31 de Maio de 2011

"Neste Chão Tudo Dá"

"Versão reduzida do documentário realizado por Felipe Pasini, Ilana Nina e Monica Soffiatti. "Neste Chão Tudo Dá - semeando conhecimento e colhendo resultados" é um registro informal realizado durante uma viagem pela Bahia sobre o trabalho e o pensamento do agricultor e pesquisador Ernst Gotsch. Além disso, ainda conhecemos a vida de agricultores que conseguiram aumentar a qualidade de vida de suas familias através da prática agroflorestal."


Fonte: www.youtube.com

00000000000000000000


Ernst Götsch é suíço, radicado no Brasil há mais de 20 anos. Iniciou áreas experimentais de Sistemas Agroflorestais em sua fazenda, na zona cacaueira da Bahia, numa terra considerada totalmente improdutiva e transformou essa área numa das terras mais produtivas de toda a Mata Atlântica. Conseguiu reflorestar mais de 300 ha de áreas degradadas em florestas altamente produtivas, sem utilizar adubos químicos ou agrotóxicos, levando ao ressurgimento de 17 nascentes.
Sua visão pioneira da evolução e função das espécies, bem como os princípios de seus sistemas, é aplicável em qualquer ecossistema e constitui uma referência internacional no desenvolvimento de Sistemas Agroflorestais - uma nova visão de agricultura que reconcilia o ser humano com o meio ambiente.


0000000000000000


O PAPEL DA AUTO-DISCIPLINA


Abandono do Supérfluo Fortalece a Vontade Interna


Carlos Cardos Aveline


000000000000000000000000000000

O texto a seguir foi publicado pela
primeira vez no boletim eletrônico
O Teosofista” de agosto de 2008.

0000000000000000000000000000000000



O auto-disciplinado se contenta com
pouco, mas o preguiçoso é insaciável.



O estudante de filosofia esotérica deve agradecer todos os dias à vida,  se enfrenta dificuldades e obstáculos, porque estes são sinais seguros de que ele está sendo capaz de deixar de  lado o caminho da falsidade.  Em compensação, quando  sua  vida estiver demasiado cômoda, ele deve lamentar o fato.  

Nenhum praticante da filosofia teosófica pode saber de que substância é feito,  se não enfrentar momentos que considera “difíceis”.  A preguiça, a indulgência e o despreparo ficam flagrantes e claros – como problemas que podem e devem ser corrigidos – quando a rotina cômoda é rompida e surge algum teste desafiador.  

A auto-disciplina é o abandono voluntário do que é supérfluo, e produz o fortalecimento da vontade própria. Ela antecipa e suaviza as dificuldades externas. Acostumado com uma vida menos cômoda,  o estudante passa a ver como algo fácil de superar aquilo que, para outros, é uma grande dificuldade.

O auto-disciplinado se contenta com pouco, mas o preguiçoso é insaciável. Quando alguém não limita a si mesmo, será limitado pela vida.  Se as dificuldades da vida nos parecem demasiado duras, talvez estejamos sendo demasiado moles com nós mesmos. A auto-disciplina é fonte de humildade e  paz.  É graças à auto-disciplina que alguém pode abraçar a simplicidade voluntária.

Naturalmente, a auto-disciplina só faz sentido se formos capazes de escutar a voz da nossa própria consciência. Para isto, é necessário obter níveis crescentes de auto-conhecimento, isto é, de conhecimento do nosso Verdadeiro Eu.  Dele resulta a auto-disciplina, e da auto-disciplina resulta o auto-conhecimento.  

Estes dois processos produzem uma mente aberta e um coração honesto, e assim ocorre a auto-libertação interior.  Em última análise, portanto, a auto-disciplina leva à liberdade, mas a não-disciplina leva à prisão.


0000000000000000


000000000000000000000000000

Para ter acesso a um estudo diário da teosofia original, escreva a lutbr@terra.com.br
e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento

0000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000

POR QUE OS ANIMAIS SOFREM?


Um Fracasso Ético da “Civilização Ocidental e Cristã”

Helena P. Blavatsky




000000000000000000000000000000000000000000000000


Neste texto vigoroso de 1883, H.P.B. mostra 
o saldo ético negativo  da chamada “civilização 
cristã” em relação aos animais, e especialmente em 
relação aos animais mais evoluídos,  os “irmãos 
menores” da humanidade. Com algumas boas 
e nobres exceções, entre as quais a principal é a 
de  São Francisco de Assis e do franciscanismo, 
o cristianismo ainda hoje desculpa e “autoriza” o 
covarde massacre cotidiano de animais indefesos.
Nesta primeira parte do século 21, nossa civilização
começa a despertar.   Os movimentos de defesa dos 
animais são cada vez mais fortes. O vegetarianismo 
se alastra,  e a consciência ecológica permeia  vastos 
setores  do próprio cristianismo. 


O texto de HPB, porém, permanece plenamente atual.

0000000000000000000000000000000000000000000000000



P. É possível para mim, que amo os animais, obter mais poder do que tenho para ajudá-los em seu sofrimento?

R.  Um autêntico AMOR não egoísta, combinado à VONTADE,  é um “poder”  em si mesmo.  Aqueles que amam os animais devem mostrar sua afeição de maneira mais eficiente do que cobrir seus animais com fitas e levá-los para uivar e arranhar nas competições, em busca de prêmios. 

P. Por que os animais mais nobres sofrem tanto nas mãos dos homens? Não preciso entrar em detalhes ou tentar explicar esta questão. As cidades são lugares de tortura de animais que podem, por qualquer motivo, ser usados e abusados pelo homem! E esses são sempre os mais nobres.

R. Nos Sutras ou Aforismos de Karma-pa, uma seita que é um ramo da grande seita Gelukpa (capuz amarelo) no Tibete,  e cujo nome indica sua doutrina – “os que acreditam na eficácia do Carma” (ação, ou boas obras) – um Upasaka [1] pergunta a seu Mestre: “Por que o destino dos pobres animais mudou tanto ultimamente? Nunca um animal era morto ou tratado injustamente nas imediações de um templo budista ou outros templos na China, antigamente, enquanto hoje em dia eles são mortos e livremente vendidos nos mercados de várias cidades, etc.”  A resposta é sugestiva: . . .
“Não ponha a culpa na natureza por esta injustiça sem igual.  Não procure inutilmente por efeitos cármicos para explicar a crueldade, porque o Tenbrel Chugnyi (conexão causal, Nidâna) não lhe mostrará nenhum. É a indesejada vinda do  Peling (cristão estrangeiro), cujos três deuses ferozes  recusaram-se a dar proteção para os fracos e pequenos (os animais), que é responsável pelos sofrimentos incessantes,  e de fazer doer o coração, de nossos companheiros mudos.”

A resposta à pergunta acima está aqui em poucas palavras. Pode ser útil, ainda que mais uma vez desagradável, dizer a alguns religiosos que a culpa por este sofrimento universal é inteiramente da nossa religião e educação ocidentais.  Cada sistema filosófico oriental, cada religião e seita da antiguidade – bramânica, egípcia, chinesa e, finalmente, o mais puro e nobre de todos os sistemas de ética existentes, o budismo,  ensinam bondade e proteção a cada criatura viva, desde o animal e o pássaro até os seres rastejantes e mesmo o réptil. Só a nossa religião ocidental permanece em seu isolamento, como um monumento ao mais gigantesco egoísmo humano jamais desenvolvido por uma mente humana, sem uma palavra em favor ou proteção do pobre animal. Muito pelo contrário. Porque a teologia, enfatizando uma frase do capítulo jeovístico da “Criação”, interpreta-a como prova de que os animais, como todo o resto, foram criados para o homem! Portanto, a caça se tornou um dos entretenimentos mais nobres das classes superiores. Assim – pobres inocentes pássaros feridos, torturados e mortos aos milhões a cada outono, tudo em países cristãos, para a recreação do homem. Disso também surgiu a maldade, e freqüentemente a crueldade a sangue frio, durante a juventude do cavalo e do novilho, indiferença brutal com seu destino quando a idade os torna incapazes para o trabalho, e ingratidão após anos de trabalho duro para o homem e a seu serviço. Em todos os países que o europeu passa a  dominar,  começa a matança de animais e o seu massacre inútil.

“Alguma vez o prisioneiro matou animais por prazer?”  perguntou um juiz budista numa cidadezinha fronteiriça na China, infestada de piedosos homens de igreja e missionários europeus, a respeito de um homem acusado de ter matado sua irmã. E, diante de uma resposta afirmativa, já que o prisioneiro tinha estado a serviço de um coronel russo, “um poderoso caçador diante do Senhor”, o juiz não precisou de nenhuma outra evidência e o assassino foi considerado “culpado” – com razão, como sua confissão posterior comprovou.

Deve o cristianismo, ou mesmo o leigo cristão, ser culpado? Nenhum dos dois. É o sistema pernicioso da teologia, são os longos séculos de teocracia e o feroz e sempre crescente egoísmo dos países ocidentais civilizados. O que podemos fazer?

NOTA:

[1] Upasaka: discípulo. (NT)

000000000

O texto acima, que mostra o pioneirismo do pensamento de HPB,  foi publicado pela primeira vez em maio de 1888.  Título original: “Why Do Animals Suffer?”  

Ver “Theosophical Articles”, H.P. Blavatsky, Theosophy Company,  Los Angeles, Volume II, 532 pp., 1981, pp. 327-328.

000000000000000000000000

Acompanhe nosso trabalho no Facebook .  Siga-nos pelo Twitter .

Para ter acesso a um estudo diário da teosofia clássica, escreva a lutbr@terra.com.br  e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo  SerAtento.

Em língua inglesa, visite www.theosophyonline.com , www.esoteric-philosophy.com .

0000000000000000000000000

29 de Maio de 2011

Don´t Worry!



This video is the first track on our new album, PFC 2 -- Songs Around The World, coming May 31st! We begin the journey in West Africa, the ancient village of Kirina, Mali. Three instruments start to play and we hear the familiar words "don't worry about a thing, every little thing is gonna be alright." This timeless message invites us on a musical journey through time and space. Together we continue to connect the world through music. - http://www.playingforchange.com

27 de Maio de 2011

James Lovelock e a Terra Como Um Ser Inteligente

De acordo com a Teoria de Gaia, proposta por James Lovelock, a Terra age como um ser dotado de inteligência e capacidade de regular a si mesmo.



Para compreender melhor o pensamento
de Lovelock à luz da Filosofia Esotérica ler:

26 de Maio de 2011

Quando a Água Acaba: Conflitos Climáticos em África



When The Water Ends: 

Africa’s Climate Conflicts



As temperatures rise and water supplies dry up, semi-nomadic tribes along the Kenyan-Ethiopian border increasingly are coming into conflict. When the Water Ends focuses on how the worsening drought will pit groups and nations against one another. See the project at http://mediastorm.com/clients/when-the-water-ends-for-yale360

23 de Maio de 2011

A Opinião Alheia


“Na realidade, o valor e a preocupação constante que atribuímos à opinião alheia ultrapassam, em regra, quase todo o objectivo ponderado, de modo que ela pode ser vista como uma espécie de mania generalizada ou, antes, inata.

Em tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, levamos em consideração a opinião alheia quase antes de qualquer outra coisa, e se fizermos uma análise precisa veremos que dessa preocupação nasce praticamente a metade de todas as aflições e de todos os temores sentidos por nós. Pois a opinião alheia é a origem de todo o nosso amor-próprio - muitas vezes magoado por ter uma sensibilidade doentia -, de todas as nossas vaidades e pretensões, bem como de nosso fausto e de nossa presunção.”

Arthur Schopenhauer, in 'A Arte de Insultar'

22 de Maio de 2011

"Dislexias"

« Volto ao questionável acto de rotular e tratar alunos como "deficientes".

Trago-vos dois episódios, que podem ilustrar uma realidade oculta: há fenómenos de incomunicabilidade nas nossas escolas, cuja responsabilidade não deve ser imputada somente às escolas.

A Bárbara é uma aluna com dislexia. A professora "especial" passa pela sala, duas vezes por semana. Mas já confessou que (afinal) "não é especialista em dislexias (sic) e que, portanto, pouco pode ajudar"… A professora dita "regular" diz que "faz o que pode, mas que não se espere milagres, porque com dezanove alunos mais uma "disléxica" na sala, o tempo não chega para tudo"…

A meio da manhã, diz a professora para a "disléxica": "Vais ficar sem recreio, porque eu não consigo ler o texto que escreveste!". Resposta pronta da Bárbara:

"Tu não consegues ler, mas eu consigo!" A Bárbara é disléxica, mas não é parva.

A dislexia existe! Há necessidade de identificar a dislexia a tempo, de modo que não se converta, definitivamente, num obstáculo ao sucesso e à realização pessoal. E, muito mais que identificar, é imperioso que um especialista, no seio de uma equipa, dê resposta às Bárbaras. Porém, há casos e casos, e bem diferente é o caso do Tito.

O Titinho (como a extremosa mamã lhe chamava) chegou à escola acompanhado de um processo com cinco centímetros de altura. Eram relatórios de psicólogos, mais os dos pedopsiquiatras, mais os relatórios das professoras de educação especial, mais os dos médicos… Veredicto: "disléxico". Tratamento: dois anos sob orientação de uma professora "especial" mais três anos a pastar fichas, no fundo da sala, que a professora regular não era entendida em dislexias.

Uma semana de ociosidade depois, o professor aproximou-se do moço:
Então?... Desde que chegaste, ainda não fizeste nada.

O aluno não estava diagnosticado de autista, mas não deu troco. O mestre insistiu:

E posso saber porquê?

O moço fez ouvidos de mercador.

Não me ouviste? Posso saber porquê, Tito?

Aquele mocetão quase a fazer doze anos de idade, enfim, reagiu:

Eu sou Titinho! Não sou Tito! Você não sabe?

Está bem, Tito. Mas diz-me por que não te vejo trabalhar como os outros meninos.

Você não sabe?

Não, não sei.

Eu, na outra escola, também não fazia nada.

Ai não?...

Não. Só quando a setora do especial lá ia é que eu fazia uns joguinhos.

Ai sim?

É. Está a ver? Eu não fazia nada. E você não me pode obrigar porque…

Esgotada a paciência, o professor interrompeu-o:

Porque é que não fazias nada, na outra escola?

Você não sabe?

Já te disse que não.

É que eu sou disléxico.

Ai, tu és disléxico? Eu sou Luís! E, agora, vais pegar nesta folhinha e vais fazer o que o teu grupo tem no plano para tu fazeres.

Ficou de boca aberta e sem tempo para retorquir. O Tito fez o trabalho que o grupo o ajudou a fazer (a pressão social justa e fraterna resulta sempre…), apesar de "trocar umas letrinhas", como depois comentou, pedindo desculpa pelo que não devia. Perante a afável autoridade do professor e a persuasão exercida pelos colegas do grupo, restava ao Tito escolher entre duas atitudes: ou fazia o trabalho, ou fazia o trabalho… Optou por fazer o trabalho.

Qualquer outro "disléxico" inteligente optaria por essa hipótese.
Imaginava o professor Luís o que se estaria a passar naquela cabecinha: "então este professor não saberá o que é um disléxico?" É claro que o professor sabia. Tanto sabia, que o Titinho – entretanto promovido a Tito pelo grupo – foi fazendo exercícios que o ajudaram a ultrapassar algumas dificuldades. Porém, não todas…

O Tito pendurou o seu casaco, atirando ao chão casacos de colegas. O professor chamou-lhe a atenção. O "disléxico" respondeu: Não são meus!... Pois não eram, mas o Tito apanhou os casacos do chão e pendurou-os nos respectivos cabides.

A mãe do Tito chegou, ao final do dia. Retirou do cabide o casaco do filho, provocando a queda de outro casaco, que estava pendurado num cabide adjacente. O professor fitou a senhora, insistentemente. Apercebendo-se da recriminação no olhar do professor, a senhora exclamou: Não fui eu!....
O professor Luís afastou-se, sem dizer palavra, reflectindo sobre as dislexias familiares, que fazem a infelicidade de muitos Titinhos. »

José Pacheco

In, Jornal "a Página" , ano 16, nº 171, Outubro 2007, p. 6.

17 de Maio de 2011

O TEOSOFISTA - MAIO 2011

O_TEOSOFISTA_MAIO_2011

15 de Maio de 2011

O MISTÉRIO DE ALESSANDRO CAGLIOSTRO

Místico do Século Dezoito
Antecipou Missão de Helena Blavatsky

Carlos Cardoso Aveline


0000000000000000000000000000

O texto a seguir foi publicado
inicialmente no boletim eletrônico
“O Teosofista”, edição de abril de 2011.


000000000000000000000000000000000000000



Conde Alessandro Cagliostro (1743?-1795?),
em  imagem produzida por Robert Samuel Marcuard,
a partir de um quadro de Francesco Bartolozzi

  
“Não venho de nenhum lugar, e não
pertenço a tempo algum. Fora do tempo, 
meu ser espiritual vive sua existência eterna.”

(Alessandro Cagliostro)


O conde Alessandro Cagliostro foi um dos maiores místicos do século 18.   Ele foi também incompreendido e perseguido até a morte -; ou, pelo menos, até o momento em que desapareceu misteriosamente da sua cela, em uma inacessível prisão do Vaticano.  

Todo aquele que contraria a ignorância organizada é alvo de ataques. Segundo a lenda dos evangelhos cristãos, Jesus Cristo foi condenado à cruz como castigo por ser um charlatão.  Cagliostro ainda hoje é chamado de charlatão, assim como ocorre com Saint-Germain, Helena Blavatsky e outros sábios e filósofos de diferentes épocas.

Apesar das calúnias, o trabalho de Cagliostro na segunda metade dos anos 1700 tem uma relação interna com o impulso que um século depois criaria o movimento teosófico moderno,  em 1875. 

Famoso por seu dom de curar, Cagliostro trabalhou em níveis superiores de consciência. Seu esforço se somou às ações de outros pensadores do século 18, entre eles os filósofos iluministas de vários países da Europa. Ele ajudou a provocar grandes transformações sociais. Ele também fez uma tentativa de resgatar o movimento maçônico da sua decadência.   Cagliostro criou em Lyon, na França, em 1786, uma maçonaria aberta à participação de mulheres e para a qual criou um Rito Egípcio.  Mais tarde, Annie Besant e seus seguidores iriam usar o nome “rito egípcio” para fazer um ritual sem valor e sem relação com o rito egípcio autêntico. 

H. P. Blavatsky informa que Cagliostro agia inspirado pela filosofia esotérica dos mestres do Oriente. Ele passou algum tempo na Rússia e na Inglaterra. Depois viveu na França. Perseguido, passou seis meses preso na Bastilha antes de ficar comprovada sua inocência no famoso caso do Colar da Rainha. Seu trabalho pela regeneração do ser humano coincide com o mesmo impulso interior humanista que fez surgir a declaração dos direitos do homem e originou as revoluções norte-americana e francesa.  Os excessos da revolução francesa, que degenerou em uma espécie de terrorismo de Estado, apenas mostram a necessidade da ação pacífica. O ideal básico da democracia e da liberdade do indivíduo é mais atual do que nunca, no século 21.  O lema “Liberdade, Igualdade [de Direitos] e Fraternidade” é hoje a meta da Organização das Nações Unidas e de cada cidadão de boa vontade.

Passo a passo, a civilização se aproxima do momento em que será alcançado o ideal da paz perpétua entre todos os povos,  levantado na segunda metade do século 18 por Jean-Jaques Rousseau, por Immanuel Kant, pelo Barão de Holbach e outros humanistas, ao mesmo tempo que o  místico Cagliostro e o conde de Saint-Germain também trabalhavam, num plano mais esotérico, pela elevação da alma humana.  

Nascido no início da década de 1740, Cagliostro havia trabalhado longamente pelo ideal humanista quando foi preso pela Inquisição do Vaticano na Itália, em dezembro de 1789.

Naquele momento a revolução francesa estava começando. Feito prisioneiro, ele foi levado de uma prisão para outra. Cagliostro foi torturado, longa mas inutilmente, pelos carrascos católicos.  O objetivo dos verdugos do Vaticano era forçá-lo a confessar crimes que não havia cometido.

Em 7 de abril de 1791,  Cagliostro  foi condenado à morte. Seus livros e alguns dos seus objetos maçônicos foram queimados diante de uma multidão, na Piazza della Minerva, em Roma.

H.P. Blavatsky conta que pouco depois aconteceu algo curioso. Um estranho personagem, nunca antes visto no Vaticano, surgiu em Roma e solicitou uma audiência em particular com o Papa. Ao invés de dar seu nome, o desconhecido mandou ao Pontífice, pelo Cardeal Secretário, apenas uma palavra. 

A reação do papa foi receber imediatamente o desconhecido. Depois de alguns minutos de audiência privada, o personagem retirou-se. Em seguida, o papa deu ordens para um procedimento que deveria ser feito no mais absoluto segredo.  A pena de morte a que Cagliostro havia sido condenado deveria ser comutada para pena de prisão perpétua.  O conde de Cagliostro deveria ser encerrado no castelo de San Leo, que ficava no alto de uma rocha, e ao qual só se podia ter acesso por meio de uma cesta elevada e abaixada com uso de roldanas.  Era um elevador primitivo. [1]

Foi dali, há mais de 200 anos, que Cagliostro desapareceu  em 26 de agosto de 1795.

Segundo a versão oficial, ele morreu. De acordo com outras versões, mencionadas por Helena Blavatsky, ele teria saído vivo daquela cela inacessível graças a algum método especial.

Há de fato um mistério sobre o modo como terminou a vida deste personagem. Segundo W. R. H. Trowbridge [2] , que cita H. P. Blavatsky como fonte, ele parece ter saído da prisão de San Leo por um método do qual seus carcereiros não foram informados.  Esta afirmação de HPB está documentada. HPB narra esta possibilidade em seu artigo “Was Cagliostro a Charlatan?”, atualmente publicado em “Collected Writings”, volume XII, p. 88.

Além disso, Trowbridge menciona um relato segundo o qual, alguns anos depois da desaparição de Cagliostro, teria acontecido algo de grande interesse para os teosofistas.  Trowbridge cita HPB como fonte da sua afirmativa, mas não diz em que texto ela escreveu ou quando ela disse o que ele narra.  Segundo Trowbridge, HPB afirmou que Cagliostro foi visto por várias pessoas na Rússia, depois de sua suposta morte em 1795, e que passou algum tempo na casa do pai de Helena Blavatsky. 

A afirmativa de Trowbridge deve ser investigada, porque não está demonstrado que H. P. B. fez tal afirmação.

É certo, porém, que Cagliostro viveu alguns meses na Rússia entre 1779 e 1780.  H. P. B. nasceu no império russo poucas décadas depois da morte de Cagliostro.  Um estudo comparado entre as personalidades e circunstâncias de vida de ambos mostra grande número de elementos similares. H. P. B. escreveu bastante sobre Cagliostro.  Ela também usava a jóia maçônica que pertencera a ele, e que hoje faz parte dos arquivos da Sociedade Teosófica de Adyar, na Índia [3]. 

Em carta a Alfred Sinnett, Helena Blavatsky conta que um colaborador dela, Darbargiri Nath, visitou durante uma hora a cela de prisão em que esteve Cagliostro. Darbagiri pode ter desenvolvido ali alguma atividade meditativa especial.  Na mesma citação, HPB menciona o Sr. Hodgson, um dos que a acusaram de charlatã nos anos 1880:

“Serei eu maior, ou de alguma maneira melhor, do que foram St. Germain, e Cagliostro, Giordano Bruno e Paracelso, e tantos outros mártires cujos nomes aparecem nas Enciclopédias do século 19 com os meritórios títulos de charlatães e impostores? Será carma dos juízes cegos e maldosos - não meu carma. Em Roma, Darbargiri Nath foi à prisão de Cagliostro no forte Sant Angelo, e permaneceu naquele buraco horrível durante mais de uma hora. O que ele fez lá daria ao Sr. Hodgson elementos para outro Informe ‘cientifico’ se ele pudesse investigar o fato.” [4]

É interessante registrar um detalhe numerológico que mostra a relação oculta entre Cagliostro e Helena Blavatsky.  

Cagliostro foi condenado à morte dia 7 de abril de 1791. Helena Blavatsky morreu no dia 8 de maio de 1891, exatamente um século, um mês e um dia depois da condenação  de Cagliostro. 

É consenso em meios esotéricos que no século 18 Cagliostro trabalhou em cooperação com o conde St. Germain. Henry Olcott, co-fundador do movimento teosófico moderno,  escreveu algo significativo sobre uma das pessoas mais próximas de HPB, a sua tia Nadya Fadeef. 

Referindo-se a St. Germain, Olcott disse:

“Se a Sra. Fadeef - tia de HPB - pudesse ser induzida a traduzir e publicar certos documentos da sua famosa biblioteca, o mundo teria um enfoque mais bem informado do que existe até hoje sobre a missão europeia pré-revolucionária deste Adepto Oriental.” [5]

De fato, HPB termina o artigo intitulado “Count de Saint-Germain”, publicado na sua revista “The Theosophist”, com as seguintes palavras:

“Uma pessoa respeitada, integrante da nossa Sociedade [Teosófica] e residente na Rússia, possui alguns documentos sobre o Conde de Saint-Germain que são altamente importantes para resgatar a memória deste que é um dos maiores personagens da época moderna. Esperamos que os elos perdidos da sua história incompleta possam ser publicados em breve nestas colunas.”

Boris de Zirkoff, editor das obras de HPB, acrescenta que tal teosofista morando na Rússia era certamente Nadya, a tia de HPB, e que os documentos mencionados nunca foram colocados à disposição do público. [6]    

Henry Olcott também afirma em suas Memórias que H. P. B. e ele pensaram, em 1878, em fazer com que o movimento teosófico retomasse o trabalho de Cagliostro. [7]

Na primeira metade da sua missão, HPB fez fenômenos psíquicos de certo modo semelhantes aos realizados por Cagliostro.

O estudioso Marc Haven escreveu uma longa e excelente biografia de Cagliostro, “Le Maître Unconnu”. É  um dos poucos estudos de grande  porte sobre Cagliostro que lhe fazem  justiça, e até hoje está publicado apenas em francês. Neste livro vemos o que Cagliostro disse a seus juízes, quando lhe perguntaram quem, afinal, era ele:

“Não venho de nenhum lugar, e não pertenço a tempo algum. Fora do tempo, meu ser espiritual vive sua existência eterna. E se me retiro em minha consciência e retrocedo ao longo do curso das idades, e se levo meu espírito até uma forma de existência que está muito longe da pessoa que vocês vêem diante de si, então me torno um com meu ser espiritual. Enquanto estou conscientemente participando do Ser Absoluto, estou ao mesmo tempo ajustando minha atividade às minhas circunstâncias. Meu nome é o nome da minha função, e eu a escolhi, porque sou livre; meu país é aquele em que eu estiver trabalhando em qualquer momento dado.”

Cagliostro prossegue: 

“Não nasci da carne nem da vontade de seres humanos. Nasci do espírito. Meu nome é coisa minha, e é este com o qual escolhi aparecer diante de vocês, este é o nome que quero. O nome da minha juventude (.....), este eu o deixei como uma roupa velha que não  tem mais utilidade para mim.”.

E ainda:

“Todos os povos são meus irmãos; todos os países são amados por mim. Estou viajando para que por toda parte o Espírito possa descer e encontrar um lugar entre vocês. Peço aos reis, cujo poder eu respeito, apenas hospitalidade em seus países, e quando a recebo, trabalho para estimular, no que é possível, as boas ações.” [8]

Assim como Helena Blavatsky, Alessandro Cagliostro teve coragem e grandeza diante dos seus perseguidores.  Quando o interrogaram sobre suas atividades, ele respondeu: 

“Em cada lugar a que vou, largo uma parte de mim mesmo (....)  deixando a vocês uma pequena claridade, um pequeno calor, uma pequena força; até que, por fim, eu esteja definitivamente no final da minha carreira, no momento em que a rosa florescer na cruz.” [9]

De fato, H.P. Blavatsky escreveu que Cagliostro foi o último dos verdadeiros rosa-cruzes.[10]   As palavras dele no trecho citado acima parecem sugerir duas coisas:

1) Que a missão de Cagliostro incluía várias vidas; e

2) Que sua missão terminaria com a vitória definitiva da sabedoria e da ética universais,  na comunidade humana.

(C. C. A.)

NOTAS:

[1] “Was Cagliostro a Charlatan?”,  artigo de H. P. B. publicado em  “The Collected Writings of H. P. Blavatsky”,  TPH, Adyar, India, volume XII, pp. 87-88.  O artigo completo vai da p. 78 à p. 88. 

[2] “Cagliostro - Maligned Freemason and Rosicrucian”, W. R. H. Trowbridge, Kessinger Publishing Co., Montana, USA, 312 pp., ver  pp. 306-307.

[3] Sobre a acidentada trajetória da jóia maçônica de Cagliostro, veja o artigo “The Mysterious Life and Transitions of the Cagliostro Jewel”, de Nell C. Taylor, na revista “Theosophical History”, edição de julho de 1990, Califórnia, EUA, pp. 79 e seguintes. Discípulos avançados têm a possibilidade de reencarnar rapidamente, porque experimentam em vida altos níveis de consciência e não necessitam, para este “descanso na esfera celestial”, de um longo intervalo entre duas vidas. Segundo alguns pesquisadores, como a autora inglesa Jean Overton Fuller, as encarnações de Paracelso, Cagliostro e H. P. B. podem ter sido três vidas em sequência, da mesma alma imortal, cuja meta é ajudar na preparação de um novo ciclo da evolução humana. As semelhanças entre estas três vidas também podem ser resultado de outras causas. Ver comentário sobre “An Unsolved Mystery”, na Nota sobre fontes bibliográficas, mais abaixo.

[4]“The Letters of H. P. Blavatsky to A.P. Sinnett”, transcribed by A.T. Barker, Theosophical University Press, Pasadena, California, USA, 1973, 404 pp., ver Carta XLVI, p. 110.  H. P. B. dá o nome de Sant Angelo para a Fortaleza. Cagliostro foi preso inicialmente em Sant Angelo. O Vaticano afirma que ele morreu mais tarde na fortaleza de San Leo (“Collected Writings”, ver volume XII,  pp. 86-88.)  Há ilustrações sobre San Leo e a cela supostamente ocupada ali por Cagliostro na obra “Cagliostro”, de Roberto Gervaso (ver nota “Outras Fontes Bibliográficas”, a seguir). 

[5]  “Old Diary Leaves”, Henry Olcott, First Series (volume I), TPH, India, 1974, 490 pp., ver p. 241, nota de pé de página.

[6] “Count de Saint-Germain”, artigo de HPB, em “Collected Writings”, volume III, pp. 125-129, ver p. 129.

[7] “Old Diary Leaves”, Henry Olcott, First Series (volume I), obra citada, pp. 468-469.

[8] “Le Maître Unconnu: Cagliostro” (Etude historique e critique sur la Haute Magie), de Marc Haven, Editions Dervy, Paris, Quatrième Edition, 1995.  Ver  pp.  241-244.    

[9] “Le Maître Unconnu: Cagliostro”, obra citada, ver pp. 242-243.     

[10] “The Collected Writings of H. P. Blavatsky”,  TPH, Adyar, India, volume I, pp. 103-104, artigo intitulado “A Few Questions to ‘Hiraf’ ”.   No mesmo volume, ver também p. 141, texto “The Science of Magic”.

OUTRAS FONTES BIBLIOGRÁFICAS SOBRE CAGLIOSTRO:

Veja, além dos livros e textos citados acima:

* “Rituel de la Maçonnerie Egyptiene”, Édition des Cahiers Astrologiques, Nice, France, Annoté par le Docteur Marc Haven, 1948, 147 pp.

* “Cagliostro et le Rituel de la Maçonnerie Égyptienne”, Robert Amadou, SEPP, Paris, 1996, 117 pp. Ver, às pp. 34-37 deste pequeno livro, uma especulação de Amadou sobre o final dos tempos em torno do ano 2000.

*“L’Esprit Des Choses”, Publication du  C. I. R. E. M., (Centre International de Recherches et D’Etudes Martinistes), France; volume 4 (1995)  et volume 5 (1996).

* “The Phoenix, an Illustrated Review of Occultism and Philosophy”, Manly P. Hall, second edition, The Philosophical Research Society, 1995, 176 pp. ver capítulo “Cagliostro and the Egyptian Rite of Freemasonry”,  pp. 152-159.

* “Compendio de la Vida y Hechos del Conde Calliostro”. A  compilação do processo da Inquisição contra Cagliostro, edição fac-similar do livro editado em Sevilla, Espanha, 315 pp.

* Artigo “Who Was Cagliostro?”, Will C. Burger,  na revista “The Theosophist”, Adyar, Madras / Chennai, India, March 1962, pp. 384 e seguintes.  

* Artigo “The Mystery of Cagliostro’s Mission”, Will C. Burger, em “The Theosophist”, July 1962, Adyar, Madras / Chennai, India, pp. 252 e seguintes.

* Artigo “Blavatsky About Cagliostro”, Will Burger, “The Theosophist”, Outubro de 1964, pp. 8 e seguintes.

*Artigo “Great Theosophists - Cagliostro”, “Theosophy”, Los Angeles, October 1938, pp. 530-536.

*Conto ou relato de H. P. B. intitulado “An Unsolved Mystery”, com comentários do editor Boris de Zirkoff, em “Collected Writings of H. P. Blavatsky”,  TPH, volume I, pp. 151-162.  O texto, que possui tons fantásticos, conta um suposto episódio de Cagliostro e sua esposa, ambos usando outros nomes, em Paris, em 1861. O conto pode ser um modo de HPB dar pistas falsas sobre “o mistério de Cagliostro”, protegendo o segredo que deve cercar a vida de todo iniciado. Pode ser também verdadeiro no sentido literal, embora não faça sentido que uma pessoa não-avançada no Caminho, como a esposa de Cagliostro, pudesse reencarnar rapidamente.  Tampouco é correto pensar que Cagliostro estivesse fazendo exatamente as mesmas coisas um século mais tarde, ou que ele se envolvesse numa situação pessoal tão complicada como a mostrada pela narrativa.  Além disso, os fatos relatados teriam que haver aparecido nos jornais, e não há indícios de que isso ocorreu.   Porém, a narrativa é admirável e encerra profundas lições.

*Cagliostro é citado várias vezes na primeira parte da narrativa de HPB intitulada “The Silent Brother”, que está incluída em “Collected Writings”, volume II, pp. 366-377. Ver especialmente as duas páginas  iniciais.

* “HPB Speaks”, editado por C. Jinarajadasa, TPH, Adyar, India. Obra em dois volumes. Ver especialmente o volume II, pp. 27 a 36.  

*“Collected Writings of H.P. Blavatsky”, TPH, India, volume XV (Index), pp.  98-99.

*“Cagliostro”, Roberto Gervaso, Biblioteca Universale Rizzoli, BUR, copyright 1972,1976, 1992, Milano, Itália, 250 pp.

*“Cagliostro”, Philippe Brunet, copyright 1994, Rusconi Libri, Milano, Itália, 380 pp.

0000000000000


Acompanhe nosso trabalho no Facebook .  Siga-nos pelo Twitter .

Para ter acesso a um estudo diário da teosofia clássica, escreva a lutbr@terra.com.br  e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo  SerAtento.


0000000000000000000000000