30 de Março de 2009

"Resiliência, Evolução e Ocultismo"


Texto retirado da Revista BIOSOFIA, n.º30, CLUC, Lisboa, 2007


"…onde se fala, também, dos desafios da sociedade da informação e da lei dos ciclos.

O Que é a Resiliência 
A palavra resiliência entrou recentemente para o vocabulário comum, vinda da psicologia e das ciências sociais, com o significado de resistência psicológica às situações de adversidade.

Mesmo no âmbito da psicologia, onde primeiro apareceu na acepção actual, o termo é bastante novo, podendo datar-se-lhe as referências percursoras ao ano de 1982 – nos Estados Unidos.

Curiosamente, trata-se da apropriação, por analogia, de um conceito há muito utilizado pela física, especialmente pela metalurgia, para referir o “valor da resistência ao choque de um material” 1.

Não é que sejam novas as analogias entre as características dos elementos do reino mineral e as atitudes e especificidades humanas, mesmo em áreas de níveis subtis elevados, como por exemplo no caso da alquimia mais evoluída 2. Mesmo assim, porém, nada faria prever que, tão de repente, nos “moderníssimos tempos” do final do século XX e princípio do século XXI, um conceito tão particular, de uma área tão tecnicamente especializada, viesse a ser apropriado, estudado, teorizado e utilizado no campo prático, sucessivamente, não só pelos vários ramos da psicologia, mas também pelas mais diversas espécies de disciplinas sócio-educativas, de modo tão intenso que o vocábulo começa a instalar-se na linguagem corrente.

Houve, há que sublinhá-lo, entretanto, um refinamento: em termos psicológicos e comportamentais, a resiliência não se reduz à simples resistência decorrente de qualquer tipo de rigidez ou invulnerabilidade, devendo antes ser referida à maleabilidade e à adaptação. Consideram-se, assim, personalidades resilientes, aquelas mais aptas para enfrentar adequadamente experiências adversas, adaptando-se a elas, ou que estão mesmo disponíveis e capazes de nelas encontrar oportunidades para a construção de maiores aptidões e forças renovadas.

Por outras palavras, em suma, resiliência é a capacidade do indivíduo para viver e desenvolver-se de maneira satisfatória, continuando a projectar-se e a construir-se no futuro, apesar (muitas vezes, por causa) de acontecimentos desestabilizantes, condições de vida difíceis, ou situações traumáticas com as quais possa ser confrontado.

Porquê a Resiliência Agora?
Aqui chegados, pode perguntar-se: mas porquê a resiliência agora? O que mudou? Que desafios aumentaram? Por que é tão urgente ponderar, definir e estudar uma “nova” capacidade cuja analogia teve que ser rebuscada junto aos materiais especialmente resistentes à rotura?

A resposta é que os factores de risco e as experiências adversas a que somos submetidos no quotidiano se tornaram tão mais frequentes e intensamente sentidas nos últimos anos, e de tal modo estão a aumentar os “estragos” por elas provocadas na estabilidade emocional e psíquica dos indivíduos, que foi necessário repensar qual a natureza e dimensão actual das forças em jogo e como elas poderão voltar a equilibrar-se.

Resiliência, então, aparece-nos agora como resposta a um crescente desajustamento entre as capacidades psicológicas das pessoas e as exigências da vida a que elas são sujeitas, como resultado dos novos dados e desafios introduzidos pela vida moderna e do stress por eles gerado, cada vez mais, aparentemente, para além das possibilidades de absorção dos indivíduos, que os sentem, crescentemente, como choques traumatizantes.

A tal ponto assim é, que as roturas, mais e mais, se apresentam iminentes a cada momento. A tal ponto assim é, que se fala de uma ameaça à saúde pública. A tal ponto assim é, que se fez urgente perceber como funciona, nas pessoas, essa capacidade de enfrentar as situações adversas, no sentido de melhorar e adequar a resistência do “material”, que é o ser humano, às necessidades dos tempos que correm – já que não parece minimamente realista considerar a possibilidade de diminuir a violência do “esforço”, que são as exigências sociais correntes, num mundo de requisitos e desafios cada vez maiores.

É este o repto que uma série de disciplinas, desde os mais diversos ramos da psicologia até às ciências da educação, como já referimos, se propõem enfrentar.

A Sociedade da Informação
Os desafios da chamada “sociedade da informação” que, cada vez mais, começa a ser a nossa – desafios para os quais não estamos preparados, uma vez que fomos formados no paradigma (industrial) anterior – são inúmeros: a “urgência” de todas as coisas, a “competitividade” económica, as necessidades de “consumo” (tantas vezes criadas artificialmente nas pessoas e, no entanto, elas próprias essenciais à manutenção dos ritmos de produção que é preciso desesperadamente manter), a “rapidez” alucinante a que as “técnicas”, as “tecnologias” e as “competências “ se esgotam e são ultrapassadas, a concomitante necessidade de “novos conhecimentos” e “aprendizagens”, o sempre ameaçador fantasma da “perda do emprego” (que deixa de ser para toda a vida e cada vez é mais precário), etc., etc., etc.

São angústias que se acumulam sobre angústias, medos que se acrescentam todos os dias, sempre forjando “ansiedades que nos matam” 3, na estranheza do que “não somos”, no temor do futuro incerto.

Afinal … a Lei dos Ciclos: Uma História Que Se Repete
Mas será que esta situação de desajuste entre a resistência das pessoas e as condições de vida a que elas têm que responder é assim tão inteiramente estranha à experiência da humanidade? Tudo nos indica que não.

Mesmo fora das situações de guerra e cataclismos, onde são óbvias tais inadequações, nos momentos de transição social, quando se operam as grandes metamorfoses nos padrões da existência, isto acontece sempre; ora de maneira mais limitada, ora de maneira mais abrangente, acontece sempre – quando novos tipos de desafios são colocados às colectividades e durante o tempo que elas levam a adaptar-se.

Este é um problema de todas as épocas, que volta a colocar-se quando as actividades comuns sofrem alterações significativas e bruscas, exigindo “esforços” não habituais, e, por isso, tomados como desproporcionados, como acontece no caso de todas as mudanças de paradigma de produção – a exemplo do que ocorreu na transição das sociedades agrícolas para as sociedades industriais (tão dolorosamente sentida, por exemplo, em Inglaterra); tal e qual sucede, agora, nos nossos dias, nas transformações vertiginosas que se operam, rumo à tal “sociedade da informação” de que falámos.

São as patologias, mais ou menos graves, que decorrem das contradições instaladas nestas alturas, provocando “estragos” individuais e institucionais (como os que vemos todos os dias, quer nos nossos contactos mais particulares quer em acontecimentos mais públicos – alguns constantemente televisionados – como os encerramentos de empresas tecnológica e economicamente ultrapassadas pelas condições emergentes), que vão pressionar sociedades e culturas e obrigar às mudanças nos indivíduos, nas suas características psicológicas e competências específicas, no sentido da adaptação. São mudanças, muitas vezes, profundas e violentamente forçadas.

É o que sucede actualmente, no período charneira em que vivemos, uma vez que:
§ por um lado, as mudanças são requeridas muito rapidamente, não dando tempo para adaptações minimamente lentas e pacíficas;
§ por outro, por via da globalização e da rapidez da transmissão dos hábitos de vida, o problema tem tendência a uma grande massificação.

Mas, embora as dificuldades que se apresentam em tais momentos possam exibir as mais diversas aparências, manifestar-se de maneiras mais ou menos graves e dolorosas, de mais fácil ou difícil resolução, elas são, de facto, sempre e mais uma vez, a expressão do mesmo princípio. É a lei dos ciclos, a eterna espiral dos “retornos” a fazer-se presente. São os mecanismos inexoráveis da evolução a “empurrar” a humanidade no sentido do seu destino último. Na “explicação” de Hegel: a tese que gera a própria antítese; a síntese, resultante do confronto destas duas, que se assume como nova tese e, nessa qualidade, criando nova antítese que se lhe vai opor; a nova síntese que daí decorre; e assim sucessivamente.

Brevemente de Novo
Neste momento, por isso, face a estes “novos dramas” – e ao mal-estar geral criado pelas suas consequências nas pessoas e nas comunidades, “novos saberes”, instrumentos e capacidades de intervenção agitam-se em estudos, análises e verificações, com o propósito de clarificar o assunto, fazer-lhe o diagnóstico e perceber-lhe a terapêutica.

Mais tarde ou mais cedo, mas brevemente, na senda do “habitual”, os próprios automatismos da organização sócio-cultural que, através da mecânica que tende à evolução, desencadearam os problemas e agora tentam percebê-los, começarão a proceder à adaptação das capacidades psico-afectivas, relacionais e sociais dos indivíduos, de modo a adequar as suas “competências comportamentais e sociais” às exigências que eles têm que enfrentar.

Com o tempo, os limiares de rotura serão adaptados e ampliados (pode ler-se: as falhas de resiliência às dificuldades actuais diminuirão), o equilíbrio das forças psico-sociais em presença será restabelecido. E assim vai ocorrer, porque o que antes era considerado complicado ou mesmo traumático, passa a ser encarado como perfeitamente normal ou, quanto muito, de dificuldade aceitável.

Os mais velhos, aqueles que, como nós, foram apanhados nesta época de grandes transformações, terão que se ir adaptando aos dias de hoje e fá-lo-ão melhor ou pior, com maior ou menor resiliência, conforme as suas capacidades e vulnerabilidades particulares, à medida do empenho e disponibilidade que sejam capazes de mobilizar no ajustamento às “verdades” actuais e de acordo com as situações específicas que encontrem. Porque, como dizem os “especialistas” na matéria: “o mesmo ser é vulnerável ou resiliente consoante as circunstâncias” e “um indivíduo resiliente … não se revela resiliente a todo o tempo nem face a tudo” 4.

Quanto aos mais novos, como sempre tem acontecido e sempre continuará a acontecer, através da família, da escola e de todos os outros elementos do seu meio, passarão, desde os primeiros momentos da infância – meio consciente, meio inconscientemente –, a ser objecto de renovados cuidados de “educação” (“afiliação”, “condicionamento”, “treino”, leia-se como se quiser), a “ser pensados”da nova maneira, daquela que agora convém à sua adaptação aos reptos que, hoje, se vão apresentando ao colectivo.

Será assim, até que novos desafios radicalmente diferentes apareçam a exigir mudanças drásticas. E então … tudo vai recomeçar novamente.

E isto não tem nada de mal. Isto corresponde (cito de cor) às ditas “maravilhosas oportunidades disfarçadas de enormes problemas”. Tem sido assim que a humanidade como um todo tem evoluído e ocupado patamares de consciência sempre um pouco mais elevados. Fê-lo através de (pré)conceitos, hábitos, atitudes mentais, automatismos e memórias sucessivamente aprendidas para se defender dos problemas cada vez mais difíceis – gerados por ela própria – que vai encontrando durante a sua existência.

É assim que a evolução se vem processando há muitos milhares de anos. E é assim que a evolução vai continuar, ainda por muito tempo, pelo menos para a maioria.

A Maneira do Ocultismo
O que o Ocultismo propõe é outra coisa. Uma maneira melhor, mais rápida, mais responsável, mais inteligente.

É caminhar à frente da maioria. É não andar a reboque das alterações sócio-culturais para se fazer o próprio processo evolutivo. É ultrapassar os diversos patamares de consciência que há para ultrapassar antes de se ser forçado a isso pelas circunstâncias do meio. É mudar antes de ser obrigado. É, em vez de esperar pelos traumas para evoluir, evoluir ficando imune a qualquer trauma que possa aparecer.

É deixar de “ser pensado” e começar a pensar por si próprio.

É perceber que não podemos esperar que o mundo à nossa volta fique inalterado ou se acomode constantemente a nós, à medida dos nossos desejos e necessidades; mas que é possível mudarmo-nos a nós próprios na capacidade de “absorção” de quaisquer condições externas.

É prepararmo-nos para tomar o “destino” nas próprias mãos, fluindo com ele na forma como ele se nos apresentar, deixando de ficar dependentes das “convulsões” que possam eclodir à nossa volta.

Eis porque o estudo do Ocultismo – do verdadeiro ocultismo – é um dos maiores desafios que a vida nos pode propor.

Vítor Martins

Notas:
1 – Frase adaptada da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

2 – O que pode ser verificado em expressões correntes tais como “vontade de ferro”, “nervos de aço”, “coração de ouro”, ou nos símbolos alquímicos: “enxofre” (espírito), “mercúrio” (alma) e “sal” (quaternário inferior).

3 – Expressão sugerida pelo título “ Que fazer com esta ansiedade que nos mata” da capa da revista XIS, parte do jornal Público de 25 de Novembro de 2006.

4 – Marie Anaut – “a resiliência – ultrapassar os traumatismos”; Climepsi Editores: Lisboa – Portugal