29 de Setembro de 2014

KRISHNAMURTI E AS ILUSÕES BESANTIANAS

O “Avatar” Nem Sempre Mostrava
Em Público Os Seus Reais Pensamentos

Carlos Cardoso Aveline
  

O “Senhor Cristo” pseudoteosófico e a Sra. Annie Besant em 1926,
três anos antes de ele finalmente terminar a comédia abandonando a Sociedade Teosófica


Jiddu Krishnamurti foi cuidadosamente educado por Annie Besant e Charles Leadbeater  para ser o avatar da nova era. E eles foram quase obsessivos em relação a isso. [1]

Na vida adulta, porém, Krishnamurti rejeitou por completo os ensinamentos dos dois e nunca demonstrou interesse pela pseudoteosofia Besantiana. Tampouco prestou atenção à teosofia original, ou à sabedoria clássica. Em vez disso, tornou-se um  pensador que estranhamente denunciava como errado o próprio ato de pensar. 

O professor indiano P. Krishna foi sobrinho de Radha Burnier (1923-2013), que presidiu a Sociedade de Adyar durante décadas. Seguidor ardoroso de Krishnamurti,  P. Krishna contou um diálogo que ele teve com um amigo sobre como fora educado por Charles Leadbeater e Annie Besant.

P. Krishna escreveu:

“Certa vez um homem disse a Krishnamurti que ele havia tido muita sorte por ser educado na Sociedade Teosófica tendo professores como Leadbeater e Annie Besant. Ele respondeu:
Sim, tive muita sorte de ter professores como eles.’ E o homem acrescentou: ‘Nós não tivemos tanta sorte, precisamos ser educados em instituições convencionais. De que modo  podemos encontrar a verdade?’  E ele respondeu: ‘Caro senhor, eu tive sorte porque tudo o que eles me diziam entrava por um ouvido e saía pelo outro’.” [2] 

Esta é, em poucas palavras, a avaliação que Krishnamurti fez da filosofia de Annie Besant e da influência dela sobre ele.  

Em seu artigo, P. Krishna desenvolve uma interpretação artificial e “politicamente correta” das palavras de Krishnamurti. Tais explicações e justificativas não têm interesse para nós:  Krishnamurti era capaz de falar por si mesmo. Suas próprias palavras são muito claras, e  ele sabia do que estava falando.  O desabafo de Krishnamurti sobre a educação recebida de Besant e Leadbeater é a ponta de um iceberg  que  por razões políticas ele preferia manter submerso sob as águas.

Krishnamurti não tinha admiração alguma pela fraude pseudocristã fabricada pelos líderes da Sociedade de Adyar. No entanto, deixava-se ficar como cômodo beneficiário dela.

A Missa na Igreja Católica Liberal

Em seu bem documentado livro “Krishnamurti, The Years of Awakening” [3], a autora britânica Mary Lutyens transcreve parte de uma carta de 1922 escrita por Jiddu Krishnamurti para sua íntima amiga Lady Emily.

O fragmento mostra como Krishnamurti temia revelar em público o que realmente pensava dos líderes teosóficos e de sacerdotes como C. W. Leadbeater, a quem ele considerava “tolos”.

Krishnamurti assistiu a uma missa da Igreja Católica Liberal que foi oficiada pelo próprio “bispo” C. W. Leadbeater.

Na época, Krishnnamurti estava sendo treinado para fazer o papel de Senhor Cristo na tragicomédia pseudoteosófica da “Volta de Cristo” dirigida por C. W. L. e Annie Besant.  A paródia só terminou quando o “avatar” abandonou definitivamente a Sociedade de Adyar em 1929.

Em sua carta para Lady Emily (mãe de Mary Lutyens), Krishnamurti escreveu o seguinte desde a cidade de Sidney, na Austrália:

“Domingo pela manhã [4] fui até a Igreja Católica Liberal e C. W. Leadbeater era o sacerdote encarregado. Ele fez tudo muito corretamente, mas você sabe que não gosto de rituais e não aprecio toda aquela parafernália, com todas aquelas orações, e com as pessoas erguendo-se e abaixando-se, os trajes, etc.; mas não vou atacar isso; algumas pessoas gostam de fazer estas coisas, que direito tenho eu de atacá-las ou desaprová-las? A missa na igreja durou duas  horas e meia e o tédio era tamanho que eu estava quase desmaiando. Acho que demonstrei isso. Devo ter cuidado para que eles não me interpretem mal; caso contrário terei problemas.  Eles são como gatos & cachorros a respeito deste assunto de igreja. De qualquer modo,  são tolos. Os seus exageros e a falta de tato são causas de problemas aqui.”

Mary Lutyens acrescentou que as palavras acima resumem “a atitude de Krishnamurti em relação à igreja”.

Infelizmente, na época ele era muito tímido e não tinha força de caráter suficiente para fazer uma clara declaração de princípios.  Na verdade, Krishnamurti manteve a infeliz paródia de Cristo Católico Liberal durante sete anos ainda - até agosto de 1929.

NOTAS:

[1] Veja o artigo “Fabricando um Avatar”, de Carlos Cardoso Aveline, que está disponível em www.FilosofiaEsoterica.com e seus websites associados.  Leia também, do mesmo autor, o texto “Krishnamurti e a Teosofia”.

[2]Krishnamurti As I Knew Him”, artigo de P. Krishna, diretor do Rajghat Education Centre, Krishnamurti Foundation - Índia, Varanasi. O texto foi publicado pela primeira vez na edição de maio de 1997 da revista “The Theosophist”, na Índia. O artigo transcreve uma palestra dada por P. Krishna em novembro de 1996 na Loja de Adyar da Sociedade Teosófica, em Chennai,  na Índia.

[3]Krishnamurti, The Years of Awakening”, de Mary Lutyens,  livro publicado por Farrar, Straus and Giroux, New York, 1975, 326 pp., ver p. 142.

[4] Dia 18 de abril de 1922, segundo revela Mary Lutyens.

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O artigo acima é uma tradução do texto “Krishnamurti and the Besantian Delusions”, que está disponível em www.TheosophyOnline.com e seus websites associados.

Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C. 


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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FABRICANDO UM AVATAR

Como a Sociedade de Adyar
Organizou a “Volta do Cristo


Carlos Cardoso Aveline


 Helena Blavatsky (foto) tomou uma posição
clara em relação à ideia de um retorno de Cristo


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O artigo “Fabricando um Avatar” foi publicado pela primeira
vez  na  revista teosófica Fohat, do Canadá, nas páginas 64 a 68
da edição de outono de 2007 (primavera de 2007 no Brasil).
título original é “The Making of an Avatar -  examining Adyar’s
attempt  to  fabricate  the  return of  Christ.”   A presente
tradução é publicada pelo website  www.FilosofiaEsoterica.com.

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“Ante-ontem à noite foi-me dada uma
visão geral das sociedades teosóficas. 
Eu vi alguns poucos teosofistas
confiáveis, em uma luta mortal  
com o mundo  em geral e com outros
teosofistas, que eram nominalmente
teosofistas, mas ambiciosos.”

[ H. P. Blavatsky, em uma carta para William Judge.
Ver “The Friendly  Philosopher”,  Robert  Crosbie,
Theosophy Co., Los Angeles, 1945, página 389.]




Um axioma místico afirma que “o erro está condenado a imitar a verdade”.  Em consequência desta lei oculta,  cada aprendiz deve enfrentar e vencer por mérito próprio um número quase infindável de testes e provações que se alimentam de aparências enganosas.  

Pelo mesmo motivo,  a verdadeira Teosofia tem sido sempre rodeada por várias formas brilhantes, quando não espetaculares, de pseudo-teosofia. Um exemplo marcante desta tendência histórica ocorreu no século vinte com  a criação de um culto teosófico em torno do “avatar” Jiddu Krishnamurti (1895-1986).   Mesmo agora  o culto krishnamurtiano ainda existe, embora atue de modo discreto ;  e a sra. Radha Burnier – presidente da Sociedade Teosófica de Adyar desde 1980 – está entre os seus principais líderes.

Krishnamurti tinha 14 anos de idade quando foi  localizado em Adyar por um clarividente de sidhis inferiores, C. W. Leadbeater. Naquela época, Annie Besant e Leadbeater costumavam manter longas conversas imaginárias com algo a que chamavam de “Senhor Cristo”.  Pouco depois da “descoberta” de Krishnamurti,  o garoto foi oficialmente apresentado ao mundo como sendo alto Iniciado e um futuro avatar – o veículo ou instrumento  para a volta do Messias.  

Em relação à  expectativa sobre uma volta de Cristo,  H.P. Blavatsky escreveu no século 19 palavras bastante claras:

“Duas coisas ficam evidentes para todos (....): (a) a ‘vinda de Cristo’ significa a presença de CHRISTOS em um mundo regenerado, e não, de modo algum, a vinda literal e corporal de  Jesus ‘Cristo’ ; e (b) este Cristo não  deve ser buscado nos desertos, nem ‘nas câmaras interiores’, nem no santuário de qualquer templo ou igreja construída pelo homem; porque o Cristo ― o verdadeiro SALVADOR esotérico ― não é homem algum, mas o PRINCÍPIO DIVINO em cada ser humano. Aquele que tenta fazer a ressurreição do Espírito crucificado em si mesmo por suas paixões terrestres, e enterrado profundamente no ‘sepulcro’ da sua carne pecaminosa; aquele que tem força suficiente para fazer rolar de volta a pedra da materialidade para longe da porta do seu próprio santuário interior, este conseguiu despertar Cristo em si mesmo. (‘Pois vocês são o templo do Deus vivo’― II Cor., 6: 16)”[1]

A abordagem de H.P.B. sobre as expectativas messiânicas é simples e profunda. É o princípio crístico da sabedoria divina que deve renascer, e não um Messias de carne e osso.  Mas  o pior cego é  aquele que não deseja ver. Os líderes da Sociedade Teosófica de Adyar estavam tão ocupados com a  fabricação de um Avatar que não tinham tempo para levar em conta o que dizia a Teosofia autêntica.

Foi organizada, portanto, uma “Igreja Católica Liberal” que deveria servir  como instrumento para Krishnamurti, o Cristo.  Ao lado dela,  Ordem da Estrela seria a principal organização do Messias.  A Sociedade Teosófica e a Escola Esotérica de Adyar  foram transformadas em instrumentos auxiliares  do  Advento.  O catecismo do novo Mestre deveria ser o pequeno livro “Aos Pés do Mestre”,  escrito por Leadbeater,  mas apresentado ao público em 1910 como sendo resultado das instruções dadas por um Mestre de Sabedoria ao seu discípulo Krishnamurti.  Supostamente, o garoto teria feito anotações dos ensinamentos do Mestre.   

Mary Lutyens,  íntima amiga de Jiddu Krishnamurti e autora das suas principais biografias, relata que as supostas anotações feitas por Krishnamurti “desapareceram”.  O detalhe significativo é que os únicos originais disponíveis eram os datilografados por C. W. Leadbeater. [2]    

Krishnamurti esperou demasiado tempo  para romper com a  farsa.  Ele finalmente  negou-se a continuar fazendo o papel de Cristo e  afastou-se da Sociedade de Annie Besant no final da década de 1920, quando já tinha mais de 30 anos de idade. Ele negou que fosse a autor de “Aos Pés do Mestre” e o livreto foi retirado da lista das suas obras.  As atuais Fundações Krishnamurti não o vendem.  Mesmo assim, sua autoria ainda é atribuída a Krishnamurti pelas editoras vinculadas à Sociedade de Adyar.

A verdade é que a pequena obra  não só está escrita no estilo de redação de Leadbeater, mas também repete um a um os seus graves erros conceituais sobre a filosofia teosófica. Desde a sua primeira edição, o livreto foi colocado em um lugar muito especial na chamada literatura promovida por Adyar.  Milhares de leitores ainda acreditam na autenticidade do livro.  Poucos conhecem o testemunho do ex-secretário particular de C. W. Leadbeater e ex-secretário internacional da Sociedade de Adyar, Ernest Wood.  Em sua autobiografia,  Wood conta a história de Subrahmanyam,  um jovem teosofista que morou na sede internacional da Sociedade, na Índia.  Subrahmanyam  era um jovem líder influente, até que  em 1910-1911  foi testemunha de uma conversa que mudou completamente o seu destino.  Ele ouviu um diálogo muito direto entre Jiddu  Krishnamurti e o seu pai.  Quando  perguntado sobre quem era o autor de “Aos Pés do Mestre”, Krishnamurti, então com 15 anos,  respondeu no idioma Telugu:

“O livro não é meu. Eles é que jogaram sobre mim a paternidade da obra.”

Subrahmanyam ficou profundamente surpreso. Ele logo relatou o diálogo a Ernest Wood, de quem era amigo pessoal.  Notícias ruins andam rápido, e assim que a presidente mundial Annie Besant foi informada do assunto ela convocou o jovem Subrahmanyam a seu gabinete.

Besant afirmou a Subrahmanyam que era impossível que Krishnamurti tivesse dito uma tal coisa, e colocou-o diante de uma  alternativa radical:  ou ele faria um  desmentido imediato  da conversa entre Krishnamurti e seu pai,  ou seria sumariamente expulso da sede internacional da Sociedade, em Adyar, onde morava.

Subrahmanyam não era hipócrita.  Não estava disposto a viver em um mundo de falsidades. Resistindo à pressão, ele não se retratou e foi obrigado a deixar Adyar.  Ele retornou à sua cidade natal, e Ernest Wood conta que “morreu lá pouco tempo depois, ainda pouco mais que uma criança.” [3]

Desde o seu lançamento, o famoso livreto “Aos Pés do Mestre” vinha sendo um best-seller, e também era visto como um fato espetacular em si mesmo. O seu sucesso deu impulso ao surgimento da organização messiânica “Ordem da Estrela no Oriente”.  Do ponto de vista da sra. Besant, a  criação de um novo Messias não poderia ser perturbada por fatos como o diálogo testemunhado por Subrahmanyam.  A própria idéia de que um garoto de 14 ou 15 anos houvesse escrito um texto como aquele era descrito como um fenômeno extraordinário. Parecia a muitos uma evidência concreta de que Cristo havia, de fato, decidido voltar.  Tudo o que as pessoas deviam fazer era acreditar na exibição brilhante de maravilhas imaginárias.

Às custas da vitalidade do movimento teosófico e graças ao estímulo da expectativa messiânica,  a “Ordem da Estrela” crescia com rapidez no mundo todo.  Ernest Wood escreve:  

“Milhares de membros da Sociedade Teosófica se apressavam a entrar no novo movimento. Alguns, entre os quais eu, ficavam à parte. Alguns poucos criticavam o movimento, com vários argumentos. Um ou dois diziam que Krishnamurti não tinha conhecimento suficiente de inglês  para escrever as frases do livro.  Eu concordava completamente com eles, mas explicava a mim mesmo esta dificuldade dizendo que o prólogo anunciava que Krishnamurti não havia escrito ele próprio a obra –  as palavras eram do Mestre. Havia ainda a dificuldade de que Krishnamurti não teria sabido montar as frases nem feito uma pontuação tão boa. Ele tampouco teria sabido fazer aquele prólogo,  em minha opinião. Eu deixava estes problemas em suspenso.  Nós podíamos muito bem esperar e ver se o Mestre viria.” [4]

Ernest Wood percebeu que o livro tinha um conteúdo demasiado simples e demasiado limitado  para ser motivo de tanto destaque e propaganda.  Ele narra uma conversa que teve com C. W. Leadbeater:

“Expressei minha opinião. Era um livrinho agradável,  mas muito simples. Seriam as instruções contidas nele suficientes para levar alguém até o ‘Caminho propriamente dito’, até a Primeira Iniciação que a sra. Annie Besant havia descrito no livro dela?  Sim, disse o sr. Leadbeater, e ainda mais, se aquelas instruções fossem completamente postas em prática, elas levariam a pessoa até o próprio Adeptado.”

Leadbeater falava a Wood como se fosse um grande sábio. Vale a pena mencionar que as fantasias de auto-importância eram tão fortes em Adyar naquela fase da história que alguns anos mais tarde, em 1925,  Annie Besant anunciaria de modo solene  um fato extraordinariamente absurdo: C. W. Leadbeater, J. Krishnamurti, George Arundale, ela própria  e alguns outros haviam alcançado todos o Adeptado e eram agora “Mestres e Iniciados do quinto círculo”.  É verdade que, devido ao seu caráter evidentemente fantasioso,  nem todos levaram o anúncio a sério e a pretensão caiu no esquecimento.[5]

Ernest Wood prossegue a narrativa da sua conversa sobre “Aos Pés do Mestre” com Charles Leadbeater:

Eu disse que havia duas ou três coisas curiosas em relação ao manuscrito. O texto estava muito escrito no estilo do próprio sr. Leadbeater, e até havia algumas frases exatamente iguais ao livro dele que já havíamos preparado para a gráfica. Ele me disse que teria sido capaz, realmente,  de escrever ele mesmo aquele livro. Quanto às frases que mencionei,  ele disse que ele normalmente estava presente quando Krishnamurti recebia as lições do Mestre no plano astral; ele lembrava daqueles pontos...” [6]

Leadbeater apresentou desculpas e explicações para cada indício de que o verdadeiro autor do livrinho era ele mesmo.  Quanto a Annie Besant, ela certamente acompanhava o processo de perto,  porque  Ernest Wood informa que  foi ela própria quem decidiu pelo título “Aos Pés do Mestre”. 

Naturalmente, àquela idade, Krishnamurti não estava muito interessado em livros ou em escrever.  Tudo o que se esperava dele era que cumprisse o papel aparente de um jovem Iniciado  e futuro Messias.  A sra. Jean Overton Fuller, teosofista inglesa e autora de uma biografia sobre Krishnamurti, relatou uma conversa que teve com Mary Lutyens:

“Falei com Mary Lutyens sobre isto. Ela tinha uma tendência a pensar que o texto havia sido escrito, em uma parcela muito grande, por Leadbeater.” [7]

Algumas das principais evidências sobre a autoria  do livrinho estão no seu conteúdo.  A palavra “Deus”, por exemplo,  é usada grande número de vezes no texto.  “Pois Deus tem um plano”, diz o livreto. “Se [alguém] está ao lado de Deus, é um dos nossos”, insiste. [8]    O livreto também afirma:  “Pois tu és Deus, e tu queres somente o que Deus quer”. [9] 

No prólogo, que supostamente teria sido escrito por Krishnamurti, há esta frase:

“Estas palavras não são minhas; são do Mestre que me ensinou.”

Vale a pena, então,  examinar o que este mesmo Mestre de Sabedoria, que segundo Leadbeater ditou o livreto a Krishnamurti, ensinou de fato sobre Deus, em sua famosa Carta 88 de “Cartas dos Mahatmas”. 

O verdadeiro Mahatma escreveu:

“Nem a nossa filosofia, nem nós próprios, acreditamos em um Deus, e muito menos em um Deus cujo pronome necessita de uma inicial maiúscula.” [10]   “O Deus dos teólogos é simplesmente um poder imaginário, un loup garou [um bicho-papão] ( ...).  Nossa principal meta é libertar a humanidade deste pesadelo, ensinar ao homem a virtude pelo bem da virtude, e ensiná-lo a caminhar pela vida confiando em si mesmo, ao invés de depender de uma muleta teológica  que por eras incontáveis foi a  causa direta de quase toda a miséria humana.” [11]

O texto do livreto, supostamente ditado por um Mestre, afirma:   

“Deves penetrar fundo dentro de ti mesmo para encontrar Deus dentro de ti e ouvir a Sua voz, que é a tua voz.” (p. 20)

Por outro lado, o verdadeiro Mestre ensina, em uma das suas Cartas:

“Um sentimento constante de dependência abjeta de uma Divindade vista como a única fonte de poder faz com que um homem perca toda autoconfiança e o impulso para a atividade e a iniciativa. Tendo começado por  criar um pai e um guia para si, ele se torna como um menino e permanece assim até a idade avançada, esperando ser conduzido pela mão tanto nos pequenos como nos grandes acontecimentos da vida.” [12]

“Aos Pés do Mestre” afirma:

“Deus tanto é Sabedoria como Amor; e quanto mais sabedoria tiveres mais Ele poderá se manifestar por teu intermédio.” ( p.30)

Enquanto isso,  na famosa Carta de Prayag,  documento número 30 em “Cartas dos Mahatmas”, vemos as seguintes palavras de um dos dois Mestres de Sabedoria que inspiraram diretamente a criação do movimento teosófico:

“A fé em Deuses ou em Deus e outras superstições atraem milhões de influências alheias, entidades vivas e poderosos agentes para perto das pessoas, e nos veríamos obrigados a usar  algo mais do que o exercício comum de poder para afastá-los. Nós decidimos não fazê-lo. Não consideramos necessário nem proveitoso  perder o nosso tempo travando uma guerra com [ espíritos - N.Trad.] planetários atrasados que se deliciam personificando deuses...”  [13]  

O Mestre explica, assim, que os Adeptos dificilmente podem  chegar perto de pessoas que acreditam em superstições como “Deuses e Deus”. Como se explica um contraste tão profundo entre os dois pontos de vista?   

Na verdade, C. W. Leadbeater  – o mestre de Krishnamurti  e verdadeiro autor do livreto –  havia fracassado em seu discipulado pouco depois de ser colocado em provação,  nos anos 1880.  Como consequência disso, ele nunca foi admitido à Escola Esotérica de H. P. Blavatsky, enquanto ela viveu.

De fato, quando Leadbeater foi morar novamente em Londres depois de vários anos na Ásia, H.P.B. também vivia em Londres. Porém, ao invés ter acesso à Escola Esotérica dirigida por H.P.B., Leadbeater ingressou no “grupo interno” do sr. Alfred Sinnett, conforme Sinnett revela em sua Autobiografia.[14]   

Naquele momento, as Cartas vindas dos Mestres haviam cessado. Como tantos outros, Alfred Sinnett  falhara.  Naquele momento, o grupo de Sinnett já era um duro adversário do trabalho desenvolvido por H. P. Blavatsky.  E foi no grupo de Sinnett  que Leadbeater desenvolveu seus siddhis inferiores, durante sessões mesméricas e mediúnicas nas quais eles falavam com falsos Mestres. Três anos depois da morte de H.P.B.,  Annie Besant  juntou-se em 1894  àquele mesmo grupo de pessoas iludidas. Talvez não seja por coincidência que, no mesmo ano, começou a perseguição política contra William Judge, que era leal à proposta original de trabalho de  HPB.

É neste contexto de abandono das suas fontes originais e autênticas que a Sociedade Teosófica de Adyar adota, com Annie Besant,  um discurso teológico semelhante ao dos jesuítas e do Vaticano.  A crença ou não em Deus está ligada a uma questão técnica e prática de grande importância para a filosofia esotérica. A crença em um Deus todo-poderoso –  assim como a adoração emocional de Mestres imaginários mas “de poder ilimitado” –  é um ponto essencial na versão falsificada de discipulado que Annie Besant e Charles Leadbeater criaram durante a sua tentativa messiânica. Segundo eles, a autonomia individual deve ser  deixada de lado “por devoção”.  Nisso, como em outros aspectos, eles pensavam como qualquer sacerdote cristão.   

Ponto por ponto, “Aos Pés do Mestre”  contradiz a verdadeira Teosofia.  O livreto afirma, por exemplo, que uma extrema limpeza física é de grande importância para o aprendizado espiritual.  Besant e Leadbeater eram quase obsessivos em relação a isso.  “Aos Pés do Mestre” faz a  seguinte recomendação para todos os aspirantes ao discipulado:

“O corpo é teu animal – o cavalo sobre o qual montas. Portanto  deves  (.....) alimentá-lo corretamente, só com bebidas e alimentos puros,  e mantê-lo sempre minuciosamente limpo, sem o menor resquício de impureza. Pois sem um corpo perfeitamente limpo e saudável, não podes realizar a árdua tarefa de preparação, nem podes suportar o seu incessante esforço.” (pp. 22-23)

Lembremos bem da recomendação de “Aos Pés do Mestre” em relação ao corpo físico –  “mantê-lo sempre minuciosamente limpo” –  enquanto examinamos o que os próprios Mestres escrevem a respeito da higiene no plano físico.  Nas “Cartas dos Mahatmas”, um Adepto explica ao sr. Sinnett:

“Os nossos melhores adeptos, os mais eruditos e os mais santos são das raças dos ‘tibetanos sebentos’ e dos Singhs do Punjab – você sabe que o leão é proverbialmente uma fera  suja e agressiva, a despeito da sua força e coragem.” [15]

A palavra “Singh” usada neste parágrafo é um nome místico e simbólico usado pelo mesmo Mahatma que escreve a carta. A identidade metafórica entre o Mestre e os leões vem do fato de que, em sânscrito, a palavra “Singh” significa “leão”.

A partir disso podemos concluir com segurança que os Mestres dos Himalaias são com frequência fisicamente “sebentos” e “sujos”.  Os discípulos regulares deles às vezes até se recusam a usar roupas limpas, segundo o Mestre menciona na mesma carta.  De fato, um dos seus discípulos recusou-se terminantemente a entregar uma mensagem para Alfred Sinnett.  A razão foi que H.P.B havia pedido a ele que se apresentasse “com uma aparência pessoal mais limpa”, para não ofender os preconceitos ocidentais de Sinnett  contra “pessoas sujas”.  O Mestre explica a Sinnett  que o jovem discípulo não  aceitava a idéia de atuar como os discípulos de seitas ilegítimas e rivais, que realmente  recomendam uma grande higiene física. (pp. 58-59)

O episódio mostra que tanto os Mahatmas como os seus discípulos dão escassa atenção à limpeza ou sujeira física. Ele também demonstra que um verdadeiro Mestre preserva inteiramente a autonomia de um discípulo, que é portanto autorizado a manter seus próprios preconceitos contra a higiene. Na mesma carta,  além de admitir o erro do seu chela, o Mestre também oferece um exemplo ocidental da “santa resistência” contra a limpeza: 

“Novamente preconceitos e letra morta. Durante mais de mil anos – diz Michelet – os santos cristãos nunca se lavaram!” (p. 59)

Qual é então a verdadeira razão – alguém pode perguntar – para que Leadbeater recomende tamanha “fobia mística” contra qualquer sujeira corporal?  Em seu ensaio “Totem e Tabu”,  Sigmund Freud nos oferece uma explicação psiquiátrica.  Esta fobia, diz o  fundador da psicanálise, está ligada à neurose compulsiva: “O mais comum destes atos obsessivos é lavar com água (obsessão com água).” [16] 

Na realidade, o discipulado ou a aprendizagem esotérica é um processo interno que não só preserva mas aumenta a autonomia do aprendiz.  E isso é exatamente o oposto do que se pode encontrar em “Aos Pés do Mestre” e em outros tantos  livros do período de Annie Besant (1895-1933). O problema estaria limitado ao passado, se as ilusões de Besant e Leadbeater  já tivessem sido devidamente eslarecidas e descartadas.

De acordo com a maior parte dos autores da Sociedade de Adyar,  o candidato a discípulo deve desenvolver uma obediência automática em relação ao suposto Mestre.   Isso, dizem eles, deve ser feito por um sentimento de devoção. Na verdade, este é apenas o princípio da obediência cega que manda “fazer tudo o que o Mestre quer”.  A idéia tem sido muito conveniente para os líderes de Adyar,  que se colocam como “intermediários”  entre os seus Mestres imaginários e o resto do movimento, e assim concentram todo o poder em suas próprias mãos.

Até o começo da década de 1950, “ordens diretas” de supostos Mestres eram recebidas através dos líderes  da Sociedade de Adyar e da sua escola esotérica. O sistema operou até o final da época  de C. Jinarajadasa.  Formalmente, estas “ordens” cessaram a partir do começo da liderança de N. Sri Ram em 1953. Mesmo assim, o poder continuou concentrado até hoje nas mãos dos sucessivos presidentes internacionais e dirigentes da escola esotérica, os quais, segundo o costume iniciado por Besant, devem ser tratados como Papas pelo resto dos membros da Sociedade de Adyar, e se comportam como se fossem “representantes dos Mestres”.

Em “Aos Pés do Mestre”, como em outras obras que seguem a mesma linha de pensamento,  pode-se ver uma recomendação direta  de automática obediência devocional e de renúncia ao pensamento próprio:

“Quando te tornares um discípulo do Mestre, poderás sempre pôr a prova a verdade de teu pensamento colocando-o ao lado do Seu. Pois o discípulo é uno com o seu Mestre, e necessita somente voltar seu pensamento para o do Mestre para ver imediatamente se ambos estão de acordo. Se assim não for, o pensamento do discípulo está errado, e ele deve modificá-lo instantaneamente, pois o pensamento do Mestre é perfeito, porque Ele sabe tudo. Aqueles que ainda não foram aceitos por ele não podem fazer isso perfeitamente;  mas eles podem ajudar grandemente a si mesmos parando para pensar: ‘O que pensaria o Mestre a este respeito? O que diria ou faria o Mestre nestas circunstâncias?” Pois nunca deves fazer, dizer ou pensar o que não possas imaginar o Mestre fazendo, dizendo ou pensando.” (pp. 35-37)

As várias premissas falsas presentes no trecho acima merecem um exame atento.

* Primeiro, o texto supõe que um discípulo é capaz de entender plenamente a consciência e os pensamentos do seu Mestre.   Para que isso fosse verdade, seria preciso que não houvesse diferença –  nem  em amplitude de horizonte mental, nem  em carma –  entre um Mahatma e o pobre discípulo ignorante que está sendo treinado por ele.

* Segundo, o texto supõe que um discípulo deve imitar mecanicamente seu Mestre, tratando de copiar seus pensamentos, suas palavras e suas ações.  Na realidade, devido ao fato de que o Mestre e o discípulo são dois seres diferentes,  que possuem quantidades radicalmente diferentes de sabedoria  e vivem em situações cármicas muito distantes uma da outra, os dois devem inevitavelmente pensar, falar, e agir de modos muito diversos.

* Em terceiro lugar, este suposto discípulo desiste totalmente de pensar por si mesmo, ou de ser responsável por sua própria vida e suas ações.  Ele se esconde atrás do que imagina que seriam os pensamentos do seu Mestre.  Naturalmente, para tornar o “discipulado” mais fácil, tais “pensamentos dos Mestres” serão transmitidos ao aprendiz pelas autoridades de Adyar.  Aqui temos a manipulação de poder.  

Na realidade, o aprendizado esotérico autêntico ocorre em um nível muito mais profundo e é muito mais democrático, também. 

É verdade que os estudantes não podem comparar os  seus pensamentos individuais com os pensamentos individuais de qualquer Mahatma. Por outro lado, eles podem facilmente comparar a sua visão do discipulado com os ensinamentos gerais dos Mestres sobre o mesmo tema, tal como  eles estão corretamente registrados nas “Cartas dos Mahatmas”, nas “Cartas dos Mestres de Sabedoria” e em outras obras.

Este estudo comparativo é uma experiência reveladora, se não for revolucionária. O que os Mestres ensinaram de fato sobre discipulado é absolutamente  o oposto do que se afirma na obra “Aos Pés do Mestre” e em muitos outros livros mais recentes da literatura “esotérica” em geral.   Já em 1882, os Mestres estavam combatendo diretamente a “heresia da obediência cega”, que também pode ser chamada de “princípio da preguiça mental”, algo que se alimenta da submissão mecânica, se não mediúnica, a um Mestre imaginário.  Um Adepto dos Himalaias escreveu:

“... Você tem uma carta minha em que explico por que nós nunca guiamos nossos chelas (mesmo os mais avançados; nem os avisamos antecipadamente, mas deixamos que os efeitos produzidos pelas causas criadas por eles ensinem-lhes uma melhor experiência. Por favor, leve em conta aquela carta em especial. Antes que o ciclo termine, cada concepção errônea deveria ser eliminada. Eu confio e dependo de você  para esclarecê-las inteiramente nas mentes dos membros de Prayag.”  [17]

Este princípio pedagógico central, o princípio da autonomia do aprendiz, é ensinado e mencionado por toda parte nos  escritos de H.P.B. e  dos Mestres.  No volume “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, por exemplo, podemos ler este apelo, feito por um Mahatma  a uma certa senhora de intenções altruístas:

“Você está pronta para fazer sua parte no grande trabalho de filantropia? Você ofereceu-se para a Cruz Vermelha; mas, Irmã, existem doenças e feridas da alma que não podem ser curadas pela arte de nenhum cirurgião. Irá auxiliar-nos a ensinar à humanidade que os doentes-da-alma devem curar a si próprios? Sua ação será a resposta.” [18]

A responsabilidade consciente do indivíduo diante da Vida é a condição básica e fundamental para qualquer estudante de Teosofia, se ele quiser obter uma quantidade razoável de êxito em seus esforços. O mesmo se aplica aos discípulos leigos e aos aspirantes ao discipulado leigo. 

Embora a tentativa messiânica do  século vinte promovida por Adyar tenha falhado como projeto, as suas falsas noções e o seu apego a ilusões confortáveis ainda intoxicam mentes e corações de teosofistas em todo o mundo.  As tendências mayávicas que resultam daquele momento histórico também  influenciam a muitos que não pertencem à Sociedade de Adyar. Mesmo agora, mais da metade das pessoas que se consideram teosofistas aceita indiretamente as mesmas ilusões “avatáricas” e “clarividentes” criadas nas primeiras três décadas do século 20. Isso não é algo de importância secundária para o movimento esotérico. O perigo de ser iludido é uma das razões pelas quais o lema de todo verdadeiro teosofista deve ser, como H.P.B. escreve em “Ísis Sem Véu”  ―

“Eu não aceito de modo automático o ponto de vista de homem algum, esteja ele vivo ou  morto!” [19]

De algum modo, o movimento deve renovar amplamente a si mesmo para tomar os passos necessários e avançar em direção ao ano, aparentemente distante,  de 2075.

Felizmente, podemos confiar no fato de que os meios para esta auto-renovação surgirão no tempo correto e da maneira adequada ― talvez  invisíveis,  quase desapercebidos e pouco a pouco; mas ainda assim tão inevitavelmente quanto a chegada de um novo dia. 


NOTAS:

[1] “The Esoteric Character of the Gospels”,  H.P.Blavatsky, em “The Collected Writings of  Helena P. Blavatsky”, TPH, Adyar, volume VIII, p. 173.

[2] “Vida e Morte de Krishnamurti”, Mary Lutyens, Ed. Teosófica, Brasília, 1996, 296 pp., ver p. 34, nota de rodapé.

[3] “Is This Theosophy?”, livro autobiográfico de Ernest Wood, Londres, Rider & Co., 1936, Paternost House, E.C.,  reimpresso em edição facsimilar por Kessinger Publishing, LLC, MT, USA, 319 pp., ver p. 163. 

[4] “Is This Theosophy?”, página 162.

[5]  “Vida e Morte de Krishnamurti”, Mary Lutyens, Ed. Teosófica, Brasília, 1996,  ver pp. 85 a 88.

[6] “Is This Theosophy?”, Ernest Wood,    p.  161.

[7] “Krishnamurti and the Wind”,  de Jean Overton Fuller, The Theosophical Publishing House, London, 2003, 300 pp., ver p. 23.

[8] “Aos Pés do Mestre”,  Editora Teosófica, Brasília, edição de bolso, 148 pp., 1999, ver pp. 16 e 17.

[9]  “Aos Pés  do Mestre”, p. 20.

[10]  “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Editora Teosófica, Brasília, dois volumes, 2001, ver volume II, Carta 88, pp. 53-54.

[11] “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”,   Carta 88, p. 55.

[12]  “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa, Ed. Teosófica, Brasília, 1996, ver a Carta 43 da primeira série, pp.  103-104.

[13]  “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, volume I, Carta 30, p. 166.  Esta carta é um documento de grande importância para que se possa entender a posição da filosofia esotérica sobre a questão de Deus. 

[14] “Autobiography of Alfred Percy Sinnett”, Theosophical History Centre, London, 1986, 65 pp.

[15] “Cartas dos Mahatmas”, volume I, Carta 5, p. 57.

[16] “Totem and Taboo - Resemblances Between the Psychic Lives of Savages and Neurotics”,  de Sigmund Freud,  Dover Thrift Editions, Dover Publications, Inc., Mineola, New York, USA,  1998, 138 pp., ver p. 25.

[17] “Cartas dos Mahatmas”, Carta 95, volume II, p.  151.

[18]  “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa, Ed. Teosófica, Brasília, 1996, ver a Carta 72 da segunda série, p.  248. A edição brasileira comete um erro, corrigido aqui. A palavra certa é “Irmã”, e não “Filha”. O mestre chama de irmã  a pessoa a quem a carta é dirigida.  

[19]  “Isis Unveiled”, H. P. Blavatsky,  Theosophy Company, Los Angeles, vol. I, p. X.


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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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O SIGNIFICADO DA SUÁSTICA

Os Criminosos Nazistas Tentaram
Distorcer Conceitos da Filosofia Oriental


Joaquim Soares





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O autor do texto a seguir é co-editor,
- ao lado de Magda Lóios - do blog teosófico

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O estudante sincero de Teosofia tem o dever de combater a falsidade e o preconceito, ainda mais quando estão em causa o próprio movimento teosófico e o ensinamento sagrado.

No texto “A Teosofia e a Segunda Guerra Mundial”, de Carlos Cardoso Aveline,  podemos ler o seguinte:

“Num mundo ainda dominado em boa parte pelo fanatismo e por religiões ritualísticas, é natural que o movimento teosófico - funcionando como uma espécie de extintor não-violento de ilusões - seja atacado de várias formas, desde fora, e desde dentro. Um exemplo de tais ataques são os textos sem base que circulam acusando o movimento teosófico de ter tido simpatia pelo nazismo ou pelo fascismo. Há várias fontes ativas de desinformação em torno da questão da teosofia e do hitlerismo, e parece oportuno trazer algumas evidências sobre a real relação entre os dois, inclusive no período da Segunda Guerra Mundial.” [1]

É conhecida dos estudantes de teosofia a apropriação indevida e o uso criminoso de símbolos sagrados hindus por parte do regime Nazi. Como escreve Aveline:

“Os líderes nazistas praticavam algum tipo de feitiçaria anti-humanitária,  e tinham métodos essenciais em comum com o mal-disfarçado “misticismo de ódio e violência” que foi, desde o século 16, cuidadosamente desenvolvido pelos jesuítas e usado pelo Vaticano.” [2]

O exemplo mais conhecido do uso criminoso de um símbolo sagrado para fins de magia anti-evolutiva talvez seja o caso da “cruz Jaina”, ou Suástica.

Este símbolo é comentado amplamente em “A Doutrina Secreta” de Helena P. Blavatsky, sendo classificado como antiquíssimo e profundamente místico. Foi usado na antiguidade por todos os povos do mundo. É um dos símbolos mais sagrados na Índia, fazendo parte das milenares tradições hinduísta e budista.

Diz Blavatsky:

“Poucos símbolos no mundo estão tão impregnados de verdadeiro significado oculto quanto a Suástica. É representada pelo algarismo 6; visto que, como essa cifra, aponta, na sua representação concreta - como acontece com o ideograma desse número -  para o Zênite e o Nadir, o Norte, Sul, Oeste e Este; em toda parte encontramos a unidade, e esta unidade refletida em todas as unidades. É o emblema da atividade de Fohat, da contínua revolução das ‘rodas’, e dos Quatro Elementos, o “Quatro Sagrado”, no seu sentido místico, e não apenas no sentido cósmico; por outro lado, os seus quatro braços, dobrados em ângulos retos, guardam íntima relação, como já demonstramos, com as escalas Pitagórica e Hermética. Aquele que está iniciado nos mistérios do significado da Suástica, dizem os Comentários, ‘pode perceber através dela, com precisão matemática, a evolução do Cosmos e todo o período de Sandhya’.” [3]

A suástica é, por excelência, o símbolo da evolução Cósmica.

É uma imagem  representada em muitos templos da Índia, do Tibete, da China e demais países com influência hindu e budista (sendo aliás o símbolo do próprio budismo esotérico). Além disso, está presente nas tradições dos povos nórdicos e das Américas.[4]  

São muito conhecidas as representações de Buddha com a cruz Suástica no peito, sendo denominada de “Selo do Coração”. A suástica está presente também em várias relíquias cristãs antigas. Sobre a sua universalidade, HPB esclarece:

“[A] cruz ansata egípcia ou Tau, a cruz Jaina ou Suástica, e a Cruz Cristã, têm todas o mesmo significado”. [5]

Apesar disso, ou por isso mesmo, os missionários cristãos trataram de classificar a cruz suástica como “diabólica”, denegrindo desta forma um símbolo sagrado mais antigo e que está na origem da “sua” cruz cristã. Reconhecer esta semelhança seria aceitar que o cristianismo tomou emprestado, ilegitimamente, símbolos sagrados de tradições muito anteriores.

Os crimes perpetrados desde o século 3 e 4 pelos cristãos fanáticos, e mais tarde retomados pelos jesuítas a partir do século 16, foram, de certo modo, intensificados na primeira metade século vinte pelos regimes nazista e fascista. 

O autoritarismo “cristão” submeteu e perseguiu os próprios povos cristãos e o cristianismo místico e autêntico, enquanto fazia guerra a outras religiões. A mesma postura de desrespeito à vida foi adotada pelos nazistas. 

A traição e a negação do Mestre e do seu ensinamento são simbolizadas nos episódios do Novo Testamento que envolvem Pedro e Judas. Elas se concretizaram na conduta da Igreja de Roma ao longo de quase 2 milênios, e encontram um exemplo mais no denegrir de um dos símbolos mais sagrados da Sabedoria Esotérica. Ao mesmo tempo, o Vaticano deu apoio político implícito ao nazismo e ao fascismo.   Como constata Carlos C. Aveline:

“Naturalmente, o Vaticano sempre foi contra a teosofia, porque a teosofia propõe a fraternidade universal e denuncia e luta contra todas as formas de dogmatismo religioso.” [6] 

O movimento teosófico é  contrário a qualquer ideologia totalitária, demonstrando simpatia pelos processos democráticos. Num certo sentido, ele é a inspiração oculta de movimentos que contribuem para a paz e a unidade dos povos, como é o caso das Nações Unidas. A ONU contempla no seu espírito os ideais teosóficos de fraternidade. [7]  

O Termo “Ariano”

Outra distorção grosseira efetuada pelo nazismo diz respeito ao uso do termo “ariano” ou “ária”.

Esta palavra significa “nobre” e é usada na “Doutrina Secreta” por Helena Blavatsky para designar o quinto estágio do processo evolutivo da humanidade, que se estende por um período de muitos milhões de anos. Daí surge a designação de “Raça Ariana” quando é referida a  quinta Raça, abarcando um vasto número de sub-raças e ramificações. Deste modo, o termo “raça” é usado em “A Doutrina Secreta”  tipificando essencialmente um longo período de tempo evolutivo, que abarca numerosos povos e nações, incluindo pessoas de características físicas muito diferentes entre si.

Do ponto de vista da filosofia esotérica, a mesma Alma Imortal, o aspecto Divino de cada ser humano, percorre (ou reencarna em) cada uma das divisões de ciclos evolutivos, quer sejam raças, globos, rondas ou manvântaras.

Vemos assim que só uma deturpação falaciosa justifica que se continue a relacionar o termo “ariano” ou “ária” com qualquer característica hereditária, etnológica ou de cor de pele.

No “Glossário Teosófico” de  HPB encontramos as seguintes definições:

Árya (Sânsc.) – Literalmente: ´Santo`. [´Nobre`, ´de raça nobre`. Nome de uma raça (a ariana), que invadiu a Índia, no período védico. Sobrenome de Agni, Indra e outras divindades.] Originalmente, era o título dos Rishis [8], que dominaram o Aryasatyani e entraram no sendeiro Áryanimarga, que conduz ao Nirvana ou Moksha (Libertação). Porém, atualmente, este nome tornou-se epíteto de uma raça e nossos orientalistas, privando os brahmanes hindus de seus direitos de nascimento, transformaram todos os europeus em Árias. Como no Esoterismo, os quatro sendeiros ou graus podem ser obtidos unicamente através de um grande desenvolvimento espiritual e ´crescimento em santidade`, quando são designados pelo nome de ´quatro frutos`. Para se chegar ao estado de Arhat, os quatro graus são respectivamente: Srotapatti (aquele que entrou na corrente), Sakridagamin (que deve retornar À vida apenas uma vez), Anagamin (que não deve retornar à vida) e Arhat (venerável, o quarto grau de perfeição). São as quatro classes de Áryas, que correspondem a esses quatro sendeiros e verdades.” [9]

Para que não restem dúvidas, vejamos o que é o “Aryasatyani”:

Aryasatyani (Sanscr.) – As quatro verdades sublimes ou os quatro dogmas, a saber: 1.º) Du(s)kha, ou seja, a miséria e a dor são os companheiros inevitáveis da existência incipiente (esotericamente, física); 2.º) Samudaya, a verdade incontestável de que o sofrimento é intensificado pelas paixões humanas; 3.º) Nirodha, isto é, que a destruição e extinção de todos os sentimentos são possíveis para o Homem ´no sendeiro`; 4.º) Marga, o estreito caminho ou senda que conduz a um resultado tão feliz.” [10]

Fica evidente que “Ária” era o título daquele Sábio que, tendo percorrido o caminho da mais estreita moralidade e serviço abnegado pela humanidade, atingia as alturas sublimes de Sabedoria e Compaixão Divinas.

De maneira idêntica o título de “Brâmane” era, originalmente, dado a aquele que por mérito e pureza tivesse alcançado a condição de iniciado ou “nascido duas vezes”, que venceu “toda  tendência para o mal”.  O próprio Buddha é apelidado de brâmane. Este ideal de “virtude e conhecimento” encontra-se maravilhosamente descrito no último capítulo do clássico budista “O Dhammapada”. Aí vemos o Iluminado proclamar, entre outras coisas:

“Eu chamo de brâmane aquele que é meditativo, puro, decidido; cujo dever é cumprido e cujos vícios foram vencidos; aquele que alcançou a meta mais elevada.” [11]

Vale a pena olhar ainda uma última palavra com o prefixo “Arya”:

Aryavarta (Sansc.) - ´A terra dos Aryas`, ou seja, a Índia. Antigo nome da Índia do Norte, onde se estabeleceram inicialmente os invasores brâmanes (desde o Oxo – atualmente Amu-Daria), segundo os orientalistas. É errado dar esse nome a toda a Índia, pois Manu denomina ´terra dos Aryas` apenas a ´região compreendida entre as cadeias de montanhas do Himalaia e Vindhya`, do mar oriental ao ocidental.” [12]

O nazismo adotou os termos “ária” e “ariano” e corrompeu-os, destituindo-os assim do seu significado real, tal como o cristianismo mais violento e mais autoritário fez ao longo dos séculos com muitos outros termos, símbolos sagrados e relíquias das tradições mais antigas, inclusive do judaísmo.   A teosofia, por outro lado, tem afinidade com a ação fraterna, pacífica e não-violenta dos místicos e filósofos de todos os povos, religiões e tradições culturais.


NOTAS:

[1] O texto pode ser encontrado pela Lista de Textos Por Ordem Alfabética , ou na Lista de Textos por Autor, do website www.FilosofiaEsoterica.com . Também está no blog www.VislumbresDaOutraMagem.com .

[2] No texto referido acima.

[3] “The Secret Doctrine”, H. P. Blavatsky, Vol. II, Theosophy Company, Los Angeles, p.587

[4] Sendo um símbolo universal, a cruz suástica está também presente no símbolo do movimento teosófico. A este respeito vale a pena ler o texto “O Símbolo do Movimento Teosófico”, de Carlos Cardoso Aveline, que pode ser encontrado no website www.FilosofiaEsoterica.com e no blog www.VislumbresDaOutraMagem.com .

[5] “The Secret Doctrine”, H. P. Blavatsky, Vol. I, Theosophy Company, Los Angeles, p. 657. 

[6] Veja o texto “A Teosofia e a Segunda Guerra Mundial”, citado acima.

[7] Ler o texto “Blavatsky, ONU e Democracia”, no website www.FilosofiaEsoterica.com  ou no blog www.VislumbresDaOutraMagem.com .
                                
[8] Os Sábios.

[9] “Glossário Teosófico”, Helena P. Blavatsky, Editora Ground, São Paulo, 3.ª edição, 1995, p.52. Os quatro graus mencionados no texto referem-se às quatro grandes Iniciações do hinduísmo esotérico, que encontram a sua relação nos quatro estágios iniciáticos dos Mistérios.

[10] “Glossário”, p.53

[11] Esta obra clássica está publicada completa no website www.FilosofiaEsoterica.com .

[12] “Glossário”.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C. 


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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