sabedoria:

“Nós estamos no final de um ciclo - geológico e de outras dimensões - e no começo de outro ciclo. Cataclismo seguirá cataclismo. As forças acumuladas estão explodindo em muitos locais; e os homens não serão apenas engolidos ou mortos aos milhares; ‘novas’ terras aparecerão e ‘velhas’ submergirão, erupções vulcânicas e ondas gigantescas causarão medo; mas segredos de um passado insuspeito serão revelados, para assombro dos teóricos ocidentais e humilhação de uma ciência arrogante. Essa nau à deriva, se observada,  pode parecer encalhar nos vestígios emergentes de antigas civilizações, e se despedaçar. Não ambicionamos as honras dos profetas: ainda assim,  que isso fique como uma profecia.” [4]

Cataclismo seguirá cataclismo, disse a profecia em 1883.  Já que  sabemos que o ciclo novo e o ciclo velho se misturam e convivem muito tempo durante a transição, podemos deduzir facilmente que essa profecia não se referia apenas a algumas décadas. Vejamos,  então – do ponto de vista dos melhores levantamentos científicos disponíveis atualmente -  qual é a avaliação científica  feita, em 2005,  a respeito dos acontecimentos geológicos e climáticos que ocorreram  nos últimos 100 anos, aproximadamente.  Isso servirá para ilustrar o fato de que, apesar de todos os obstáculos, a filosofia esotérica deve manter um diálogo vivo com a ciência e os cientistas.

Como escreveu um dos Mahatmas: “A ciência moderna é o nosso melhor aliado.” [5] A ciência convencional frequentemente despreza a sabedoria esotérica; mesmo assim, a palavra do Mestre permanece verdadeira. 

O mundialmente respeitado WorldWatch Institute, em Washington, costuma estudar os acontecimentos do mundo atual à luz da sustentabilidade ecológica e da ética social. Na edição de Janeiro/Fevereiro de 2005, o Instituto publicou um artigo chamado Repensando a Segurança – um Papel Diferente Para os Militares. Escrito por Gregory D. Foster – professor na Universidade Nacional de Defesa em Washington e importante especialista militar dos EUA – o texto compara dois dos principais problemas que, no momento, confrontam nossa civilização: o terrorismo e a crise ambiental.

O professor Foster diz que a maioria dos governos costuma subestimar a importância das questões ecológicas. E explica:

 “Que as questões ambientais preocupem tão pouco o público em geral é um reflexo do quão limitado e pouco estratégico é, na realidade, o nosso pensamento sobre segurança. (...) Vejam, por exemplo, a comparação entre o número de mortes causadas pela ameaça terrorista, que dispõe de alta credibilidade,  e a ameaça dos desastres naturais, que merece pouco crédito.  Desde 1968, ocorreram 19.114 incidentes terroristas em todo o mundo, resultando num total de 23.961 mortes  e 62.502 ferimentos associados. Por mais perturbadores que possam ser esses dados, eles perdem força quando comparados aos dos desastres naturais.”

Gregory Foster prossegue:

“A média anual de mortes no decorrer do século passado, devido a seca, fome, enchentes, vendavais, extremos de temperatura e incêndios florestais, foi de 243.577. Assim, mesmo ignorando terremotos, erupções vulcânicas e epidemias, e não contando os ferimentos e demais prejuízos (tais como ficar desabrigado), três vezes mais pessoas morrem a cada ano, em média, em desastres naturais que poderiam estar relacionados - e exacerbados - pela mudança climática,  do que as que foram mortas ou feridas, ao todo,  em 37 anos de incidentes terroristas. E,  se a média de todo um século parece indesejável,  temos que,  considerando apenas o período a partir de 1990,  já ocorreram mais de 207.000 mortes causadas por esses desastres apenas no sul da Ásia; mais de 23.000 na América Central e México,  e dezenas de milhares em outras partes do mundo.” [6]

Assim, a profecia escrita em 1883 é confirmada pelos fatos, se a compararmos com os dados provenientes das melhores  fontes científicas disponíveis atualmente.

O artigo do professor Foster na revista “Worldwatch” não é um fato isolado.

Um ano antes, Sir David King, conselheiro-chefe para assuntos científicos do então primeiro-ministro britânico Tony Blair, escreveu um artigo publicado na edição de 4 de janeiro de 2004 da revista Science,  dizendo que a mudança climática era “o problema mais grave que estamos enfrentando hoje - mais grave até do que a ameaça terrorista”. Sir David King disse que  o governo dos EUA estava fracassando em enfrentar o desafio do aquecimento global”.  [7]

Em fevereiro de 2004 as revistas “The Observer”, na Inglaterra,  e “Fortune”, nos EUA,  revelaram algumas das principais conclusões de um relatório científico feito pelo Pentágono para o presidente George W. Bush.  A  revista brasileira “CartaCapital” dedicou reportagem de capa ao assunto.[8] O relatório antevia a possibilidade de uma desordem ecológica, geológica, econômica, social e militar de âmbito mundial, entre 2010 e 2015, com sérios problemas começando a partir de 2007.

Vale a pena registrar que o bem conhecido filme “O Dia Depois de Amanhã” (“The Day After Tomorrow”) está  baseado em algumas das principais hipóteses que ecologistas e cientistas têm adotado recentemente.

Fatos são fatos: cientistas e especialistas de ponta estão tendo que aceitar uma realidade óbvia. Os padrões e ritmos climáticos têm ficado mais e mais imprevisíveis ao redor do mundo. Em dezembro de 2004 vimos o tsunami asiático causar milhares de vítimas em vários países. Todo o planeta foi levemente sacudido por aquele acontecimento, sugerindo que eventos maiores desse tipo podem mudar a posição do eixo planetário, um evento cíclico discutido na obra de H.P. Blavatsky  “A Doutrina Secreta”.

Em agosto de 2005 o furacão Katrina matou muitas pessoas e causou grande devastação nos EUA. Vulcões entram em atividade, secas e enchentes se espalham, e milhares de eventos menos espetaculares acontecem todos os dias, com custos econômicos e sociais imensos.

O Brasil não é exceção.  Vale a pena registrar um  fato entre muitos: em meados de 2006, a seca atingia vários estados nas regiões sul e sudeste do país. No dia 21 de agosto, em Ribeirão Preto, em SP, a umidade relativa do ar caiu para 4,8 por cento, quebrando o récorde nacional de todos os tempos desde que há  medições.  No mesmo dia, a umidade relativa do ar no deserto do Sahara, no norte da África, foi de 10 por cento. [9]  

Será que a desregulação climática tem  relação com a mudança de ciclo na evolução humana? Sim: podemos estar razoavelmente seguros a respeito disso.  Os eventos futuros mais importantes frequentemente lançam sua sombra sobre o presente,  e um Mestre de Sabedoria escreveu:

“A aproximação de cada novo ‘obscurecimento’ é sempre assinalada  por cataclismos - de fogo ou de água.” [10]  

Fica claro, agora,  que as forças “acumuladas” às quais a profecia de 1883 se referiu não estão apenas “explodindo por todos os lados”.  Elas  estão também acelerando o ritmo com que eclodem. O fato de estarmos enfrentando tantos eventos diferentes no mundo externo -  todos ocorrendo ao mesmo tempo -  nos faz pensar sobre a relação  entre a aceleração de tais acontecimentos e a mudança de ciclo na história humana.   

Podemos nos lembrar de uma carta de um Mestre,  em que ele usa a expressão antropológica-esotérica “sub-raça”, termo  que significa “uma sucessão de civilizações ao longo de milhares de anos”.  Disse o sábio, na década de 1880: 

“Menos de dois séculos antes da chegada de Cortez houve uma grande ‘aceleração’ em direção ao progresso entre as sub-raças do Peru e México, assim como há hoje na Europa e nos E.U.A. A sub-raça deles terminou em quase total aniquilação devido a causas geradas por ela própria ; o mesmo ocorrerá com a sua,  ao final desse ciclo.” [11]      

Menos de dois séculos, de fato. Estaria o Mestre sugerindo que um  ciclo seria concluído “menos de dois séculos” depois dos anos 1880, quando sua carta foi escrita?

No mesmo texto, esse místico dos Himalaias acrescentou - usando a palavra “raça” no seu sentido esotérico/espiritual de uma longa série de civilizações, cujos cidadãos podem ter diferentes características físicas:

“... Assim, havendo atingido o ápice do seu desenvolvimento e glória, a quarta Raça, dos atlantes, foi destruída por água; você encontra hoje apenas seus remanescentes decadentes e caídos, cujas sub-raças, no entanto - ah, cada uma delas teve seus dias prósperos, gloriosos e de relativa grandeza.  O que elas são agora - vocês serão algum dia, porque a lei dos ciclos é única e imutável.  Quando a sua raça - a quinta - houver alcançado o seu zênite de intelectualidade física, e desenvolvido a civilização mais elevada (...), incapaz de elevar-se em mais nada em seu próprio ciclo, seu avanço em direção ao mal absoluto será interrompido (como seus antecessores, os lemurianos e atlantes, foram interrompidos em sua marcha no mesmo rumo) por uma destas mudanças  cataclísmicas; sua grande civilização será destruída (...).” [12]

No parágrafo acima, é  útil meditar especialmente sobre essas palavras:

“... Seu avanço em direção ao mal absoluto será interrompido (.....) por uma destas mudanças  cataclísmicas ...”
        
De fato, os acontecimentos internos e externos estão fortemente conectados,  e não podem ser separados.

As crises ética, social e geológica de nosso tempo são todas parte de um mesmo processo.  Os ciclos cósmicos e geológicos estão ligados de modo direto às marés subjetivas que sobem e descem dentro das almas dos seres vivos. 
    
William Q. Judge escreveu:

“Em relação aos grandes cataclismos que ocorrem no início e no fim dos grandes ciclos, as principais leis que governam os seus efeitos  são as leis do Carma e da Reeencarnação, que atuam de acordo com a regra cíclica. Não é apenas o homem que é governado por essas leis, mas também cada átomo de matéria e o conjunto da matéria estão constantemente passando por mudanças ao mesmo tempo que o homem.” [13]

A Bíblia cristã registra esse fato em vários trechos, inclusive em Deuteronômio, capítulos 27 e 28;  no primeiro livro de Reis,  capítulo 8; e em Isaías, capítulos 10 e 29.  O antigo Wen-tzu taoísta estabelece a mesma ligação direta entre a evolução da alma e os processos geológicos. [14] 

Nessa relação entre os processos  da alma e os processos geológicos, sabemos que os fatos da consciência, que são  sutis,  têm mais influência do que os fatos materiais e densos.  “O Universo é governado de dentro para fora”, segundo afirmou o famoso cientista do século 20 Fred Hoyle, um físico, em seu livro “O Universo Inteligente”.

Assim, ao examinar o destino dos globos planetários [e o mesmo vale para civilizações], Judge diz:

“Nós não admitimos que o fim de uma força está na  retirada por parte de um Deus de sua proteção, nem no súbito impulso dado por ele a uma outra força contra o globo, mas que a força em ação e que determina o grande ciclo é a mesma força do homem, considerado como ser espiritual; quando ele terminou de usar o globo , ele o deixa  (...).”  [15]    

A ideia se aplica também a civilizações porque, como se sabe, aquilo que é válido para os ciclos mais longos  vale,  também,  para os ciclos menores.  

Então podemos ver que os altos e baixos das marés cíclicas da ética, da justiça e da solidariedade na alma coletiva da humanidade exercem  uma influência decisiva no destino das civilizações.

E isso torna-se muito claro quando vemos a Profecia Purânica, registrada por H.P.Blavatsky  nas páginas de “A Doutrina Secreta”:

“Haverá monarcas contemporâneos reinando sobre a terra, reis de espírito mau e caráter violento, devotados à mentira e à perversidade. Farão matar mulheres, crianças e vacas; apoderar-se-ão dos bens dos seus súditos , e cobiçarão as mulheres dos outros; terão um poder ilimitado,  suas vidas serão curtas, seus desejos insaciáveis. (...) Apenas a propriedade material definirá a posição social; a riqueza será a única coisa capaz de inspirar devoção; a paixão será o único elo de união entre os sexos; a falsidade será o único meio de sucesso nos conflitos, e as mulheres serão meros objetos de gratificação sensual... até que a raça humana se aproxime de sua aniquilação (pralaya) ..... Quando o fim da era de Kali  estiver próximo, uma porção daquele ser divino que existe, de sua própria natureza espiritual.... deverá descer à terra... (Kalki avatar) (.....) Ele restabelecerá a justiça sobre a terra e as mentes daqueles que viverem no final do  Kali Yuga serão despertadas e se tornarão translúcidas como o cristal.”

Novamente, não há motivo para pensar que essas palavras se referem  unicamente a algum futuro distante, já que sabemos que grandes ciclos são antecipados por ciclos menores.   Logo abaixo dessa transcrição da profecia purânica, H.P.B.  escreveu, ironicamente:

“Certa ou errada a profecia acima,  as ‘bençãos’ do Kali Yuga são bem descritas e se casam admiravelmente com o que vemos e ouvimos na Europa e em outras terras civilizadas e cristãs, em pleno século XIX e alvorecer do XX, a respeito da nossa grande era ILUMINADA”. [16]
       
Como sabemos que  os eventos externos (físicos) e internos (da alma) estão sempre ligados, fica mais fácil entender certos aspectos da responsabilidade cármica e ética que pertence aos estudantes de filosofia esotérica, com relação ao destino de nossa atual civilização.

H.P.B. não se recusou a escrever sobre isso. Em pelo menos dois textos, ela reconheceu a existência de uma ligação direta entre o nível de lealdade à Verdade,  no movimento esotérico e nos seres humanos de boa vontade,  e o destino da nossa civilização.

No artigo “Our Cycle and the Next”  (“Nosso Ciclo e o Próximo”) , H.P.Blavatsky  cita uma profecia otimista atribuída ao escritor francês Victor Hugo.  O autor de “Os Miseráveis” escreveu:

 “O século dezesseis será conhecido como a era dos pintores, o dezessete será nomeado a era dos escritores, o dezoito a era dos filósofos, o dezenove a era dos apóstolos e profetas. (....) No século vinte, a guerra estará morta, o cadafalso estará morto, a animosidade estará morta, mas o homem viverá. Para todos haverá um único país – e esse país será a terra inteira; para todos haverá apenas uma esperança –  e essa esperança todo o paraíso.”

Logo abaixo dessa citação, H.P.B.  refere-se ao elo oculto que liga o destino da nossa civilização à Sabedoria Esotérica (um de cujos muitos nomes é ‘Teosofia’).  Ela escreveu:

“Se a Teosofia, prevalecendo na luta, lançar as raízes profundas de sua filosofia toda abrangente nos corações e mentes dos homens, se suas doutrinas da Reencarnação e do Carma, em outras palavras, da Esperança e Responsabilidade, encontrar abrigo nas vidas das próximas gerações, então, de fato, uma época de alegria e contentamento nascerá para todos aqueles que agora estão desprezados e sofrendo. Porque a verdadeira Teosofia é ALTRUÍSMO, e isso tem suprema importância.  É o amor fraternal, ajuda mútua, devoção inabalável à Verdade. Se de uma vez por todas os homens se conscientizarem de que apenas assim pode-se encontrar a felicidade,  e nunca na riqueza, em posses ou gratificações egoístas, então as nuvens negras serão dissipadas e uma nova humanidade nascerá sobre a terra. Então de fato terá início a Idade do Ouro. Mas se não for assim, a tempestade explodirá e nossa alardeada civilização e sua cultura afundarão num mar de tamanho horror como jamais se registrou.” [17]

“A Chave Para a Teosofia” é um outro livro em que  H.P.B.  liga o futuro da civilização ao trabalho do movimento esotérico ou “teosófico”. Ela escreve, no parágrafo final do livro,  que se o movimento cumprisse  sua missão, a  Terra seria um paraíso no século 21, se comparada com o que ela era no século dezenove. [18]

Menos de dois séculos se passaram desde que essas palavras foram escritas.

Surgiram no movimento esotérico inúmeras divisões. Multiplicaram-se falsos clarividentes, ritualismos, crenças e dogmas religiosos em um movimento que deveria ser filosófico e buscar livremente a verdade que está além das formas e instituições. Perdeu-se grande parte da perspectiva geral e ampla trazida por HPB.  Alguns progressos foram feitos.

Embora ainda pouco visível, permanece no mundo, na  primeira parte do século 21, um núcleo de lealdade sincera e ativa à Verdade Universal e ao altruísmo - isso é, à  Sabedoria  Divina livre de rótulos externos.   

Esse núcleo está espalhado por vários países e línguas. De um ponto de vista profundo, esse é um grupo de almas, e não de personalidades físicas.  

Muitos dessas pessoas sequer ouviram falar sobre Mestres de Sabedoria, Teosofia ou Helena Blavatsky. Muitos tampouco participam da Universidade da Paz, da organização Brahma Kumaris, do movimento Boa Vontade Mundial (Escola Arcana) ou de outros movimentos universalistas. Mas suas mentes estão sinceramente voltadas para o bem da humanidade,  em uma perspectiva capaz de transcender esta ou aquela religião,  e portanto participam, em escala maior ou menor,  do esforço do Novo Ciclo.

Alguns buscadores da verdade estudam filosofia esotérica, meditam, refletem  e buscam o autoaperfeiçoamento de modo regular e diário, enquanto expandem sua consciência individual como cidadãos planetários.

Cada um faz o que lhe parece adequado a cada momento. O mais importante, para a filosofia esotérica, é a existência de um Território Sutil de Veracidade, Sabedoria e Compaixão; ou seja, uma massa acumulada de pensamentos e sentimentos universalmente fraternos, que é alimentada por pessoas de boa vontade. 

Esse “território” subjetivo vive  dentro do campo magnético maior que é o inconsciente coletivo da humanidade;  e ele  abre caminho para o próximo passo evolutivo da  caminhada comum. 

Grande ou pequeno, esse guarda-chuva de fraternidade incondicional  já está aberto sob um céu que promete tempestades. 

Esse guarda-chuva de sabedoria planetária  é um fator construtivo central no processo que define o  destino da civilização humana  nas próximas décadas.  

NOTAS:

[1] “The Theosophist”, Adyar, India,  Volume I, November 1879, p. 42. 

[2] “ The Theosophist”, Adyar, India,  Volume II, December 1880, p. 52.

[3]  “H. P. Blavatsky Collected Writings”,  TPH,  India-USA, Volume IX (1888), TPH, USA, 1986, p. 101.

[4]  Esse trecho pertence ao parágrafo final do texto intitulado “Sakya Muni’s Place in History”, publicado pela primeira vez no século 19.  Veja “Five Years of  Theosophy”, The Theosophy Co., Los Angeles, 1980, p. 388. Também aparece em “Collected Writings” de HPB, TPH, volume V, p. 259.  Quanto ao autor da profecia, H.P.B. escreveu em uma carta particular ao sr.  Sinnet que um Mestre  “ordenou  a Subba Row  que respondesse sua objeção sobre a data de nascimento do Buda e as fantasiosas datas de Cunningham”  (Veja “Letters of H. P. Blavatsky to A.P. Sinett”, T.U.P., Pasadena, CA, facsimile edition, 1973, Letter XXIII,  p. 46.)  O sr. Subba Row escreveu as ideias do mestre, e  isso inclui a profecia.  

[5] “Cartas dos Mahatmas para  A. P. Sinnett”,  Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver volume I, Carta 65, p. 268.

[6]  “WorldWatch magazine”, Worldwatch Institute, Washington, vol. 18, no. 1, January/February 2005, p. 43. Todo o artigo é muito útil para uma avaliação teosófica do atual momento da humanidade.

[7] Citado pelo professor Foster  em “Worldwatch magazine”, January/February 2005, p. 38.

[8] “CartaCapital”, edição semanal de 03 de março de 2004. Ver também a revista “Wordwatch”, do “Wordwatch Institute”, Washington, May/June 2004, p. 9. 

[9] “Folha de S. Paulo”,  SP,  22 Agosto 2006,  Capa e página C6.

[10] “Cartas dos Mahatmas para  A. P. Sinnett”,  Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver volume II, Carta 93B, p. 120. 

[11] “Cartas dos Mahatmas para  A. P. Sinnet”,  Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver volume II, Carta 93B, p. 110.  

[12]  “Cartas dos Mahatmas para  A. P. Sinnett”,  obra citada, volume II, Carta 93B, p. 120.

[13] “The Ocean of Theosophy”, William Judge, Theosophy Co., Los Angeles, 1987, see p. 123.

[14] Ver os capítulos 15, 19, 136 e 178 de “Wen-tzu, a Compreensão dos Mistérios, Ensinamentos de Lao-Tzu” , Ed. Teosófica,  Brasília, 198 pp.  A obra tem 180 capítulos breves.     

[15] “The Ocean of Theosophy”, William Judge, obra citada,  p. 118.

[16]  “The Secret Doctrine”, H. P. Blavatsky, The Theosophy Co., Los Angeles, 1982, volume I, pp. 377-378. Veja também a edição brasileira: “A Doutrina Secreta”,  Ed. Pensamento, SP, seis volumes, volume II, pp. 84-85.

[17] “H. P. Blavatsky Collected Writings”, Volume XI (1889), TPH, India-USA, 1973, p. 202.

[18] “A Chave Para a Teosofia”, H.P. Blavatsky, Editora Teosófica, Brasília, 1991, 262  pp.,  ver  p. 261.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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