18 de maio de 2016

RELIGIÃO E TEOLOGIA

A Verdade, Como a Luz, Deve
Ser Encontrada na Própria Natureza


Farias Brito


Foto e autógrafo do autor, reproduzidos da obra “Farias Brito, o
homem e a obra”, de Jonathas Serrano (Cia. Editora Nacional,  1939)



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Nota Editorial de 2016:

Reproduzimos a seguir o capítulo onze do
primeiro volume da obra “Finalidade do Mundo”,
do filósofo brasileiro Farias Brito. Ver pp. 148-157.
O livro foi publicado pela primeira vez em 1895.

Desde um ponto de vista teosófico, Farias Brito
(1862-1917) é o principal filósofo brasileiro e o único
que produziu obra consistente ao nível da metafísica.

As notas de rodapé de Brito aparecem ao final,
assinadas com as iniciais “FB”.  Acrescentamos
algumas notas, assinadas com “CCA”. Trocamos certos
termos antigos pelas palavras de uso atual; um exemplo
disso é “maometismo”, substituído por “islamismo”.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Tudo o que se tem dito em teologia sobre a existência e natureza de Deus pode ser reduzido a esta simples proposição que vem reproduzida pelo Abade Sergent, em seu livro “Les enfants de la Bible”:

“O mundo é um grande fato, um vasto pensamento, o pensamento de Deus, falado no tempo, sua palavra escrita no espaço.”

Há sem dúvida muito brilho nestas palavras que ferem ao vivo a imaginação. Parece que se chega a ver a mão de Deus escrevendo; e é o que basta para fazer a luz na alma dos místicos e encher de alegria o coração de todos os crentes; mas não é suficiente para satisfazer ao filósofo que quer partir da ciência e tem principalmente em vista a verdade e a lógica. Também o livro “Les enfants de la Bible” não é senão uma espécie de poema sagrado. Mas o autor, reproduzindo e engrandecendo as tradições da Judeia, não só procura mostrar “quanto há de doce e sagrado nas alegrias do lar e na piedade filial”, como às vezes procura elevar-se à compreensão dos impenetráveis mistérios da teologia. É assim que, em desenvolvimento à proposição já citada, acrescenta com o acento próprio dos homens verdadeiramente convencidos:

“Sem a noção de Deus é impossível nada compreender das coisas limitadas e passageiras deste mundo. Nada se concebe, nem explica sem a intervenção ativa, eficaz de um ser necessário e onipotente de quem tudo desce, para quem tudo sobe; centro único deste vasto fluxo e refluxo de criaturas emanadas de seu pensamento que realizam em cada ponto do espaço e do tempo seu destino próprio segundo leis cheias de sabedoria.” [1]

E mais:

“Para nós que somos iluminados pela fé, o Deus que amamos, o Deus que adoramos, vamos encontrá-lo grande, e poderoso, e bom, e sempre adorável, no templo que ele a si mesmo criou. E como estes grandes senhores que ciosos de sua glória e da admiração da posteridade, gravaram seu nome no frontão dos templos elevados por seu gênio, e outras vezes, como este inimitável Rafael, o ocultavam no bordado ou na franja de um vestido, no canto mais imperceptível de seus quadros imortais, também o grande artista escreveu seu nome em caracteres deslumbrantes sobre a fronte dos astros, em caracteres cheios de graça na corola de cada flor, em sinais maravilhosos no menor animal.” [2]

É ainda, como se vê, uma concepção puramente antropomórfica, pois que o senhor do universo, concebido à imagem do homem, é comparável aos grandes senhores da terra e cogita do modo mais eloquente por que deve ser escrito o seu nome. Mas não obstante esta circunstância, tal é o Deus dos católicos, o Deus da teologia cristã, cuja existência os filósofos espiritualistas, de acordo com os padres da Igreja, acreditam poder demonstrar por dois modos:

A posteriori: 1) pela gradação dos seres, sendo que o mundo que é um efeito, não pode deixar de ter uma causa (prova cosmológica, cuja expressão mais elevada é ainda o argumento de Aristóteles que partindo do movimento, eleva-se à concepção de um primeiro motor imóvel); 2) pela inteligência e desejo inato do belo e do bem (prova psicológica).

A priori: pelas ideias necessárias tomadas em si mesmas (prova metafísica), sendo que a metafisica é ainda aí considerada como coisa distinta da psicologia, não é a ciência dos fenômenos subjetivos, é a ciência dos primeiros princípios e das primeiras causas, a ciência do ser absoluto.

Estas diferentes demonstrações podem ser reduzidas a formas mais ou menos complicadas, sendo expostas com mais ou menos eloquência e brilho, mas no fundo as ideias são sempre as mesmas. É um círculo já esgotado de investigações. Mas, para muitos vem daí a mais completa e a mais elevada certeza. É assim que o Pe. Gratry, por exemplo, espírito aliás de notável clareza na exposição, em sua obra - “La connaissance de Dieu” -, depois de haver resumido e consolidado tudo o que antes dele foi dito de mais importante sobre o assunto, observa que há na alma e no espírito humano uma tendência universal querendo sempre aumentar, aperfeiçoar, elevar como no infinito qualquer indício de ser, de beleza e de bondade que nos oferece o mundo, eleva-se a Deus por este processo poético que não é senão o transporte mesmo da razão.

E todas as demonstrações da existência de Deus dadas pelos maiores filósofos desde Platão até Descartes, não são senão este método vulgar traduzido em linguagem filosófica. Entretanto a demonstração que daí se deduz é para ele tão rigorosa quanto a demonstração matemática propriamente dita, porque não é outra coisa senão um dos dois processos da geometria correspondentes aos dois processos gerais da razão. É o processo infinitesimal, aplicado não mais ao infinito geométrico abstrato, mas ao infinito substancial que é Deus. Levado por estas ideias e firmado na identidade que estabelece entre o processo infinitesimal matemático e o processo infinitesimal teológico, chega por fim o Pe. Gratry à consequência geral de que tudo demonstra Deus: o céu, a terra, a noite, o dia, a menor das criaturas, como o mais fraco dos movimentos, acrescentando demais que o próprio ateísmo é uma demonstração por absurdo da existência de Deus. [3]

A teologia não pode deixar de ser extremamente obscura. Trata-se de uma matéria por si mesma nebulosa e sutil; joga-se aí com princípios pouco perceptíveis e com ideias ordinariamente simbólicas, correspondentes a fatos de que não há representação natural na consciência. Por isto tudo é duvidoso e incerto nesta esfera de conhecimento onde a imaginação toma fatalmente o lugar da experiência e da lógica. O Pe. Gratry, se bem que não nos possa levar a nenhum resultado preciso, ao menos nos faz compreender o que diz. Mas isto é raro entre os teólogos. Pondo, porém, de parte o que há de incongruente e muitas vezes contraditório nestes estudos, pode-se dizer que a teologia moderna reduz-se ao seguinte:  “ Deus é a força de que resultam todas as forças, a inteligência que concebeu e realizou tudo o que existe.” É certo que os teólogos costumam entregar-se de preferência a explicações como estas: “Deus é a causa primeira, o ser dos seres.” Outros exprimem-se assim: “Deus é o ato puro do pensamento, primeira causa e realidade suprema.” Mas todas estas ideias são vagas, não dão uma noção clara e precisa dos fatos, e pouco diferem desta outra definição que nada explica: “Deus é o ser absoluto, Deus é o ser necessário e infinito.” Nestas condições, prefiro explicar-me nestes termos, nem é outro o pensamento dos verdadeiros teólogos inspirados na filosofia independente: “Deus é a força que move o universo,  a inteligência que dirige a sucessão indefinida dos mundos.”

Mas se Deus deve ser assim compreendido, considere-se bem como é possível imaginá-lo tendo em vista a extensão infinita da natureza. Tudo depende dele: o sol e as estrelas, a matéria e a força, a terra com todas as suas maravilhas, o cosmos com todos os seus mundos, e mais o tempo eterno, o espaço ilimitado. Como podemos compreender e explicar uma inteligência que tudo conhece, uma atividade que tudo regula? E se o que conhecemos da natureza é tão pouco, que ideia é permitido fazer de uma força de que a natureza vem a ser apenas um acidente, sendo que o mundo não existia quando o Criador em um certo momento de sua existência absoluta resolveu tirá-lo de nada? E se ele o tirou de nada, é bem de ver que pode ainda e quando queira, de novo reduzi-lo a nada. De modo que todo esse maravilhoso universo, tão deslumbrante e tão vasto, é uma simples criação acidental dessa força desconhecida, uma coisa que foi tirada de nada e que pode ser reduzida a nada, à maneira das criações humanas. Mas a experiência demonstra:

1) que o movimento é contínuo;
2) que a matéria é indestrutível.

Tais são os dois princípios fundamentais da física moderna. Mas se o movimento que se opera na natureza é contínuo, como pode ter tido um começo; se a matéria é indestrutível, como pôde ser criada? Depois, nós não podemos conceber um começo, nem tampouco um limite para o tempo, do mesmo modo que não podemos de forma alguma conceber a não existência do espaço. É assim que a própria Bíblia diz: “No começo era o caos.” Mas caos não é a mesma coisa que nada. Caos supõe espaço. Portanto, segundo os próprios termos da Bíblia, o espaço não foi criado, existe ab aeterno. E se o espaço pode ser compreendido assim e mesmo não pode deixar de ser compreendido assim, não há razão para que não se diga a mesma coisa da natureza em geral.

A todas estas dificuldades acreditam os teólogos do cristianismo poder responder por esta forma: “Tudo isto é realmente incompreensível, tudo isto constitui um mistério inexplicável, mas foi permitido ao homem elevar-se ao conhecimento deste mistério, porque no começo Deus revelou-se aos profetas; e a Bíblia não é senão a história desta revelação.”

Mas o profetismo é poesia, demonstra-o a crítica religiosa pelo órgão dos mais nobres pensadores do século. Além disto, se os livros sagrados dos hebreus são a expressão das verdades eternas, a revelação de um poder superior às forças da natureza, por que razão não se deve admitir a mesma coisa quanto aos livros sagrados das outras civilizações primitivas? Qual o critério para decidir entre Zoroastro e Moisés, entre Sakiamuni e Jesus? E se alguma comparação pode estabelecer-se, o que há de mais elevado, segundo o testemunho de todos os sábios, que a religião primitiva dos árias na Índia?

Vejamos, para não falar por conta própria, como a esse respeito se exprime Schopenhauer, um dos espíritos mais lúcidos que já se dedicaram ao estudo da filosofia indiana e um dos representantes mais enérgicos do pensamento alemão contemporâneo:

“Nunca mito nenhum se aproximou, nunca mito nenhum se aproximará da verdade acessível a uma pequena elite, da verdade filosófica, mais do que fez essa antiga doutrina do mais nobre e do mais velho dos povos: antiga e sempre viva, porque conquanto degenerada em muitos detalhes domina sempre as crenças populares, exerce sempre sobre a vida uma ação vigorosa, hoje, como há milhares de anos. É o non plus ultra do poder de expansão do mito.”

E depois de tratar dos sacerdotes que são pela civilizada Europa enviados aos brâmanes, para lhes levar por compaixão uma doutrina nova, para lhes ensinar que foram feitos de nada e que devem ficar penetrados de gratidão e de alegria, acrescenta:

“A sabedoria primitiva da raça humana não se deixará afastar de seu curso por uma aventura sucedida em Galileia. Não, mas a sabedoria indiana refluirá ainda sobre a Europa e transformará de todo nosso saber e nosso pensamento.” [4]

Quanto à possibilidade de realizar-se esta previsão, nada é permitido dizer; mas o que é certo, é que se existe na filosofia indiana muita coisa elevada e profunda, nada ficará perdido, porque as produções do espírito são também indestrutíveis como todas as operações da natureza. O que passa, o que muda é a forma; mas o elemento substancial permanece inalterável. É assim que já na civilização ocidental muita coisa existe que parece haver sido deduzida da filosofia dos Vedas ou pelo menos temperada na alta sabedoria destes primeiros mestres da humanidade: e Pitágoras, Sócrates, Platão beberam na Índia. [5]

Ao próprio Cristo não foi por certo estranha a religião dos hindus e sua vida tem muitos pontos de contato com a de Sakiamuni, para não ser absurdo sustentar que houve entre eles através do tempo e por vias desconhecidas, comunicação mais ou menos direta. É assim que Sakiamuni, que viveu sem dúvida mais de mil anos antes de Cristo, era, como Cristo, ao mesmo tempo Deus e homem, tendo vindo ao mundo para remir a humanidade; como Cristo nasceu de uma virgem que o deu à luz sem deixar de ser pura, e adoraram-no reis, ouvindo-se suavíssimos cantos, quando nasceu a maravilhosa criança; como Cristo, rodeou-se de discípulos a quem explicava os preceitos da lei nova e ensinava os remédios com que se poderá salvar o mundo do abismo da perdição, e terminou afinal no patíbulo. E quando o mártir expirou, tremeu a terra, e o céu cobriu-se de trevas.

Não perdeu-se, entretanto, o trabalho de Sakiamuni, nem foi inútil o seu sacrifício. Tendo-se interessado por todas as fraquezas, como por todas as dores, ensinou a lei da virtude, dando como compensação àquele cuja boca sempre pura nunca houver deixado passar uma mentira, esta recompensa que, segundo Schopenhauer, só podia ser representada por um concerto negativo: non assumes iterum existentiam apparentem. Ou mais claramente, segundo a doutrina nova, posterior aos Vedas: “Tu chegarás ao Nirvana, - lá onde não encontrarás mais estas quatro coisas: o nascimento, a velhice, a enfermidade, a morte.” E seu ensino, se bem que por vias desconhecidas[6], transmitiu-se às gerações do futuro.

Resta agora que por fusão permanente e indestrutível se combinem de modo a fazer de toda a humanidade um só corpo, os dois centros de civilização em que se divide o mundo: a civilização oriental estabelecida além das montanhas que limitam a China e representada hoje principalmente pela raça amarela, conquanto originada dos árias na Índia; e a civilização que partindo da Ásia ocidental, veio a estabelecer-se na Europa, passando da Europa para a América e para a Austrália, representada principalmente pela raça branca: uma presidida pela religião de Sakiamuni e de Brahma; outra, pela religião de Jesus.

Será esta, me parece, a revolução do futuro. Mas para que essa revolução se realize de modo eficaz e duradouro, é preciso que tenha ao mesmo tempo por termo e por ponto de partida o estabelecimento de uma nova religião, porque, como diz Lange, a era nova não triunfará senão sob a bandeira de uma grande ideia.

Vê-se assim claramente que a teologia cristã nada produz que possa satisfazer às exigências do espírito, não constrói uma doutrina que esteja de acordo com as verdades já reconhecidas e proclamadas pela ciência, não resiste à crítica, nem satisfaz à razão. Em primeiro lugar, não se funda nos processos da lógica, mas unicamente na autoridade da revelação, e sendo essa pretensão partilhada igualmente por todas as outras religiões, não há razão para que sejam aceitos de preferência os princípios do catolicismo. Depois, a revelação não é senão a explicação da religião pelo milagre; e o milagre concebido como um fato contrário à natureza e superior à natureza é “pura e simplesmente um absurdo”. [7] É o que ficou já devidamente explicado e rigorosamente provado desde Spinoza, que não via nos milagres das Santas Escrituras, senão fenômenos naturais que excedem ou se acredita que excedem a extensão da inteligência humana. [8]

Há muitas religiões: assim o cristianismo, assim o bramanismo, o budismo, o islamismo e muitas outras. Todas elas dão-se como revelação da divindade, de modo que a revelação é um fato geral comum a todas as religiões. Nestas condições em vez de poder uma delas contestar a autenticidade de todas as outras, considerando-se como a única que tem o direito de apresentar-se como revelação verdadeira, ao contrário é do estudo comparado das diferentes religiões que se deve partir para a explicação natural da revelação. [9]

E recorra-se à história dos primeiros povos, trate-se de submeter a um rigoroso exame os documentos mais importantes das idades primitivas: ver-se-á de modo a não poder haver dúvida que a revelação ou intervenção da divindade nos negócios do mundo não foi senão um expediente de que lançaram mão os primeiros legisladores, no intuito de levar por este meio a convicção ao espírito de povos incultos.

Tal era ainda o expediente de que lançava mão Numa Pompílio, no tempo dos romanos, quando fazia crer a seus governados que era inspirado por uma ninfa, com o fim de convencê-los da elevação das leis que decretava.

Não é, pois, do catolicismo, não é da teologia cristã, como não é de nenhuma das outras religiões reveladas, que sairá a verdade que há de fazer a luz na consciência dos homens. Todas estas religiões remontam a um passado de que não há memória e colocam o princípio das coisas num mundo desconhecido e invisível a cuja concepção não nos é permitido chegar senão por inspiração sobrenatural. Mas a verdade, como a luz, deve estar na natureza mesma. Deixando, por tudo isto, de lado a teoria cristã, porquanto nunca nos poderá levar a nenhum resultado preciso, consideremos a teologia racional e a crítica religiosa; ou mais precisamente, consideremos o problema religioso em face da filosofia e da metafisica propriamente dita.

Neste sentido há só neste século uma literatura imensa e para dar somente uma noção aproximada do movimento geral das ideias, seria preciso escrever um livro inteiro. Não posso, porém, aqui passar além de rápidas considerações. Todavia, uma coisa se impõe logo à primeira vista irresistivelmente: é que o espírito humano, libertando-se do jugo da revelação, destruiu as ideias fundamentais da religião, mas nada edificou em lugar delas, de modo que, sobre este assunto, tem sido até agora inteiramente negativa a obra do pensamento.

Há contudo uma escola que pretende haver dado sobre esta matéria a última palavra: é a escola positivista que, conquanto nada resolva positivamente sobre o problema da divindade, todavia sustenta que em relação a semelhante problema não há possibilidade de obter o homem qualquer grau de conhecimento, pelo que é preciso deixar de lado tudo o que se refere a Deus ou emana da teologia, abandonando como absolutamente inacessível ao entendimento humano o domínio das causas primárias ou finais. Fica nosso conhecimento limitado unicamente aos fenômenos sujeitos a leis naturais invariáveis. E se alguma religião é permitida, é unicamente a religião da humanidade. Esta reduz-se em sua essência ao seguinte, nos termos da exposição de Ravaisson:

“Na religião de Augusto Comte não há Deus, não há alma, ao menos alma imortal. O ser supremo é a humanidade. Ele o chama o grande ser. O grande ser tem por origem a terra, fonte comum de todos os seres, que Comte chama o grande fetiche. A terra está no espaço que por sua vez é o grande meio. O grande meio, o grande fetiche e o grande ser, tal é a trindade positivista. O grande fetiche para dar nascimento ao grande ser, fica reduzido, diminuído, sacrificado. Nós lhe devemos um culto de reconhecimento; mas é sobretudo a humanidade que representa a perfeição suprema, e na humanidade é a mulher que deve ser o objeto do culto. O culto é a comemoração dos mortos, e sobretudo das mulheres que realizaram o ideal de dedicação e de ternura; e é nesta comemoração que reside a imortalidade.” [10]

A ideia é generosa no fundo; mas as premissas são falsas e as conclusões absurdas, além de que não há nenhuma originalidade na forma. Vê-se apenas que Augusto Comte quis tornar-se notável pela estranha concepção de uma religião sem Deus, elevando uma abstração, a humanidade, à categoria de grande ser: e é a isto que devem os crentes queimar seu incenso em altares que hão de substituir os altares do cristianismo.

NOTAS:

[1] ABADE SERGENT, “Les enfants de la Bible, Cain et Abel”. (FB)

[2] Ob. cit. (FB)

[3] Pe. GRATRY, “La connaissance de Dieu”, II parte, cap. IX. (FB)

[4] “O mundo como vontade e como representação”. (FB)

[5] “Pitágoras, Sócrates, Platão beberam na Índia”. A ideia é claramente teosófica: Brito reconhece que a sabedoria oriental está na origem da sabedoria ocidental e é mais antiga do que ela.  (CCA)

[6] “Se bem que por vias desconhecidas” - possível alusão às escolas esotéricas e ao discipulado leigo, cujo funcionamento inclui os processos de comunhão de pensamento à distância e telepatia natural.  Veja em nossos websites os artigos “Uma Escola Esotérica de Três Mil Anos” e “Telepatia, a Comunicação Silenciosa”.  (CCA)

[7] Aqui, como em outras oportunidades, Brito faz uma crítica contundente da religiosidade dogmática, tal como vemos nos escritos de Helena Blavatsky e nas Cartas dos Mahatmas. A pseudoteosofia de Annie Besant e outros, no entanto, perdeu a perspectiva da filosofia autêntica, que denuncia as fraudes místicas e as mentiras piedosas. (CCA)

[8] SPINOZA, “Tratado teológico-político”, cap. VI. (FB)

[9] O estudo comparado de religiões e filosofias é precisamente o segundo dos três objetivos do movimento teosófico moderno. (CCA)

[10] RAVAISSON, “Philosophie du dix-neuvième siècle”. (FB)

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Veja também em nossos websites o artigo “Filosofia e Religião”, de Farias Brito, que corresponde ao capítulo dez do volume um de sua obra “Finalidade do Mundo”.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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17 de maio de 2016

A ARTE DE NÃO CONDENAR OS OUTROS

Cabe Observar Seus Próprios Erros, e
Deixar que os Outros Observem os Deles

William Q. Judge 

W. Q. Judge (1849-1896)


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O texto a seguir consiste de uma pergunta e uma
resposta,  divulgadas  originalmente na publicação
periódica “The Theosophical Forum”,  que William
Q. Judge editou nos Estados Unidos entre 1889 e 1896.

(CCA)

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Pergunta:

É verdade que não temos o direito a condenar as pessoas, e que deveríamos condenar apenas a sua conduta?

W. Q. Judge:

Não consigo ver por que razão,  para  treinar o sentido moral, alguém teria que praticar a condenação dos outros. A necessidade de condenação nunca deixará de existir,  se nos dedicarmos a praticá-la,   enquanto esperamos que o mundo fique tão bom que já não haja mais ninguém para condenar. Tenho a impressão de que seria uma  doutrina não-teosófica  afirmar que o nosso senso moral deve, ou pode, ser adequadamente cultivado através da prática da condenação dos outros.

O pensamento citado na pergunta nunca foi visto por seu autor ou autores como algo a ser aplicado às questões de Estado.  Ele se dirige apenas a discípulos que se esforçam por seguir as mais altas regras de conduta. Nós temos tamanha inclinação a condenar os outros e a ignorar as nossas próprias falhas que se recomenda aos  discípulos sinceros, como uma disciplina, cultivar o seu sentido moral observando seus próprios erros, e deixar que os outros façam o mesmo por si mesmos; mas quando a ocasião exige uma condenação, é a ação errada que deve ser condenada.  Isto não se aplica a um juiz, ou a qualquer outra autoridade responsável, ou professor ou guia.  A ideia se  refere apenas  a aqueles que, pensando que o nosso tempo de vida é tão breve que não há tempo para que nos ocupemos com os erros dos outros, preferem aproveitar a sua oportunidade purificando a si mesmos, limpando a sua própria casa, tirando a viga do seu próprio olho. Porque todos os sábios e praticantes de Ocultismo [1] declaram que entre os fatos que se deve necessariamente conhecer está a realidade de que, cada vez que um homem cai na condenação de outro, ele é impedido por tal ação de ver seus próprios defeitos, e mais cedo ou mais  tarde seus defeitos aumentarão. 

Quando um estudante sincero considera que essa afirmativa é correta, ele pensa duas vezes antes de condenar os outros e se dedica ao autoexame  e ao autocontrole. Isso tomará todo o seu tempo. Nós não nascemos para ser  reformadores universais de todos os erros e abusos das outras pessoas, e os teosofistas não podem desperdiçar suas energias criticando outros.  Além disso, tenho sérias dúvidas sobre se  alguém já foi melhorado alguma vez devido às críticas feitas pelos seus conhecidos.  É a disciplina natural, e só ela, que faz o progresso.

Na verdade, tenho observado ao longo de muito tempo que em 99 por cento dos casos, quando alguém  critica constantemente os outros,  os únicos resultados são uma maldosa satisfação consigo mesmo,  por parte do crítico, e raiva ou desprezo por parte da vítima das condenação.   Um exemplo será suficiente, como ilustração,  e é o seguinte: certa noite eu estava saindo de um trem com um amigo que  raramente perde uma oportunidade de assinalar ações erradas ou omissões equivocadas dos outros. Quando ele desembarcava,  um homem mal-vestido bloqueou sua passagem, aparentemente tentando embarcar.  Meu amigo, que era fisicamente forte,  pegou o homem pelos ombros, tirou-o da sua frente e disse: “A regra é que os passageiros devem desembarcar primeiro”.  Resultado: enquanto ele saía dali com a sensação de que havia corrigido adequadamente um erro, o homem o amaldiçoou em voz alta, e pôde ser ouvido ao solicitar  uma oportunidade para usar de violência contra ele.

Assim, para um deles  -  talvez um homem nascido na adversidade -  o único resultado foi raiva e sentimentos destrutivos;   para  o crítico,  o resultado foi um tipo de autossatisfação que é amplamente conhecido por ser inseparável da ilusão.

NOTA:

[1] ‘Ocultismo’ é o estudo filosófico das questões essenciais  da vida, que são ‘ocultas’ ou invisíveis do ponto de vista dos cinco sentidos.  (CCA)

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Traduzido do livro  “Forum Answers”, de William Q. Judge, The Theosophy Co., Los Angeles, EUA, 1982, 142 pp, ver pp. 26-27.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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16 de maio de 2016

A ARTE DE ARREPENDER-SE

Ou a Capacidade de
Renunciar às Fontes do Sofrimento

Carlos Cardoso Aveline


Arrepender-se significa ser capaz de mudar a direção das nossas ações



Não é muito frequente encontrar um texto sobre a utilidade prática do ato de arrepender-se. Até mesmo referências ao assunto são relativamente raras. [1]

O arrependimento pode ser definido como a capacidade de identificar, reconhecer, observar, extrair lições e abandonar - às vezes com profundo desgosto - os nossos erros. Esta é uma prática de grande importância em teosofia, e ela exige um certo grau de coragem.

O pensador indiano B. P. Wadia, um dos líderes históricos da Loja Unida de Teosofistas, escreveu sobre o arrependimento.  Citando outro autor, ele disse que o ato de arrepender-se é:

“Uma força sem nome, que está acima dos cinco sentidos, e que mantém o coração puro.  A estabilidade do ser humano depende da sua confiança nesta força, que também dá mais solidez a todas as boas intenções.” [2]  

O arrependimento nada tem a ver com sentimentos negativos a respeito de si mesmo. Na verdade, constitui o seu oposto.  É necessária autoconfiança e confiança na vida para que haja uma capacidade de olhar de frente para as fontes do sofrimento pessoal - e renunciar a elas.   

O processo do arrependimento pertence ao mundo da ação. Ele inclui a capacidade de mudar para melhor a direção da sua existência pessoal e de compensar, pacientemente, a força acumulada dos erros passados. 

Cada ser humano está sempre rodeado de oportunidades para aprender e renovar a sua vida, e isso inclui o caminho da sabedoria.

Um mestre dos Himalaias escreveu:

“Todo membro [ do movimento teosófico ] que se arrependa verdadeira e sinceramente deve ser aceito de novo.” [3]

A prática da renúncia aos erros pode ser posta em ação diariamente. Tanto a tradição pitagórica como os ensinamentos teosóficos convidam seus estudantes a fazer um exame diário das suas ações, durante o qual eles podem renovar a decisão de abandonar ações erradas e de expandir as ações corretas, perseverando no caminho da verdade.  

A Arte de Pedir Desculpas


Resultado do arrependimento correto, o ato de pedir desculpas nos liberta do erro cometido. Não nos livra das consequências da ação infeliz; mas nos permite tirar lições e evitar a repetição.

Quando falhamos em relação a alguém, devemos pedir desculpas à pessoa com quem fomos injustos, e também devemos pedir desculpas, de algum modo, à nossa própria consciência interior.

Cabe rejeitar honestamente o erro. Isso faz bem à pessoa injustiçada, e faz bem à nossa alma. Não importa se a pessoa com quem fomos injustos também falhou: em teosofia um erro não justifica outro.  A ação correta é incondicional. A ética não é uma troca entre comerciantes.

Cabe pedir desculpas silenciosamente, em nosso coração, às pessoas em relação a quem erramos. A correção interior do erro é válida mesmo na ausência das pessoas injustiçadas, e em qualquer ponto da  linha do tempo: é eficaz inclusive muitos anos depois da injustiça acontecer.  Nunca é tarde para rejeitar um erro e aprender a lição. Sempre é tempo para renascer.

NOTAS:

[1] Veja, no entanto, o meu artigo “Learning From the Feeling of Remorse” (“Aprendendo com o Sentimento de Remorso”), que pode ser encontrado em nossos websites associados.

[2] Do artigo “Of Repentance”, de B. P. Wadia. O texto está disponível online.

[3] “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”,  Ed. Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes.  Ver volume I, Carta 40, p. 187.

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Uma versão do texto acima foi publicada em inglês sob o título “The Art of Repenting” e está disponível  em nossos websites associados desde abril de 2013. 

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Para conhecer um diálogo documentado com a sabedoria de grandes pensadores dos últimos 2500 anos, leia o livro “Conversas na Biblioteca”, de Carlos Cardoso Aveline.


Com 28 capítulos e 170 páginas, a obra foi publicada em 2007 pela editora da Universidade de Blumenau, Edifurb.  

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12 de maio de 2016

O TEOSOFISTA, Maio 2016

 


O pensamento de abertura da edição de maio é o seguinte:        

“Uma absoluta justiça é inevitável: a lei do carma não aceita suborno.”

O texto  “A Verdadeira Esquerda Jamais Defendeu o Crime: Filosofia Marxista Não Apoia Ladrões” começa na capa e conclui à página 4. Na página 5, temos as notas “Possibilidades Ilimitadas” e “A Bênção Que Vem das Plêiades”.

A Força do Som Sagrado” está à p. 6. O leitor encontra “As Cinco Dimensões do Amor” às pp. 7 e 8. O artigo “As Dores da Aprendizagem: Autoconhecimento Como Desafio”, de Arnalene Passos do Carmo, está às pp. 8 e 9.

Outros temas da edição de maio de 2016  de “O Teosofista” incluem:     

* A Má Vontade e a Gratidão;

* O Poder Criativo da Concentração;

* Desapego e Atenção Plena;

* Aspectos da Lei Cíclica;

* A Esquerda Deve Renovar-se;

* O Amor e a Boa Vontade;

* Shakespeare e a Mente Alerta;

* Aprendendo Com os Absurdos;

* A Fraternidade Entre Religiões; e

* Ideias ao Longo do Caminho.

A edição tem 19 páginas e inclui a lista dos textos publicados recentemente em nossos websites.


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A coleção completa de “O Teosofista” pode ser encontrada em sua própria seção temática no website www.FilosofiaEsoterica.com .

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Para conhecer a teosofia original desde o ângulo da vivência direta, leia o livro “Três Caminhos Para a Paz Interior”, de Carlos Cardoso Aveline.

  
Com 19 capítulos e 191 páginas, a obra foi publicada em 2002 pela Editora Teosófica de Brasília.   


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