8 de Abril de 2012

CONVERSANDO COM JESUS

O Mestre da Palestina Ensinou a
Sabedoria Eterna, Mas Não Fundou Igrejas


Carlos Cardoso Aveline


O artigo a seguir foi produzido de acordo com a
mesma técnica usada no livro "Conversas na Biblioteca"



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O texto a seguir é um diálogo meditativo
com os ensinamentos atribuídos a Jesus Cristo.
Para ler mais diálogos reflexivos com grandes 
textos e pensadores de todos os tempos, veja a 
obra “Conversas na Biblioteca - um diálogo de
25 séculos”, de Carlos Cardoso Aveline (Ed. Edifurb, 
Blumenau, 2007, 170 pp. , www.furb.br/editora ).  

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“Vocês são meus amigos, se praticam o que recomendo”
( Jesus, em João, 15: 14 )

 
O Jesus Cristo das escrituras cristãs clássicas é um modelo e uma imagem do ideal de perfeição humana, mas seu ensinamento traz tanta inspiração quanto perigo.   

Para a filosofia esotérica, a vida de Jesus tal como narrada pelos evangelhos é simbólica e não literal.  Ela traz lições práticas para o estudante. Ela o coloca diante do desafio de viver uma sabedoria que é revolucionária, porque visa derrubar as estruturas milenares do egoísmo e da ignorância.   

A opção pela fé cega é mais cômoda do que o aprendizado verdadeiro.  A crença não exige que você pense ou mude seu modo de viver. O apego à rotina abre caminho para a preguiça mental.  

Difícil, mas valioso, é seguir o exemplo prático do Mestre do cristianismo. O caminho espiritual é incômodo e arriscado. O próprio Jesus foi tratado como um perigoso herege revolucionário e perseguido até à morte pelos cidadãos e sacerdotes do seu tempo.  A sua adoção séculos depois como Mestre simbólico de uma Igreja centralizadora e imperial é algo que contrasta profundamente com o seu ensinamento autêntico.  Jesus recomendou a pobreza externa, e propôs uma riqueza interior que decorre naturalmente da simplicidade voluntária diante do mundo.  Jesus não fundou igreja ou burocracia sacerdotal. Longe disso, ele questionou frontalmente as tentativas humanas de institucionalizar a sabedoria divina.  

Refletindo com calma sobre essas questões, o estudante percebe que sua consciência se expande e se aprofunda.  

A seguir, o breve registro ― bibliograficamente documentado ― de um diálogo com a sabedoria presente no Novo Testamento e na biblioteca gnóstica de Nag Hammadi.  

1) Senhor, muita gente fala de “seguir a Jesus” como se fosse algo fácil. A “crença em Jesus” é vista por muitos até como um instrumento para obter dinheiro, fama e poder pessoal. Fantasias e distorções à parte, quais são as condições verdadeiramente necessárias para segui-lo como Mestre?  

R: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la. De fato, que benefício terá o homem, se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida? (...)  O Filho do Homem há de vir na glória do seu Pai, com seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com  o seu comportamento.  

2) Sim. E, esotericamente,  entende-se que esta retribuição cármica ocorre ao final de cada encarnação. O que se planta, se colhe: nada mais justo. Por outro lado, os místicos cristãos de todos os tempos têm sentido que você, Jesus  mais que um Mestre que viveu algum dia  é uma presença dinâmica, impessoal,  sutil e sagrada no coração de cada ser humano. E muitos admitem que outras religiões possam dar nomes diferentes a essa mesma presença transcendente. Assim, quando um místico segue a Jesus, ou Buddha, ele segue o que há de mais elevado em seu próprio coração. A filosofia esotérica vai além. Ela afirma que a idéia de “Jesus”, nas escrituras cristãs, simboliza aquele nível de consciência, dentro do coração humano, que é feito de amor impessoal e compaixão universal. Este é o princípio da alma espiritual e imortal. Acima dele há a figura do Pai do Céu, que simboliza Atma, a Mônada, o princípio supremo, universal, indescritível, presente dentro da consciência de cada um... 

R: A Mônada é uma monarquia que não tem nada acima de si.  É aquilo que existe como Pai de tudo, é o Invisível que está acima de todas as coisas, que existe como pureza, que é pura luz, e que olho algum pode ver. É o [Espírito] invisível do qual não se deve pensar que seja um deus ou algo similar. Porque é mais que um deus, porque não há senhores acima [deste ser].  (....) Não se pode usar palavras para descrevê-lo, porque [não há nada anterior a ele] ou que seja capaz de dar-lhe um nome. É [a luz imensurável] que é pura, santa e imaculada. Ele é inefável  [e perfeito na sua] incorruptibilidade.  Não está na perfeição, nem na bem-aventurança,  nem na divindade, mas é muito superior.  Não é corpóreo [nem] incorpóreo. Não é grande [nem] pequeno. [Não há] maneira de dizer “Qual é a sua quantidade?”, nem, “Qual é a sua qualidade?”, porque ninguém pode [conhecê-lo].

3) Como pode dar-se, na prática, o contato com este Pai impessoal, Atma, a Mônada,  do qual nada pode  ser dito com eficácia e exatidão? Os rituais externos e as demonstrações públicas de fé  têm alguma utilidade?   

R: Quando você orar, não seja como os hipócritas, porque eles gostam de fazer oração pondo-se de pé nos templos e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos homens. Na verdade eu digo, já receberam sua recompensa.  Mas você, quando orar, entre no seu quarto e, fechando a porta, ore ao seu Pai ocultamente; e o seu Pai, que vê o que está oculto, recompensará você. Nas suas orações, não use de vãs repetições, como fazem os gentios, porque pensam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não seja como eles, porque o seu Pai sabe do que você tem necessidade antes de você pedir.

4)Como podemos então conhecer o Reino dos Céus, isto é, aquele nível de consciência em que ocorrem a graça e a  libertação espiritual? Basta acreditar em você, Mestre, ou é também preciso agir?  

R: Nem todo aquele que diz “Senhor, Senhor” entrará no Reino dos Céus, mas, sim, aquele que pratica a vontade do pai que está nos Céus.  

5)Se o caminho espiritual é uma questão de prática, e não apenas  de palavras, qual é a sua proposta ética para as ações humanas?  

R: Tudo aquilo que você quiser que os homens façam a você, faça você mesmo a eles, porque essa é a lei e isso é o que ensinam os profetas.  

6)Estamos vivendo uma crise das estruturas culturais da nossa civilização. Velhos mecanismos psicológicos, sociais e religiosos  estão em franca decadência. Não será  preciso abrir novos  espaços e criar maneiras diferentes de funcionar, para que a civilização se recupere? 

R: Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgo torna-se maior. Nem se põe vinho novo em odres velhos; caso contrário, os odres estouram, o vinho se entorna e os odres ficam inutilizados. Antes, o vinho novo se põe em odres novos; assim, ambos se conservam.  

7) A filosofia esotérica de H. P. Blavatsky considera que o senhor ensinou sobre a reencarnação, e que esta é apenas uma das lições pitagóricas presentes nas escrituras cristãs. Mas de que maneira ocorre, de fato, a ressurreição ou reencarnação de cada ser humano? E de que modo ocorre também a reencarnação dos outros seres, segundo o seu ensinamento e nas palavras do seu apóstolo Paulo? 

R: O que você semeia não readquire vida a não ser que morra. E o que você semeia não é o corpo da futura planta que deve nascer, mas um simples grão, de trigo ou de qualquer outra espécie. A seguir, Deus lhe dá corpo como quer; a cada uma das sementes ele dá o corpo que lhe é próprio. Nenhuma carne é igual às outras, mas uma é a carne dos homens, outra a carne dos quadrúpedes, outra a dos pássaros, outra a dos peixes.  Há corpos celestes e há corpos terrestres. São, porém, diferentes o brilho dos celestes e o brilho dos terrestres. Um é o brilho do sol, outro o brilho da lua, e outro o brilho das estrelas.  E até de estrela para estrela há diferença de brilho. O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos. 
 
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Nota Bibliográfica:  

A fonte da resposta à primeira pergunta está no Novo Testamento e é Mt. 16:24-27. 

A fonte da resposta à pergunta  dois é o Evangelho Apócrifo de João, que faz parte da Biblioteca de Nag  Hammadi, e foi traduzida de  “The Nag Hammadi Library”, revised edition, James M. Robinson (editor geral), HarperSanFrancisco, New York, EUA, 1990, 550 pp., ver p. 106.   

As fontes das respostas três a seis estão no Novo Testamento e são as seguintes, respectivamente:  (3)Mt. 6: 5-8; (4) Mt 7: 21; (5) Mt 7:12; (6) Mt 9: 16-17.  

A resposta à sétima pergunta está em 1 Coríntios 15: 36-42.  

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