8 de maio de 2016

A AÇÃO HUMANITÁRIA EFICAZ

Com Discernimento, a
Boa Intenção Produz Bons Frutos

The Theosophical Movement






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Nota Editorial:

O valor do artigo “A Ação Humanitária
Eficaz”   vai além do chamado movimento
teosófico ou esotérico.  Seu enfoque é útil  
para qualquer pessoa ou grupo de pessoas
que, ao olhar para a atual situação humana,
tenha vontade de ajudar de algum modo. 

Anônimo, o artigo a seguir é traduzido da revista
mensal internacional “The Theosophical Movement”,
de Mumbai, Índia, onde  foi publicado sob o título de
“True Service of Humanity”, na edição de dezembro de 2006.   

(C.C.A.)

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Há um item na Declaração da Loja Unida de Teosofistas que  afirma o seguinte:

“Ela vê como teosofistas todos os que estão engajados no verdadeiro serviço pela Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, condição pessoal ou organização.”

Que tarefas, entre as que podemos realizar em benefício dos outros,   devem ser consideradas como “verdadeiro serviço altruísta”? 

Um dos critérios do “verdadeiro” serviço altruísta é mencionado no próprio item citado acima como  aquele que é feito sem distinções de raça, credo e fatores  semelhantes.  Há também outros princípios muito vitais, que devemos levar em consideração e colocar em prática, se quisermos que os nossos esforços pelo bem dos outros sejam realmente benéficos.

Os trabalhos filantrópicos que são realizados seletivamente, com a meta de beneficiar os que pertencem à nossa própria seita, credo ou comunidade,  são um fenômeno bastante comum.  Em tais casos as idéias e as motivações do filantropo, sendo estreitas e egoístas, podem anular o bem que ele busca fazer, resultando em prejuízo geral, porque a ação egoísta – seja de um indivíduo ou de uma comunidade, ou mesmo de uma nação – só pode ser injusta, neste universo feito essencialmente de unidade e de absoluta justiça.

Os esforços de natureza humanitária, ou  as doações feitas para uma causa  ou para indivíduos e organizações com a motivação de obter mérito religioso, ou com o objetivo de obter prestígio público, recompensas e reconhecimento,  contaminam o benefício que flui dele por causa do seu desejo impuro e reduzem o seu valor e sua eficácia. Para que as obras solidárias sejam benéficas, elas devem estar livres da mancha da intenção egoísta, e não devem ser motivadas por um impulso apenas emocional, mas necessitam ser inegoístas e guiadas pela sabedoria.  Muitos filantropos sinceros e dedicados compreenderam esta verdade graças a uma longa experiência própria.  Não são poucos os que estiveram engajados durante anos a fio em esforços por levar alívio a indivíduos, ou mesmo a setores da sociedade que vivem em condições moral e fisicamente  sub-humanas, e confessaram que muitos a quem eles levaram ajuda bem intencionada não tiraram proveito.  A ajuda e o alívio dados estimularam  em alguns a ingratidão, e, em outros,  vícios latentes, como se a situação miserável em que estavam, e que os mantinha com um baixo nível de atividade, fosse o melhor para eles. Não é uma experiência incomum, entre trabalhadores de ações filantrópicas, ver que os beneficiários da  sua ação  não podem ser ajudados, e parecem gostar das próprias condições de vício e miséria dos quais se busca libertá-los.

Os verdadeiros benfeitores da humanidade nos dizem que a mera mudança das condições externas de miséria e pobreza não produz qualquer bem durável, porque estas são apenas manifestações externas do estado mental e  do caráter interior  das pessoas, que deveriam ser bem compreendidos e levados em conta. Isso torna necessário, de um lado, um conhecimento profundo do que o homem é na verdade,  e uma percepção espiritual da herança Cármica daqueles que buscamos ajudar, e das necessidades das suas almas; e, de outro lado,  pureza de motivações, inteligência e sabedoria da parte do filantropo.  

Portanto,  para fazer boas obras que produzam real benefício a todos é necessário ter conhecimento espiritual.  Apenas boa intenção não será suficiente. Um velho ditado diz que o caminho do inferno está frequentemente pavimentado com boas intenções.  A motivação pura deve andar  junto com  a sabedoria, para que as tarefas que empreendemos produzam benefícios reais e duradouros. O conhecimento, a sabedoria e a pureza de motivação são fatores vitais, sem os quais as doações que podemos fazer, a caridade que podemos praticar, e a ajuda ou serviço que podemos prestar frequentemente resultam mais nocivas do que benéficas, como é claramente colocado no décimo-sétimo capítulo do “Bhagavad-Gita”, livro que é uma obra-prima da psicologia espiritual:

“Aquelas doações que são feitas para a pessoa certa na ocasião certa, e por homens que não desejam recompensa, são da qualidade sattwa, são boas, e têm a natureza da verdade.”

A pureza de motivações resulta do conhecimento espiritual, e graças a ela sabemos a quem devemos ajudar, quando e  como fazer isso,  e quem deve ser deixado na  situação em que está devido, ao fato de que esta  situação é  o seu melhor mestre. Porque a vida é uma escola, e as experiências de vida que vêm para nós como efeitos cármicos de nossas ações no passado têm lições implícitas para nosso aprendizado e nosso progresso.

“Mas aquela doação que é feita com a expectativa de um retorno  por parte do beneficiado,  ou com vistas a um ganho espiritual que resulte da boa ação,  ou com hesitação, tem a qualidade Rajas, é ruim e compartilha do que não é verdadeiro.  Doações feitas em lugar e tempo inadequados e para pessoas que não as merecem, ou sem a devida atenção e com desdém, são da qualidade Tamas, são inteiramente ruins e têm a natureza da escuridão.” (Bhagavad Gita, cap. XVII)

A atitude mental, a intenção e a pureza interior de uma pessoa têm um poderoso efeito, para o bem ou para o mal, em tudo o que a pessoa faz.  Quando há um desejo egoísta por recompensa ou reconhecimento, quando há  a expectativa de um benefício a ser obtido de quem recebe a doação  ou quando o aparente bem é feito com relutância, indiferença e  desatenção, mesmo que isso  seja inconsciente para o benfeitor,  o resultado é grande prejuízo para o beneficiário e para o benfeitor, e também para a sociedade em geral.

Sábia é aquela pessoa que não entra impulsivamente em obras de caridade, para não causar prejuízo maior que os males que pretende eliminar, mas que se esforça para adquirir o conhecimento correto, e para preparar-se “através do estudo e de outros modos,  para ser  mais capaz de  ajudar e ensinar outras pessoas” [1] . Isto não significa que nós devemos esperar até que tenhamos conhecimento espiritual para participar de boas obras. Não é possível fazer qualquer progresso espiritual sem trabalho altruísta em função de outros seres.  Apenas estudo e contemplação seriam fúteis, sem que se tivesse uma vida de altruísmo.  O livro devocional “A Voz do Silêncio” ensina: “Viver para beneficiar a humanidade é o primeiro passo. Praticar as seis virtudes gloriosas é o segundo.”

À medida que o indivíduo aprende as Verdades Eternas da vida e adquire  uma convicção mais profunda a respeito da natureza verdadeira do Eu Superior e da Fraternidade Universal, ele começa a ver com clareza cada vez maior que o único caminho para a felicidade e o progresso humanos passa pela iluminação espiritual da humanidade.  Ele é  tomado por um desejo de que este conhecimento da alma chegue a tantas pessoas quanto for possível, e começa, ainda que imperfeitamente, o seu primeiro esforço de amor em benefício da humanidade.

“Porque é um desejo puro, este que surge nele; ele não pode obter crédito, nem glória, nem recompensa pessoal por realizá-lo. E assim ele obtém o poder de realizá-lo.” (“Light on the Path” – “Luz no Caminho” – p. 68 da edição da Theosophy Company, Los Angeles).

O desejo puro é aquele que está livre de motivações pessoais, que surge de uma visão da unidade universal e do desenvolvimento de uma perspectiva universal através de longo estudo, de reflexão e de assimilação da ciência do progresso e perfeição humanos, tal como descritos em Teosofia. De modo natural e espontâneo, a pessoa traz esta perspectiva universal para cada pensamento e ação, com a motivação e a intenção iluminadas que  visam o benefício universal; e portanto está livre até da mais remota expectativa de recompensa ou reconhecimento.  Na escala de valores da sua vida, o bem dos outros vem antes do seu próprio bem pessoal.  Quando a mente e o coração estão livres de motivações pessoais para agir,  um fluxo interior de poder e de luz energiza o indivíduo,  queimando gradualmente as impurezas dos seus erros passados e transformando a sua natureza em uma força espiritual dinâmica que regenera seus semelhantes.  Pouco a pouco, ele passa a ser uma força benéfica no mundo.  Seu coração e sua mente gradualmente sintonizam com a Mente e o Coração maiores de toda a humanidade.  O Ser supremo é visto e reconhecido como algo que está presente tanto nele mesmo como nos outros, e também tudo está presente no Ser supremo. Ajudar os outros até esta grande meta, na qual está a única grande panacéia para os males do mundo, torna-se o objetivo principal da sua vida. Preocupações com o ser individual e os seus interesses são transmutadas em amor impessoal por todos os seres.  O bem do mundo – Loka sangraha – torna-se o princípio diretor de todas as suas ações.

“Ao ajudar o desenvolvimento dos outros, o teosofista acredita que não está apenas ajudando-os a cumprir o Carma que é deles,  mas que também está, no sentido mais estrito, cumprindo o seu próprio Carma como  indivíduo. O que ele tem sempre em vista  é o desenvolvimento da humanidade,  do qual tanto ele como os outros são partes integrantes. E ele sabe que qualquer fracasso da sua parte em responder ao que há de mais elevado em si causa um atraso não só para  si mesmo, mas para todos, no avanço evolutivo. Por suas ações, ele pode tornar mais difícil ou mais fácil, para a humanidade, alcançar o próximo nível, mais elevado, de existência. (“A Chave Para a Teosofia”, H. P. Blavatsky, capítulo 12; página 234  na edição da Theosophy Co., India.)

Deste modo, é através do cumprimento correto dos deveres da vida, como um Sacrifício (Yajna) oferecido ao Eu Superior, o Eu de Todos, que o verdadeiro devoto ingressa no caminho do serviço mais elevado a seus semelhantes e a todos os seres, o caminho que produz harmonia, iluminação e progresso espiritual para todos.  À luz do conhecimento espiritual que surge em nós através da devoção pelo Ser de todos os seres e do cumprimento do nosso dever,  começamos a identificar cada vez mais claramente as maneiras, as motivações e os métodos de serviço altruísta que produzem o maior bem para todos.

“Nós  acreditamos na  tarefa de aliviar a fome da alma, tanto quanto, se não mais do que a fome do estômago”,  escreveu H.P.Blavatsky.   Os sofrimentos e as dores do homem surgem de pensamentos e ações baseados em idéias equivocadas da vida, porque ele tem que colher o que plantou.  O homem sábio, portanto, ao mesmo tempo que alivia a aflição dos outros, sempre que as condições o permitem, também os ajuda, até onde é possível, a alcançar uma perspectiva mais elevada da vida; a obter uma base mais verdadeira de pensamento e ação e uma compreensão da sua responsabilidade e do seu dever em relação aos seus semelhantes.  Portanto, o estudante que aspira a um verdadeiro serviço altruísta pela humanidade estará sempre esforçando-se  para preparar-se, através do estudo, da exemplificação e do serviço, para ser mais capaz de ajudar e ensinar outras pessoas;  e colocando em prática, todo o tempo, as idéias teosóficas de compaixão, ensinadas e exemplificadas pelos grandes professores e benfeitores da humanidade:

“Aja individualmente e não coletivamente; siga os preceitos do Budismo do Norte: ‘Nunca ponha comida na boca de um faminto através das mãos de outra pessoa’;  ‘Nunca deixe que a sombra do teu próximo (uma terceira pessoa) se coloque entre você e o objeto da sua generosidade’; ‘Nunca dê tempo para que o sol seque uma lágrima antes que você o faça’.  E também, ‘Nunca dê dinheiro aos necessitados, ou comida para o sacerdote que a pede à sua porta, através dos seus empregados, para que o seu dinheiro não diminua a gratidão, e sua comida não se transforme em bílis.’  (“A Chave Para a Teosofia”, H.P.B., capítulo 12, pp. 241-242 da edição da Theosophy Company, Índia)

As idéias teosóficas sobre caridade significam um esforço pessoal pelos outros; uma compaixão e amabilidade pessoais; um interesse pessoal no bem-estar dos que sofrem; uma simpatia, uma previsão e uma assistência pessoais em seus problemas ou necessidades.  Nós, teosofistas, não acreditamos em dar dinheiro ... através das mãos de outras pessoas ou organizações. Acreditamos em dar ao dinheiro mil vezes mais poder e eficácia através do nosso contato pessoal e nossa simpatia com aqueles que o necessitam... porque a gratidão faz mais bem à pessoa que a sente, do que à pessoa por quem ela é sentida.” (Ibid., p. 242 da edição indiana da Theosophy Co.)

NOTA:

[1] Estas palavras entre aspas constam da frase final da Declaração da LUT, que pode ser encontrada em nossos websites. (CCA)

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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