27 de julho de 2011

Tempo Para Crescer, Tempo Para Viver!

(O texto a seguir foi retirado do blog jornaloutro.blogspot.com)

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De seguida, e a pensar nas crianças,
apresentamos um artigo de Ana Esteves 
sobre o movimento Slow Parenting:
este movimento defende que «menos é mais»:
menos coisas, menos actividades, menos pressa,
menos pressão, menos expectativas. Mais tempo
para crescer fará as crianças mais felizes.

[Nota dos autores]

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Quem teve uma casa na árvore, leu a Pipi das Meias Altas e ainda se lembra dos dias intermináveis das férias grandes sabe do que se trata. A infância das crianças de hoje é bastante diferente da dos pais: pela pressa constante, pela falta de disponibilidade para estar com elas, pelo tempo todo controlado, pela pressão de serem os melhores em qualquer coisa. Mas há quem tente pôr um travão neste frenesim, desacelerar um pouco e devolver às crianças o que a infância tem de melhor: tempo para crescer e descobrir o mundo.

O movimento Slow, que defende e procura um abrandamento do ritmo de vida actual e faz o elogio da lentidão como forma de melhor apreciar as coisas boas, também chegou à educação. «Trees makes the best mobiles» (As árvores são os melhores mobiles) foi o livro que mudou a forma de encarar a maternidade de algumas estrelas de Hollywood: Gwyneth Paltrow descobiu-o quando a sua filha Apple era bebé e a partir de então oferece-o a todas as amigas que vão ser mães. As formas mais simples de educar num mundo tão complexo atraíram também Laura Dern, Heidi Klum, Courtney Cox e Susan Welsh. Como resistir à pressão de comprar demasiadas coisas que se tornam ruído para um bebé e à tentação de estar sempre a mostrar-lhe coisas novas, a acelerar o seu desenvolvimento e as suas descobertas, são algumas das propostas deste livro.

Outra obra que contribuiu para o movimento Slow Parenting foi «What Mothers do: Especially when it looks like nothing» (O que fazem as mães: especialmente quando parecem não fazer nada), de Naomi Standler. Segundo a autora, as mães não devem encarar o bebé na lógica de mais uma lista de «coisas a fazer». Quando estão apenas a contemplar o seu filho pode parecer que estão a fazer nada, mas afinal estão a fazer o mais importante: descobri-lo, conhecê-lo e deixá-lo ser ele mesmo.

Brinquedos Simples

Substituir brinquedos electrónicos cheios de ruídos e estímulos por simples pauzinhos, folhas, pedras ou conchas é um dos mais importantes conselhos do Slow Parenting. Não devemos apressar as crianças e os defensores da lentidão abominam especialmente os brinquedos que prometem ensinar-lhes rapidamente muitas coisas, seja vocabulário, uma segunda língua, ou como somar e subtrair. Não devemos esperar nem agir como se os nossos filho fossem pequenos génios que têm de fazer tudo antes dos outros. Depressa não é forçosamente bem. Cada coisa a seu tempo e sobretudo, no ritmo certo, afirmam os «slow parents».

Tempo para brincar e estar sem fazer nada

Gastar dinheiro em múltiplas actividades quase desde o berço é outras da realidades do mundo moderno contestadas pelos defensores da filosofia da lentidão e do «menos é mais» aplicada à educação. É mais importante que as crianças tenham tempo para actividades livres, não organizadas, do que tenham os dias todos ocupados com actividades estruturadas. Informática e ballet aos três anos parece muito apelativo, mas na verdade não tem vantagens nenhumas, é mais uma despesa e rouba tempo ao que é realmente importante: brincar e interagir, sobretudo com os pais.

Aliviar a pressão de pais hiperactivos

Mais recente foi a pulbicação de «Under Pressure: Rescuing Our Children from the Culture of Hyper-Parenting» (Sob Pressão: como Salvar as Crianças da Cultura dos Hiper-Pais), de Carl Honoré, um dos gurus do movimento Slow. O jornalista e autor de «In praise of Slow» (O Elogio da Lentidão), dedicou-se a analisar a forma como são educadas as crianças na nossa sociedade de consumo, onde a pressa é constante. Honoré considera os pais de hoje hiper-activos e defende que é preciso salvar as crianças desta vertigem constante e devolvê-las à infância - que deve ser um lugar de calma e de tempo a perder de vista.

O autor afirma que a principal razão para escrever este livro foi pessoal, pois precisava de arrumar as ideias de forma a alterar a sua forma de ser pai. Um dia descobriu um livro que resumia histórias infantis clássicas para que os pais pudessem lê-las em 60 segundos, na hora de deitar. A sua primeira reacção foi pensar «Boa ideia!» Então percebeu a loucura em que os pais de hoje andam, ele incluído. Era preciso mudar, a bem dos seus filhos.

Nas sua investigação, visitou creches em Itália e na Escócia, um laboratório de pesquisa de brinquedos na Suécia, escolas na Finlândia e em Hong-Kong, colégios em Inglaterra e nos Estados Unidos, clubes desportivos um pouco por todo o lado. Chegou à conclusão de que a ambição desmedida dos pais que pressionam os filhos, em todas as idades, é um fenómeno global.

O livro procura mostrar como é possível encontrar um equilíbrio no ritmo de vida familiar de modo a que a infância deixe de ser uma corrida para o sucesso. A tentativa constante de dar aos filhos tudo o que há de melhor corta-lhes a possibilidade de aprenderem a tirar partido daquilo que têm. E essa é a melhor lição de vida que podem ter.

Tendo em conta o investimento de tempo, energia e dinheiro que se faz hoje em dia nos filhos, a geração de crianças actual devia ser a mais saudável e feliz de todos os tempos. Mas tal não acontece. Carl Honoré aponta a obesidade por um lado e as crianças que praticam desporto de forma demasiado intensa, por outro. Nem uns nem outros são saudáveis e felizes. E por isso nunca como hoje houve tantas crianças depressivas, ansiosas e com baixa auto-estima. Adoptar um estilo parental mais descontraído, sem pressão e sem pressa, pode parecer difícil. Mas é possível. As férias são decididamente uma boa altura para pensar no assunto.

Alguns dos conselhos de Carl Honoré

Deixar as coisas acontecer em vez de estar sempre a programar.

Deixar as crianças correr alguns riscos em vez de os transportar numa agenda sem intervalos de uma bolha de segurança para outra.

Não pretender controlar tudo. Deixar tempo livre às crianças para que possam desenvolver a sua criatividade. Carl Honoré pretendia inscrever o filho em aulas de expressão plástica, depois de a professora o informar que a criança era muito dotada para as artes. O filho, com sete anos, disse-lhe: «Pai, porque é que os adultos têm de controlar tudo? Eu só quero desenhar e pintar, não preciso de aulas para isso».

Recusar a pressão de ter de oferecer aos filhos uma infância perfeita. Isso não existe, tal como não existem pais perfeitos.

Dê aos seus filhos espaço e tempo para explorar o mundo à sua maneira. É assim que as crianças aprendem a pensar, a inventar e a socializar, a ter prazer nas coisas que fazem, a desenvolver o que são em vez de tentarem apenas cumprir as expectativas dos pais.

Dê muito amor, atenção e disponibilidade. Sem condições.

Para saber mais
Trees makes the best mobiles: simple ways to Raise your child in a complex world, Jessica Teich e Brandel France de Bravo, St. Martin's Griffin, 2002

In praise of Slow, de Carl Honoré, 2004. Tornou-se a bíblia do movimento Slow. Em Portugal, o livro foi editado pela Estrela Polar sob o título «O movimento Slow».

Under Pressure: Rescuing Our Children from the Culture of Hyper-Parenting, Carl Honoré, HarperOne, 2008

26 de julho de 2011

O TEMPLO DO FUTURO



Trechos de Uma Obra Profética
Descrevem a Humanidade Futura


Eliphas Levi



 Página de rosto da obra de Eliphas Levi


Nota Editorial:

É grande a importância teosófica da vida e da obra do pensador Eliphas Levi, cujo nome de batismo era Alphonse Louis Constant.

Um dos principais precursores da teosofia de H. P. Blavatsky, Eliphas Levi morreu em 1875, no mesmo ano em que H. P. B. começou seu trabalho público e deu início ao movimento teosófico.  Alguns anos mais tarde, os manuscritos inéditos de Eliphas foram confiados à Sra.  Blavatsky, que passou a publicá-los em série em sua revista “The Theosophist”.

Na abertura da Carta 70-C das “Cartas dos Mahatmas” (Ed. Teosófica), um Mestre de Sabedoria esclarece: exceto pelo fato de usar constantemente os termos “Deus” e “Cristo”, a filosofia de Eliphas Levi não está em nenhum conflito direto com os ensinamentos teosóficos.  O mestre acrescenta que, esotericamente, “Deus” é apenas o princípio universal da Bondade ou Equilíbrio; e que a palavra “Cristo” tem o mesmo significado.  

Em torno de 1862, Levi participou de vários encontros em Londres com alguns pesquisadores da sabedoria esotérica. Entre eles estava um Mahatma, segundo o próprio Mestre informa na Carta 11 de “Cartas dos Mahatmas” (volume I, pp. 75-76).  

A vida e o trabalho de Eliphas Levi tornaram mais fácil o surgimento do movimento teosófico em 1875, e, além disso, sua obra permanece tendo grande valor em si mesma. Um dos pontos fortes dos seus escritos são as indicações que eles dão sobre a religião universal do futuro.

A seguir, veremos trechos de um dos livros mais raros de Eliphas, “A Bíblia da Liberdade” (“La Bible de la Liberté”).  Graças ao conteúdo do livro, o autor foi condenado a oito meses de prisão. O suposto crime foi contrariar os dogmas do Vaticano.

A única edição conhecida da obra é a de 1841, imediatamente proibida pelas autoridades. “La Bible de la Liberté” é hoje extremamente raro como livro em papel, mas está disponível online, em PDF, graças à biblioteca nacional da França.[1]  Faltam da obra apenas alguns capítulos, censurados.  

Eliphas propõe no livro uma visão utópica e profética do futuro humano que coincide em termos gerais com a visão teosófica. A obra pode ser lida como um poema em prosa. A sua visão crítica do catolicismo romano está à altura da Carta número 88 de “Cartas dos Mahatmas”.[2] O capítulo vinte, por exemplo, é dedicado a mostrar que a Igreja dogmática é o verdadeiro Anti-Cristo, e que a igreja imperial faz, precisamente, o oposto do ensinado pelo Mestre do Novo Testamento.  

Traduzimos a seguir os capítulos 35, “O Futuro”, e 36, “O Templo”, que estão às pp. 90 a 94 da edição de 1841. Neles a obra aborda o momento em que a humanidade - já livre da atual ignorância - terá uma religião universal, abrangente, contendo em si o melhor das tradições de sabedoria do Oriente e do Ocidente.  Este será o tempo da fraternidade universal, que o movimento teosófico visa preparar.  

Parte do futuro visualizado por Eliphas corresponde a períodos ainda distantes, em que a maior parte dos seres humanos estará livre da roda da reencarnação no atual plano físico. O processo é descrito em “A Doutrina Secreta”, de H.P. Blavatsky. 

Embora o texto de Eliphas tenha elementos de uma utopia teosófica, ele é na verdade uma visão poética da transição para o tempo futuro em que reinará - conscientemente - a harmonia universal.

(Carlos Cardoso Aveline)


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O Templo do Futuro

Eliphas Levi

1.  O Futuro.

Os animais continuarão a se devorar mutuamente até o final. Só o homem é imortal.

E quando houver na humanidade mais seres humanos que animais, começará a associação dos homens livres.   

E Deus bendirá o seu povo e lhe dirá: Cresça e se multiplique.

Mas antes desta época, os formigueiros do norte devem renovar a terra uma segunda vez; porque a forma da nossa sociedade já está ultrapassada, e sua alma deve passar a povos novos.

Então tudo se constituirá segundo a lei da unidade.

Foi dito aos pobres: “Destruam os ricos”. E aos escravos: “Degolem os tiranos, porque os ricos e os tiranos devem perecer”.

Mas os que roubam os ricos se tornam ricos por sua vez. Os escravos se tornam tiranos, e encontram a sua punição na sua vitória.

O espírito da liberdade salva os homens que têm inteligência e amor ao sacrificá-los, e prepara uma armadilha para os homens egoístas, dedicados à rapina.

Ladrões contra ladrões, assassinos contra assassinos; que eles ataquem uns aos outros, que batam, que degolem-se e se destrocem uns aos outros.

Os seres humanos do futuro estão no campo de batalha como os soldados de Gideão [3]; eles destroem suas vidas como cântaros de barro, e erguem em suas mãos tochas acesas, e fazem soar as trombetas.

Eles não usarão a espada. A sua palavra será suficiente, e os [inimigos] midianitas matarão uns aos outros.

Anjos da guerra e da morte, voem sobre os terrenos tomados pelo fogo e anunciem à terra a queda da grande Babilônia!

Aqui está a solução do problema dos nomes, e a demonstração eterna da unidade.

Um povo, um Deus, uma Lei, um rei.

E Deus será o povo, e a Lei será Deus, e o rei será a lei.

A justiça e a paz reinarão entre todos; e ambas terão por intérprete, ajudado por um conselho de sábios, um servidor do povo, guardião dos tesouros do Estado.

Os tesouros do Estado serão a sabedoria e o amor. O ouro será usado apenas para fazer estátuas em homenagem aos grandes homens.

O rei será um homem condenado a sofrer, que se sacrificará por todos. Ele desejará ser libertado deste peso, e não terá outra ambição além do amor dos seres humanos.

A palavra do rei será a palavra da lei; e ela será justa como a balança, e cortante como a espada.

Porque o rei será o representante do povo, e só povo será o monarca e o supremo pontífice. O homem viverá e reinará imortal; e este será o homem-deus, o povo-Cristo, o Verbo encarnado.

E o Cristo, transformado em povo, colocará o mundo nas mãos do seu pai, e sentará à direita de Deus.

E o seu reino não terá fim. Amém.

2. O Templo.

Quando o espírito for revelado, toda a trindade se revelará em sua glória.

A humanidade terá a graça da infância, o vigor da juventude e a sabedoria da idade madura.

Todas as formas que revestiram sucessivamente o pensamento divino renascerão perfeitas e imortais.

Todos os esboços produzidos pela arte das nações ao longo do tempo se reunirão e formarão a imagem completa de Deus.

Jerusalém reconstruirá o templo de Jeová seguindo o modelo profetizado por Ezequiel; e o Cristo, novo e eterno Salomão, nele cantará - entre paredes de cedro e cipreste - as suas núpcias com a esposa do cântico.

Mas Jeová terá deixado a um lado o seu raio, para bendizer com as duas mãos o noivo e a noiva; ele aparecerá sorridente entre os dois esposos, e estará feliz por ser chamado de pai.

No entanto a poesia do Oriente, com suas lembranças mágicas, o chamará ainda de Brahma e de Júpiter.  A Índia ensinará em nossos climas encantados as fábulas maravilhosas de Vishnu, e nos mostrará, diante do rosto ainda ensangüentado de nosso amado Cristo, a tríplice coroa de pérolas da Trimurti [4] mística.  Vênus, purificada, sob o véu de Maria, já não chorará por Adônis; o Esposo ressuscitou para não mais morrer, e o javali infernal [5] encontrou a morte em sua vitória passageira.

Reergam-se, templos de Delfos e de Éfeso; o Deus da luz e das artes tornou-se o Deus do mundo, e o Verbo de Deus bem pode ser chamado pelo nome de Apolo! Diana [a lua ]  já não reinará como viúva nos campos solitários da noite. A sua crescente prateada está agora aos pés do seu esposo.

Mas Diana não é vencida por Vênus. Seu Endimião acaba de se despertar,  e a virgindade se orgulha porque em breve será mãe.

Sai da tua  tumba, ó Fídias, e reconcilia-te com a destruição de teu Júpiter [6]; é agora que tu terás, como filho, um Deus.

Ó Roma!  Que os teus templos se ergam ao lado de tuas basílicas; que sejas ainda a rainha do mundo e o panteão das nações; que Virgílio seja coroado  no Capitólio pela mão de São Pedro, e que o Olimpo e o Carmelo unam as suas divindades sob o pincel da Rafael.

Transfigurem-se, antigas catedrais de nossos pais; lancem, até as nuvens, suas flechas buriladas e vivas, que a pedra revela em figuras animadas; as sombrias lendas do Norte tornaram-se alegres graças aos apólogos dourados e maravilhosos do Alcorão.

Que o Oriente adore Jesus Cristo em suas mesquitas, e que, sob os minaretes de uma nova Santa Sofia, a cruz se eleve em meio à crescente! [7]

Que Maomé liberte a mulher, para dar ao verdadeiro crente a mulher ideal com que ele tanto sonha; e que Cristo se liberte de sua longa solidão entre os anjos de Maomé.

Toda a terra, revestida dos ornamentos que as diversas artes produziram, será um templo magnífico, do qual o ser humano será o eterno sacerdote.

Tudo aquilo que foi verdadeiro, tudo aquilo que foi belo, tudo aquilo que foi agradável, nos séculos anteriores, reviverá gloriosamente nesta transfiguração do mundo. E a forma será inseparável da ideia, assim como o corpo será, um dia, inseparável da alma. Quando a alma tiver desenvolvido todo o seu poder, ela fará um corpo à sua imagem. [8]

Este será o reino do céu sobre a terra; e os corpos serão os templos das almas, assim como o universo, regenerado, será o templo de Deus.

E os corpos e as almas, e a forma e o pensamento, e o universo inteiro, serão Deus.

Amém, amém, amém.


NOTAS:

[1] Veja o livro “La Bible de la Liberté”  no website da biblioteca nacional da França:   http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k117377b/f5.image . (CCA)

[2] A Carta 88 de “Cartas dos Mahatmas” está publicada em www.FilosofiaEsoterica.com  sob o título “Deus Pessoal ou Lei Universal?” e pode ser facilmente encontrada na Lista de Textos por Ordem Alfabética. Consta como nome de autor “Um Mahatma dos Himalaias”, e o texto também pode ser localizado no website através de Lista de Textos por Autor. (CCA)

[3] A história de Gideão está contada o Antigo Testamento, em “Juízes”, capítulos 6 a 8. Veja este episódio específico em Juízes, 7: 19-23. (CCA)

[4] Trimurti: a Trindade da religião hindu, Brahma, Vishnu e Shiva. (CCA)

[5] Na lenda de Vênus e Adônis, um javali selvagem mata o esposo de Vênus, durante uma caçada. (CCA)

[6] A estátua de Júpiter feita por Fídias era considerada a mais perfeita realização da escultura grega, segundo afirma Thomas Bulfinch em “O Livro de Ouro da Mitologia”, Edições de Ouro, RJ, 1998, p. 356. (CCA)

[7] A crescente é o símbolo do Islamismo. (CCA)

[8] A obra “A Doutrina Secreta”, de H. P. Blavatsky, explica que futuras raças-raízes da nossa humanidade já não necessitarão corpos físicos.  Assim, pode-se dizer que então os corpos serão feitos “segundo a imagem da alma”. (CCA)


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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia original, escreva a lutbr@terra.com.br e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.

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22 de julho de 2011

A CARTA DO GRANDE MESTRE



Uma Chave Para Visualizar o Futuro

Um Mahatma dos Himalaias


 
1. Introdução: a Importância do Documento

A história registra que, em 1881, um dos raja-iogues ou Mestres de Sabedoria que orientavam o trabalho teosófico na sua fase pioneira decidiu buscar conselhos,  e consultou o seu próprio instrutor.

O Mestre dos Mestres  foi então ouvido. O tema era a natureza, a meta e o rumo do movimento que estava sendo iniciado.

O instrutor que foi consultado é chamado pelos Mestres simplesmente de Chohan.  A palavra “Chohan” significa “Senhor”.  Mais tarde, este mesmo Sábio passou a ser frequentemente referido como “Maha-Chohan”.  Um dos instrutores de H. P. Blavatsky qualificou-o em certa ocasião como “a rocha das idades”.  Em outro momento, referiu-se ao Chohan como  aquele para quem o futuro é como uma página aberta”.[1]   Nas publicações da Loja Unida de Teosofistas, a LUT, ele é mencionado como “o Grande Mestre”.

Depois da consulta com o Chohan, o Mestre fez um relato da conversa.  Este texto é a mais autorizada descrição da Missão que deveria ser cumprida pelo movimento teosófico e esotérico autêntico, não só nas décadas, mas também nos séculos seguintes. Ele contém uma profecia extraordinária, e positiva, sobre o progresso cultural e histórico da nossa humanidade. Ao contrário de tantas “profecias” que se limitam a anunciar grandes desastres, o texto aponta o rumo da transição vitoriosa dos seres humanos (não sem sacrifícios)  para uma nova era de paz e de fraternidade planetária. 

Entre outros motivos, a Carta do Grande Mestre tem especial importância  porque nela encontramos elementos centrais de informação sobre a religião do futuro.  Ela dá os contornos gerais de uma religiosidade que deve surgir mais claramente durante o século 21.   Havia, porém, uma dúvida a respeito do conteúdo exato da carta,  em uma passagem das mais decisivas.  O texto transcrito por C. Jinarajadasa no volume “Cartas dos Mestres de Sabedoria” (Ed. Teosófica)  diz o seguinte:

“A Sociedade Teosófica foi escolhida como a pedra fundamental, o alicerce das religiões futuras da humanidade.” [2]  

A passagem inspira alguns questionamentos.  Existirão, no futuro, muitas religiões competindo entre si? Ou haverá uma única religião global, ainda que não-autoritária? 

O original da Carta do Chohan desapareceu, e há mais de uma cópia dele. Nos primeiros anos do movimento, cópias das Cartas dos Mahatmas circulavam privadamente entre os estudantes. A Sociedade Teosófica de Pasadena − que ao lado da Sociedade de Adyar e da Loja Unida de Teosofistas é uma das principais correntes internacionais de pensamento esotérico − publicou a versão do texto que está no Museu Britânico.  Nesta versão, o documento menciona a religião futura, no singular:

“A Sociedade Teosófica foi escolhida como a pedra fundamental, o alicerce da religião futura da humanidade.” [3]

Neste caso o mestre teria afirmado que a religião do futuro será uma só – naturalmente não-burocratizada e incluindo a necessária diversidade cultural.  

Com o objetivo de  verificar e comprovar diretamente os fatos, o e-grupo SerAtento e o website www.filosofiaesoterica.com  tomaram providências para obter  uma cópia autêntica da mais autorizada versão da Carta do Chohan que existe no mundo. Esta é, sem dúvida, a cópia feita a caneta pelo próprio Alfred Sinnett, o homem que a recebeu do Mestre. Esta versão da carta está no setor de Manuscritos Raros da Biblioteca Britânica (British Library),  em Londres, e seu número de identificação é 45289A.   Em maio de 2009,  foi obtida junto à Biblioteca Britânica uma cópia autenticada completa do manuscrito  45289A   – a Carta do Chohan ou  Grande Mestre.  

O exame direto da carta confirma o fato de que a frase correta é:

“A Sociedade Teosófica foi escolhida como a pedra fundamental, o alicerce da religião futura da humanidade.”

Esta comprovação é importante por vários motivos.  Um deles é que ainda hoje a maior parte das publicações teosóficas internacionais – inclusive as que estão voltadas para a teosofia original – continuam a divulgar a frase equivocada, falando de “religiões”, no plural, tal como na versão de C. Jinarajadasa.  

É importante observar também que, na última frase da carta, há uma referência à “verdadeira filosofia, a verdadeira religião”, no singular.

A religião do futuro é a religião-filosofia, a religião-sabedoria.

Ela é uma, mas não é autoritária, e portanto inclui o princípio da diversidade cultural. Ela tem como base a percepção direta e a vivência da fraternidade universal que une todos os seres. Internamente una, ela pode ser vista como externamente múltipla.

Transcrevemos a seguir (logo depois das notas bibliográficas) a íntegra da profética “Carta do Grande Mestre”, com a devida correção na frase sobre a religião do futuro.

(Carlos Cardoso Aveline)


NOTAS:

[1  Sobre  a alusão ao “futuro como uma página aberta”,  veja “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa, Editora Teosófica, Brasília, 1996,  p. 57 .   Sobre a alusão a “rocha das idades” ou “rocha das eras”,  veja “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, primeiro parágrafo da Carta 18, volume I, p. 112.  

[2] Carta 01, primeira série, em “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, obra citada, p. 18.

[3]“View of the Chohan on the T.S.”, texto incluído no volume “Combined Chronology – For use with 'The Mahatma Letters to A.P. Sinnett'  and  'The Letters of H.P.B. To A.P.Sinnett' ”, by Margaret Conger, T.U.P.,  Pasadena, California, 1973, 48 pp., ver especialmente a  p. 44.


2. A Íntegra da Carta do Grande Mestre


A doutrina que promulgamos, por ser a única verdadeira, deve, apoiada em provas como as que estamos por oferecer, triunfar, afinal, como qualquer outra verdade. Contudo, é absolutamente necessário incuti-la gradualmente, colocando em prática suas teorias, fatos inquestionáveis para aqueles que sabem, com inferências diretas deduzidas das — e corroboradas pelas — evidências fornecidas pelas modernas Ciências Exatas. Esta é a razão pela qual o Coronel H.S.O., que trabalha apenas para reviver o Budismo, pode ser visto como alguém que se esforça na verdadeira senda da teosofia, muito mais do que qualquer outra pessoa que escolha como meta a gratificação de suas próprias e ardentes aspirações ao conhecimento oculto. Despojado de suas superstições, o Budismo é verdade eterna, e aquele que se esforça por encontrar esta última está buscando a Theo-Sophia, Sabedoria Divina, que é um sinônimo da verdade.

Para que nossas doutrinas ajam de forma prática sobre o assim chamado código moral, ou as idéias de retidão, pureza, auto-esquecimento, caridade, etc., temos de popularizar o conhecimento da Teosofia. O que caracteriza o verdadeiro teosofista não é o objetivo individual e determinado de obter para si mesmo o Nirvana (culminação de todo conhecimento e sabedoria absoluta) — o que, afinal, é apenas um sublime e glorioso egoísmo — mas a dedicação à busca com auto-sacrifício do melhor meio para levar nosso próximo ao caminho correto, beneficiando o maior número possível de nossos semelhantes.

Os setores intelectualizados da humanidade parecem estar-se dividindo rapidamente em dois grupos. Um prepara-se inconscientemente para longos períodos de aniquilação temporária, ou estados de não-consciência, devido ao abandono deliberado de seu intelecto, e aprisionamento nas estreitas trilhas do fanatismo religioso e da superstição, processo que inevitavelmente conduz à total deformação do princípio intelectual; o outro entrega-se desenfreadamente a seus impulsos animais, com a intenção deliberada de submeter-se à aniquilação pura e simples em caso de fracasso, e a milênios de degradação após a dissolução física. Essas “classes intelectuais”, agindo sobre as massas ignorantes que elas atraem, e que as vêem como nobres e dignos exemplos a seguir, rebaixam e degradam moralmente aqueles que deveriam proteger e orientar. Entre a superstição degradante e o ainda mais degradante e brutal materialismo, a pomba branca da verdade dificilmente encontra um lugar onde possa descansar seus pés desprezados e exaustos.

Já é tempo de a teosofia entrar em cena; os filhos dos teosofistas serão mais provavelmente teosofistas, em seu tempo, do que qualquer outra coisa. Nenhum mensageiro da verdade, nenhum profeta jamais conquistou, durante seu tempo de vida, um completo triunfo, nem mesmo Buda. A Sociedade Teosófica foi escolhida como a pedra fundamental, o alicerce da religião futura da humanidade. Para alcançar o objetivo proposto, foi determinado que houvesse uma convivência maior, mais sábia, e especialmente mais benevolente, do superior com o inferior, do Alfa e do Ômega da sociedade. A raça branca deve ser a primeira a estender a mão da fraternidade aos povos de cor escura e a chamar de irmão o pobre “negro” desprezado. Esta perspectiva pode não agradar a todos, mas não é teosofista aquele que se opõe a este princípio.

Em vista do sempre crescente triunfo e, ao mesmo tempo, mau uso do livre-pensamento e da liberdade (o reino universal de Satã, como o chamaria Eliphas Levi), como poderia o instinto combativo natural do homem ser impedido de infligir crueldades e atrocidades,  tirania, injustiça, etc., até hoje inimagináveis, se não através da tranqüilizadora influência de uma fraternidade e da aplicação prática das doutrinas esotéricas de Buda?

Pois, como todos sabem, a libertação total da autoridade do poder único ou lei que a tudo impregna, chamada de Deus pelos padres — Buda, Sabedoria Divina e iluminação ou Teosofia pelos filósofos de todas as épocas — significa também a emancipação, no mesmo sentido, da lei humana.

As doutrinas fundamentais de todas as religiões se comprovarão idênticas em seu significado esotérico, uma vez que sejam desagrilhoadas e libertadas do peso morto representado pelas interpretações dogmáticas, dos nomes pessoais, das concepções antropomórficas e dos sacerdotes assalariados. Osíris, Krishna, Buda e Cristo serão apresentados como nomes diferentes de uma mesma estrada real para a bem-aventurança final, o Nirvana.

O Cristianismo místico, isto é, aquele Cristianismo que ensina a autolibertação através do nosso próprio sétimo princípio — o Para-Atma (Augoeides) libertado, chamado por alguns de Cristo, por outros, de Buda, e equivalente à regeneração ou renascimento em espírito — será visto como  exatamente a mesma verdade do Nirvana do Budismo. Todos nós temos de nos livrar de nosso próprio Ego, o ser ilusório e aparente, a fim de reconhecer nosso verdadeiro ser em uma vida divina transcendental. Mas, se não formos egoístas, devemos esforçar-nos e fazer com que outras pessoas vejam essa verdade, e reconheçam a realidade desse ser transcendental, o Buda, Cristo ou Deus de cada pregador. Esta é a razão por que mesmo o Budismo exotérico é o caminho mais seguro para conduzir os homens em direção à única verdade esotérica.

Do modo como se encontra o mundo agora, seja cristão, muçulmano ou pagão,  a justiça é desconsiderada, enquanto a honra e a piedade são atiradas ao vento. Numa palavra, vendo que os objetivos principais da S.T. são mal interpretados por aqueles mais interessados em nos ajudar pessoalmente, como iremos lidar com o restante da humanidade, em meio à maldição conhecida como “luta pela vida”, que é a real e mais prolífica causa da maioria das desgraças e tristezas e de todos os crimes? Por que esta luta teve que tornar-se o esquema quase universal do universo? Nós respondemos: porque nenhuma religião, com exceção do Budismo, ensinou até agora um desapego prático por essa vida mundana, enquanto cada uma delas — sempre com aquela única e solitária exceção — através de seus infernos e danações, inculcou o maior pavor em relação à morte. Por isso nós encontramos, de fato, esta luta pela vida imperando mais violentamente nos países cristãos, prevalecendo especialmente na Europa e na América. Ela é mais fraca nas terras pagãs e praticamente  desconhecida entre as populações budistas. (Na China, durante um período de fome, onde as massas são mais ignorantes em relação a sua própria religião ou a qualquer outra, foi notável o fato de que aquelas mães que devoraram seus filhos pertencessem às localidades onde se encontrava a maior quantidade de missionários cristãos; onde não havia nenhum deles e apenas os bonzos possuíam a terra, a população morria com o máximo de indiferença). Ensine-se ao povo a ver que a vida nesta Terra, mesmo a mais feliz, é apenas um fardo e uma ilusão, que apenas o nosso próprio karma, a causa que produz um efeito, é nosso próprio juiz, — nosso salvador em vidas futuras — e a grande luta pela vida em breve perderá sua intensidade. Não há penitenciárias nas terras budistas, e o crime é praticamente desconhecido entre os budistas no Tibete. (O que foi dito acima não é dirigido a você, ou seja, A.P.S., e nada tem a ver com o trabalho da Sociedade Eclética de Simla. Pretende apenas dar uma resposta à impressão equivocada do Sr. Hume a respeito do “trabalho do Ceilão” como não sendo Teosofia).

O mundo em geral, e especialmente a cristandade, abandonado por dois mil anos ao regime de um Deus pessoal, bem como a seus sistemas políticos e sociais baseados nessa idéia, provou agora ser um fracasso. Se os teosofistas dizem: “Nada temos com tudo isso; as classes mais baixas e as raças inferiores (aquelas da Índia, por exemplo, na concepção dos britânicos) não são motivo de preocupação para nós e devem arranjar-se como podem” — o que acontece com nossas belas  declarações sobre benevolência, filantropia, reforma etc.? Serão tais declarações falsas?  E se forem falsas, poderá a nossa senda ser a verdadeira? Não deveríamos nos dedicar a ensinar a alguns poucos europeus, que vivem na abundância — muitos deles carregados  com as dádivas de uma fortuna imerecida — a explicação racional dos fenômenos de campainhas soando no ar, da materialização de xícaras, do telefone espiritual e da formação do corpo astral, e deixar os numerosos milhões de ignorantes, de pobres e desprezados, humildes e oprimidos, tomar conta de si mesmos e de sua vida futura da melhor forma que puderem? Nunca! Antes pereça a S.T., com os seus dois infelizes fundadores, do que permitirmos que ela se transforme em mera academia de magia, um centro de ocultismo. Que nós, os devotados seguidores daquele espírito encarnado do absoluto auto-sacrifício, da filantropia, da divina benevolência, assim como de todas as mais elevadas virtudes que se pode alcançar nesta terra de tristeza — o homem dos homens, Gautama Buda — permitíssemos, em algum momento, à S.T. representar a corporificação do egoísmo, o refúgio dos poucos que jamais pensam nos muitos, é uma estranha idéia, meus irmãos.

Entre os poucos vislumbres obtidos pelos europeus acerca do Tibete e de sua hierarquia mística de “Lamas perfeitos”, há um que foi corretamente compreendido e descrito. “A encarnação do Bodhisattva, Padma Pani, ou Avalokitesvara e Tsong-ka-pa e a de Amitabha, que renunciavam, na sua morte, à obtenção do Budado — ou seja, o summum bonum da bem-aventurança e da felicidade pessoal individual — de forma a nascerem mais e mais vezes em benefício da humanidade”. (R.D.) Em outras palavras, que deveriam ser submetidos reiteradamente à miséria, ao aprisionamento da carne e a todas as tristezas da vida, para que, através deste auto-sacrifício, repetido através de longos e monótonos séculos, pudessem tornar-se os meios de assegurar a salvação e a bem-aventurança futura para um punhado de homens escolhidos entre uma das muitas raças da humanidade. E é de nós, os humildes discípulos destes Lamas perfeitos, que se espera aprovação para que a S.T. abandone seu nobre título de Fraternidade da humanidade e torne-se uma simples escola de Psicologia. Não, não, bons irmãos, vocês já estão equivocados há demasiado tempo. Vamos entender-nos bem. Aquele que não se sente competente o bastante para compreender suficientemente a nobre idéia, para trabalhar por ela, não necessita assumir uma tarefa que é muito pesada para ele. Mas dificilmente haverá um teosofista em toda a Sociedade, que não possa auxiliá-la eficientemente através da correção das impressões errôneas dos de fora, quando não ajudar realmente através da propagação dessa idéia. Ah, o homem nobre e altruísta que nos auxiliar efetivamente, na Índia, nesta divina tarefa! Todo nosso conhecimento, passado e presente, não seria suficiente para recompensá-lo.

Tendo explicado nossos pontos de vista e aspirações, tenho apenas mais umas poucas palavras a acrescentar. Para serem verdadeiras, a religião e a filosofia têm de oferecer a solução de todos os problemas. Que o mundo esteja moralmente em tão má condição é uma evidência conclusiva de que nenhuma de suas religiões e filosofias, aquelas das raças civilizadas menos do que qualquer outra, jamais possuíram a verdade. As explanações corretas e lógicas sobre os problemas dos grandes princípios duais — certo e errado, bem e mal, liberdade e despotismo, dor e prazer, egoísmo e altruísmo — são tão impossíveis para elas agora como eram há 1881 anos atrás. Elas estão tão longe da solução quanto sempre estiveram; mas deve haver, em algum lugar, uma solução consistente para estes problemas e, se nossas doutrinas provarem sua competência em oferecê-la, então o mundo será o primeiro a confessar que esta deve ser a verdadeira filosofia, a verdadeira religião, a verdadeira luz, a qual dá a verdade e nada mais que a verdade.

(Final da Carta)

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Um estudo mais amplo sobre a Carta do Grande Mestre pode ser encontrado neste website através da  Lista de Textos por Ordem Alfabética. Seu  título é “Carta Sobre o Futuro da Humanidade”.


Para ter acesso a um estudo regular da filosofia esotérica original, escreva a  lutbr@terra.com.br  e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.

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21 de julho de 2011

Crónica da Loucura Normal




"Esta crónica tem dois defeitos, entre muitos outros: é reactiva (não se intitula impunemente alguém de "louco", ou "fora do normal") e auto-centrada em demasia. Se o autor não se apaga, importa que os defeitos confesse...

Agostinho da Silva passou grande parte da sua vida no exílio, por não caber no estreito espaço da "normalidade" imposta numa pátria mergulhada nos tempos sombrios de ditadura. No Brasil que o acolheu, leccionou, ajudou a fundar universidades, escreveu muitos dos seus livros. Numa das suas obras, fala-nos de um Francisco de Assis, que também não foi um ser "normal" para a sua época, pois semeava a palavra, mostrando a todos como era possível traduzir em actos os preceitos, como se podia infundir vida nova no que a pouco e pouco se fora transformando em seco ritual. Quando estou a escassos dias de, mais uma vez, atravessar o mar, para contemplar prodígios, vem a propósito citar o meu mestre Agostinho. Naquela que foi a sua pátria de adopção, irei partilhar as horas com educadores que não desistem de mostrar ser possível, de muitos modos, "infundir vida nova" em escolas que somente cumprem secos rituais desprovidos de sentido.

Porém, desta vez, defronto-me com um problema. Perdoai este registo, muito auto-centrado, mas terei de confessar a minha preocupação: terei de deitar discurso num seminário onde se fará a avaliação de um projecto, um dos que poderei incluir no rol dos que vão tentando "infundir vida nova" nas escolas. Quando não consigo escapar de falar sem que me façam perguntas, ao cabo de dois ou três minutos do monólogo, a dúvida assalta-me, instala-se. As palavras saem hesitantes, sem convicção. Como poderei saber se o que eu estou dizendo chega a todos? Sinto-me inseguro, pois fico sem saber se algum dos escutadores estará interessado no que escuta.

Por passar décadas a desenvolver a arte da escutatória, fiz a desaprendizagem da oratória. Por fazer a economia da palavra numa subordinação ao dar respostas a imprevisíveis perguntas e ao provocar pistas de descoberta, desenvolvi incompetências várias. E o resultado está à vista… Porque não sei dar resposta a perguntas que não consigo adivinhar, peço aos que me vão ouvir que verbalizem dúvidas, interrogações, que me libertem da angústia de não saber se estarei sendo útil. E todo o encontro se constrói numa dialogia vagabundeante e num tom coloquial que nos conduz por imprevisíveis caminhos. Mas não há métodos perfeitos. Os vícios que muitos professores contraem no passivo copiar de acetatos e slides, dá azo a inusitadas e embaraçosas situações, como a que passo a relatar. Fiz a exortação habitual. Esperei a primeira pergunta. E ela veio. Tão objectiva e específica, que eu não sabia como responder. Peço perdão, mas não sei dar a resposta. Poderemos passar à segunda pergunta? Mas a segunda pergunta demorava a sair. O auditório ficara mudo de perplexidade. Para amenizar, eu disse, prazenteiro: haverá alguém que saiba dar resposta a todas as perguntas?... A perplexidade cedeu lugar a alguns sorrisos irónicos. Em alguns rostos, adivinhava pensamentos malévolos… Até que alguém interveio, para quebrar o gelo: Isso não é normal, professor. As pessoas esperam uma resposta normal… Uma "resposta normal"? Não sei o que seja. Sei que existe uma auréola de infalibilidade a rodear certos palestrantes. Mas essa "normalidade" não se aplica no meu caso. Há muitos anos, fui a uma escola, para uma conversa com professores. Instalaram os palestrantes numa sala de espera. À entrada, tinha um dístico com a seguinte inscrição: "sala de aula normal". Eu perguntei se não haveria uma sala de aula "anormal", onde eu me pudesse recolher e preparar a palestra. Ninguém achou graça. A minha pergunta foi ignorada e eu fui convidado a entrar para a "sala de aula normal". Esbocei um sorriso amarelado, para ajudar a descontrair. Mas ainda ouvi, de passagem: É louco!

Há duas semanas, a pedido de um grupo de professores, fui visitar uma escola da minha região. À entrada da sala onde iríamos reunir, lá estava o dístico: "sala de aula normal". Na minha qualidade de amigo crítico, não arrisquei dizer piadas "fora do normal"... Perante o descalabro que vivem as escolas "normais", tudo o que se faça de "anormal" só pode significar mudar para melhor. Sinto-me como peixe na água, quando partilho as horas com professores "fora do normal", que não esquecem a canção que o que o rei do baião cantava: "lá no meu sertão, pró caboclo ler, tem que aprender um outro abc" . São professores que buscam um abc que contrarie a insistência na "normal" transmissão de conteúdos desligada da compreensão dos saberes. Que arriscam receber o epíteto de "loucos". Que fazem lembrar o "louco" Freinet, na sua escola do interior da França de há quase um século, perseguido por comunistas e fascistas "normais". No vaivém entre as margens do largo oceano - que cruzo como quem vai cerzindo pedaços do velho e do novo mundo – redescubro a sabedoria dos "não-normais". Num mundo normalizador da loucura, admiro a coragem de quem se expõe e faz aquilo em que acredita. Sinto-me irmanado com os educadores que, nas duas margens do Atlântico, afirmam ser "possível traduzir em actos os preceitos" as práticas e teorias que andam dispersas, e que insistem na benigna loucura de transformar escolas reprodutoras de exclusão em escolas geradoras de sucesso. Por isso, aí vou eu, passar um dia numa escola em mudança. Mas, desta vez, vou ter de fazer uma palestra. O dia aproxima-se, e eu sem encontrar solução para o problema de ter de deitar discurso. Há dias em que apetece ser… "normal"."

José Pacheco 
(Escola da Ponte, Vila das Aves – Portugal )
Jornal "A Página" , ano 16, nº 165, Março 2007, p. 6.