23 de Maio de 2008

Platão, a Filosofia Platónica e a Eterna Sabedoria


"(...) a filosofia platónica, o mais elaborado compêndio dos abstrusos sistemas da Índia antiga (...)"

"Embora mais de vinte e dois séculos se tenham passado desde a morte de Platão, os grandes intelectuais do mundo ainda se ocupam com os seus escritos. Ele foi, na plena acepção da palavra, o intérprete do mundo. E o maior filósofo da era pré-cristã reflectiu fielmente em suas obras o Espiritualismo e a Metafísica dos filósofos védicos que o precederam há milhares de anos. Vyâsa, Jaimini, Kapila, Vrihaspati, Sumati e tantos outros conseguiram transmitir sua marca indelével, através dos séculos, a Platão e à sua escola. Assim se justifica a inferência de que a mesma sabedoria foi igualmente revelada a Platão e aos antigos sábios hindus. (...)"

"Mas Platão não podia aceitar uma filosofia destituída de aspirações espirituais; ambas as coisas nele se harmonizavam. Para o antigo sábio grego existe um único objecto de interesse: o CONHECIMENTO REAL. Ele só considerava como filósofos autênticos, ou estudantes da Verdade, aqueles que possuem conhecimento do que existe realmente, em oposição às meras aparências; do que existe sempre, em oposição ao transitório; e do que existe permanentemente, em oposição a tudo o que cresce, míngua e alternativamente se desenvolve e destrói. "Muito além das existências finitas e das causas secundárias, das leis, das ideias e dos princípios, existe uma INTELIGÊNCIA ou MENTE [nous, o espírito], o primeiro princípio de todos os princípios, a Ideia Suprema em que se baseiam todas as demais ideias (...)"

"Baseando todas as suas doutrinas na presença da Mente Suprema, Platão ensinou que o nous, espírito, ou alma racional do homem, sendo "engendrado pelo Divino Pai", possui uma natureza semelhante, ou quase homogénea, à da Divindade, e é capaz de perceber as realidades eternas. Essa faculdade de contemplar a realidade de maneira directa e imediata é própria apenas de Deus; a aspiração a esse conhecimento constitui o que realmente se entende por filosofia - o amor à sabedoria. O amor à Verdade é inerentemente o amor ao bem, de sorte que, sobrepujando os desejos da alma, purificando-a e assimilando-a ao divino, e assim governando todas as acções do indivíduo, ele leva o homem à participação e à comunhão com a Divindade, e o devolve à igualdade com Deus."

"Sempre se afirmou que a base dessa assimilação é a preexistência do espírito ou nous. Na alegoria da carroça e dos cavalos alados, dada no Fedro, Platão concebe a natureza psíquica como compósita e dupla: o thumos, ou parte epitumética, formada da substância do mundo dos fenómenos; e o thumoeides, cuja essência se veicula ao mundo eterno. A actual vida terrena é queda e castigo. A alma repousa "na sepultura a que chamamos corpo", e no seu estado incorporado, anterior à disciplina da educação, o elemento noético ou espiritual está "adormecido". A vida é, pois, um sonho, mais do que uma realidade. Como os cativos na caverna subterrânea, descritos n´A República, estamos com as costas voltadas para a luz, percebemos apenas as sombras dos objectos, e acreditamos que elas são realidades verdadeiras. Não é essa a noção de Mâyâ, a ilusão dos sentidos da vida física, que é um dos traços característicos da Filosofia Budista? Mas essas sombras, se não nos entregarmos completamente à natureza dos sentidos, despertam em nós a reminiscência desse mundo superior que habitámos outrora. "O espírito interior guarda uma pálida e vaga lembrança de seu estado pré-natal de beatitude, e um instintivo e proléptico desejo por seu retorno." É incumbência da disciplina da Filosofia arrancá-lo à escravidão do sentido, e elevá-lo ao império do pensamento puro, à visão da verdade, da bondade e da beleza eternas. (...)"

"Assim é o Platonismo. "De Platão", diz Ralph Waldo Emerson, "provêem todas as coisas que já foram escritas e debatidas pelos homens esclarecidos." Ele absorveu a erudição do seu tempo - a da Grécia de Filolau a Sócrates; depois a de Pitágoras na Itália; depois o que ele pode obter da do Egipto e do Oriente. Ele era tão completo que enfaixava em sua doutrina todas as filosofias da Europa e da Ásia, e à cultura e à reflexão ele acrescentou a natureza e as qualidades de um poeta."


In Ísis Sem Véu, Helena Blavatsky, Editora Pensamento, São Paulo, p.73-75.

Nota: Ao que parece, este texto, constante do prefácio de Ísis Sem Véu, foi escrito, em grande parte, pelo erudito platonista Prof. Alexander Wilder.