12 de agosto de 2014

O LUGAR DE HPB NA LITERATURA MUNDIAL

 Uma Obra Única nos Últimos 25 Séculos

Carlos Cardoso Aveline




Para quem observa com objetividade a evolução da literatura esotérica no período que vai desde 1950 até as primeiras décadas do século 21, há um duplo fenômeno editorial.

De um lado, os livros de Annie Besant e C.W. Leadbeater, antes best-sellers, têm sido abandonados por leitores e editores  devido à superficialidade dos seus conteúdos e aos seus numerosos erros, que o tempo tornou óbvios. 

De outro lado, as obras de Helena P. Blavatsky (1831-1891) ganham novas edições em diferentes idiomas, e os ensinamentos dela atraem cada dia mais mais estudantes e novos pesquisadores.     

Deve-se olhar o conjunto da história humana para compreender a estatura de HPB. Desde que o uso da escrita generalizou-se, gradualmente, em um processo começado em torno de 2.500 anos atrás, poucos  pensadores de qualquer época ou área de conhecimento tiveram, mais de um século depois de sua morte,  as  suas obras ainda publicadas em dezenas de volumes e em vários idiomas ao redor do mundo. HPB está entre eles. 

Mas qual é o perfil do conjunto da obra desta pensadora russa?  

Na bibliografia teosófica, o maior empreendimento editorial do século vinte foi a coleção de 15 volumes dos “Collected Writings”, os “Escritos Reunidos” de H.P.B. em inglês. Ali estão os seus textos curtos, e sua publicação concluiu-se já nos anos 1990.

Além dos “Collected Writings”, cuja importância e valor são extraordinários, temos as  obras mais famosas de HPB,   “A Doutrina Secreta”  e  “Ísis Sem Véu”. Há também “A Voz do Silêncio”, “A Chave Para a Teosofia”, “Glossário Teosófico”,  “Letters of H.P.B. to A.P. Sinnett” (“Cartas de H.P.B. para A.P. Sinnett”), “Transactions of the Blavatsky Lodge” (“Atas da Loja Blavatsky”), “The Inner Group Teachings”(“Ensinamentos ao Grupo Interno de Londres”), e  “From the Caves and Jungles  of Hindustan” (“Das Cavernas e Florestas do Hindustão”). 

Por uma questão de afinidade de conteúdo e unidade de ideias, devemos colocar ao lado da vasta obra escrita de H.P.B. e no primeiro plano da literatura teosófica as “Cartas dos Mahatmas” (editadas por Trevor Barker), as “Cartas dos Mestres de  Sabedoria” (editadas por C. Jinarajadasa), assim como  as obras “Luz no Caminho”, “The Dream of Ravan”, e outros livros clássicos.      

Os livros e escritos de Robert Crosbie, John Garrigues, B. P. Wadia, Subba Row,  Damodar Mavalankar e Eliphas Levi, entre outros, constituem uma valiosa literatura de apoio. 

Com este material, do qual apenas uma pequena parte já está disponível em português, temos hoje uma literatura ou um cânone  filosófico sem igual em extensão e em profundidade.  Um tal conjunto de ensinamentos não tem paralelo no âmbito do movimento esotérico, e também é único na literatura mundial dos últimos 2000 anos. Não há de fato, na literatura humana, um corpo de ensinamentos nem remotamente parecido. 

Outras grandes obras de sabedoria, conhecidas por seu grande porte, são, por exemplo:

* Os escritos de Platão (um pitagórico de 23 séculos atrás);

* A Torá e o Talmude judaico; 

* As grandes obras indianas  (os Vedas, etc.); e

* O vasto cânone budista, o Tripitaka.

Mas só a obra escrita por H.P.B., em cooperação com os Raja Iogues dos Himalaias, nos dá uma  chave universal que permite abrir todas as portas da Torre de Babel do conhecimento humano.  E HPB o faz em uma linguagem relativamente acessível ao público moderno.

A tendência bibliográfica no movimento teosófico tem sido indiscutível, e por bons motivos, portanto.  Os escritos do ensinamento original têm tido o seu valor reconhecido à medida que passa o tempo, enquanto as obras da fase pseudo-teosófica (1900-1935)  caem no esquecimento, assim como outras obras superficiais mais recentes.  Possivelmente, esta tendência natural irá prosseguir. Nas próximas décadas e séculos, a literatura teosófica autêntica deverá chegar a mais idiomas e mais países, influenciando novas gerações de  autores.  

Podemos mencionar um exemplo ibérico de desafio editorial e histórico. A Sociedade de Adyar abandonou na década de 1970, em língua inglesa, a edição adulterada de “A Doutrina Secreta”, que fora “preparada” e  publicada por Annie Besant em 1897.  Não se trata de uma edição inútil para o leitor, e, na ausência de outra melhor, merece ser estudada e é muito útil.  Mas está prejudicada, especialmente nos volumes cinco e seis,  e por isso a própria Sociedade de Adyar abandonou esta edição.  Adyar adotou, em inglês, uma edição igual à original, tal como fazem desde o início a Loja Unida de Teosofistas e a Sociedade de Pasadena. 

No entanto, em português e em espanhol, só a edição defeituosa e pouco legítima de “A Doutrina Secreta”  está disponível até hoje.  

Um estimulante desafio bibliográfico para os estudantes de língua espanhola e portuguesa é promover, nos próximos anos ou décadas, a publicação de edições autênticas e originais desta obra máxima da filosofia esotérica.  O caso de “A Doutrina Secreta” é apenas um exemplo entre outras oportunidades que estão à frente dos teosofistas.

Outro ponto a ser observado diz respeito ao estudo da obra de HPB. Os autores que produziram uma versão adulterada do ensinamento criaram o tabu segundo o qual “é impossível ler HPB”. De acordo com este mito, a obra dela seria “excessivamente difícil”. Assim, apresentaram a sua própria versão falsificada e açucarada de teosofia  como se fosse algo equivalente à obra de H.P.B.

É necessário, por isso, examinar de frente a questão: até que ponto a leitura de H PB é “demasiado difícil”?

Seguramente, a preguiça mental deve ser deixada de lado,  quando vamos ler HPB. Os textos da teosofia autêntica não estão dirigidos ao eu inferior.  Eles estão dedicados e dirigidos aos que querem aprender a ter olhos para ver.  A sua leitura desperta novas conexões cerebrais e um novo tipo de inteligência no estudante, e por isso parece difícil à primeira vista. Trata-se da inteligência espiritual ou buddhi-manásica, a nova inteligência planetária e universal,  a inteligência que permite o verdadeiro auto-conhecimento.

Esta nova inteligência é a marca pioneira das civilizações do futuro.  Sua visão de mundo caracteriza os pioneiros de um novo tipo de mentalidade humana, que é chamada, em filosofia esotérica, de “sexta sub-raça da quinta raça-raiz da humanidade”.  Neste termo técnico, a palavra “raça” não se refere a características físicas, mas sim a um arquétipo psico-espiritual universal, que emerge simultaneamente em indivíduos de todos os povos, raças físicas, castas  e classes sociais, e que emerge através do sentimento e da compreensão da fraternidade universal entre todos os seres, o  que permite vencer pragas sociais como  racismo, nazismo, antissemitismo, destruição do meio ambiente e toda forma de desrespeito pela vida.

O despertar desta nova inteligência é gradual.  Ele pode ser vivido mais diretamente por aqueles que vencem a preguiça emocional e a rotina mental. Para isso, é suficiente tomar a decisão de trilhar  firmemente o Caminho do auto-conhecimento, enquanto se reúne os elementos  da verdade universal espalhados  pelas diferentes tradições culturais, religiosas e filosóficas da humanidade. Os textos de HPB se referem a cada página a muitos autores, realidades, países e épocas  distintas.  Toda atenção é requerida do leitor. Dicionários e uma enciclopédia, além do Glossário Teosófico de H.P.B.,  são muito úteis quando lemos “A Doutrina Secreta”,  “Ísis Sem Véu” e outras obras.  

Em compensação pelo esforço, o estudante é levado a compartilhar sem intermediários a visão intelectual e intuitiva dos Iniciados e dos Raja Iogues. Para tais sábios, a evolução humana é como uma única página aberta do livro da vida; um panorama abrangente que corresponde a um momento da evolução maior do universo e do planeta. A “biografia” ou história de vida do cosmo deve ser compreendida pelo estudante ao mesmo tempo  que ele alcança o conhecimento do seu próprio e verdadeiro  eu.  

NOTA:

[1] “H. P. Blavatsky - a Great Betrayal”, Alice Leighton Cleather, Thacker, Spink & Co., Calcutta, 1922, 96 pp., ver pp. 89-90, nota de pé de página.  

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O texto acima foi publicado pela primeira vez sem indicação do nome de autor em “O Teosofista”, edição de junho de 2008.

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