31 de Maio de 2011

O PAPEL DA AUTO-DISCIPLINA


Abandono do Supérfluo Fortalece a Vontade Interna


Carlos Cardos Aveline


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O texto a seguir foi publicado pela
primeira vez no boletim eletrônico
O Teosofista” de agosto de 2008.

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O auto-disciplinado se contenta com
pouco, mas o preguiçoso é insaciável.



O estudante de filosofia esotérica deve agradecer todos os dias à vida,  se enfrenta dificuldades e obstáculos, porque estes são sinais seguros de que ele está sendo capaz de deixar de  lado o caminho da falsidade.  Em compensação, quando  sua  vida estiver demasiado cômoda, ele deve lamentar o fato.  

Nenhum praticante da filosofia teosófica pode saber de que substância é feito,  se não enfrentar momentos que considera “difíceis”.  A preguiça, a indulgência e o despreparo ficam flagrantes e claros – como problemas que podem e devem ser corrigidos – quando a rotina cômoda é rompida e surge algum teste desafiador.  

A auto-disciplina é o abandono voluntário do que é supérfluo, e produz o fortalecimento da vontade própria. Ela antecipa e suaviza as dificuldades externas. Acostumado com uma vida menos cômoda,  o estudante passa a ver como algo fácil de superar aquilo que, para outros, é uma grande dificuldade.

O auto-disciplinado se contenta com pouco, mas o preguiçoso é insaciável. Quando alguém não limita a si mesmo, será limitado pela vida.  Se as dificuldades da vida nos parecem demasiado duras, talvez estejamos sendo demasiado moles com nós mesmos. A auto-disciplina é fonte de humildade e  paz.  É graças à auto-disciplina que alguém pode abraçar a simplicidade voluntária.

Naturalmente, a auto-disciplina só faz sentido se formos capazes de escutar a voz da nossa própria consciência. Para isto, é necessário obter níveis crescentes de auto-conhecimento, isto é, de conhecimento do nosso Verdadeiro Eu.  Dele resulta a auto-disciplina, e da auto-disciplina resulta o auto-conhecimento.  

Estes dois processos produzem uma mente aberta e um coração honesto, e assim ocorre a auto-libertação interior.  Em última análise, portanto, a auto-disciplina leva à liberdade, mas a não-disciplina leva à prisão.


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POR QUE OS ANIMAIS SOFREM?


Um Fracasso Ético da “Civilização Ocidental e Cristã”

Helena P. Blavatsky




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Neste texto vigoroso de 1883, H.P.B. mostra 
o saldo ético negativo  da chamada “civilização 
cristã” em relação aos animais, e especialmente em 
relação aos animais mais evoluídos,  os “irmãos 
menores” da humanidade. Com algumas boas 
e nobres exceções, entre as quais a principal é a 
de  São Francisco de Assis e do franciscanismo, 
o cristianismo ainda hoje desculpa e “autoriza” o 
covarde massacre cotidiano de animais indefesos.
Nesta primeira parte do século 21, nossa civilização
começa a despertar.   Os movimentos de defesa dos 
animais são cada vez mais fortes. O vegetarianismo 
se alastra,  e a consciência ecológica permeia  vastos 
setores  do próprio cristianismo. 


O texto de HPB, porém, permanece plenamente atual.

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P. É possível para mim, que amo os animais, obter mais poder do que tenho para ajudá-los em seu sofrimento?

R.  Um autêntico AMOR não egoísta, combinado à VONTADE,  é um “poder”  em si mesmo.  Aqueles que amam os animais devem mostrar sua afeição de maneira mais eficiente do que cobrir seus animais com fitas e levá-los para uivar e arranhar nas competições, em busca de prêmios. 

P. Por que os animais mais nobres sofrem tanto nas mãos dos homens? Não preciso entrar em detalhes ou tentar explicar esta questão. As cidades são lugares de tortura de animais que podem, por qualquer motivo, ser usados e abusados pelo homem! E esses são sempre os mais nobres.

R. Nos Sutras ou Aforismos de Karma-pa, uma seita que é um ramo da grande seita Gelukpa (capuz amarelo) no Tibete,  e cujo nome indica sua doutrina – “os que acreditam na eficácia do Carma” (ação, ou boas obras) – um Upasaka [1] pergunta a seu Mestre: “Por que o destino dos pobres animais mudou tanto ultimamente? Nunca um animal era morto ou tratado injustamente nas imediações de um templo budista ou outros templos na China, antigamente, enquanto hoje em dia eles são mortos e livremente vendidos nos mercados de várias cidades, etc.”  A resposta é sugestiva: . . .
“Não ponha a culpa na natureza por esta injustiça sem igual.  Não procure inutilmente por efeitos cármicos para explicar a crueldade, porque o Tenbrel Chugnyi (conexão causal, Nidâna) não lhe mostrará nenhum. É a indesejada vinda do  Peling (cristão estrangeiro), cujos três deuses ferozes  recusaram-se a dar proteção para os fracos e pequenos (os animais), que é responsável pelos sofrimentos incessantes,  e de fazer doer o coração, de nossos companheiros mudos.”

A resposta à pergunta acima está aqui em poucas palavras. Pode ser útil, ainda que mais uma vez desagradável, dizer a alguns religiosos que a culpa por este sofrimento universal é inteiramente da nossa religião e educação ocidentais.  Cada sistema filosófico oriental, cada religião e seita da antiguidade – bramânica, egípcia, chinesa e, finalmente, o mais puro e nobre de todos os sistemas de ética existentes, o budismo,  ensinam bondade e proteção a cada criatura viva, desde o animal e o pássaro até os seres rastejantes e mesmo o réptil. Só a nossa religião ocidental permanece em seu isolamento, como um monumento ao mais gigantesco egoísmo humano jamais desenvolvido por uma mente humana, sem uma palavra em favor ou proteção do pobre animal. Muito pelo contrário. Porque a teologia, enfatizando uma frase do capítulo jeovístico da “Criação”, interpreta-a como prova de que os animais, como todo o resto, foram criados para o homem! Portanto, a caça se tornou um dos entretenimentos mais nobres das classes superiores. Assim – pobres inocentes pássaros feridos, torturados e mortos aos milhões a cada outono, tudo em países cristãos, para a recreação do homem. Disso também surgiu a maldade, e freqüentemente a crueldade a sangue frio, durante a juventude do cavalo e do novilho, indiferença brutal com seu destino quando a idade os torna incapazes para o trabalho, e ingratidão após anos de trabalho duro para o homem e a seu serviço. Em todos os países que o europeu passa a  dominar,  começa a matança de animais e o seu massacre inútil.

“Alguma vez o prisioneiro matou animais por prazer?”  perguntou um juiz budista numa cidadezinha fronteiriça na China, infestada de piedosos homens de igreja e missionários europeus, a respeito de um homem acusado de ter matado sua irmã. E, diante de uma resposta afirmativa, já que o prisioneiro tinha estado a serviço de um coronel russo, “um poderoso caçador diante do Senhor”, o juiz não precisou de nenhuma outra evidência e o assassino foi considerado “culpado” – com razão, como sua confissão posterior comprovou.

Deve o cristianismo, ou mesmo o leigo cristão, ser culpado? Nenhum dos dois. É o sistema pernicioso da teologia, são os longos séculos de teocracia e o feroz e sempre crescente egoísmo dos países ocidentais civilizados. O que podemos fazer?

NOTA:

[1] Upasaka: discípulo. (NT)

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O texto acima, que mostra o pioneirismo do pensamento de HPB,  foi publicado pela primeira vez em maio de 1888.  Título original: “Why Do Animals Suffer?”  

Ver “Theosophical Articles”, H.P. Blavatsky, Theosophy Company,  Los Angeles, Volume II, 532 pp., 1981, pp. 327-328.

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27 de Maio de 2011

James Lovelock e a Terra Como Um Ser Inteligente

De acordo com a Teoria de Gaia, proposta por James Lovelock, a Terra age como um ser dotado de inteligência e capacidade de regular a si mesmo.



Para compreender melhor o pensamento
de Lovelock à luz da Filosofia Esotérica ler:

22 de Maio de 2011

"Dislexias"

« Volto ao questionável acto de rotular e tratar alunos como "deficientes".

Trago-vos dois episódios, que podem ilustrar uma realidade oculta: há fenómenos de incomunicabilidade nas nossas escolas, cuja responsabilidade não deve ser imputada somente às escolas.

A Bárbara é uma aluna com dislexia. A professora "especial" passa pela sala, duas vezes por semana. Mas já confessou que (afinal) "não é especialista em dislexias (sic) e que, portanto, pouco pode ajudar"… A professora dita "regular" diz que "faz o que pode, mas que não se espere milagres, porque com dezanove alunos mais uma "disléxica" na sala, o tempo não chega para tudo"…

A meio da manhã, diz a professora para a "disléxica": "Vais ficar sem recreio, porque eu não consigo ler o texto que escreveste!". Resposta pronta da Bárbara:

"Tu não consegues ler, mas eu consigo!" A Bárbara é disléxica, mas não é parva.

A dislexia existe! Há necessidade de identificar a dislexia a tempo, de modo que não se converta, definitivamente, num obstáculo ao sucesso e à realização pessoal. E, muito mais que identificar, é imperioso que um especialista, no seio de uma equipa, dê resposta às Bárbaras. Porém, há casos e casos, e bem diferente é o caso do Tito.

O Titinho (como a extremosa mamã lhe chamava) chegou à escola acompanhado de um processo com cinco centímetros de altura. Eram relatórios de psicólogos, mais os dos pedopsiquiatras, mais os relatórios das professoras de educação especial, mais os dos médicos… Veredicto: "disléxico". Tratamento: dois anos sob orientação de uma professora "especial" mais três anos a pastar fichas, no fundo da sala, que a professora regular não era entendida em dislexias.

Uma semana de ociosidade depois, o professor aproximou-se do moço:
Então?... Desde que chegaste, ainda não fizeste nada.

O aluno não estava diagnosticado de autista, mas não deu troco. O mestre insistiu:

E posso saber porquê?

O moço fez ouvidos de mercador.

Não me ouviste? Posso saber porquê, Tito?

Aquele mocetão quase a fazer doze anos de idade, enfim, reagiu:

Eu sou Titinho! Não sou Tito! Você não sabe?

Está bem, Tito. Mas diz-me por que não te vejo trabalhar como os outros meninos.

Você não sabe?

Não, não sei.

Eu, na outra escola, também não fazia nada.

Ai não?...

Não. Só quando a setora do especial lá ia é que eu fazia uns joguinhos.

Ai sim?

É. Está a ver? Eu não fazia nada. E você não me pode obrigar porque…

Esgotada a paciência, o professor interrompeu-o:

Porque é que não fazias nada, na outra escola?

Você não sabe?

Já te disse que não.

É que eu sou disléxico.

Ai, tu és disléxico? Eu sou Luís! E, agora, vais pegar nesta folhinha e vais fazer o que o teu grupo tem no plano para tu fazeres.

Ficou de boca aberta e sem tempo para retorquir. O Tito fez o trabalho que o grupo o ajudou a fazer (a pressão social justa e fraterna resulta sempre…), apesar de "trocar umas letrinhas", como depois comentou, pedindo desculpa pelo que não devia. Perante a afável autoridade do professor e a persuasão exercida pelos colegas do grupo, restava ao Tito escolher entre duas atitudes: ou fazia o trabalho, ou fazia o trabalho… Optou por fazer o trabalho.

Qualquer outro "disléxico" inteligente optaria por essa hipótese.
Imaginava o professor Luís o que se estaria a passar naquela cabecinha: "então este professor não saberá o que é um disléxico?" É claro que o professor sabia. Tanto sabia, que o Titinho – entretanto promovido a Tito pelo grupo – foi fazendo exercícios que o ajudaram a ultrapassar algumas dificuldades. Porém, não todas…

O Tito pendurou o seu casaco, atirando ao chão casacos de colegas. O professor chamou-lhe a atenção. O "disléxico" respondeu: Não são meus!... Pois não eram, mas o Tito apanhou os casacos do chão e pendurou-os nos respectivos cabides.

A mãe do Tito chegou, ao final do dia. Retirou do cabide o casaco do filho, provocando a queda de outro casaco, que estava pendurado num cabide adjacente. O professor fitou a senhora, insistentemente. Apercebendo-se da recriminação no olhar do professor, a senhora exclamou: Não fui eu!....
O professor Luís afastou-se, sem dizer palavra, reflectindo sobre as dislexias familiares, que fazem a infelicidade de muitos Titinhos. »

José Pacheco

In, Jornal "a Página" , ano 16, nº 171, Outubro 2007, p. 6.

15 de Maio de 2011

Decrescimento econômico. Loucura?

Um texto de Adriano Violante



"A sociedade hodierna baseia-se em crescimento econômico, crescendo a riqueza dos países podem-se oferecer empregos para os jovens que estão entrando no mercado de trabalho, construir hospitais, escolas e estradas. Até diz-se que se podem eliminar a pobreza. Este discurso vem, naturalmente, dos economistas e advogados. São eles que dirigem os países (aconselhando políticos), as empresas e os municípios.


Quando se defende idéias de crescer menos ou de decrescer, se procura um horizonte mais distante, que possa contemplar assuntos estranhos à economia, como a ecologia, por exemplo, como faz a Sociedade Brasileira de Economia Ecológica – ECOECO em que traz abordagens de um economista pouco conhecido como Nicholas Georgescu-Roegen. Em 1976, este romeno publicou um texto sobre entropia, ecologia e economia cujo título era o decrescimento. Nesta época ele advogava que a economia não pode crescer indefinidamente, pois se baseia em aspectos mecânicos – para a indústria funcionar necessita de matéria prima e energia. Tanto uma quanto a outra podem se esgotar ou, depois de usada, se encontrar em estado tal que não sejam aproveitáveis.


O crescimento também deve ser definido. O crescimento populacional já exerce demasiada pressão sobre os recursos ambientais; o crescimento do PIB não leva em conta a questão social e ambiental e o modelo energético baseado no carvão e no petróleo não suporta um crescimento mundial de 3% ao ano ou como o chinês do início do século XX, de cerca de 10%, por muito tempo.


O decrescimento aqui apresentado não é sinónimo de recessão ou crescimento negativo da economia, é uma necessidade para que não se tenha que tomar medidas mais drásticas num futuro próximo. Ainda não se pode provar, com 100% de certeza, que aja uma causa direta entre os problemas ambientais como o aquecimento global ou a subida do nível do mar e o crescimento económico. Pode-se argumentar, entretanto, que o planeta não suporta o modo de vida dos povos dos países desenvolvidos nem muito menos pedir para que os outros países não queiram ter este tipo de padrão de vida.


Um decrescimento desejado, sem ser obrigado, trará mais empregos em energias alternativas, nos setores de serviços, embora possa oferecer menos horas trabalhadas, reduzir gastos com o setor militar e nos deslocamentos de pessoas e mercadorias. Dirigentes e políticos querem crescer, desenvolver, e a limitação dos recursos é assunto que não devem querer ouvir nem debater, pois vão contra os interesses dos eleitores, dos religiosos e dos empresários.


Alguns economistas mais progressistas, entendedores do assunto, procuram explicar a situação como se fosse uma lógica do mercado. Se se aplicar o dinheiro a ser gasto com as causas ambientais num banco, durante alguns anos, ter-se-á um montante justificável da inércia atual. Com esta lógica economicista se esperam grandes catástrofes num futuro próximo, maiores até que as enchentes, secas e furacões que assolam o planeta hoje."

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7 de Maio de 2011

OS CANCROS SOCIAIS E OS INTOCÁVEIS

trabalho enobrece, diz-se habitualmente. E assim é, com efeito, se esse trabalho é altruísta, útil e necessário.

Quando, porém, é ditado pela ambição e pela competição desenfreadas, por ditames caprichosos e prepotentes de quem se delicia a ver tudo a andar “a toque de caixa” só porque sim, pelo funcionar de uma “máquina” que não serve a fim algum, pela voracidade da fera humana, torna-se escravizante e desumano. Estupidifica, embrutece, gera um barulho contínuo que sufoca as vozes mais profundas no íntimo de cada Homem. Envolve-nos num turbilhão infindável de obrigações, técnicas, papeladas, trapalhadas…

Sucesso, carreira, empresa, riqueza, poder… frases, slogans e clichés sonantes (para aqueles em quem encontram eco) fazem impacto e encontram adesão em milhões e milhões que, como um insecto atraído por uma lâmpada, passam a girar à volta de ilusões e ilusões e ilusões, que primeiro acariciam e que depois são usadas para os controlar, manobrar e tornar numa peça mais de uma gigantesca engrenagem, de que poucos beneficiam e quase todos são vítimas.

Estamos no século XXI, no “admirável mundo novo” do progresso económico-material. Há muito já que ficou para trás a revolução industrial, a multiplicação de todos os tipos de serviços, o alargamento da tecnologia a praticamente todos os sectores salariais. Ainda há uma década, na Europa, se falava do “bem-estar social” (e tudo o que isso implica), como um escopo exemplar de uma nova civilização, alcançado ou a caminho de alcançar pelas nações mais vanguardistas e desenvolvidas. Entretanto, que mundo é o nosso, hoje?

Vieram as crises que, atrevemo-nos a dizer, dificilmente alguém compreendeu. Surpreendentemente, os grandes “craques” da economia, que logo se afadigaram emexplicá-las, não as haviam previsto. Não sei se alguém explicou suficientemente que a crise de uns está ligada ao sucesso de outros e vice-versa. E as crises renovaram-se e refinaram-se. Hoje, surgem em semanas, em dias e horas, avassaladoras, gigantescas…

Acumulam-se legiões imensas de desempregados, e vamos vendo sempre o seu número a aumentar. As idades da reforma inverteram o ciclo e, em plena Europa, estão agora a galopar – quando o trabalho é cada vez mais exigente e desgastante, sob o chicote de avaliações, controlos, inspecções, relatórios, certificações, níveis de excelência e de todo o tipo de imposições e directrizes que se entenderam necessárias ou que, pura e simplesmente, se resolveu inventar. Em alguns países, os salários reais descem em flecha e afectam mesmo aqueles que vivem no limiar da pobreza. E tudo isto pode piorar ainda, a qualquer momento, se alguma agência de rating se lembrar de “desqualificar” um país, ou se os mercados estiverem agitados, nervosos…

Mas quem é essa “gente”? Mercados? Agências de rating? Quais os rostos, quais os desígnios, para que servem e a quem servem tais coisas que dispõem das vidas das multidões impotentes? Quem detém esse poder de, ao sabor das suas boas ou más disposições, moldar (para mais, degradando) as existências dos cidadãos de países, mais ainda, de regiões inteiras?

A maioria dos indivíduos, se está “agitado”, tem que se controlar. No limite, toma um calmante. Há outros métodos melhores. No entanto, se não se controlar (seja como for) e lesar gravemente a vida dos outros, pode ser preso ou penalizado de outra forma. Compreensivelmente…

E aos mercados financeiros, e às agências de rating, quem os controla? Onde estão os seus registos criminais? Quem os detém e quem os pune quando os seus pronunciamentos ciclónicos arrasam, estilhaçam e espatifam tudo e todos? Quem os pôs nesse pedestal titânico e tirânico?

Quem assume a responsabilidade global de impedir comportamentos (e/ou os seus efeitos) desastrosos para milhões de seres humanos?

Docilmente, fascinadamente, os adoradores do deus-dinheiro, do deus-empresa, do deus-trabalho profissional, do deus-materialismo acatam como oráculos infalíveis e incontestáveis os ditames dos chefes-de-fila da especulação financeira, e estão dispostos a tudo, para que a roda da (des)fortuna continue a girar! É sem surpresa que observamos os revolucionários materialistas de outrora, na mesma onda de egoísmo e alienação, passarem para lugares de honra do sistema (que diziam contestar). A programação sempre foi a mesma, no verso ou no reverso, de frente ou de costas, nesta passadeira infernal.

Deste modo, seguindo por este caminho, é de esperar que os oráculos financeiros continuem a exigir mais sacrifícios humanos, mais cortes (a palavra “sagrada” dosúltimos tempos), mais carga e mais precariedade de trabalho. E a partir daqui, todas as manipulações, logros e enganos, todas as exigências e prepotências são possíveis: há que sujeitar-se a tudo para ter um emprego, ainda que a ganhar menos 5%, ou menos 10%, ou menos 30%; e a trabalhar mais 1 hora, mais 3 horas, mais 5 horas por dia; a fazer mais três, mais cinco, mais dez coisas; ainda que os cidadãos cheguem ao fim do dia esgotados, arrasados, comendo qualquer coisita, e logo se deixando cair na cama, exaustos. E a grande máquina continua a girar, e o monstro continua a crescer, e a alienação aumenta, mais e mais, com o homem cada vez mais perdido de si mesmo e da sua identidade real (que não é, não pode ser, a ocupação profissional que lhe “calhou” ter).

Entretanto, os Governos permanecem temerosos do imenso poder acumulado e detido pelos hiper-ricos. Estrebucham um pouco e limitam-se a pôr “paninhos quentes” na multiplicidade sempre crescente das feridas sociais. A última, que vem a afectar particularmente a Europa, diz respeito à nova idade da reforma instituída, o marco dos 67 anos.

SEGUNDO AS PREVISÕES, EM 2040 A POPULAÇÃO DA AGORA CONSIDERADA 3ª IDADE SERÁ MAIS NUMEROSA DO QUE A INFANTIL. E ESSA, PROVAVELMENTE ATÉ AOS 70 ANOS, QUEM SABE SE ATÉ AOS 75 OU MAIS, ESTARÁ AINDA NO ACTIVO, E TERÁ DE COMPETIR COM OS MAIS NOVOS NO MERCADO DE TRABALHO, MESMO QUE SE ARRASTE, MESMO QUE GEMA, MESMO QUE CONSUMA NUMA LUTA CRUEL AS ÚLTIMAS ENERGIAS.

Pensemos com clareza: é isto que queremos? É isto bom? É isto uma fatalidade? O que é que estamos a construir para nós mesmos?

O monstro de uma sociedade materialista, capitalista e de especulação financeira que colectivamente vimos construindo, emancipou-se, ganhou vida própria, e hoje exige-nos demasiados tributos, tremendos sacrifícios.

Rasgou-se, ou melhor, tem vindo lentamente a esgaçar-se o tecido orgânico da Sociedade que construímos. O fosso entre os poucos que têm muito (e cada vez mais) e os muitos que têm pouco, alargou-se novamente. Estas situações acabam, mais tarde ou mais cedo, por gerar convulsões graves e por vezes violentas; e quem hoje está na mó de cima pode amanhã ser um alcatruz a submergir…

Estamos convictos de que virá o tempo em que será universalmente definido que as hiper-fortunas particulares, detidas por uma só pessoa ou agregado familiar, sem que beneficiem o bem geral, terão de ser vistas como um crime público – um crime que afecta gravemente a comunidade e o país onde se integram, ao serviço dos quais têm de ser utilizadas.

Com efeito, ao abrigo da intocabilidade dos donos das hiper-fortunas, milhões dos seus congéneres são arrastados para a perpétua privação, para a miséria, para a doença – e, por extensão, para o desemprego. Não se exagera quando se desenha um tal quadro. E é um facto que grande número dessas fortunas pessoais – a partir de um certo montante – não aproveitam sequer ao(s) próprio(s) detentores, que nem teria(m) possibilidades de gastar os recursos materiais acumulados. Objectivamente, são como que um cancro na sociedade. São energia forçosamente parada, cristalizada.

Na verdade, estamos todos aturdidos e esmagados pela nossa impotência colectiva. Muitos cidadãos (mesmo os mais novos) não ousam sequer pensar em termos de futuro, especialmente quando se trata do futuro longínquo (para tanto falta a coragem e a energia psicológica…). Quem pode asseverar que ao rondar a casa dos setenta anos terá vigor, saúde e ânimo para suportar as exigências físicas e psicológicas da comparência diária no trabalho externo? E como, com tal idade, se poderá competir com os mais jovens na manutenção do seu trabalho ou no acesso a um outro? É no mínimo irrealista e desumano. Estamos todos a “chutar para a frente” a assunção honesta, e a resolução cabal, deste problema…

Não preconizamos a pilhagem, o ódio, a violência arbitrária. Mas é impossível esquivarmo-nos ao facto incontornável: o que nunca foi mexido, terá de o ser. Não podemos adiar a distribuição mais equitativa dos proventos e recursos económicos a que todos têm direito. Novas leis e novos paradigmas que consignem o desígnio da Justiça social deverão ser criados e postos em prática. Isto não é futurologia, é algo de inevitável, numa assunção de civilidade.

Chegará também o tempo em que mecanismos internacionais justos e eficazes ponham termo aos excessos da especulação financeira e dos grandes usurários do mundo.

Num futuro breve, provavelmente, o direito a um emprego (pelo menos, no sentido que hoje lhe damos) será rotativo. A sociedade terá de ser participativa em termos produtivos, como é óbvio; contudo, e porque não haverá “empregos” – transversalmente e a tempo inteiro – para todos, a distribuição e atribuição de um lugar no mercado de trabalho não poderá, de modo nenhum, ser condição e ditar o direito à subsistência, aos bens comuns e essenciais.

É chocante? Talvez… Mas de uma coisa estamos certos – a noção e o entendimento colectivo estabelecidos de que apenas quando se tiver um “emprego” se tem direito à (con-)dignidade humana, terão de ser revogados. E tendo este horizonte incontornável pela frente, teremos todos, em conjunto, de criar novas formas de viver e compreender o sentido de Civilização. Caso contrário, o trajecto negro e cego que nos espera será o da regressão, por onde podem vogar as já esquecidas sombras da “animalidade”…

José Manuel Anacleto

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5 de Maio de 2011

Edgar Morin defende reforma radical no ensino



"O filósofo e sociólogo Edgar Morin (...) defende uma «reforma radical» do modelo de ensino nas universidades e escolas, salientando a necessidade de acabar com a 'hiperespecialização'.

«Temos a necessidade de reformar radicalmente o actual modelo de ensino nas universidades e escolas secundárias. Porquê? Porque actualmente o conhecimento está desintegrado em fragmentos disjuntos no interior das disciplinas, que não estão interligadas entre si e entre as quais não existe diálogo», sublinha, em entrevista à Lusa.

O filósofo francês considera que o modelo actual leva a «negligenciar a formação integral e não prepara os alunos para mais tarde enfrentarem o imprevisto e a mudança».

Edgar Morin, de 88 anos, critica, por exemplo, que nas escolas e universidades «não exista um ensino sobre o próprio saber», ou seja, sobre «os enganos, ilusões e erros que partem do próprio conhecimento», defendendo a necessidade de criar «cursos de conhecimento sobre o próprio conhecimento».

Lamenta, igualmente, que a «condição humana esteja totalmente ausente» do ensino: «Perguntas como 'o que significa ser humano?' não são ensinadas», critica.

Por outro lado, acredita que a «excessiva especialização» no ensino e nas profissões produz «um conhecimento incapaz de gerar uma visão global da realidade», uma «inteligência cega».

«Conhecer apenas fragmentos desagregados da realidade faz de nós cegos e impede-nos de enfrentar e compreender problemas fundamentais do nosso mundo enquanto humanos e cidadãos, e isto é uma ameaça para a nossa sobrevivência», defende.

«Está demonstrado que a capacidade de tratar bem os problemas gerais favorece a resolução de problemas específicos», garante Morin, lembrando que a maioria dos grandes cientistas do século XX, como Einstein ou Eisenberg, «além de especialistas, tinham uma grande cultura filosófica e literária».

«Um bom cientista é alguém que procura ideias de outros campos do conhecimento para fecundar a sua disciplina», afirma, sublinhando que «todos os grandes descobrimentos se fazem nas fronteiras das disciplinas».



Fonte: Diário Digital / Lusa

3 de Maio de 2011

Educação: Uma Dívida a Saldar

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Artigo da revista BIOSOFIA,
nº6, Julho de 2000, CLUC, Lisboa.

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Isabel Nunes Governo


"O mundo de hoje, não obstante existirem muitos indivíduos e movimentos generosos, está cheio de violência e desumanidade, nas mais diversas áreas e nos mais pequenos pormenores do nosso quotidiano.

As maiores vítimas da sociedade cruel e enlouquecida que fomos criando, à medida em que se abdicou de preocupações morais e da definição de valores, são aqueles que se encontram numa situação de maior fragilidade – designadamente, por razões óbvias, os mais idosos e as crianças. Culpados que somos todos (em maior ou menor grau, por acção ou por omissão) do estado de coisas a que se chegou, não podemos fechar os olhos e encolher os ombros, como se não fosse nada connosco ou como se nada houvesse (já) a fazer.

O bom senso é certamente preferível à demagogia que confunde liberdade com libertinagem, responsabilidade com censura, educação com repressão. As injecções diárias de violência, pornografia e consumismo desenfreado com que se agridem, traumatizam e condicionam as crianças, são de uma irresponsabilidade criminosa. Quem as promove e defende com unhas e dentes, não está a exercer a sua liberdade de criar mas, pura e simplesmente, a fazer negócio a todo o custo e sem escrúpulo algum. Quem pretende estabelecer limites e definir, com critérios de rigor pedopsiquiátrico, o que pode (ou não) ser passado na televisão e na rádio em certos horários, e o que pode (ou não) ser exposto em jornais e em meios informativos e publicitários acessíveis a crianças, não pretende re-instaurar censuras mas, unicamente, impedir práticas lesivas em termos individuais e colectivos, com repercussões tanto no presente como, sobretudo, no futuro.

Se em muitos países até mesmo a tentativa de suicídio é considerada um crime (o que evidencia que a liberdade não é um direito absoluto), se em vários códigos penais se prevêem “crimes contra a paz e a humanidade” e “crimes contra os fundamentos ético-sociais” (v.g. arts. 186º e ss. do Código Penal português), para não falar da generalizada penalização de “crimes sexuais” (entre eles, o atentado ao pudor), como aceitar ou defender que se exponham, às imagens e às propostas mais chocantes, crianças em idades em que carecem de meios para escolher ou para lidar com a bizarria e a violência? Alguém, de consciência tranquila, e pensando responsavelmente no futuro da nossa Humanidade, dos nossos filhos e netos, das gerações vindouras, pode sustentar que leviana e impunemente se continue a impingir a violência como algo de normal, o inescrúpulo triunfante como uma virtude aclamada, o sexo como animalidade pura e dura – que inclusive marginaliza, amarfanha, amesquinha e traumatiza quem não adoptar as poses e quem não tiver as medidas convencionadas como “certas”? Basta, basta, basta!

No entanto, se pôr alguns freios e limites a este estado de coisas é vitalmente necessário, não ignoremos que prevenir é melhor que remediar, que construir bem é melhor que erguer barreiras para impedir o alastrar da escória. É preciso educar, crianças e adultos, educandos e educadores, com base em princípios sólidos e demonstráveis, que digam respeito ao bem geral e não a passageiras convenções ou a sucessos aleatórios; antes de tudo, é preciso restaurar esses princípios, que serão sempre consensuais, se for o maior bem de todos o critério de definição. Trata-se de uma dívida a saldar, de uma necessidade inadiável. (...) "

A Vida Dentro de Nós!

Poderíamos nós, humanos, reconhecer a Vida que nos faz viver? Seríamos capazes de ter consciência da Vida de nossas vidas, sentida como glória no centro da alma? Bem disse o poeta William Blake: “ver mundos no grão de areia, beleza inefável na flor silvestre; conter o infinito na palma da mão e a eternidade num instante.” Sim, todo ser humano, com exceção dos brutais, já teve a experiência interior de enxergar beleza, bondade e verdade e ser tomado por sensações supranaturais nesse instante. Porém, acostumados como estamos a dedicar nossa visão interior à mera satisfação da curiosidade intelectual ou à avaliação de pessoas e objetos para satisfazer a cobiça, o tempo dedicado ao melhor exercício subjetivo se reduziu drasticamente. Acontece que sem esse nós, humanos, somos muito menos do que poderíamos ser.”

Fonte: quiroga.net

2 de Maio de 2011

REUNIÃO RESERVADA COM O DALAI LAMA


Em Encontro Fechado com
Representantes da Comunidade Budista
Brasileira, em 2006, Líder Tibetano Enfrenta
a Linhagem Ningma e Denuncia o Pseudo-Budismo



Equipe Bodigaya


   O XIV Dalai Lama
Separou o Joio do Trigo

Nota Editorial:

O texto a seguir é um informe sobre a reunião reservada do XIV Dalai Lama com representantes da comunidade budista brasileira, realizada em abril de 2006, em São Paulo. 

A narrativa transmite uma lição fundamental de coragem e compromisso com a ética e a verdade. Foi publicada inicialmente ainda em 2006,  na edição número 19 da revista budista independente “Bodigaya”, de Porto Alegre, sob o título “O Hábito Não Faz o Monge”.

Na Carta ao leitor, os editores de Bodigaya escrevem:

“ .....Ninguém imaginaria ver Sua Santidade, investida de natural e legítima autoridade, protagonizar a maior repreensão ao comportamento inadequado de líderes budistas jamais vista! Num ato firme e resoluto, com um único precedente ‘bíblico’ (Jesus e os ‘vendilhões do templo’), S.S. o Dalai Lama provou, aos olhos dos presentes, ser exatamente quem é, um líder extraordinário, plenamente atento e consciente do seu papel. Seu discurso impiedoso e ‘cirúrgico’ foi como um médico tentando cortar a carne para drenar o pus instalado. Diante do gesto inusitado, mas compassivo, puro e genuíno, tudo o mais em sua visita, desta feita, ficou relegado a um plano secundário. Seu trabalho de purificação deste mundo inclui, claramente, até mesmo os ‘aspirantes a mestres’ budistas. Não podíamos deixar de levar ao conhecimento público um ato cuja importância é histórica, além de extremamente providencial e transcendente.” (p. 01)

Na abertura do informe sobre a reunião reservada com o Dalai Lama, a Equipe Bodigaya afirma:

“Diante da crise espiritual mundial, S.S. o Dalai Lama demonstrou liderança, clareza de visão, condenando comportamentos indecentes praticados por líderes budistas brasileiros. Por serem aspectos extremamente difíceis de serem identificados e enfrentados, precisamos todos aprender a reconhecê-los, a fim de aplicar os antídotos necessários à sua erradicação.” (p. 38)

O informe de “Bodigaya” narra um enfrentamento direto entre o Dalai Lama e membros da linhagem Ningma.  Desde o ponto de vista teosófico, é importante lembrar o que Helena Blavatsky escreveu sobre esta linhagem, que combina o budismo anterior à reforma ética de Tsong-Kha-pa com a feitiçaria local do Tibete antigo, que não leva em conta  preocupações éticas.  No seu texto “Reincarnations in Tibet” (“Reencarnações no Tibete”), publicado em 1882,  a Sra. Blavatsky escreve:

“Os ‘Dug-pa’ ou ‘Gorros Vermelhos’ pertencem à velha seita Ningma-pa, que se resistiu a aceitar a reforma introduzida por Tsong-Kha-pa na parte final do século catorze e início do século quinze.”

E, numa nota de pé de página, ela acrescenta:

“O termo ‘Dug-pa’ no Tibete é pejorativo. Eles próprios pronunciam a palavra como ‘Dög-pa’, cuja raiz significa ‘unir’ (aqueles que estão unidos à fé antiga) ; enquanto que a seita suprema do Tibete, os Gelug-pas (gorros amarelos), e o povo, usam a palavra no sentido de ‘Dug-pa’, causadores de confusão,  feiticeiros.” [1]

Estas palavras foram escritas no século 19.  Em pleno século 21, o testemunho de budistas independentes ligados à revista “Bodigaya” mostra, em primeira mão, um episódio vivo de um enfrentamento de 700 anos.  Local, São Paulo. Data, 2006. De um lado, o budismo reformado dos Dalai Lamas, que pertencem à linhagem ética dos Gelug-pa. De outro lado os dug-pas, ou Ningma-pa, da linhagem “vermelha” anterior à reforma do budismo tibetano.  

(Um Estudante de Teosofia)

NOTA:
[1] “Collected Writings of H.P. Blavatsky”, TPH, coletânea em 15 volumes; ver volume IV, pp. 9-10,  artigo “Reincarnations in Tibet”.

Reunião Reservada Com o Dalai Lama

Equipe Bodigaya

Vamos tentar apresentar os pontos que nos pareceram mais representativos do encontro reservado junto ao hotel onde Sua Santidade foi hospedada, em São Paulo.

Tenha o leitor em mente que esta foi a terceira visita oficial do Dalai Lama ao Brasil. Desde 1992, ele acompanhou o gradual desenvolvimento de centros budistas, comunidades de praticantes (sanghas) e a transmissão dos ensinamentos, nestes cerca de 15 anos.

Um outro ponto digno de nota, ocorrido nos dias anteriores à reunião secreta, foco deste artigo, foi o fato de, pela primeira vez, os budistas “leigos” terem tido acesso ao palco, junto aos membros “ordenados”. Dispostos numa certa hierarquia, lamas, mestres zen, mestres chan, entre outros, sentavam em primeiro plano, bem na frente da cadeira reservada para o Dalai Lama; depois vinham os leigos (chamados, também, de “professores do Darma”) seguidos pelos respectivos representantes oficiais das Entidades Anfitriãs, que auxiliaram durante toda a preparação e organização do evento, compondo o Comitê que tratou de todos os aspectos da visita. A identificação “exterior” era nítida, por conta das diferentes vestimentas coloridas, algumas chamativas, pois todos os centros, tibetanos, zen, chan, etc., estavam – especialmente na palestra de abertura, no Templo Zu Lai – devidamente paramentados. Ali, especialmente, Sua Santidade deparou-se com muitas roupagens distintas.

Nesta ocasião, muito sorridente, como sempre, ele dirigiu seu olhar para cada pessoa, sem deixar escapar ninguém. Havia lamas com mantos vermelhos, recobertos com “sobremantos” brancos, listados em bordô; as tradicionais roupas negras do zen, o manto amarelo dos chineses, etc., num colorido muito vivo pelo sol abrasador daquela magnífica quinta-feira.

O Dalai Lama brincou, riu e coçou muito a cabeça enquanto manifestava a energia e a força da sua presença. O discurso desta primeira apresentação cobriu desde uma rápida introdução ao budismo e seus elementos, até o exame superficial da vacuidade. S. S. foi extremamente hábil em sua colocação, dizendo que os tibetanos deviam todo respeito aos chineses, pois eles eram budistas há muito mais tempo que os tibetanos. Depois, com sua natural sabedoria, discorreu sobre a necessidade de se compreender que o “inimigo”, de fato, é um elemento necessário ao nosso crescimento e aperfeiçoamento. Asseverou que:

“...Nosso inimigo nunca está muito distante. É difícil que alguém do outro lado do globo possa ser um inimigo real, pois está longe demais... Em geral, nosso inimigo está bem perto, muito próximo mesmo (às vezes dentro da nossa própria casa, rua ou comunidade)... Na verdade, devido a essa proximidade, ele(a) é alguém que compartilha conosco de um futuro comum. O nosso futuro, portanto, depende do futuro do nosso inimigo. Logo, precisamos aprender a respeitá-lo, a compreendê-lo, a dialogar franca e sinceramente com ele, pois somente assim poderemos construir um bom futuro comum. Se pudermos compreender profundamente essa nossa condição mútua, inseparável, além de respeitar e cuidar bem daquele que consideramos ser um inimigo, nós aprenderemos, quem sabe, a amar o nosso inimigo. Ou seja, na verdade, deixaríamos de ser inimigos, pois ganharíamos, na verdade, um novo amigo!” (risos e muitos aplausos)

Em um certo momento, observando as pessoas no palco, S. S. disse que os leigos, historicamente, foram menosprezados, tratados com desdém, ou até com um certo preconceito (velado) pelos ordenados, como se fossem algo inferiores. Corrigiu isso, dizendo que sem eles, os ordenados não subsistiriam, pois são sustentados pelos leigos. Demonstrou enorme consideração pelos leigos e afirmou, surpreendentemente, serem os leigos, talvez, o melhor veículo para transmissão do Darma, especialmente no Ocidente.

Na sexta-feira, S.S. palestrou no Centro de Convenções do Anhembi, repartindo a palavra com professores da Unifesp, especialmente do Departamento de Medicina, pois o tema proposto para a discussão era a Saúde. Novamente, S.S. encantou os presentes com respostas tão simples quanto sábias.

No sábado, pela manhã, houve a palestra pública no ginásio do parque Ibirapuera. Um público animado lotou completamente o recinto e o Dalai Lama estava particularmente inspirado. Ao entrar, foi aplaudido longamente. Ficamos nos perguntando em que outro país do mundo S. S. ouviria de um vasto grupo feminino os gritos: “Lindo! Lindo! Lindo!”

Curioso, perguntou o que diziam e, quando foi esclarecido pelo assessor, achou muita graça. Então, acomodou-se na poltrona, olhou em volta e queixou-se, simpaticamente, da iluminação, muito focada sobre ele, dizendo que não conseguia ver as pessoas ali presentes. Afirmou que sempre prefere olhar o rosto das pessoas com quem está conversando. Do jeito que estava escuro na platéia, ouvindo o rugido e burburinho do povo, jocosamente, afirmou: “é como falar com um tipo de fantasma gigante!” (muitos risos, aplausos). Provocou ainda mais risos, por singelamente retirar seus óculos comuns e pôr um par de lentes escuras, a fim de proteger-se da forte iluminação que recaía sobre si.

O tema desta apresentação foi sobre “O Poder da Compaixão”, o preferido de S.S.  Talvez esta tenha sido a mais brilhante e tocante palestra do Dalai Lama em São Paulo, tratando-se de uma apresentação relativamente curta, voltada para um público abrangente. Suas colocações foram intensas, absolutamente claras, levando o público a uma experiência espiritual inesquecível. Garantiu que o maior bem é a “paz mental”, pois isso nos mantém saudáveis  e felizes, mas, “para alcançá-la, o único caminho é o da Compaixão”. Pessoas emocionadas, com olhos marejados, aplaudiram de pé este ser humano absolutamente incomum. Mais do que suas palavras, elas viram alguém que corporifica a Compaixão. Às vezes, ouvimos alguém comentar: “como eu gostaria de ter ouvido Jesus ou Buda em pessoa, na época em que viveram...”.

Bem, todas as pessoas presentes naquele estádio, naquele dia, certamente, sentiram como se estivessem realizando um tal desejo. O Dalai Lama aqueceu e preencheu o coração dos ouvintes de um modo muito profundo. Foi um discurso repleto de um amor, humildade, sabedoria e otimismo, digno dos maiores seres humanos que já viveram sobre este planeta em todos os tempos.

Depois desta necessária introdução, para situar o leitor dentro do contexto mais geral do evento, voltemos aos acontecimentos ocorridos no Hotel, na “fatídica reunião secreta” com a sangha budista brasileira. Chegado o precioso e derradeiro momento do encontro – depois de alguma confusão provocada pelo número de pessoas ter se tornado, de uma hora para a outra, bem maior do que o de convidados –, o contingente humano foi dividido em seis grupos menores, com cerca de 30 indivíduos cada, praticamente de acordo com a procedência e linhagem de cada um. Todos os seis grupos foram posicionados contra a parede do corredor do segundo andar do Hotel, cada grupo com uma cadeira vazia, para que, depois de falar, S.S. pudesse sentar-se rapidamente para tirar uma foto de lembrança. O corredor é extremamente largo, talvez com cerca de seis metros de largura por uns cinqüenta metros de profundidade. Sem cadeiras, todos aguardavam de pé. Nós, da equipe Bodigaya, ficamos no último grupo, dos leigos, bem ao fundo do corredor, portanto, tínhamos uma visão privilegiada de tudo o que pudesse acontecer naquela comprida e ampla passagem. Podia-se sentir a tensão e ansiedade eletrizando o ambiente enquanto todos aguardavam o seu maior líder e representante mundial. Finalmente, depois de averiguadas as condições e a segurança por “batedores”, que se espalharam e se postaram estrategicamente pelo local, Sua Santidade finalmente “apontou” na entrada principal do corredor...

Neste exato instante, um dos grupos, seguidor da linhagem Ningma, situado aproximadamente no meio do corredor, começou a entoar o mantra de longa vida ao Dalai Lama. Eles cantavam em voz alta e forte, enquanto S.S., sempre muito sorridente, foi entrando, passos firmes e decididos, corredor adentro, até ficar localizado mais ou menos ao centro, na verdade, um pouco mais para o fundo...  onde estancou, muito próximo de nossa equipe, e recostou-se no balcão comprido que havia ali, perto da parede oposta do corredor. Sorrindo, ouvindo o cântico entusiasmado que lamas e seus acompanhantes emitiam efusivamente, o Dalai Lama ergueu as duas mãos espalmadas à frente, fazendo movimento oscilante para que aquelas pessoas, situadas quase exatamente à sua frente, parassem...

Contudo, apesar do gesto feito pelo Dalai, o grupo, solene e respeitosamente recurvado, com pessoas paramentadas com mantos e sobremantos, munidas de malas (espécie de rosário) nas mãos em prece, palma com palma, não cessou com a cantoria; apenas abaixou o volume da fervorosa recitação. Novamente, S. S. ergueu as mãos, sacudindo-as para que parassem com aquilo. E, então, o volume do canto abaixou ainda mais, todavia, não cessou completamente...

Prezado leitor, o que aconteceu daqui por diante só poderia ser melhor absorvido e compreendido se você estivesse realmente lá, mas vamos tentar resumir, em alguns pontos, o que lá se sucedeu, senão vejamos:

1. Sua Santidade o Dalai Lama verdadeiramente soltou um grito, dizendo (num inglês absolutamente claro, mas aqui, obviamente, já traduzido por nós): “Calem-se!!!” E riu alto, magnânimo, em meio a um silêncio ensurdecedor que se seguiu, pois o grupo jamais esperaria uma atitude como aquela, vinda de quem vinha... Foi um “cala a boca!” contundente, e o silêncio instalou-se quase por um susto, um verdadeiro “choque” repentino da audiência. O grupo engoliu o mantra em seco, ficando com um sorriso “amarelo-histriônico” estampado no rosto. Com aquela introdução, de fato, muito constrangedora, mas verdadeira, o “tom da conversa” havia sido inequivocamente apresentado. Todos estavam ali, contra-a-parede, perfilados assim como num “pelotão de fuzilamento”... E quem estava ali, fazendo uso das palavras como uma arma eficaz e certeira, era exatamente ele, o Dalai Lama.

2. Iniciando por este imponente “Calem-se!!!”, Sua Santidade fez uma breve digressão. Disse que, no templo Zu Lai, viu um desfile de muitas vestimentas: “Havia roupas tibetanas, roupas chinesas, roupas japonesas, tailandesas, entre outras. Havia até roupas normais, de ocidentais... Porém, algumas roupas que havia lá, pareceram-me ser, na verdade, de outro planeta!” (muitos  risos, risos amarelos, vermelhos, azuis, pretos...). “Penso que havia ali roupas até de ETs!” E riu muito alto, no que não conseguimos nos conter, apesar do constrangimento que sentíamos pelo que aquelas duras palavras significavam... Sua Santidade olhava nos olhos de cada um dos lamas e, quando se referiu a “roupas de ETs”, encarou uma pessoa específica. Imaginamos, imediatamente, que o Dalai Lama conheça praticamente todas as roupas monásticas existentes em cada templo do mundo inteiro e, talvez, tivesse percebido, nos trajes muito chamativos daquele indivíduo, algo ainda sem correspondência no universo de vestimentas de grupos reconhecidos fora do Brasil... A força de sua presença e coragem foi impressionante. Ninguém conseguia esboçar qualquer intervenção ou comentário. Na verdade, aquelas palavras eram mais um susto estupendo. O que viria a seguir? Muito mais do que se poderia imaginar...

3. O Dalai Lama mudou um pouco o tom irônico para um pronunciamento esmagador, uma lição absolutamente memorável: “Vocês são ocidentais e mudaram suas roupas. (referindo-se aos mantos, saias e sobremantos dos brasileiros ali presentes). Mudaram até a mobília da casa de vocês. Vocês acham que o Darma está nas roupas ou na mobília, nos adornos de suas casas? (Estão enganados)... O Darma não está nas roupas, mas no coração e na mente” ... E riu alto novamente... A “atmosfera” do ambiente ficou absurda. Os lamas, bem na frente de Sua Santidade estavam paralisados, sem face, exibindo um “sorriso amarelo-aterrorizado”, indescritível. Davam a impressão de quererem ser teletransportados dali, mas não podiam simplesmente desaparecer, fugir, correr ou recuar, pois estavam presos no cordão de fuzilamento, sob os olhos atentos de um Dalai Lama ao mesmo tempo implacável e totalmente amoroso. Isso o que mais nos impressionava. Assistíamos à capacidade extrema de apontar e cravar a espada com precisão e veemência absoluta, mas sem intenção de causar dano. Não havia ódio no gesto hábil, quase leve, ainda que parecesse pesar toneladas pela dor que causava. O golpe excruciante tentava apenas eviscerar e fazer vazar o pus abjeto, encarcerado num abcesso maduro que apodreceria tudo o que ainda pudesse restar são... A impressão que tivemos foi de um Dalai Lama gigantesco, com mil metros de altura, e os líderes todos ali, bem na sua frente, como pigmeus, tentando entrar para dentro dos próprios sapatos a fim de se esconderem apavorados. Mas, como isso também não era possível, jaziam ali indefesos, a mercê de uma autoridade e poder superiores. Imagine o leitor que Sua Santidade, em pessoa, teve de lembrá-los disso! Dizer-lhes isso com cada letra e palavra. Está escrito no Dhammapada: “O hábito não faz o monge.” (Nem o canto de mantras!) Mas, quem, então, segue verdadeiramente o Darma? Só com esta atitude e clara intervenção, para quantos questionamentos nos remeteu Sua Santidade! Não ficou por aí, sigamos adiante:

4. Sua Santidade fez um breve comentário sobre ter-se alguma consideração pela cultura tibetana, mas que, “se há alguém que deve tentar preservar a cultura tibetana, são os tibetanos!” Se alguém deve preservar a cultura chinesa, são os chineses... e assim por diante... Querendo, talvez, no fundo, perguntar: e vocês, o que fazem com estas roupas de uma cultura exótica? Quem irá preservar a cultura de vocês? Deu a entender que mudar externamente, não transformava nada de fato e que eles jamais seriam tibetanos por usar roupas tibetanas.

5. Então, Sua Santidade deu o exemplo fortíssimo, discorrendo sobre o quão é difícil transformarmos a nós mesmos: afirmou que o Buda havia levado “três eons” (eras intermináveis) para iluminar-se. Reconhecido aos quatro anos de idade, levado ao contexto monástico, ele foi conduzido por muitos mestres, ao longo de muitas práticas, mas que ele mesmo praticava com maior consciência de sua condição desde os 16 anos, quando acredita ter entendido um pouco do significado de alguns ensinamentos e havia se tornado muito clara e nítida a sua condição de chefe de estado. “Estou agora com 70 anos...”, meditando cerca de nove horas diárias, desde essa idade, “e só consegui me transformar um tanto assim...” (mostrou os dedos polegar e indicador grudados um no outro). Ou seja, mesmo Sua Santidade, com todo o seu esforço, empenho, vida dedicada, como um monge que preza seus votos e práticas, havia conseguido avançar muito pouco. Esta afirmação, por si só, demonstra a envergadura da plena consciência e humildade dessa pessoa incomum.

6. Então, Sua Santidade desfere mais um golpe certeiro: ”Vocês fazem um retiro de três anos... e alguns fazem um workshop budista de um final de semana, e já se consideram transformados, espiritualmente elevados e até iluminados! Isso é loucura!” E ria alto, disparando seu olhar sobre todos. Desta feita, foi como prensar os ossos dos muitos orgulhos e vaidades presentes. Mas não parou tão logo, parecia saber que havia ossos ainda mais resistentes para serem moídos:

7. Sem retroceder um milímetro, indo em frente, Sua Santidade calou ainda mais fundo: “Vocês fazem rituais, retiros rituais de um mês, cantando mantras para Manjurshri, por exemplo, e pensam que já transformaram todas as suas negatividades. Então, depois disso, alguns já se autodenominam gurus!” E ria-se muito mesmo, como se quisesse assoprar a ferida recém-aberta... Assim que a dor parecia ter reduzido um pouco, que o grupo havia tomado um pouco de ar, Sua Santidade batia forte de novo:

8.“Vocês fariam muito melhor se, ao invés de ficar em repetindo rituais (vazios), ou
permanecer por um mês cantando mantras, utilizassem esse mês estudando o Darma!” E ria assustadoramente. Na prática, suas palavras significavam diretamente: vocês não sabem nada e se arvoram de lamas, mestres, gurus iluminados e etc. Isso é uma grave loucura! Ninguém mais do que Sua Santidade tem consciência do quanto uma pseudo ou falsa liderança, ou pior, uma liderança despreparada, confusa, pode gerar em termos de negatividades. Mas não foi em tom de ameaça ou chantagem: foi lúcido, brilhante como o sol nascente fazendo desaparecer as trevas da madrugada com sua presença esclarecida. Estudar o Darma é trabalho interminável, de toda a vida, pois ele é vasto e profundo. Então, Sua Santidade escolheu atacar outro tema fundamental:

9. “Outro dia, nos EUA, uma pessoa se aproximou de mim e perguntou: ‘S. S. como
eu posso me aproximar do budismo tibetano se, há algum tempo, fui com minha esposa a um centro onde um certo lama ensinava e ele foi tão sedutor que minha mulher abandonou minha família para ir viver com o lama?’   E S. S. perguntou: “Vocês acham que isso é ser lama? Ser lama é para obter favores sexuais, para alcançar reconhecimento,  fama? Para muitos, é apenas uma questão de ganhar dinheiro! Há empresários inescrupulosos se utilizando do Darma para, simplesmente, fazer dinheiro!”  E ria alto e mais alto...

10. Abrandando um pouco o tom, já que havia exposto a chaga a céu aberto, diante de uma audiência que parecia anestesiada de tantas observações contundentes, S.S. falou sobre o quanto é custoso mudar, transformar-se internamente. Mas, deixou claro: “Mudar externamente não significa nada. É perda de tempo.” Falou que “fingir” ser o que não se é não leva a lugar algum, pois nada é alcançado assim... A não ser os benefícios secundários de ser alvo de atenções, consideração, respeito e outros benefícios econômicos que não vêm ao caso mencionar, mas são evidentes.

Sua Santidade falou também sobre a arrogância, a soberba, a superioridade, dizendo que estes eram obstáculos sérios, impeditivos do prosseguimento no caminho. Então defendeu que, para o Ocidente, a perspectiva leiga e não-religiosa talvez fosse a melhor e mais adequada para a transmissão do budismo. Repetindo suas palavras já ditas no Templo Zu Lai, ao observar a presença de leigos sentados nas almofadas no palco, que os leigos sempre foram discriminados e que isto era totalmente injusto e sem sentido.

11. Depois de outros comentários, Sua Santidade definitivamente abrandou suas palavras, falando seriamente da atual condição do seu país, o Tibete, ainda nas mãos dos chineses. Concluiu ser melhor que Tibete fique mesmo com os chineses, pois estão modernizando o país, coisa que os tibetanos não poderiam proporcionar ao povo. Observou, porém, que isso deveria ser feito com garantias de direitos aos cidadãos, com respeito às diferentes etnias, direitos iguais preservados, constituição, democracia e etc.

12. Finalmente, agradeceu a todos que trabalharam e colaboraram com tudo. Muitos aplausos,  suspiros e Sua Santidade foi sentar-se, rapidamente, na cadeira de cada grupo, para as respectivas fotos.

Talvez não signifique absolutamente nada, mas, quando saímos por uma porta dos fundos, aberta por um funcionário enquanto os demais grupos tiravam fotos com o Dalai Lama, seguimos por ali, sem saber onde sairíamos e, para nossa surpresa, encontramo-nos novamente com S.S. já deixando o hotel. Ele sorriu para nós, despedimo-nos com acenos de mão e muita felicidade.

Em sua muito provável última visita ao Brasil, Sua Santidade nos fez ficar de espírito leve, solto, como se tudo estivesse em paz e em seu devido lugar.

Foi uma lição forte e inesquecível. Todos nós passaremos a respeitar profundamente os lamas e mestres que seguirem os conselhos expressos por Sua Santidade neste encontro tão histórico e memorável quanto enriquecedor.

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