30 de Dezembro de 2009

Conforto versus Luta




"O desejo de paz confunde nossa humanidade, porque se mistura com a futilidade de procurar essa paz através do conforto, tornando este o principal motivo de todos os passos e atitudes que toma. O horror à guerra e um forte anseio de paz não são desculpas para nossa humanidade negligenciar seus deveres nem devem ser tornados álibis para fugir da responsabilidade de lutar a favor da construção e manutenção de um mundo melhor para nós mesmos e para as futuras gerações. A luta gira em torno da prática do que é certo em detrimento do que for errado, de promover a bondade e erradicar a crueldade, banir a arbitrariedade e promover a liberdade. Como essa luta poderia ser feita por seres preguiçosos que só se dedicam a buscar conforto?"


Fonte: www.quiroga.net

29 de Dezembro de 2009

A MAGIA DO FINAL DE ANO

Como o Ciclo Solar Traz 
Iniciações, Grandes e Pequenas


Carlos Cardoso Aveline



O tempo é circular. Tudo o que ocorre ao longo dele é cíclico. Cada final traz um novo começo, e o modo como terminamos um ano das nossas vidas ajuda a definir como será, para nós, o ano seguinte.
Um breve momento é resultado, e semente, de processos imensamente longos. Segundo a filosofia esotérica, também cada ano que passa é um resumo de toda a nossa vida. O final de cada ciclo é oportuno para refletir sobre nossas vitórias e dificuldades, fazer um balanço - e renovar a decisão de viver de maneira  sábia.
As quatro estações do ano correspondem de certo modo às quatro grandes etapas de uma vida humana. A segunda metade do inverno é a infância, que prepara a primavera da juventude. Por enquanto, tudo parece ajudar o nosso desenvolvimento pessoal: somos protegidos e educados, e as tendências da natureza conspiram a nosso favor. Já na primavera e no verão, que correspondem ao período que vai da juventude à meia-idade, se dão os grandes desafios e as principais realizações. Depois vem o outono, a primeira parte da velhice, quando é hora de recolher-se ao fundamental e de substituir com a sabedoria acumulada a força que falha cada dia mais. O ciclo termina com a primeira metade do inverno, a parte final da velhice. Esta é a época da grande renúncia, da travessia de volta para o todo universal, de onde um dia viemos, e de onde no futuro  poderemos emergir novamente para uma outra forma de existência, sem nada lembrar  do ciclo anterior.

O que permite distinguir as quatro diferentes estações é o ciclo anual da distribuição da energia solar. O sol é a grande fonte de vida material e espiritual em nosso planeta. O futuro de cada força vital depende diretamente da sua relação com ele. Muito mais que uma estrela física, o sol é na verdade o logos solar, a fonte espiritual de tudo o que ocorre em cada um dos seus planetas. Assim, o ciclo da luz solar em nosso planeta também constitui um mapa que assinala a longa jornada de cada alma humana, com seus períodos de expansão e retração, crescimento e decadência, morte e ressurreição.

“O ano místico”, escreveu o teosofista Gottfried de Purucker, “contém quatro pontos sazonais, e estas quatro estações, em seu ciclo, simbolizam os principais eventos no progresso da alma imortal ao longo do caminho iniciático (de expansão da sabedoria). Primeiro, o solstício do inverno, que é chamado de Grande Nascimento e ocorre quando o aspirante faz com que nasça Deus dentro de si, e pelo menos durante algum tempo se mantém em unidade com o mundo divino em consciência e em sentimentos. Este é o nascimento do Buda interior, que surge do esplendor espiritual do sol, ou o nascimento do Cristo místico.” [1]

A palavra solstício, de origem latina, significa “sol imóvel”. No momento máximo do verão, o solstício é o momento em que a luz do sol pára de crescer, para voltar a diminuir, abrindo espaço para o outono. Já no auge do inverno, o solstício  indica o momento em que a luz do sol pára de diminuir, para voltar a crescer, preparando a primavera. O solstício do inverno é o momento da noite mais longa do ano, a partir do qual o sol passa a recuperar forças. Daí a ideia de nascimento, ou renascimento. No hemisfério norte, este evento astronômico corresponde ao período do Natal, porque os cristãos adotaram para si a antiga Festa do Sol da tradição pagã.

No hemisfério sul, o solstício de inverno corresponde às nossas festas juninas. Nelas, o fogo noturno simboliza a luz do sol vencendo a noite. A imagem corresponde à  primeira grande iniciação. Há um nascimento espiritual depois de um  longo período probatório em que o buscador da verdade foi duramente testado pela vida. Desperta o Cristo interior, ou seja, a intuição espiritual, a luz de Buddhi. No Novo Testamento, Jesus fala  (para o bom entendedor) da primeira iniciação  ao ensinar: “Em verdade lhes digo que, se não mudarem, e não se tornarem como as crianças, de modo algum entrarão no Reino dos Céus” (Mateus 18: 3-4). A imagem é clara:  o iniciado do primeiro grau é puro como uma criança. O foco da sua consciência nasceu no nível do eu imortal. Sua consciência pode ser ainda como uma criança indefesa, vivendo precariamente e ameaçada por Herodes (o egoísmo circundante); mas já nasceu e está colocada no centro da vida concreta, iluminando todas as coisas.

O segundo grande momento da jornada evolutiva da alma avançada é simbolizado astronomicamente pelo equinócio da primavera, em que o dia e a noite têm forças e dimensões iguais, durante a fase crescente da luz. A palavra “equinócio” também tem origem latina e significa “noite igual”. No Brasil, o equinócio da primavera abre em setembro  a estação em que tudo floresce.

A terceira etapa se abre com o solstício do verão, que corresponde, no hemisfério sul, ao nosso Natal. Aqui a duração do dia chegou ao seu ponto máximo e começa a abrir caminho para o outono. O último grande evento do ciclo é o equinócio do outono, quando a noite alcança o mesmo tamanho do dia, a caminho do inverno que simboliza a morte. Cada inverno, por sua vez, dará lugar a um novo renascimento. 

A visão da jornada da alma humana imortal através de quatro grandes iniciações, até atingir a perfeição, é tão velha quanto a filosofia esotérica - e imensamente mais antiga que o cristianismo. Muitos séculos antes da era cristã, a filosofia oriental já tinha nomes sânscritos para os estágios superiores do caminho espiritual. Uma quinta etapa, a “ressurreição de Cristo” é, na verdade, o despertar - já no reino divino - do grande adepto, mahatma, rishi ou sábio, que teve sua condição humana “crucificada”, isto é, se libertou da roda do renascimento obrigatório.  Esta é a  quinta grande iniciação.

Vale a pena examinar o que ensina a tradição esotérica. A primeira grande iniciação, srotapatti, é marcada pela total ausência de egoísmo no coração do ser humano. A humildade, simbolizada na linguagem cristã pela pobre manjedoura, assinala a ausência de orgulho ou egocentrismo. A presença de vários animais em torno do menino Jesus simboliza a comunhão essencial do iniciado com todos os seres. As estrelas no céu mostram que esta unidade fundamental inclui o universo inteiro. As forças poderosas mobilizadas para uma tentativa de frustrar o seu nascimento simbolizam as provações e testes que a alma deve vencer. Refletem, também, o fato de que uma grande iniciação é um momento de fragilidade e vulnerabilidade, do ponto de vista do mundo externo.

Já a segunda iniciação, sakridagamin, corresponde ao surgimento de um forte intelecto a serviço do coração. É o equinócio da primavera, que traz o predomínio crescente da luz. Na vida de Cristo, corresponde ao momento em que o menino Jesus prega aos doutores no templo (Lucas, 2: 46-49). É o despertar da mente superior, manas, a inteligência livre das aparências, ágil, eclética, capaz de ver com clareza a mesma verdade essencial em todas as boas religiões, ciências e filosofias. Para o iniciado do segundo grau, o pensamento positivo e a ação solidária surgem naturalmente do fato de que ele percebe, sem qualquer esforço, o total domínio da Lei do Equilíbrio sobre a realidade aparente, cujas numerosas armadilhas só enganam o ingênuo e o “astucioso”. Se a primeira iniciação faz enxergar toda vida do ponto de vista da bondade, a segunda coloca uma inteligência de grande poder a serviço do amor altruísta. É a primavera iluminando o mundo.

A terceira iniciação, anagamin, corresponde, como vimos, ao solstício de verão. O sol chegou ao auge e passa a preparar-se para a sua grande renúncia. Na vida de Jesus, é a Transfiguração (Mateus, l7). Num alto monte, o rosto de Jesus “resplandece como o sol”. Em seguida, ele percebe todo o sofrimento que o futuro lhe reserva, sua própria morte e a ressurreição (Mt l7: 22-23). Ao assumir a iniciação anagamin, a alma toma uma firme decisão de ir até o final no doloroso sacrifício da sua condição humana, sabendo que o processo culminará na crucificação da sua personalidade ou aniquilação do seu eu inferior, para que possa renascer no mundo divino.

A quarta iniciação, de arhat, corresponde astronomicamente ao equinócio de outono, e, na vida de Jesus, à crucificação. É a chegada da morte, ou inverno, o que possibilitará  o renascimento ou ressurreição além dos limites do universo conhecido. Aqui a alma morre definitivamente para as experiências do reino humano. A quinta iniciação, aseka, corresponde à ressurreição. O adepto, o mahatma, o rishi, o Imortal - simbolizado por Jesus no Novo Testamento - ressurge em um reino superior ao humano e  está livre do sofrimento tal como o conhecemos,  mas ainda guia nossas almas no caminho do bem.

Há pelo menos duas conclusões práticas a serem tiradas desta jornada mágica das almas mais evoluídas da nossa humanidade.

A primeira delas é que podemos preparar-nos desde já para metas divinas, mesmo que elas sejam distantes. Esta opção terá efeitos positivos imediatos em nossa vida. No  momento atual da evolução humana, os espiritualistas não-dogmáticos - capazes de aproveitar o que há de melhor em diferentes religiões, ciências e filosofias - podem preparar-se ativamente para a primeira grande iniciação. Mas não convém ter muita pressa. A ignorância espiritual só desaparece aos poucos, e o processo preliminar  requer, sem dúvida, várias vidas.

Segundo a filosofia esotérica, a alma humana não interrompe seu aprendizado espiritual ao final de uma única existência. Ela renasce repetidamente para ganhar mais experiência e avançar em direção à luz, até alcançar a proficiência - o “adeptado” - e completar o ciclo evolutivo do reino humano. A cada nova encarnação, o aprendizado espiritual é retomado no ponto em que se interrompeu na vida anterior, embora as circunstâncias externas possam ser completamente diversas. Depois haverá outra encarnação, e outra, até as várias iniciações. Finalmente virá a libertação definitiva das limitações humanas. Na visão integral e transcendente proposta pela filosofia esotérica, a vida no planeta Terra constitui uma única e grande onda evolucionária que faz parte da vida mais ampla do cosmo. Em nosso pequeno jardim planetário, as vidas vegetais estão a caminho do reino animal. As almas dos animais estão a caminho do reino humano. Do mesmo modo, nossas almas humanas avançam, lentamente, em direção ao mundo divino. Assim é que circula  a luz divina  pelo universo, reciclando eternamente espírito e matéria.

Preparar-se para a primeira grande iniciação, srotapatti, é abrir terreno para o Natal Interior, isto é, o nascimento de Cristo em nosso próprio coração. Porque, se não encontrarmos o Mestre dentro de nós, “é inútil procurar em outra parte”, como ensina o livro “Luz no Caminho” [2]. Este é o caminho da purificação. É desenvolver a humildade necessária para, primeiro, observar serenamente o movimento do egoísmo dentro de nós, e depois libertar-nos passo a passo do emaranhado de interesses e preocupações egocêntricos, colocando-nos a serviço da verdade e da justiça em todas as dimensões da vida. Assim, aprendemos a identificar-nos com a vida maior e não com a vida pequena ou os impulsos animais de busca de segurança e fuga das expectativas de dor.

A segunda conclusão prática é que a história do Novo Testamento simboliza a vida de todos nós. De certa forma, podemos viver hoje, em nossas vidas diárias, amostras pequenas, mas poderosamente inspiradoras, do significado das cinco grandes iniciações. Os mistérios eternos estão sempre ao nosso lado, prontos para a eventualidade de despertarmos, e inspirando-nos em tudo o que é possível. Quem sabe se agora não é o momento?

Ao final de cada ano ou de cada etapa em nossas vidas, seja ela grande ou pequena, podemos fazer um inventário e perguntar-nos pela nossa capacidade de nascer e renascer a cada dia como crianças livres do passado e  dos processos de rancor, ódio, cobiça e outros sentimentos negativos. Como vive a criança divina em nosso interior? Ainda sabemos renascer?

É possível antecipar algo da segunda iniciação e avaliar, periodicamente, como anda nossa coragem de buscar a verdade, de olhar a realidade além das nossas opiniões e ideias fixas prediletas, de estudar coisas novas e abrir rumos renovadores à nossa vida intelectual, optando pela inteligência do coração e não pela astúcia da mente egoísta. É possível, nos  aspectos da vida em que já podemos ver o anúncio do outono e do inverno, tomar uma firme decisão de renunciar a tudo o que não é de fato nosso, e a cooperar com a vida mesmo quando ela não nos beneficia dando coisas agradáveis, mas nos ensina pelo caminho do desapego e do sacrifício. Assim estaremos vivendo, hoje mesmo, uma parcela infinitamente pequena, mas útil, da terceira iniciação.

Podemos avaliar também as várias e dolorosas “crucificações” que já vivemos nesta vida. Quantos desesperos e derrotas? E quantas lições aprendidas? Qual nossa atitude quando experimentamos crucificações, traições e injustiças? Permanecemos no território da verdade, da ética e do amor altruísta? E quantas vezes, depois da tempestade e da cruz, veio a bonança da ressurreição? Quantas vezes uma nova etapa da vida, primaveril, cheia de promessas e potencialidades, abriu-se inesperadamente diante de nós, apenas porque havíamos sabido sofrer sem ódio ou desespero? A ressurreição é um Natal em um nível mais elevado, assim como o Natal é a promessa da ressurreição total a que nossa alma terá direito um dia.

Por outro lado, o Natal ocorre pouco antes do Ano Novo. Essa proximidade parece refletir sincronicamente o fato de que o nascimento de uma nova consciência, mais sábia, sempre nos abre a possibilidade de um novo começo prático em nossas vidas. Assim, o melhor presépio está em nossos corações e mentes. É ali que acontece, a cada dia, o milagre do nascimento. E da iniciação.


NOTAS:

[1] “The Four Sacred Seasons”,  de Gottfried de Purucker, Theosophical University Press, Califórnia, EUA, pp. 42 a 45 e  73 e seguintes. Veja também o “Dictionary of All Scriptures & Myths”, de G. A. Gaskell, Gramercy Books, Nova Iorque, EUA.

[2] “Luz no Caminho”, de M. C.   


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Sobre a missão do movimento teosófico, que envolve o despertar da humanidade para a vivência da fraternidade universal, veja o livro “The Fire and Light of Theosophical Literature”, de Carlos Cardoso Aveline. 


A obra tem 255 páginas e foi publicada em outubro de  2013 por “The Aquarian Theosophist”. O volume pode ser comprado através de Amazon Books.

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26 de Dezembro de 2009

A eloquência do silêncio





"Um pai desejava a melhor formação mística para os seus filhos. Por esta razão, enviou-os a um reputado mestre de metafísica para que os treinasse espiritualmente. Passado um ano, os filhos regressaram ao lar paterno.
O pai perguntou a um dos filhos sobre o Absoluto e o filho falou demoradamente sobre o tema, fazendo todo o tipo de ilustradas referências às Escrituras, textos filosóficos e ensinamentos metafísicos. Depois, o pai perguntou sobre o Absoluto ao outro filho, e este limitou-se a guardar silêncio. Então, o pai, referindo-se a este último, disse:
- Filho, tu é que sabes realmente o que é o Absoluto."


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Não há poder como o silêncio. 
Buda declarava: "Quando não tiveres nada importante para dizer, guarda um nobre silêncio", ou ainda: "Se não podes melhorar o que foi dito, observa o silêncio."
As palavras não são as coisas nem os factos, e muito menos as experiências. A palavra é um signo convencional, um artifício que muitas vezes engana, limita e falsifica. Como ensinava Lao-Tsé: "Aquele que sabe, não fala." Querer dizer em palavras o que está para além do conhecimento conceptual é impossivel e absurdo. O silêncio é mais revelador do que todas as palavras do mundo, e uma das maneiras mais fecundas de meditação é a do silêncio, ou meditação de esvaziamento, para que brilhe a luz do Ser.



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Retirado do livro: "Os melhores contos espirituais do Oriente" de Ramiro Calle

25 de Dezembro de 2009

A balança...




"Embora a realidade das alterações climáticas não esteja em dúvida, eu tenho de ser honesto, acho que a nossa capacidade de acção colectiva está agora em dúvida e pende sobre a balança."

Barack Obama


Ler:
Artigo de Christopher Flavin, presidente do World Watch Institute

21 de Dezembro de 2009

17 de Dezembro de 2009

Tribos das margens do rio OMO




Uma cultura milenar

O rio Omo, em África, atravessa a Etiópia, o Sudão e o Quénia.

Foi nas suas margens que os arqueólogos encontraram os "Homens de Kibish" um ancestral de 120 mil anos.

Nesta região africana habitam ainda algumas tribos cujo modo de vida se assemelha à pré-história: Dassanesh, Mursi, Hamar, Karo, Bume e Beshadar.

No vale do Rift, onde se encontra a grande fenda africana que separa geograficamente os negros dos árabes, é uma região vulcânica que fornece uma grande diversidade de pigmentos com uma grande variação de cores.Com estes pigmentos, alguns raros, as tribos do rio Omo praticam a sua arte.

Para a cultura Ocidental, estes seres são verdadeiros génios da pintura, pois os seus traços lembram muito a arte contemporânea de Picasso, Miró, Paul Klee e Tapies.

Estas pessoas pintam o seu corpo à velocidade de um "action paint" de Jackson Pollock.

Em poucos minutos, com uma rapidez impressionante, decoram o peito, seios, pernas e pés.

Não usam pincéis, apenas uma habilidade fantástica com a ponta dos dedos.

Trata-se de uma arte ancestral praticada por todos da tribo: idosos, adultos, jovens e crianças.

A aprendizagem ocorre apenas com a simples observação.

Este povo integra-se perfeitamente na natureza, fazendo parte dela e sendo como ela.

A arte deste povo é praticada por ele mesmo. Não há explicação nem teorias.

Por isso, é arte no mais alto grau de pureza.

Cada indivíduo é motivado apenas pelo desejo. O desejo de ser belo, de seduzir e de exteriorizar o prazer.

Mas, o progresso precisa de energia eléctrica.

Há um projecto de construção de uma barragem no rio Omo para uma central hidroeléctrica que vai gerar energia para Adis Abeba, capital da Etiópia.

Infelizmente, o governo daquele país não está nada preocupado com as possíveis consequências nefastas desta barragem para estas tribos.

O rio terá uma redução para um quinto do seu tamanho e irá acabar com as planícies alagadas que são essenciais para a agricultura tribal destes habitantes.

Esta cultura pura, intacta, deve estar, infelizmente, com os dias contados.

Um povo milenar pode-se tornar miserável em questão de dias.

No futuro talvez tenhamos apenas fotografias de Hans Sylvester deste povo fascinante, e da sua riqueza artística, para podermos mostrar às gerações vindouras.

A nova geração da Etiópia terá imensa energia eléctrica para poder apreciar toda esta beleza num computador.

Esperemos que os governantes deste país, ainda muito longe do desenvolvimento, tenham a capacidade para se aperceber que a cultura e as tradições de um povo fazem parte do bem-estar de toda uma nação que se quer desenvolvida e próspera.

Fonte: http://autopoeta.wordpress.com/

Abaixo-assinado organizado com o objectivo de evitar que isso aconteça.

Para colaborar clique aqui:

http://www.thepetitionsite.com/1/save-lake-turkana—stop-the-damming-of-the-omo-river

15 de Dezembro de 2009

14 de Dezembro de 2009

Saramago e o Prémio Nobel da Paz de Barack Obama


O escritor José Saramago, Prémio Nobel da Literatura, escreveu em 9 de Outubro de 2009 algo no seu "Caderno de Saramago" com o qual estamos completamente de acordo. Por isso mesmo, fazemos aqui a transcrição dessas poucas linhas.

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"Falou-se muito de Barack Obama neste blog, alguns dirão que demasiado. Quando uma esperança nasce há que saudá-la conforme o seu merecimento, e este parecia não ter limites.

É possível que comece a dizer-se que o Prémio Nobel da Paz foi prematuro, mas não o é se o tomarmos como um investimento…

Graças a ele talvez Obama ganhe ainda maior consciência de quanto o necessitamos."

De facto, não demorou mesmo muito para que as pequenas mentalidades começassem a dizer que o Prémio Nobel foi imerecido, prematuro, etc. Chegou-se mesmo ao ponto de se afirmar que o Comité do Nobel se tinha vendido ao imperialismo americano, entre muitos outros devaneios. Enfim, o mundo está cheio de anões, que não conseguem enxergar o muito que está para além do muro do seu quintal. Possuídos pela sua visão estreita, pelo seu egoísmo e auto-importância, invejam e conspiram para que todas as esperanças sinceras não se concretizem...

E se tinham chovido críticas à entrega do Prémio Nobel da Paz a Barack Obama, ainda mais críticas surgiram ao seu discurso de aceitação. Estamos em crer que, muitos daqueles que teceram os mais absurdos comentários, não leram sequer o referido discurso. É fácil comentar quando a responsabilidade é mínima, ou quando não se consegue discernir a diferença entre atitudes, princípios e acções. Fácil mesmo é colocar tudo no mesmo saco, dando comodamente os mesmos rótulos de sempre. Afinal, assim se esconde a incapacidade de ver mais profundo e mais longe.

Porque a humanidade precisa que olhemos o mundo com todo o realismo que nos for possível,  com todo o pragmatismo que os assuntos verdadeiramente importantes merecem, com toda a esperança que o momento invoca, transcrevemos aqui o importante discurso que Barack Obama proferiu na cerimónia de recebimento do Prémio Nobel da Paz, em Oslo, no passado dia 10.

Julgamos valer a pena a leitura atenta das suas palavras, porque estamos em crer que, no futuro, este discurso será olhado como um documento histórico de grande valor. No discurso, Obama oferece-nos uma lição de história, de bom-senso e de visão profunda dos problemas imensamente complexos que a humanidade enfrenta, colocando a questão da guerra justa na perspectiva da imperfeição humana e como uma medida excepcional contra forças que espalham a violência indiscriminadamente e em grande escala. Ao mesmo tempo mostra-nos que todo o verdadeiro estadista tenta ir mais além, procurando criar as condições para que uma paz mais duradoura seja possível..”

José Saramago

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Discurso do Prémio
Nobel da Paz Barack Obama

[10 de Dezembro de 2009, Oslo]


Vossas Majestades, Vossas Altezas Reais, distintos membros do Comitê Norueguês do Nobel, cidadãos dos Estados Unidos e cidadãos do mundo:

Recebo esta honra com profunda gratidão e profunda humildade. É um prêmio que diz respeito a nossas mais elevadas aspirações --que, apesar de toda a crueldade e todo o sofrimento do mundo, não somos meros prisioneiros do destino. Nossas ações têm importância e podem conduzir a história na direção da justiça.

Contudo, eu seria omisso se não reconhecesse a controvérsia considerável que gerou sua decisão generosa. Ela acontece em parte porque estou no início, e não no fim, de meu trabalho no palco mundial. Comparadas com as de alguns gigantes da história que já receberam este prêmio --[o médico e pastor franco-alemão Albert] Schweitzer e King, [o diplomata americano George C.] Marshall e [Nelson] Mandela--, minhas realizações são pequenas. E há os homens e as mulheres em todo o mundo que foram encarcerados e espancados na busca pela justiça; aqueles que labutam em organizações humanitárias para aliviar o sofrimento; os milhões não reconhecidos cujos atos silenciosos de coragem e compaixão inspiram até mesmo os mais endurecidos dos críticos. Não posso argumentar contra aqueles que veem esses homens e essas mulheres --alguns deles conhecidos, outros obscuros para todos menos aqueles a quem ajudam-- como sendo muito mais merecedores desta honra do que eu.

Mas talvez o problema mais profundo que cerca a entrega deste prêmio a mim seja o fato de que sou comandante-em-chefe de um país que se encontra no meio de duas guerras. Uma dessas guerras está se concluindo. A outra é um conflito que a América não procurou; um conflito no qual 43 outros países --incluindo a Noruega-- se unem a nós em um esforço para defender a nós mesmos e a todos os países de outros ataques.

Mesmo assim, estamos em guerra, e eu sou responsável pelo envio de milhares de jovens americanos para combater em uma terra distante. Alguns irão matar. Alguns serão mortos. Assim, venho aqui hoje com a consciência aguda do custo do conflito armado, e repleto de perguntas difíceis sobre a relação entre guerra e paz e sobre nosso esforço de substituir uma pela outra.

Essas perguntas não são novas. A guerra, sob uma forma ou outra, apareceu com o primeiro homem. Na aurora da história, sua moralidade não era questionada; ela era simplesmente um fato, como a seca ou a doença --era a maneira com a qual as tribos, e então as civilizações, buscavam poder e resolviam suas diferenças.

Com o passar do tempo, enquanto códigos de leis buscaram controlar a violência no interior de grupos, filósofos, clérigos e estadistas buscaram regular o poder destrutivo da guerra. Surgiu o conceito de uma "guerra justa", sugerindo que a guerra é justificada apenas quando atende a determinadas precondições: se for travada como derradeiro recurso ou para a autodefesa; se a força empregada for proporcional, e se, sempre que possível, os civis forem poupados da violência.

Durante a maior parte da história, esse conceito de guerra justa raramente foi respeitado. A capacidade dos seres humanos de inventar novas maneiras de matar uns aos outros mostrou-se inesgotável, assim como nossa capacidade de isentar de misericórdia aqueles que têm aparência diferente da nossa ou que adoram um deus diferente. As guerras entre exércitos deram lugar a guerras entre países --guerras totais nas quais a distinção entre combatentes e civis perdeu nitidez. Em um prazo de 30 anos, um morticínio dessa espécie iria engolfar este continente por duas vezes. E, embora seja difícil conceber uma causa mais justa que a derrota do Terceiro Reich e das potências do Eixo, a Segunda Guerra Mundial foi um conflito no qual o número total de civis que morreram foi superior ao de soldados que tombaram.

Na esteira de tamanha destruição, e com a chegada da era nuclear, tornou-se claro, tanto para vencedores quanto para vencidos, que o mundo precisava de instituições para prevenir outra Guerra Mundial. E assim, um quarto de século depois de o Senado dos Estados Unidos ter rejeitado a Liga das Nações --uma ideia pela qual [o presidente americano] Woodrow Wilson recebeu este prêmio--, a América liderou o mundo na construção de uma arquitetura para manter a paz: um Plano Marshall e uma organização das Nações Unidas, mecanismos para reger como se travam guerras, tratados para proteger os direitos humanos, prevenir genocídios e restringir as armas mais perigosas.

Esses esforços tiveram êxito de muitas maneiras. Sim, foram travadas guerras terríveis e cometidas atrocidades. Mas não houve uma Terceira Guerra Mundial. A Guerra Fria terminou com multidões jubilosas demolindo um muro. O comércio vem interligando boa parte do mundo. Bilhões de pessoas foram tiradas da pobreza. Os ideais de liberdade, autodeterminação, igualdade e do respeito às leis têm avançado, com tropeços. Somos os herdeiros da perseverança e da presciência de gerações passadas, e esse é um legado do qual meu país se orgulha, com razão.

Uma década depois de iniciado um novo século, essa arquitetura está vergando sob o peso de novas ameaças. O mundo pode não mais estremecer diante da perspectiva de guerra entre duas superpotências nucleares, mas a proliferação nuclear pode elevar o risco de catástrofes. O terrorismo é há muito tempo uma tática, mas a tecnologia moderna permite que alguns poucos homens dominados por uma ira descomunal massacrem inocentes em escala medonha.

Ademais, as guerras entre nações vêm, cada vez mais, dando lugar a guerras no interior de nações. O ressurgimento dos conflitos étnicos ou sectários, o crescimento de movimentos separatistas, insurgências e Estados falidos, vêm cada vez mais prendendo civis na armadilha do caos sem fim. Nas guerras de hoje, muito mais civis do que soldados são mortos; são lançadas as sementes de conflitos futuros, sociedades civis são dilaceradas, refugiados se acumulam e crianças são marcadas para sempre.

Não trago comigo hoje uma solução definitiva aos problemas da guerra. O que sei, sim, é que enfrentar esses desafios vai exigir a mesma visão, o mesmo trabalho árduo e a mesma persistência daqueles homens e mulheres que agiram tão corajosamente, décadas atrás. E vai exigir de nós uma reflexão nova sobre as noções de guerra justa e os imperativos de uma paz justa.

Precisamos começar por reconhecer a verdade dura de que não vamos erradicar os conflitos violentos durante nosso tempo de vida. Haverá momentos em que as nações --agindo individualmente ou em conjunto-- verão o recurso à força como não apenas necessário, mas moralmente justificado.

Faço esta afirmação tendo em mente o que disse Martin Luther King nesta mesma cerimônia, anos atrás: "A violência nunca traz paz permanente. Ela não soluciona nenhum problema social: apenas cria problemas novos e mais complicados." Sendo alguém que está aqui hoje em consequência direta do trabalho de toda a vida de King, sou um testemunho vivo da força moral da não violência. Sei que não há nada de fraco, nada de ingênuo nas crenças e nas vidas de Gandhi e de King.

Mas, como chefe de um Estado que fez um juramento de proteger e defender meu país, não posso me deixar guiar unicamente pelos exemplos deles. Enfrento o mundo como ele é, e não posso ficar parado, sem nada fazer, diante de ameaças contra a população americana. Pois que ninguém se engane: o mal existe no mundo, sim. Um movimento não violento não poderia ter freado os exércitos de Hitler. Negociações não conseguirão convencer os líderes da Al Qaeda a entregarem suas armas. Dizer que a força às vezes é necessária não constitui um chamado ao cinismo --é o reconhecimento da história, das imperfeições do homem e dos limites da razão.

Menciono esse ponto porque em muitos países existe uma ambivalência profunda em relação à ação militar hoje, não importa qual seja a causa. Às vezes, essa ambivalência se soma a uma desconfiança reflexiva em relação à América, a única superpotência militar do mundo.

Contudo, o mundo deve lembrar que não foram apenas instituições internacionais --não foram apenas tratados e declarações-- que levaram a estabilidade ao mundo do pós-Segunda Guerra Mundial. Sejam quais forem os erros que cometemos, a verdade simples é a seguinte: os Estados Unidos da América vêm ajudando a subvencionar a segurança global há mais de seis décadas com o sangue de nossos cidadãos e a força de nossas armas. O serviço e o sacrifício de nossos homens e mulheres uniformizados vêm promovendo a paz e a prosperidade da Alemanha à Coreia e permitiu que a democracia deitasse raízes em lugares como os Bálcãs.

Temos carregado esse fardo não porque buscamos impor nossa vontade. Nós o temos feito em nome do autointeresse esclarecido --porque buscamos um futuro melhor para nossos filhos e netos e acreditamos que as vidas deles serão melhores se os filhos e netos de outros puderem viver em liberdade e prosperidade.

Assim, os instrumentos de guerra têm, de fato, um papel a exercer na preservação da paz. Entretanto, essa verdade precisa coexistir com outra: a de que, não importa quão justificada seja, a guerra promete tragédias humanas. A coragem e o sacrifício do soldado são cheios de glória, expressando devoção a seu país, à causa e a seus companheiros de armas. Mas a guerra, em si, nunca é gloriosa, e jamais devemos alardeá-la como tal.

Assim, parte de nosso desafio consiste em conciliar essas duas verdades aparentemente inconciliáveis-- que a guerra às vezes é necessária e que a guerra é, em algum nível, uma expressão de sentimentos humanos. Concretamente, precisamos direcionar nosso esforço à tarefa que o presidente Kennedy pediu, muito tempo atrás. Ele disse: "Busquemos uma paz mais prática, mais alcançável, baseada não em uma revolução repentina na natureza humana, mas em uma evolução gradual das instituições humanas."

Qual poderia ser a aparência dessa evolução? Quais poderiam ser esses passos práticos?

Para começar, acredito que todos os países --fracos e fortes em igual medida-- precisam pautar-se por padrões que rejam o recurso à força. Como qualquer chefe de Estado, eu me reservo o direito de agir unilateralmente se isso for necessário para defender meu país. Não obstante, estou convencido de que pautar-se por padrões fortalece aqueles que o fazem e isola --e enfraquece-- os que não o fazem.

O mundo se uniu em torno da América após os ataques de 11 de setembro e continua a apoiar nossos esforços no Afeganistão, devido ao horror daqueles ataques sem sentido e devido ao princípio reconhecido da autodefesa. Do mesmo modo, o mundo reconheceu a necessidade de enfrentar Saddam Hussein quando ele invadiu o Kuait --um consenso que transmitiu a todos uma mensagem clara sobre o custo da agressão.

Ademais, a América não pode insistir que outros obedeçam as regras do caminho se nós mesmos nos recusarmos a obedecê-las. Pois, quando não o fazemos, nossa ação pode parecer arbitrária e pode solapar a legitimidade de intervenções futuras, por mais justificadas que possam ser.

Isso se torna particularmente importante quando a finalidade da ação militar vai além da autodefesa ou da defesa de uma nação contra um agressor. Mais e mais, todos nós enfrentamos perguntas difíceis sobre como prevenir a matança de civis por seus próprios governos ou sobre como pôr fim a uma guerra civil cujo sofrimento e violência podem engolfar uma região inteira.

Acredito que a força pode ser justificada por motivos humanitários, como foi o caso nos Bálcãs, ou em outros lugares que foram marcados pela guerra. A inação fere nossa consciência e pode levar a intervenções mais custosas mais adiante. É por isso que todas as nações responsáveis precisam subscrever o papel que forças militares dotadas de um mandato claro podem exercer para manter a paz.

O compromisso da América com a segurança global nunca irá esmorecer. Mas, em um mundo em que as ameaças são mais difusas e as missões são mais complexas, a América não pode atuar sozinha. É esse o caso no Afeganistão. É esse o caso em Estados falidos como a Somália, onde ao terrorismo e à pirataria se somam a fome e o sofrimento humano. E, lamentavelmente, vai continuar a ser o caso em regiões instáveis ainda por anos.

Os líderes e soldados dos países da Otan --e outros amigos e aliados-- demonstram essa verdade através da habilidade e coragem que vêm manifestando no Afeganistão. Em muitos países, porém, existe uma desconexão entre os esforços daqueles que servem e a ambivalência do público mais amplo. Compreendo porque a guerra não é popular. Mas também sei do seguinte: a crença na ideia de que a paz é desejável raramente é suficiente para se alcançar a paz. A paz requer responsabilidade. A paz implica em sacrifício. É por isso que a Otan continua a ser indispensável. É por isso que precisamos reforçar a ONU e os esforços regionais de manutenção da paz, não deixando a tarefa a cargo de alguns poucos países. É por isso que honramos aqueles que retornam para casa depois de atuar em missões de manutenção da paz e treinamento no exterior, de Oslo a Roma; de Ottawa a Sydney; de Daca a Kigali --os honramos não como fazedores de guerra, mas como fazedores da paz.

Permitam que eu apresente um último ponto relativo ao uso da força. Ao mesmo tempo em que tomamos decisões difíceis sobre travar guerras, também precisamos refletir claramente sobre como as travamos. O Comitê do Nobel reconheceu essa verdade ao entregar seu primeiro prêmio da paz a Henry Dunant --fundador da Cruz Vermelha e força motriz por trás da Convenção de Genebra.

Onde a força se faz necessária, temos um interesse moral e estratégico em nos pautarmos por certas regras de conduta. E, ao mesmo tempo em que enfrentamos um adversário cruel que não se pauta por norma nenhuma, creio que os Estados Unidos da América precisam continuar a ser os defensores dos padrões na condução da guerra. É isso o que nos torna diferentes daqueles que combatemos. É essa a fonte de nossa força. Foi por isso que proibi o uso de tortura. Foi por isso que ordenei o fechamento da prisão de Guantánamo. E é por isso que reafirmei o compromisso da América em respeitar a Convenção de Genebra. Nós nos perdemos quando comprometemos os próprios ideais que lutamos para defender. E honramos esses ideais ao defender e respeitá-los não apenas quando fazê-lo é fácil, mas quando é difícil.

Falei sobre as questões que precisam estar presentes com toda seriedade em nossas mentes e nossos corações quando optamos por travar a guerra. Mas quero falar agora sobre nosso esforço para evitar tais escolhas trágicas e mencionar três maneiras pelas quais podemos construir uma paz justa e duradoura.

Em primeiro lugar, ao tratar com as nações que infringem as regras e as leis, acredito que precisamos desenvolver alternativas à violência que sejam suficientemente duras para mudar comportamentos --pois, se quisermos uma paz duradoura, as palavras da comunidade internacional precisam significar alguma coisa. Os regimes que infringem as regras precisam ser responsabilizados por isso. As sanções devem cobrar um preço real. A intransigência precisa ser respondida com pressão aumentada --e tal pressão só existe quando o mundo se posiciona junto, como um só.

Um exemplo urgente é o esforço para prevenir a proliferação de armas nucleares e para buscar um mundo sem essas armas. Na metade do século passado, nações concordaram em pautar-se por um tratado cuja barganha é clara: todos terão acesso à energia nuclear pacífica; aqueles que não têm armas nucleares abrirão mão de tê-las, e aqueles que as têm vão trabalhar para buscar o desarmamento. Estou engajado em respeitar esse tratado. Esse é um dos pontos fundamentais de minha política externa. E estou trabalhando com o presidente [Dmitri] Medvedev para reduzir os arsenais nucleares da América e da Rússia.

Mas cabe também a todos nós insistir que países como o Irã e a Coreia do Norte não burlem o sistema. Aqueles que alegam respeitar as leis internacionais não podem desviar seu olhar quando essas leis são desrespeitadas. Aqueles que se preocupam com sua própria segurança não podem ignorar o perigo de uma corrida armamentista no Oriente Médio ou no leste da Ásia. Aqueles que buscam a paz não podem ficar parados, sem nada fazer, enquanto nações se armam para a guerra nuclear.

O mesmo princípio se aplica aos que violam a lei internacional, brutalizando suas próprias populações. Quando ocorrem genocídio em Darfur, estupros sistemáticos no Congo ou repressão na Birmânia [Mianmar], é preciso haver consequências. E, quanto mais unidos estivermos, menos provável é que sejamos confrontados com a escolha entre intervenção armada e cumplicidade na opressão.

Isso me leva ao segundo ponto do qual quero tratar: a natureza da paz que buscamos. Pois a paz não é simplesmente ausência de conflitos visíveis. Apenas uma paz justa, baseada nos direitos e dignidade inatos de cada indivíduo, pode ser verdadeiramente duradoura.

Foi esse insight que moveu os redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, após a Segunda Guerra Mundial. Na esteira da devastação, eles viram que, se os direitos humanos não são protegidos, a paz não passa de uma promessa vazia.

Com demasiada frequência, porém, essas palavras são ignoradas. Em alguns países, a ausência de defesa dos direitos humanos é desculpada com a sugestão falsa de que esses são princípios ocidentais estranhos às culturas locais ou aos estágios de desenvolvimento de uma nação. E, dentro da América, existe há muito tempo uma tensão entre os que se descrevem como realistas ou idealistas --tensão essa que sugere uma opção nítida entre a busca estreita por seus interesses próprios ou uma campanha interminável para impor nossos valores.

Rejeito essa opção. Acredito que a paz é instável onde é negado aos cidadãos o direito de expressarem-se livremente ou exercerem a religião que quiserem, escolherem seus próprios líderes ou se reunirem sem medo. As queixas abafadas e acumuladas formam feridas abertas, e a repressão de identidades tribais e religiosas pode levar à violência. Sabemos que o oposto também é verdade. Apenas quando a Europa ficou livre é que ela finalmente encontrou a paz. A América nunca travou uma guerra contra uma democracia, e nossos aliados mais estreitos são governos que protegem os direitos de seus cidadãos. Não importa a frieza com que sejam definidos, nem os interesses da América nem os do mundo são favorecidos pela negação das aspirações humanas.

Assim, ao mesmo tempo em que respeitamos a cultura e as tradições únicas de países distintos, a América sempre será uma voz das aspirações que são universais. Seremos testemunhas da dignidade silenciosa de reformistas como [a birmanesa] Aung San Suu Kyi; da bravura dos zimbabuanos que foram às urnas para votar, enfrentando espancamentos; das centenas de milhares de pessoas que marcharam silenciosamente nas ruas do Irã. É revelador o fato de que os líderes desses governos temem as aspirações de seus próprios povos mais que o poderio de qualquer outro país. E é responsabilidade de todas as pessoas e nações livres deixar claro para esses movimentos que a esperança e a história estão do lado deles.

Permitam que eu também diga o seguinte: que a promoção dos direitos humanos não pode se limitar a exortações. Em alguns momentos, estas precisam ser somadas à diplomacia cuidadosa. Sei que falta ao diálogo com regimes repressivos a pureza satisfatória da indignação. Mas sei também que sanções sem alcance --e condenação sem discussão-- podem facilitar a continuidade de um status quo paralisante. Nenhum regime repressivo pode avançar por um caminho novo se não tiver a opção de uma porta aberta.

À luz dos horrores da Revolução Cultural, o encontro de Nixon com Mao pareceu indesculpável --mas é certo que ajudou a conduzir a China para um caminho através do qual milhões de seus cidadãos foram tirados da pobreza e postos em contato com sociedades abertas. O diálogo do papa João Paulo [2°] com a Polônia criou espaço não apenas para a Igreja Católica, mas para líderes trabalhistas como Lech Walesa. Os esforços de Ronald Reagan com relação ao controle de armas e a adesão à perestroika não apenas melhoraram as relações com a União Soviética como fortaleceram dissidentes em toda a Europa do leste. Não existem fórmulas simples aqui. Mas precisamos nos esforçar ao máximo para equilibrar isolamento e diálogo, pressões e incentivos, de modo que os direitos e a dignidade humanos sejam promovidos ao longo do tempo.

Em terceiro lugar, uma paz justa inclui não apenas direitos civis e políticos --ela precisa abranger a segurança e as oportunidades econômicas. Pois a verdadeira paz não é apenas a liberdade do medo, mas a liberdade da pobreza. É sem dúvida verdade que o desenvolvimento raramente deita raízes sem segurança; também é verdade que a segurança não existe onde seres humanos não têm acesso a alimento suficiente, a água potável ou aos medicamentos de que precisam para sobreviver. Ela não existe onde crianças não podem aspirar a uma educação decente ou a um emprego capaz de sustentar uma família. A ausência de esperança pode fazer uma sociedade apodrecer desde seu interior.

É por isso que ajudar agricultores a alimentar seu próprio povo --ou ajudar nações a educar seus filhos e cuidar de seus doentes-- não é mera caridade. É também por isso que o mundo precisa se unir para fazer frente às mudanças climáticas. Há pouca dúvida científica de que, se não fizermos nada, enfrentaremos mais secas, fomes e deslocamentos em massa que vão alimentar mais conflitos durante décadas. Por essa razão, não são apenas cientistas e ativistas que pedem ação pronta e decisiva --são os líderes militares de meu país e outros, que compreendem que nossa segurança comum está em jogo.

Acordos entre países. Instituições fortes. Apoio aos direitos humanos. Investimentos em desenvolvimento. Todos esses são ingredientes vitais para promover a evolução da qual falou o presidente Kennedy. No entanto, não acreditamos que tenhamos a disposição ou o poder concreto para completar esse trabalho sem algo mais --e esse algo mais é a expansão contínua de nossa imaginação moral, a insistência em que existe algo irredutível que todos nós compartilhamos.

À medida que o mundo se torna menor, poderíamos imaginar que seria mais fácil os seres humanos reconhecerem quão semelhantes somos, compreender que todos desejamos basicamente as mesmas coisas, que todos esperamos a chance de viver nossas vidas com alguma medida de felicidade e realização para nós mesmos e nossas famílias.

No entanto, em vista do ritmo estonteante da globalização e do nivelamento cultural da modernidade, não deve constituir surpresa que as pessoas temem a perda daquilo que valorizam em suas identidades particulares --sua raça, sua tribo e, possivelmente o elemento mais forte, sua religião. Em alguns lugares, esse medo vem levando a conflitos. Em alguns momentos a sensação que se tem é que estamos retrocedendo. Vemos isso no Oriente Médio, onde o conflito entre árabes e judeus parece estar endurecendo. Vemos isso em países dilacerados por divisões tribais.

Mais perigosamente, vemos isso na maneira em que a religião é usada para justificar o massacre de inocentes por aqueles que distorceram e profanaram a grande religião do islã e que atacaram meu país, partindo do Afeganistão. Esses extremistas não são os primeiros a matar em nome de Deus; as crueldades das Cruzadas foram amplamente registradas. Mas eles nos lembram que nenhuma Guerra Santa pode jamais ser uma guerra justa. Pois, se você crê realmente que está realizando a vontade divina, não há necessidade de contenção --não há necessidade de poupar a mãe gestante, ou o médico, nem mesmo uma pessoa de sua própria fé. Tal visão distorcida da religião não apenas é incompatível com o conceito da paz, mas com a finalidade da fé --pois a grande regra que está no cerne de todas as grandes religiões é que devemos fazer com os outros assim como desejamos que eles façam conosco.

Aderir a essa lei do amor sempre foi o conflito fundamental da natureza humana. Somos falíveis. Cometemos erros. Caímos vítimas das tentações da soberba, do poder e, às vezes, do mal. Mesmo os mais bem intencionados entre nós às vezes deixamos de corrigir os erros que vemos à nossa frente.

Mas não precisamos pensar que a natureza humana é perfeita para que continuemos a acreditar que a condição humana pode ser aperfeiçoada. Não precisamos viver em um mundo idealizado para continuar a lutar pelos ideais que farão dele um lugar melhor. A não violência praticada por homens como Gandhi e King pode não ter sido possível ou praticável sob todas as circunstâncias, mas o amor que eles pregaram --a fé deles no progresso humano-- precisa sempre ser o norte que nos guia em nossa jornada.

Pois, se perdermos essa fé -- se a desprezarmos, tachando-a de tola ou ingênua, ou se a separarmos das decisões que tomamos sobre questões de guerra e de paz--, perderemos o que existe de melhor na humanidade. Perderemos nosso senso de potenciais. Perderemos nosso norte moral.

Como fizeram gerações anteriores à nossa, precisamos rejeitar esse futuro. Como disse o Dr. King nesta mesma ocasião, tantos anos atrás: "Recuso-me a aceitar a desesperança como resposta final às ambiguidades da história. Recuso-me a aceitar a ideia de que o 'ser' da natureza atual do homem o torna moralmente incapaz de buscar o eterno 'deve ser' com o qual ele se defronta para sempre."

Busquemos, então, o mundo que deveria ser --aquela faísca do divino que ainda se agita dentro de alma de cada um de nós. Em algum lugar hoje, no aqui e agora, um soldado vê que está em inferioridade de armas diante do adversário, mas se mantém firme para manter a paz. Em algum lugar hoje, neste mundo, uma jovem manifestante aguarda a brutalidade de seu governo, mas tem a coragem de continuar sua marcha. Em algum lugar hoje uma mãe enfrenta miséria punitiva, mas ainda acha tempo para ensinar seu filho que acredita que um mundo cruel ainda reserva um lugar para seus sonhos.

Vivamos como nos mostra o exemplo deles. Podemos reconhecer que a opressão sempre conviverá conosco e, mesmo assim, lutar pela justiça. Podemos admitir a incorrigibilidade da pobreza, e ainda assim lutar por dignidade. Podemos compreender que haverá guerra, e ainda assim lutar pela paz. Podemos fazê-lo --pois é essa a história do progresso humano; é essa a esperança do mundo inteiro; e, neste momento de desafios, é esse que deve ser nosso trabalho aqui na Terra.



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