30 de Novembro de 2011

VERDADE E MAYA EM TEOSOFIA


A Filosofia Esotérica Ensina a
Sabedoria, Não a Ilusão; Imagens
Simbólicas Não Devem Ser Aceitas Literalmente


Carlos Cardoso Aveline



A Terra e o Sistema Solar São Bastante Reais, e Vivem e Se
Movem de Acordo com a Lei Universal da Justiça e do Equilíbrio 



A Teosofia não está limitada à linguagem externa. Em filosofia esotérica, as palavras são instrumentos sagrados que nos ajudam a obter e transmitir sabedoria e compreensão diretas. 

O real significado das palavras deve ser examinado, portanto.

O uso desatento da palavra “Maya”, por exemplo, é perigoso porque causa confusão.  Devidamente percebido, o perigo se torna fonte de aprendizagem.  Ao compreender a possibilidade do erro, o aprendiz obtém uma visão mais ampla das coisas e desenvolve uma atenção profunda diante da vida.

A palavra sânscrita “Maya” significa “Ilusão”, e se aplica tanto ao Universo como à Natureza observável em nosso planeta.

O “Glossário Teosófico” de Helena Blavatsky (Ed. Ground) acrescenta:

“Segundo a filosofia hindu, apenas aquilo que é imutável e eterno merece o nome de realidade.”

Este axioma deve ser corretamente compreendido. Ele  não condena os seres humanos a uma  lamentável situação em que eles teriam que pensar: “Se tudo no universo é ilusão, então é correto iludir a nós próprios enquanto iludimos os outros”.

Longe disso.  

A Lei do Carma é central e imutável: portanto, ela é real.  E nós podemos conhecer a lei do carma. Podemos estudá-la. Podemos percebê-la. Podemos observar o seu funcionamento prático em nossas vidas e na Natureza ao nosso redor.

As três Leis de Newton são aspectos da lei do carma. A reencarnação é um aspecto da lei do carma. O mesmo pode ser dito da lei dos ciclos, da lei da simetria, e assim sucessivamente.

Os Adeptos, os Iniciados e os Mahatmas estão sujeitos à maré e às oscilações do Carma. Mas eles compreenderam completamente a Absoluta Lei da Justiça que governa o universo; e  cooperam com ela.

Dentro das nossas limitações, nós também não só sabemos, mas também podemos verificar por nós mesmos que tudo é governado pela Lei. Assim, a ideia de que o Universo seja uma Ilusão no sentido comum da palavra não faz sentido.  A culpa não é do Universo, se os seres humanos iludem a si próprios. O Universo é a Verdade em Movimento, e ela se movimenta de acordo com a Lei.

Na lenda do Buddha, Maya é o nome da mãe de Gautama. A ideia de uma mãe é um símbolo do amor altruísta. A afinidade e a harmonia movem a Natureza, e o Amor é inseparável da Verdade. A Natureza só é ilusória nos seus aspectos externos, ou quando é vista por indivíduos que não percebem a Lei do Equilíbrio e da Simetria guiando-os silenciosamente, dando um rumo às suas ações e a tudo o que os rodeia, e regulando constantemente o ritmo da vida.
                                                                                      
Vamos supor, no entanto, que podemos deixar de lado por um momento a ideia de Lei, e dizer que “só o Absoluto insondável é Realidade, e tudo o mais é ilusão”.

Neste caso devemos admitir, honestamente, o fato de que esta noção é adotada por nós apenas por ouvir dizer, já que não estamos de modo algum perto do Absoluto em nossa mente  racional.

Quem já visitou o Absoluto e voltou até nós para dizer que “Só o Absoluto é Real”?  E que provas tal pessoa possui para demonstrar tal afirmação? A expressão poética sobre o mundo ser uma “Ilusão” pode ser escutada por nós com base na tradição, e muito modestamente. Neste caso não estamos diante de nada que faça sentido, de modo literal, desde o ponto de vista do nosso aprendizado. Filosoficamente, dizer que nós “vivemos em Ilusão” deve ser na verdade uma expressão simbólica, cujo significado real é: “Vivemos em uma realidade que está perpetuamente renovando a si mesma”.

Caso contrário a ideia é pior que inútil e um absurdo infeliz. 

Cada ciclo de espaço-tempo tem a sua própria realidade, ou níveis de realidade, e tais realidades são verificáveis. O Universo não é unilinear. Ele é setenário. Cada um dos seus sete níveis é por sua vez também setenário, e assim sucessivamente.

O universo inclui um número infinito de linhas cármicas de evolução, cada uma com os seus próprios aspectos e ciclos e suas variadas linhas de tempo.  Há, portanto, múltiplas realidades. Todas elas mantêm um eterno diálogo entre si, e estão estreitamente unidas através da Lei Universal que rege a cada uma delas.  

Examinando a Palavra “Realidade”.

É também aconselhável examinar a palavra “realidade”.  Ela vem do termo do latim “Res”, que significa “coisa”.  A palavra “república”, por exemplo, significa “a coisa pública”.

Dizer que “Só o Absoluto é Real” constitui uma contradição em termos, um absurdo, se encarado de modo literal, porque significa que “Só o Absoluto é uma Coisa”,  ou “Só o Absoluto é uma Coisa De Fato”, e todos sabem que o Absoluto  não pode ser uma coisa ou objeto. 

O Absoluto está muito além de qualquer “res”. Ele transcende toda “realidade” ou “situação das coisas”.

É inútil especular sobre o Absoluto.  Assim, dizer que só o  Absoluto é, literalmente, real e verdadeiro, constitui uma especulação indevida.  A palavra “só” implica uma separação do Absoluto, uma exclusividade para ele; e ninguém pode dizer que o Absoluto está separado, ou apartado, do Universo.

A Verdade e a Lei são universais, e, portanto, estão em todo lugar. A Lei e a Verdade são onipresentes, embora possam estar implícitas, e os humanos têm a possibilidade de percebê-las por mérito próprio.   

Cada ser humano vive rodeado de coisas, tanto objetivas quanto subjetivas. Ele está rodeado de realidades. Se deixarmos de lado as expressões poéticas do idioma sânscrito, veremos que há algo muito melhor do que repetir resignadamente que a “nossa realidade é uma ilusão”.

É mais eficiente dizer que a nossa realidade é dinâmica; que ela muda; que é cíclica, e, portanto, impermanente em seus efeitos externos. Nossa realidade é muito consistente, no entanto, dentro dos seus próprios ciclos de evolução. 

Cada ser vive em sua “realidade individualizada”. Mas ele também compartilha parcelas de realidade - e de realidades - com todos os outros seres e ordens de seres.

O mosquito e o ser humano vivem em diferentes realidades ou espaço-tempos. Mas eles podem interagir. Nas obras “Transactions of the Blavatsky Lodge”  (Theosophy Co.)  e “The Secret Doctrine Commentaries” (I. S. I. S. Foundation) , H.P. Blavatsky discute a inteligência das formigas. Embora a formiga seja altamente inteligente, a realidade do seu espaço-tempo é bastante diferente do espaço-tempo dos humanos. Seria inútil para as formigas discutirem conosco, tentando convencer-nos de que o nosso espaço-tempo é uma ilusão. Nossa realidade é apenas diferente.

É igualmente inútil para os humanos afirmarem que o espaço-tempo de um formigueiro é ilusório, enquanto precisam prestar atenção para não pisarem nele ao caminhar. O espaço-tempo de um formigueiro não é uma ilusão. Ele não é igual ao nosso espaço-tempo, mas os dois interagem de várias maneiras.  

Assim como há um número desconhecido de formigueiros em nosso planeta, há também um número desconhecido de universos, ao longo de um número incalculável de pralaias e manvântaras [1], em uma Duração Ilimitada.

Ao viver a dinâmica da sua própria realidade ou condição mutante das coisas, cada ser autoconsciente do universo pode avançar por decisão própria em direção à teosofia, ou conhecimento dos aspectos ilimitados da vida.

Este conhecimento não é alcançado através do sonho de que “vivemos em uma ilusão”. O sonho (ou pesadelo) da ilusão apenas nos levaria a viver como médiuns irresponsáveis.

O progresso em direção à teosofia é feito deslocando nossas prioridades.  Consiste em dar menos importância aos pequenos círculos espaciais e reduzidos ciclos temporais da vida, para estudar com mais atenção os círculos e ciclos que são maiores e mais amplos. Deste modo o estudante passa a compreender algo daquele Espaço Ilimitado Abstrato e Eterno que permanece livre de todo condicionamento, e com o qual o seu próprio Eu Superior está em harmonia e unidade desde tempos imemoriais.

A Teosofia pode ser aprendida através da percepção da Lei Única, e da cooperação com ela, tanto quanto possível, em cada aspecto da nossa vida diária.

Um nome adequado para esta “estratégia” é ética universal. Outro nome é o cumprimento do dever.   A estratégia também pode ser chamada de busca da sabedoria ou autoconhecimento.

A coisa em si, no entanto, está além dos nomes. Se tivermos humildade suficiente, paciência suficiente, e suficiente coragem, podemos avançar em direção a ela.

NOTA:

[1] Pralaias e manvântaras.  Períodos de descanso e de manifestação do universo, ou de um sistema solar, ou de um planeta.  No universo, cada espaço tem o seu próprio tempo, e seus ciclos de descanso e atividade.


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Uma versão do texto acima foi publicada em inglês, em novembro de 2011,

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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia original, escreva a lutbr@terra.com.br  e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.

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28 de Novembro de 2011

Contos Sufis de Nasrudin


Mulla Nasrudin (Khawajah Nasr Al-Din) viveu no século XIV. Contou e escreveu histórias onde ele próprio era personagem. São histórias que atravessaram fronteiras desde sua época, enraizando-se em várias culturas. Elas compõem um imenso conjunto que integra a chamada Tradição Sufi, ou o Sufismo, a tradição mística e esotérica do Islamismo.  

O anúncio
Nasrudin postou-se na praça do mercado e dirigiu-se à multidão:
- Ó povo deste lugar! Querem conhecimento sem dificuldade, verdade sem falsidade, realização sem esforço, progresso sem sacrifício?
Logo juntou-se um grande número de pessoas, com todo mundo gritando:
- Queremos, queremos!- Excelente!
Era só para saber. Podem confiar em mim, que lhes contarei tudo a respeito, caso algum dia descubra algo assim.

Os melhores conselhos
Nasrudin começou a construir uma casa. Seus amigos, que tinham cada um sua própria casa, e eram carpinteiros, pedreiros, o rodearam de conselhos. Mulla estava radiante. Um após outro, e às vezes todos juntos, disseram-lhe o que fazer. Nasrudin seguia docilmente as instruções que cada um lhe dava. Quando a construção terminou, ela não se parecia em nada com uma casa.
- Que curioso! - disse Nasrudin - e contudo eu fiz exactamente aquilo que cada um de vocês me tinha dito para fazer!

Chip Conley: Medindo o que faz a vida valer a pena


Quando estourou a bolha do pontocom, o hoteleiro Chip Conley foi em busca de um modelo de negócio baseado na felicidade. Através de uma velha amizade com um funcionário e na sabedoria de um rei budista, ele aprendeu que o sucesso vem do que se conta.

22 de Novembro de 2011

SETE NOTAS SOBRE A TRANSMISSÃO DO SABER


Esforço Para Partilhar Acelera o Despertar Interior  


Carlos Cardoso Aveline




“Se eu não for por mim, quem será
por mim? Mas se eu for só por mim, 
o que sou eu? E se não agora, quando?

[Rabino Hillel, citado na obra
“A Ética do Sinai”, Livraria e Editora
Sêfer, SP, 1998, 522 pp., ver pp. 54-55.] 




1. A ARTE ZEN DE TRANSMITIR SABEDORIA

É o Sr. D. T. Suzuki, o pensador zen-budista do século 20, que conta a história.

O abade de um certo mosteiro quis que fosse pintado um  dragão no teto da sala em que todos meditavam. Um pintor bem conhecido foi convidado a fazer a pintura. Ele aceitou, mas fez questão de avisar:

“Nunca vi um dragão na vida real -  se é que os dragões existem. Ainda não sei como poderei pintá-lo.”

E o abade respondeu:

“Não dê importância ao fato de ainda não ter visto um dragão. Não siga o modelo convencional. Transforme-se você mesmo num dragão, primeiro. Depois pinte o dragão.”[1]

Os leitores do e-grupo SerAtento e do website www.FilosofiaEsoterica.com   estão convidados a fazer a mesma coisa.  Eles não viram o “dragão”, o animal mitológico do extremo oriente que simboliza o sábio imortal e a inteligência divina. Eles não viram um grande sábio, mas podem transformar-se em sábios. Eles conhecem apenas parte da sabedoria, mas está a seu alcance viver a parcela de sabedoria que já conhecem.

Assim a vida de um estudante passa a ser uma expressão da sabedoria - ainda que imperfeita.  Quando o estudante une sua mente a um ideal universal, ele passa a ser a sabedoria na medida exata da sua compreensão. Ao passar adiante o que já sabe,  ele se capacita para aprender mais.  

É assim que estão germinando, no mundo da língua portuguesa, as primeiras sementes de  estudo e vivência da teosofia original.

NOTA:

[1] “Zen Buddhism and Psychoanalysis”, D.T. Suzuki, E. Fromm, and R. De Martino, Evergreen-Harper, 1960, 180 pp, ver p. 13.

2. O EXEMPLO E A GRATIDÃO AO TRANSMITIR

Sem o ensino pelo exemplo não seria possível uma transmissão de conhecimento filosófico.   Mas o exemplo não basta. 

O teosofista deve também compartilhar a fonte em que sua alma se alimenta. Deve construir um poço de uso comum onde um número ilimitado de pessoas poderá beber a água pura da impessoalidade transcendente.

De que modo ele poderá colocar ao alcance de outros a fonte da inspiração e dos ensinamentos que orientam sua vida? 

A percepção da verdade pode ser transmitida assim como uma vela acende outra vela, que acende outra, e outra, e assim sucessivamente. 

O movimento esotérico autêntico é como um “refúgio”. Ele é um porto seguro, um ambiente em que a pequena luz da alma imortal de um indivíduo estimula o fortalecimento da luz na alma de outro, e em mais um, e assim sucessivamente, de modo que todos ganham energia, sem perder a energia espiritual que possuem. Eles só irão “perder”, e não sem sofrimento, as diversas formas de ignorância a que o ser humano se apega às vezes com intenso fervor.  

O exemplo é a base indispensável da transmissão. Mas não é o suficiente, porque nenhum edifício é feito apenas de alicerces.  O verdadeiro aprendizado começa depois que o estudante passa a fazer algo pelos outros, movido por uma intenção que está livre de egocentrismo.

Quando percebe que uma energia o ilumina desde o seu interior e o faz compreender verdadeiramente a vida, o estudante é às vezes visitado por um sentimento de gratidão e devoção. Tal sentimento pode mostrar-se através do nascimento de uma vontade concreta e profunda de devolver à Vida aquilo que a Vida lhe deu, construindo um reservatório maior e mais forte de conhecimento, no qual outros indivíduos também possam encontrar a paz. 

3. LIMPANDO AS LENTES DOS ÓCULOS

A ação altruísta limpa as lentes dos óculos com que olhamos para a vida. 

O aprofundamento da caminhada prática acelera o processo do auto-conhecimento. As duas coisas são inseparáveis, e a obra “A Voz do Silêncio” esclarece:

Irás abster-te de agir? Não é assim que tua alma ganhará sua liberdade. Para alcançar o Nirvana é necessário obter o Autoconhecimento, e o Autoconhecimento é resultado de ações amáveis.”[1]

Cada um é seu próprio mestre e seu próprio aluno. Depois que o estudante toma uma decisão firme sobre o rumo da sua própria vida, ele deve definir por si mesmo o ritmo e o modo como avançará.

Ele deve saber que duas substâncias centrais do eu superior são altruísmo e discernimento.  

NOTA:

[1] “A Voz do Silêncio”, Helena Blavatsky, primeira metade do Fragmento II, edição online de  www.FilosofiaEsoterica.com .  Na edição original em inglês, “The Voice of the Silence”, HPB, Theosophy Co., Los Angeles, pp. 33-34.

4. TRANSMITIR É CONVIDAR A PENSAR 

Um leitor escreveu:

“Estudo teosofia há algum tempo. Tem sido até agora um estudo solitário. Mas me pergunto como é possível divulgar a teosofia sem parecer que queremos fazer lavagem cerebral ou evangelizar as pessoas.”

A questão é da maior importância.

No início, o teosofista não será corretamente compreendido por todos.  Mas mesmo as pessoas que não o compreendem comentarão para alguém que aquele indivíduo pensa isso e aquilo. Se a pessoa que ouve o comentário tiver a “chama” acesa em seu interior, ela virá até a fonte. Além disso, falando, o indivíduo ganha experiência. E devemos lembrar que as pessoas mudam: quem hoje ouve falar de teosofia e não dá importância ao assunto, talvez tenha amanhã um despertar interno que hoje não se pode prever.  

O que se pode fazer é “emitir o sinal” de modo claro, incondicionalmente, sem esperar nada em troca a curto e médio prazo.

O teosofista que não compartilha com ninguém o modo como vê a vida não poderá ser um sinal de luz para aqueles que aguardam - até sem saber -  por uma compreensão mais ampla das coisas.

A chamada “evangelização” é um processo pelo qual alguém diz a uma pessoa que ela deve acreditar e “ter fé” nisso ou naquilo. A teosofia, ao contrário, convida as pessoas a pensarem sobre a vida e o universo. A teosofia ensina as pessoas a examinarem profundamente as seguintes questões, entre outras:  

1) Em que sentido posso dizer que sou feliz?  
2) Qual é a verdadeira causa do meu sofrimento?
3) De que modo tem funcionado a lei do carma em minha vida e em minha família?
4) Como posso plantar o que gostaria de colher?
5) Qual o caminho para obter uma felicidade de longo prazo, a felicidade da alma imortal?

Fazer perguntas é uma boa maneira de conhecer as pessoas. Pequenas oportunidades existem por toda parte; e é fácil criá-las, onde elas não aparecem por si mesmas.

5.  TUDO ESTÁ INTERLIGADO 

Há um momento em que distinguimos palidamente o que é correto e verdadeiro para nós - e isso é bom.  Num segundo momento, vemos com nitidez o que é verdadeiro e correto, e ainda assim, entre ver e viver há uma diferença. 

A visão de um ideal se caracteriza pela percepção daquilo que está a uma certa distância de nós, mas para o qual podemos caminhar. 

A distância entre o sonho e a prática, entre a meta do estudante e o ponto em que ele está, se relaciona com o processo probatório da caminhada. A distância deve ser vista como um motivo para ir adiante. A diferença entre sonho e realidade implica que há um sonho nobre a ser buscado.

Como dar o passo que vai desde a nítida percepção do que é correto, até a vivência direta? 

Ninguém é uma ilha cármica. Tudo e todos se inter-relacionam. Se não emitirmos nossa energia, ela não será confirmada. Robert Crosbie escreveu:

“Uma vez que as ideias corretas estejam estabelecidas em nossas mentes, nós poderemos ajudar o mundo falando sobre elas e exemplificando-as. Isso é algo que nós podemos fazer, por mais egoísta que seja o modo do mundo se movimentar.” [1]

Quando compreendemos algo profundamente, o próximo passo é irradiar a compreensão em direção ao mundo e assim confirmá-la. Assim “emitimos o mantra”.

Isto tem um momento próprio e adequado para ocorrer. Quando o discípulo está pronto, ele percebe que a Inspiração Superior estava lá o tempo todo. Assim que o filhote de pássaro amadurece, ele faz as devidas considerações sobre o novo estágio do seu aprendizado. Em seguida, ele se atira para fora do Ninho da Rotina e testa na prática os seus conhecimentos sobre a arte de voar. Deste modo ele passa a conhecer a sua própria força.

NOTA:

[1] “A Book of Quotations From Robert Crosbie”, Theosophy Co., Mumbai, India, 108 pp., ver p. 52.

6. CONSTRUINDO O MOVIMENTO TEOSÓFICO

Sendo um processo vivo, o movimento teosófico reúne em seu corpo físico células que nascem, células que morrem, e células que se renovam. A expansão da vida é um processo que pode ser compreendido, e Helena Blavatsky escreveu:

“Para a expansão do movimento teosófico - um canal útil para a irrigação dos campos ressequidos do pensamento contemporâneo com as águas da vida - Lojas são necessárias em todo lugar. Não meramente grupos de simpatizantes passivos, assim como os exércitos adormecidos de freqüentadores de igrejas, cujos olhos estão fechados enquanto o ‘demônio’ varre o chão; não, isso não. São necessárias Lojas ativas, profundamente despertas, dedicadas, inegoístas, cujos membros não estarão revelando constantemente o seu próprio egoísmo ao perguntar: ‘o que é que nós ganhamos ao aderir à sociedade teosófica, e em que isso pode nos prejudicar?’;  mas estarão examinando a seguinte questão: ‘será que nós podemos ajudar substancialmente a humanidade ao trabalhar por esta boa causa com todos nossos corações, nossas mentes, e nossas forças?’.”[1]

A ação nem sempre será fácil.  O trabalhador voluntário será testado pela pressa ou pela rotina, pelo excesso de confiança ou pela falta de confiança; pela cobiça ou pelo desânimo.

Em relação ao surgimento de dificuldades, William Judge alertou: “Não fique desencorajado. Não há motivo para isso. Nada que é feito com facilidade é realmente muito bom, ou durável. Deve haver aborrecimentos e tensões de vez em quando.” [2]

Todo processo vivo inclui tensões criativas. A função dos obstáculos é fortalecer a vontade espiritual.

NOTAS:

[1] “Lodges of Magic”, artigo publicado em “Theosophical Articles”, H. P. Blavatsky, coletânea em três volumes, Theosophy Co., Los Angeles, volume I, ver p. 290.

[2] “Letters That Have Helped Me”, William Q. Judge, Theosophy Co., Los Angeles, 1946, 300 p., p.168.

7.COMO AJUDAR NA PRÁTICA

Desde a fundação do movimento teosófico, em 1875, uma lei básica tem operado constantemente:

“É fazendo que se aprende”.

O estudante não deve enganar a si mesmo alimentando a ideia de que a aprendizagem é apenas intelectual. A aprendizagem só começa quando o intelecto é colocado a serviço do coração. Sem a prática solidária, o aprendiz fica limitado ao plano do “ouvir dizer”.

A ação deve combinar independência, discernimento e solidariedade.

Como então é possível ajudar com equilíbrio e discernimento o esforço que está sendo posto em movimento através do website www.FilosofiaEsoterica.com, e do qual participam vários outros websites e blogs?

Há muitas pequenas frentes de ação e esforço. Elas vêm sendo criadas a partir dos talentos e das circunstâncias que cada estudante já possui.  O e-grupo SerAtento é a porta de entrada natural para o estudo e a prática da teosofia clássica.

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O texto “Sete Notas Sobre a Transmissão do Saber” foi publicado pela primeira vez no boletim eletrônico “O Teosofista”, edição de fevereiro de 2011, indicando como nome de autor apenas “Um Estudante de Teosofia”. É publicado online como texto independente em novembro de 2011.



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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia clássica, escreva a lutbr@terra.com.br  e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo  SerAtento.


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21 de Novembro de 2011

FELICIDADE E OTIMISMO



A filosofia esotérica não ensina apenas que para cada dor há uma lição, e frequentemente mais de uma. Ela também afirma que o aprendizado pode ser feito de modo consciente. Para viver com os olhos abertos, basta buscar sinceramente pelas Causas do sofrimento.  No verdadeiro otimismo não há uma idealização emocional. A confiança no futuro requer atenção.  A vigilância é o preço a pagar pelo discernimento, e o discernimento é a base da sabedoria e da felicidade.

Quando conhecemos o modo como a Vida funciona, percebemos que é possível confiar nela. O otimismo ensina a confiança em si mesmo e permite ao indivíduo preservar a sua felicidade interior apesar dos desafios.” 

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16 de Novembro de 2011

Educação Lenta



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Texto de Dina Cristo, publicado 
a 7 de Setembro de 2011 no 
blog www.oaquieagora.blogspot.com

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Um novo ano lectivo bate à porta. Como uma corrida para ver quem chega ao pódio, a ordem é “mais informação e cada vez mais depressa”. Quase todos aceleram, à pressa e sob pressão, excepto os que - lentamente - desafiam o sistema. Talvez tenham tido tempo suficiente para recordar que os últimos… são os primeiros.


Obcecado por exames e objectivos, com horários sobrecarregados, o estudante do séc. XXI tornou-se um discípulo apressado. Num contexto de educação intensa e abreviada, de luta para cumprir os programas, acelerados, a pressão, como para cumprir prazos e ser cada vez mais rápido, é constante. O estilo, de disciplina marcial, competição desenfreada e atmosfera sufocante, é de “treina e mata” e “estudar-até-cair”, observava Carl Honoré no seu livro“Movimento slow”.

O jornalista canadiano notou, contudo, que as crianças aprendem melhor quando o ritmo é mais lento e que um ambiente mais descontraído favorece o desenvolvimento de uma personalidade mais completa. Cita exemplos como a academia japonesa Macieira, fundada em 1988, em que os alunos vêm e vão, estudam o que e quando querem. Uma investigação que desenvolveu no seu livro mais recente “Sob pressão: como salvar as crianças da cultura dos hiper-pais”.

Na vontade de empurrar os seus filhos, os pais super-estimulam-nos. Os tempos livres… são ocupados em actividades extra-curriculares. Harry Lewis, ouvido pelo autor, nota: «O tempo livre não é um vácuo que se tenha de preencher (…). É aquilo que permite que outras coisas no vosso cérebro sejam recordadas de forma criativa (…)». Por isso, defende, há que limitar as actividades e reservar algum tempo para o lazer, divertimento, descontracção, solidão e imaginação.

É o reflexo do medo de ficar para trás, num mundo “turbo-alimentado”. A escola é vista como um campo de batalha em que o que interessa é ser o primeiro, o melhor. A hiperpaternidade, na vontade compulsiva de aperfeiçoar os filhos, agarra-se ao resultado dos exames e empurra-os tanto que os deixa exaustos; há crianças a dormir insuficientemente e a sofrer de stress. Maurice Holt, escutado por Carl Honoré, lembra que «(..) atulhar as crianças de informação o mais depressa possível é tão alimentício como devorar um Big Mac” [1].

Além do mais, a especialização desde tenra idade pode causar danos. José Luís Maio deu grande relevância à educação no ensaio “A Ciência da Polis”, nomeadamente à maximização da pluralidade de informação, com campos pedagógicos, integrados na Natureza e na comunidade. O autor destacou a importância de, até aos três anos, a criança estar próximo da mãe, cuja vitalidade o nutre, de entre os três a seis anos, brincar e jogar naturalmente e depois dos seis atender às necessidades do corpo, pela ginástica, e da alma, através da música.

Educação lenta

No sistema finlandês e sueco, por exemplo, o jardim-de-infância devolve aos pequenos o tempo para brincarem e a liberdade de serem crianças. Pais e professores estão mais motivados para que adquiram auto-estima e auto-confiança. Mais tarde, na fase de aprendizagem verbal, o entusiasmo e dedicação multiplicam-se. Omraam Aivanhov lembrava a importância da preparação para a aprendizagem para que o discípulo possa apreciar e aplicar o que é ensinado [2].

Há quase dez anos Maurice Holt publicou um manifesto pela “Escolaridade lenta” – a defesa do alívio da carga de actividades e de um ritmo mais adequado à velocidade de cada um; a importância de um espaço-tempo para a procura e compreensão do conhecimento por si próprio. Ninguém consegue ensinar aquilo que só se pode aprender, referia há décadas Khalil Gibran. Talvez por isso, os autodidactas ao longo da história não têm deixado que a escola atrapalhe os seus estudos.

Em Ridgewood, New Jersey, realiza-se em Março o “Preparar, estão prontos, relaxar!”, um dia em que não são marcados trabalhos para casa e são cancelados treinos, explicações e reuniões: “Os pais tratam de virem para casa mais cedo, a tempo de jantarem com os filhos e passarem algum tempo com eles à noite” [3].

Em Portugal, a Escola da Ponte, em Vila das Aves (Santo Tirso), inserida no sistema de ensino público vem, desde há décadas, ensaiando um novo modelo de educação mais motivante,participativo e democrático. Espelho da atenção a uma educação mais extensiva, informal, descentralizada e, ao mesmo tempo, livre e profunda.

Esta tendência para desacelerar e procurar um ritmo mais suave, mais natural, reflecte-se no interesse pelo ensino doméstico, em queRoland Meigham é perito. Na América há mais de um milhão de jovens que estão a ser ensinados em casa. São educados numa determinada tradição, têm mais protecção e mais liberdade de escolher os seus próprios horários; a aprendizagem torna-se mais produtiva e equilibrada, combinando curiosidade, criatividade e imaginação, além de que sobra mais tempo livre para o divertimento.

Carl Honoré tem mostrado a futilidade e os perigos de uma aceleração constante. «O segredo está no equilíbrio: em vez de fazer tudo mais depressa, faça-se tudo à velocidade certa. Por vezes, depressa. Outras vezes, lentamente. Outras, algures no meio» [4]. Abrandar e escolher o ritmo que o faz mais feliz, usar o tempo de forma mais sensata, traz benefícios. Apreciar a vida, fazer as coisas como deve ser, com significado e prazer, eis a proposta do movimento slow aplicado à educação.

Uma educação mais lenta, livre, corajosa e humana que tenta satisfazer o amargo de boca de um modelo institucional, imposto e rápido, sob pressão para ser o melhor, e superar o vírus da pressa que, num sistema industrial, tem contagiado alunos, pais e professores, velocificados numa espécie de regime militar, esgotante.


NOTA:

[1] HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006, p.224.

[2] Caso contrário «(…) só irá entrar em choque com ele, ver-se-á em toda a espécie de contradições e continuará tão fraco e ignorante como antes». AIVANHOV, Omraam -pensamentos quotidianos, Edições Prosveta,2010: 22/7/2011. 

[3] HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006, p.233. 

[4] Idem, p.240.

O TEOSOFISTA - NOVEMBRO DE 2011


11 de Novembro de 2011

10 de Novembro de 2011

A Relíquia do General


3 de Novembro de 2011

RESPIRAÇÃO COMO CULTURA


Uma Respiração Profunda Pode
Alterar o Estado de Consciência


Maurício Andrés Ribeiro


Respirar é um ato que todo animal ou vegetal realiza do início ao final de sua vida. Da primeira inspiração ao último suspiro, o corpo interage com a atmosfera. Mas respirar não é apenas um ato natural. A respiração consciente, os vários modos e formas de respirar, o aprender a respirar corretamente, transformam esse ato elementar num ato cultural.

Foi durante minha estadia na Índia, nos idos da década de 70, que tomei consciência da importância cultural da respiração. Os antigos iogues desenvolveram a prática de exercícios respiratórios como forma de concentração. Essa tradição desenvolveu técnicas de controle da respiração e modos de inspirar e expirar a energia que mantém a vida e que está presente em toda a natureza, conhecida como prana.

As práticas de ioga utilizam diversas posturas (ásanas) e exercícios respiratórios (pranayamas) para aprimorar o uso do corpo. Um bom controle sobre o corpo ajuda a controlar a mente e a obter maior profundidade de percepção e conhecimento. Uma atitude básica da meditação é o focar a atenção na respiração, pois quando se observa o movimento do ar para dentro e para fora dos pulmões, deixa-se de pensar no passado ou no futuro e a atenção orienta-se para o momento presente. A consciência do ato de respirar, associada à vibração de um som como o OM (som universal) durante a expiração, acalma o pensamento e a mente. Trata-se de prática que pode ser exercitada cotidianamente nos tempos de deslocamento, nos transportes e salas de espera.

O espiritualismo da cultura indiana se ancora na matéria, vista como manifestação ou corporificação do espírito. Os fundamentos materiais dessa espiritualidade foram testados em milênios de história e deu-se muita atenção a atos elementares. Para a tradição indiana, o próprio universo é criado e extinto de acordo com o ritmo da respiração de Brahma, que, ao expirar ou inspirar, regula os ritmos universais.

Há varias formas de se respirar, cada qual com seus efeitos sobre o corpo, sobre a mente e as emoções. O exercício de ritmar a respiração voluntariamente induz ao equilíbrio físico-emocional e aumenta a capacidade de percepção sensorial e mental.

A boa respiração reduz estresse, hipertensão, depressão, relaxa, ajuda a emagrecer. Leva a um maior equilíbrio, bem-estar, flexibilidade, saúde. O estado de tranquilidade e de boa irrigação sanguínea que produz pode ser considerado uma preparação para níveis de desenvolvimento espiritual mais elevados, em que há mais percepção, mais consciência, mais harmonia na movimentação corporal e nos relacionamentos, mais segurança nas ações cotidianas, entre outras virtudes e habilidades. A maior ventilação proporcionada por uma respiração profunda pode alterar o estado corporal e de consciência. Nesse ponto, é oportuno realçar a importância da sobriedade e advertir contra abusos em exercícios respiratórios, e contra práticas como a retenção da respiração e outras manipulações perigosas para a saúde física e cerebral.

Cada atividade humana e estado de saúde se associa a uma forma de respiração. Um músico que toca um instrumento de sopro, como uma flauta, precisa ter fôlego e um controle preciso da respiração e do ar; atletas, nadadores, aqueles que desenvolvem trabalhos físicos, têm atividade respiratória e trocas de oxigênio e carbono mais intensas do que quem vive sedentariamente; a insuficiência respiratória de doentes exige aparelhos para ser compensada com a respiração artificial.

Durante a vida desaprendemos a respirar corretamente. Desenvolver a ciência e a arte de respirar faz parte de uma cultura respiratória fundamental e quase esquecida, pois toma-se esse ato apenas como um dado natural, sem refletir ou compreender sua real importância e suas variações.

Na sociedade contemporânea, além de aprender a ser, a conviver, a conhecer e a fazer, a educação corporal ou física inclui aprender a respirar, aprender a alimentar-se e a se movimentar. A educação do corpo é um fundamento básico para a educação do ser. Isso significa que a reeducação respiratória é tão importante quanto a educação dos sentidos, a tomada de consciência sobre a cultura alimentar e outras formas de educação essenciais para a vida individual e coletiva.

A civilização indiana foi a que mais se aprofundou nessas ciências e artes e que as comunicou de forma compreensível, construindo um patrimônio intangível que vem sendo revalorizado devido aos benefícios práticos que proporciona.

A pessoas de minha relação que se entediam quando não têm nada para fazer, costumo dizer:

“Respirem...”

Procuro assim valorizar esse ato vital, básico, fundamental para a vida.

Mas admito que esse fato desperta admiração ou curiosidade, especialmente entre aqueles que ainda não tomaram consciência da respiração como um ato cultural.


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Maurício Andrés Ribeiro é autor de “Ecologizar” e de “Tesouros da Índia”. Contatos:  mandrib@uol.com.br .  Visite o website  www.ecologizar.com.br .

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