20 de Junho de 2009

Um Diálogo Sobre a Lei da Vida


Texto retirado do website www.filosofiaesoterica.com

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Carma, Destino e Ética
Estudante A:
Qual é a relação entre a lei do carma e a lei da solidariedade?

Estudante B:
A relação nem sempre é fácil de ver, mas é profunda, e fundamental. Há uma ilusão perigosa na ideia de que “se uma pessoa sofre, é porque ela merece”. Esta crença leva à omissão de solidariedade e, em última instância, à hipocrisia. A pessoa pode não merecer o sofrimento, e isso ocorre em grande parte dos casos. Mas ainda quando ela o merece, é uma ingenuidade acreditar simplesmente que “o carma não é meu, portanto não tenho nada com isso”. Um erro não justifica o outro, e a lei do carma não favorece os egoístas. De que maneira ajudar o próximo, porém, é uma questão complexa. O mero sentimento de simpatia sincera pode ajudar muito. O melhor modo de ser altruísta não é ajudar materialmente este ou aquele indivíduo, e sim trabalhar pelo progresso espiritual da humanidade toda. Mas deixemos isso de lado, por enquanto, e vejamos mais de perto a ideia de que a injustiça e o sofrimento são, frequentemente, imerecidos. Quero dar-lhe apenas cinco exemplos práticos a respeito.

1) Na valiosa lenda dos Evangelhos, Jesus, evidentemente, não merecia ser morto.

2) Nos últimos dois mil anos, a perseguição dos judeus não foi merecida, e nada justifica o massacre promovido no século 20 pelo nazi-fascismo.

3) O genocídio dos indígenas das três Américas nos últimos 500 anos – embora abençoado pelo clero cristão – foi um crime bárbaro e imerecido.

4) As crianças que morrem atualmente por falta de recursos e de médicos nos hospitais públicos brasileiros não merecem a morte.

5) As vítimas inocentes das guerras e do terrorismo nos últimos anos nada fizeram que justifique a violência contra elas.

A responsabilidade cármica por atos de injustiça não é das vítimas, mas de quem comete as injustiças. A valente defesa dos que são injustamente atacados constitui um preceito central em filosofia e em teosofia. Por algum motivo, a pseudo-teosofia e um certo semi-esoterismo frequentemente esquecem deste fato. Esta grave distorção da lei do carma deve ser apontada e esclarecida.

Estudante A:
Você está dizendo que os acontecimentos lamentáveis do tempo presente não são uma conseqüência mecânica do passado. Eles têm uma componente de carma novo, e a repetição cega do passado pode, e deve, ser interrompida. Nada nos impede de criar a cada instante um presente e um futuro melhores.

Estudante B:
Exatamente: existe uma coisa chamada carma novo.
Todo novo carma depende de quem age e não de quem sofre a ação. Mas quem recebe a ação também age, ao decidir como receberá a ação do outro. Para nós, é mais importante ver o presente como sementes de futuro do que frutos do passado. Interessa saber que decisões tomamos a cada momento.

Os Aforismos de Ioga de Patañjali ensinam que o mal que ainda não ocorreu pode ser evitado.
A legislação brasileira estabelece que todo cidadão tem o dever e o direito de interromper e impedir qualquer crime que esteja ocorrendo perto de si. A legislação brasileira não diz em momento algum que a responsabilidade cármica pelos atos de violência é das vítimas. Crimes não devem ser fantasiosamente imaginados como “atos de justiça cármica”.

As “Cartas dos Mahatmas” mostram que tanto a natureza como as pessoas cometem erros e injustiças, inclusive erros graves, que serão dinamicamente corrigidos pela lei do carma.
É verdade que, nos níveis inferiores de consciência, o carma é pesado e funciona de um lado como uma colheita mecânica do que se plantou, e de outro lado como um plantio cego que causará ainda mais sofrimento no futuro. Mas nos níveis superiores, os erros são corrigidos, ao invés de “castigados”; e o carma novo é criado conscientemente na direção correta. É para isso que aponta a teosofia.

O objetivo da lei do carma não é de modo algum punir, mas ensinar a lei da harmonia. Não há ética alguma que justifique cruzar os braços e lavar as mãos diante das injustiças cometidas.

Estudante A:
O Carma é mais um professor do que um juiz.

Estudante B:
Claro. E a lição que ele ensina é a do auto-respeito e da solidariedade.

Estudante A:
Prossiga.

Estudante B:
A fraternidade universal é dinâmica. O carma é a lei que preside a interação entre todos os seres. Ele regula os mais diferentes níveis de realidade do universo e do planeta. Os mestres de sabedoria não estão acima da lei do carma. Eles são mestres precisamente porque se identificaram com a lei do carma no que ela tem de mais elevado. Exatamente por esse motivo, eles não fazem favores pessoais a ninguém. Este é outro fato que a pseudo-teosofia esquece.

O carma é a lei da ética e da harmonização constante. E podemos deduzir que, se existe necessidade de uma constante harmonização, é porque, em Kali Yuga − a era de longo prazo em que estamos − nem todas as ações ou situações são justas, corretas e harmoniosas. Quem pensa que “o sofrimento é sempre merecido” talvez possa dizer a alguém que tenha perdido uma pessoa amada:

“Parabéns, amigo. Seu filho de cinco anos de idade morreu ontem, por falta de socorro em um hospital público. Isso é muito merecido. O carma não falha nunca. Parabéns por corrigir desta forma seus graves erros do passado. Sorria. Fique feliz.”

Quem pensa isso não conhece o funcionamento da lei do carma. Existem milhares de maneiras possíveis de compensar os erros do passado. Algumas são construtivas e curam as feridas. Outras são tão brutais que compensam mas não corrigem, e apenas afundam as almas ainda mais na ignorância, o que levará a mais compensações, que, por sua vez, corrigirão ou não a situação.

Estudante A:
Qual é, então, a alternativa?

Estudante B:
O axioma budista esclarece: “O ódio não se extingue pelo ódio, o ódio só se extingue pelo amor.” Assim, também, o sofrimento não se extingue pelo sofrimento, mas pela compreensão e pela ação correta. A função do movimento teosófico é elevar o nível do funcionamento da lei do carma, para que ela saia do círculo vicioso do ódio e da frustração que se realimentam.
A lei do carma precisa ser compreendida do ponto de vista da compaixão e da alma espiritual, ou não será compreendida. Não há lei do carma que justifique a injustiça praticada no instante presente. Não há carma que legitime a violência e o roubo praticados hoje. Não há carma que justifique a falta de piedade ou solidariedade. Centenas de milhares de pessoas estão morrendo de fome e por violência neste momento em Darfur, na África; e não há carma que justifique esta situação. Há explicações, seguramente; mas nenhuma delas nos exime de agir solidariamente em relação à humanidade. O fato de que somos imperfeitos e de que nossa ação solidária será necessariamente falha tampouco justifica a indiferença ou a inação.

Estudante A:
Observo que os erros obedecem a um movimento pendular, compensando carmicamente uns aos outros. Mas você menciona que nem toda compensação serve para libertar a alma do erro.

Estudante B:
Erros diferentes compensam uns aos outros. Mas este “pêndulo de compensações” não é suficiente para corrigi-los. Na realidade, um erro não pode corrigir outro erro. Um erro só se corrige pela ação correta. Por isso devemos combater a fonte comum de todos os equívocos, e não apenas esta ou aquela ação errada isoladamente. E sem uma solidariedade profunda com quem sofre, não há nem pode haver uma compreensão autêntica da lei do carma. Quando observamos o processo vivo da interação entre Ignorância, Ilusão e Sofrimento, percebemos que é mais eficaz atuar a longo prazo, combatendo as CAUSAS do sofrimento coletivo, e plantando um Bom Carma de Sabedoria para Todos.

Estudante A:
Normalmente se pensa que o carma é uma relação com o passado. Nos diálogos do e-grupo SerAtento, porém, o carma é visto sobretudo como uma relação com o futuro.

Estudante B:
O aspecto mais importante do carma é o carma que está sendo plantado a cada momento. Este é o leme que dá direção à vida. Mas uma parte fundamental do carma do presente consiste em saber como colhemos o carma maduro do passado. A luz astral é sutil e não funciona mecanicamente. O modo como o carma maduro “aterrissará” na terceira dimensão do espaço-tempo convencional está em ABERTO até o momento em que ele toca o chão do plano concreto. Se houver frustração e ódio ao colhê-lo, ele tomará forma de um modo. Se houver humildade, sabedoria e flexibilidade, será um processo diferente. A solidariedade no sofrimento faz uma diferença cármica enorme para quem sofre, e também para quem é solidário. Solidariedade é uma energia búdica. Pertence ao eu superior. E, onde entra a inteligência da alma imortal, tudo se cura e todos se libertam interiormente, mesmo em meio a grandes dificuldades.

Estudante A:
Os omissos erram gravemente ao adotar a pose de sábios, como se fossem “demasiados santos para sujar as suas mãos com a defesa da ética”?

Estudante B:
Sim. Ao lavar as mãos com o ambíguo sabonete da omissão, eles sujam suas almas. É frio, e falso, o raciocínio segundo o qual “o carma dos outros não é meu carma”. É verdade que o carma tem uma forte dimensão individual, mas todos os carmas individuais interagem entre si o tempo todo. Acreditar na separação, pensando que não é preciso ser solidário, impede a ação da alma imortal, cuja inteligência é destituída da ideia ilusória de separação entre “meus interesses” e “interesses dos outros”.

“Tudo que é humano me diz respeito”, escreveu o pensador clássico Terêncio. Os numerosos exemplos de auto-sacrifício individual por uma causa nobre, presentes em toda a história da humanidade, não surgem por acaso. Eles ocorrem porque o foco de consciência do indivíduo sábio está em sua alma espiritual e, portanto, o indivíduo já não vê distinção entre o que é bom para si mesmo e o que é bom para os outros.

Assim, quando a teosofia afirma que o passo inicial na caminhada é querer o bem da humanidade, ela está dizendo que a meta primeira é erguer o foco da sua própria consciência até a alma espiritual. A alma superior busca a felicidade de todos os seres porque obedece, como por instinto, à Lei (cármica) da fraternidade universal.

Estudante A:
Esta visão parece exigir uma certa dose de ética e de coragem.

Estudante B:
Talvez. A atitude com que vivenciamos o sofrimento e a alegria é uma das coisas mais importantes que devemos decidir. Vale a pena ter coragem diante do sofrimento próprio, solidariedade diante do sofrimento alheio, e humildade e moderação diante das nossas vitórias.

Estudante A:
Deste ponto de vista, a lei do carma é uma lei da ética e da solidariedade.

Estudante B:
Sem dúvida. Os aspectos individuais do carma perdem importância, à medida que a compaixão é reconhecida como a Grande Lição a ser aprendida com ajuda da Lei do Carma. Ao agir movido pela boa vontade, o indivíduo ainda errará, sem dúvida. Mas, errando, ele aprenderá; enquanto que aquele que se omite comete um erro do qual não se tira facilmente lição alguma.

O cidadão planetário sabe, por exemplo, que a devastação das florestas não é “um problema cármico das árvores, que devem ter cometido algum erro no passado”. Estudando filosofia esotérica, o cidadão percebe que a teosofia original faz despertar nele um sentimento de co-responsabilidade universal. E ele compreende que este sentimento deverá estar na base e na estrutura das próximas civilizações.

Estudante A:
Sabemos que além de boa vontade é preciso discernimento. Em que condições a ação solidária é eficaz?

Estudante B:
Em sua obra “Sobre o Dever” (Livro I, item XIV), o pensador clássico romano Marco Túlio Cícero estabelece três condições para uma ação generosa.

Em primeiro lugar, diz ele, a ação deve ser justa e não deve prejudicar ninguém. Em segundo lugar, ela deve ser proporcional aos meios e à possibilidade da pessoa que fará o bem.

Finalmente, aquele que é objeto da generosidade deve merecer a ajuda. E é fácil ver que, do ponto de vista teosófico, ninguém merece mais ajuda do que o eu superior ou a alma imortal dos nossos semelhantes. O despertar da inteligência espiritual é a grande meta e também a necessidade histórica da evolução humana no século 21.

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